Igor estava de pé junto à mesa da cozinha, girando o telefone entre os dedos.
Tânia estava sentada à sua frente, apoiando a bochecha na mão, e olhava para ele sem expressão.

Quatro anos.
Durante quatro anos, ela esperou que um dia ele dissesse algo importante, e enfim esse dia chegou.
— Vou embora para ficar com outra — disse Igor.
Ele disse isso como se estivesse anunciando que havia se matriculado na academia.
A voz era firme, o olhar um pouco desviado para o lado, em direção à geladeira.
Tânia ficou em silêncio.
Não por dor, apenas calculava mentalmente quantos cômodos seriam suficientes para ela agora e se ela realmente precisava daquele sofá.
— Você ouviu? — perguntou ele.
— Ouvi.
— E é só isso?
— O que você esperava?
Que eu caísse no chão?
Igor piscou.
Pelo visto, era exatamente isso que ele esperava.
Ou lágrimas.
Ou pelo menos a pergunta: “Quem é ela?”
Mas Tânia não pretendia dar a ele nenhum desses prazeres.
— Achei que você fosse querer conversar — disse ele.
— Você acabou de me dizer tudo.
Sobre o que há para conversar?
— Sobre o apartamento.
Sobre as coisas.
Nós vivemos juntos por quatro anos.
— O apartamento é da minha avó — respondeu Tânia calmamente.
Você sabia disso quando se mudou para cá.
Você sabia disso quando nos casamos.
Igor desviou o olhar.
Tânia percebeu como ele passou o polegar pela tela do telefone, um gesto habitual quando se sentia constrangido.
Ela havia aprendido há muito tempo a ler esses gestos.
Agora eles já não lhe serviam para nada.
— Não estou pedindo o apartamento — disse ele.
Não sou idiota.
— Ótimo.
— Mas os móveis.
Os móveis são meus.
Tânia olhou para ele com atenção.
Ele não estava brincando.
Seu rosto estava sério, até um pouco solene, como o de alguém que preparou um discurso por muito tempo e finalmente o disse em voz alta.
— De quais móveis você está falando? — perguntou ela.
— Dos que eu comprei.
O guarda-roupa de portas de correr.
Os armários da cozinha.
A cômoda.
As poltronas.
A mesa de centro.
O sofá.
Ele contava nos dedos, e Tânia de repente pensou que ele havia ensaiado.
Não aquela conversa, mas exatamente aquela lista.
Os dedos vinham um após o outro, sem hesitação.
Seis pontos.
Decorados de memória.
— Você se lembra de que eu pedi para você não comprar nada? — disse ela baixinho.
— Isso não importa.
— Eu pedi.
Os móveis da minha avó eram bons.
Sólidos.
Tinham vinte anos e estavam firmes.
— Eram velhos.
— Estavam inteiros.
Igor deu de ombros.
Era o segundo gesto, irritação.
Tânia também o conhecia.
Mas agora ele não provocava nada nela.
Nem ansiedade, nem vontade de suavizar a situação.
Vazio.
— Você tirou os móveis da minha avó e comprou os seus — continuou Tânia.
Eu não pedi isso.
Eu pedi o contrário.
Você não escutou.
— Eu queria que vivêssemos normalmente.
— Nós vivíamos normalmente.
— Em um apartamento alheio, com móveis alheios?
— No meu apartamento — corrigiu Tânia.
Com os móveis da minha avó.
A única coisa alheia aqui era a sua decisão de mudar tudo.
Igor foi embora à noite, levando a bolsa de esporte.
Não levou mais nada.
Tânia fechou a porta atrás dele e caminhou pelo apartamento.
O guarda-roupa de portas de correr era polido, escuro, com uma porta espelhada.
Os armários da cozinha eram bege, com gavetas de fechamento suave.
A cômoda ficava perto da entrada.
Duas poltronas na sala.
A mesa de centro com tampo de vidro.
E o sofá.
Grande, cinza, de canto, onde eles não conversavam à noite.
O telefone tocou uma hora depois.
— Tânia, oi.
— Oi, Marina.
— Como você está?
— Normal.
Igor foi embora.
— De vez?
— Para outra.
Houve uma pausa.
Tânia ouvia ao fundo o zumbido suave da máquina de lavar e alguém, provavelmente o marido de Marina, dizendo ao cachorro: “Não mexe.”
— Quer que eu vá aí? — perguntou Marina.
— Não precisa.
Você acabou de dar à luz.
— Foi há duas semanas.
Eu já ando.
Até corro, atrás de leite.
— Estou falando sério.
Está tudo bem.
O apartamento é meu, ele sabe disso.
— E o que ele quer?
— Os móveis.
— Que móveis?
— Os que ele mesmo comprou.
Os armários, a cômoda, as poltronas, a mesinha.
O sofá.
— Espera.
Ele te traiu, está indo embora e ainda quer que você pague pelos móveis?
— Exatamente.
— Tânia…
— Eu não estou chateada.
Estou pensando.
— Em quê?
— Se eu preciso desse sofá.
Marina ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse:
— Eu, Kóstia e Druzok moramos num quarto na casa da minha tia.
Dezoito metros quadrados.
O carrinho do bebê fica de lado no corredor, senão não dá para passar.
Temos uma cadeira para dois e uma cama onde dormimos em três, se contar o cachorro.
E sabe de uma coisa?
Nunca tivemos uma única conversa sobre o que pertence a quem.
Porque nós vivemos, não dividimos.
— Eu sei.
— Esse sofá é só uma coisa.
Decida rápido e não olhe para trás.
— Vou decidir.
Tânia desligou e se sentou no sofá.
Estofado cinza, almofadas macias.
Confortável.
Bonito.
Desnecessário.
Ela pegou o telefone e abriu os contatos.
Rolou até a letra “A”.
Alina, irmã de Igor.
Elas nunca tinham sido amigas.
Mas Alina sempre falava de forma direta, e Tânia valorizava isso.
Ela apertou o botão de chamada.
— Alina, olá.
É a Tânia.
— Eu sei.
Ele me ligou.
— Então você está por dentro.
— Estou.
Como você está?
— Tranquila.
Preciso entender uma coisa.
— Pergunte.
— Ele quer mesmo dinheiro pelos móveis?
— Sim.
Ontem ele conversou com Ruslan, e ele colocou essa ideia na cabeça dele.
Ruslan é nosso grande especialista em carteiras alheias.
— Ruslan é amigo dele?
— Amigo.
Ele trabalha numa loja de móveis.
Foi ele que ajudou a escolher tudo isso.
O guarda-roupa, a cômoda, o sofá.
Tudo passou por ele, com um bom desconto.
Mas desconto não significa de graça.
— Alina, eu não preciso desses móveis.
Eu não pedi por eles.
— Eu sei.
Ele me contou que você resistiu.
Na época, eu já pensei: por que ele está fazendo isso?
— E a que conclusão você chegou?
Alina ficou em silêncio por um momento.
— Na nossa família existe uma… particularidade.
Meu ex-marido era do mesmo tipo.
Pega sem perguntar.
Decide pelos dois.
E depois apresenta a conta, não necessariamente em rublos, às vezes em acusações, às vezes em culpa.
Eu me divorciei.
Meu tio se divorciou.
Minha tia se divorciou.
E agora Igor.
Há muito tempo deixei de considerar isso uma coincidência.
— Você acha que é uma maldição?
— Acho que é um hábito.
É transmitido como um sotaque.
Você não percebe até que alguém de fora aponte.
— Alina, eu não vou pagar.
— Certo.
— Mas preciso de um conselho.
Devo entregar esses móveis a ele ou ficar com eles?
— Tânia, escute.
Legalmente, ele não vai conseguir exigir nada de você.
Os móveis estão no seu apartamento e foram comprados durante o casamento.
Mas ele vai pressionar.
Vai ligar.
Vai reclamar.
Para mim, para a mãe dele, para conhecidos em comum.
Ele vai dizer que você ficou com as coisas dele.
— Então preciso me livrar delas.
— Rápido.
De manhã, Igor ligou.
A voz era diferente, confiante, insistente.
Pelo visto, ele passou a noite na casa daquela outra, dormiu bem e recuperou as forças.
— Tânia, quero pegar os móveis.
— Pegue.
— O quê?
— Pegue.
Foi o que eu disse.
Houve uma pausa.
Ele não esperava isso.
— Pensei que você fosse negociar.
— Sobre o quê?
Os móveis são seus, pegue.
— Preciso de tempo.
Preciso organizar o transporte.
Ruslan prometeu ajudar, mas está ocupado até o fim da semana.
— Você tem até as cinco da tarde.
— O quê?
Tânia, isso é impossível.
É um guarda-roupa de portas de correr, precisa desmontar.
Tem uma cozinha inteira.
— Até as cinco da tarde.
Depois disso, eu mesma resolvo.
— Como você vai resolver?
— Isso já não é problema seu.
Ele começou a dizer alguma coisa, mas Tânia encerrou a chamada.
Olhou para o relógio.
Nove da manhã.
Oito horas eram mais que suficientes.
Ela ligou para uma empresa de mudanças.
Combinou rapidamente: dois carregadores, uma van, carregamento e descarregamento.
O endereço de entrega era o prédio onde morava a mãe de Igor, Galina Serguêievna.
Não o apartamento.
A entrada.
A área em frente ao prédio.
Às onze, Marina ligou.
— O que você está fazendo?
— Esperando os carregadores.
— Está falando sério?
— Absolutamente.
— Tânia, você é uma heroína.
— Não.
Eu só não quero que essas coisas fiquem na minha casa nem mais um dia.
— E o sofá?
— Ainda estou pensando.
— Fique com ele.
Por vingança.
— Eu não faço nada por vingança.
Faço por mim.
Ao meio-dia, os carregadores chegaram.
Dois rapazes fortes, práticos e silenciosos.
Tânia mostrou: o guarda-roupa, os armários da cozinha, a cômoda, as poltronas, a mesa de centro.
Eles assentiram e pegaram as ferramentas.
Às duas horas, o apartamento estava vazio.
Só restava o sofá.
— E esse? — perguntou um dos carregadores, apontando para o sofá de canto cinza.
— Esperem lá embaixo.
Preciso de dez minutos.
Tânia se sentou no sofá.
Passou a mão pelo estofado.
Lembrou-se de como Igor o trouxe numa manhã de sábado, satisfeito, vermelho pelo esforço.
Como ele tirava a embalagem e repetia: “Isso sim, isso é uma coisa de verdade.”
Como ela ficou em silêncio no vão da porta e pensava no velho sofá da avó, duro, rangente, mas tão familiar, que já tinham levado para a casa de campo.
O telefone tocou.
Igor.
— Tânia, o que você está fazendo?
— Tirando o que é excesso.
— Que excesso?
Você chamou carregadores?
— Sim.
Os móveis vão ficar na casa da sua mãe.
Na entrada do prédio.
— Você… você está falando sério?
Está descarregando os móveis na rua?
— Estou entregando seus móveis no seu endereço.
Você queria pegar, eu ajudei.
— Eu pedi até o fim da semana!
— E eu dei até as cinco.
Você não ia fazer isso.
— Ruslan só pode no sábado…
— Ruslan é problema seu.
Os móveis também.
Eu fiz a minha parte.
— Você realmente não se importa com nada?
— Eu me importo, sim.
É importante para mim que coisas de uma pessoa estranha não fiquem no meu apartamento.
Ele começou a respirar rápido, de forma curta.
— Você está fazendo isso de propósito.
Para minha mãe ver.
Para os vizinhos verem.
— Igor, eu não penso nos seus vizinhos.
Eu penso em mim.
Você vai embora, então vá.
Mas não deixe suas coisas na minha casa e não exija dinheiro por elas.
— Eu não exigi dinheiro!
Eu pedi…
— Você apresentou uma conta.
Literalmente: “Os móveis custaram quatrocentos mil, vamos resolver isso de forma justa.”
Essas foram suas palavras.
— Foi Ruslan que disse que era o certo.
— Ruslan não é sua esposa nem sua consciência.
E “certo” não é comprar algo que ninguém pediu e depois exigir reembolso.
— Eu me esforcei por nós!
— Você se esforçou por si mesmo.
Eu pedi para não comprar.
Você não ouviu.
Durante quatro anos, você não ouviu.
Ele ficou em silêncio.
Tânia esperou.
Não por crueldade, mas por hábito.
Ela sempre lhe dava tempo para pensar.
Mas agora esse tempo era o último.
— Vai levar o sofá também? — perguntou ele finalmente.
— Estou pensando.
— Deixe pelo menos o sofá.
Você não vai ter nem onde se sentar.
— Minha avó tem uma cama dobrável no depósito.
Para mim basta.
Às quatro da tarde, a sogra ligou.
A voz era seca, uniforme.
Tânia conhecia aquele tom, a mãe de Igor sempre falava assim quando estava insatisfeita, mas considerava gritar abaixo de sua dignidade.
— Tatiana, há móveis na entrada do meu prédio.
— Boa tarde, Galina Serguêievna.
Sim, são os móveis do seu filho.
— Você entende como isso parece?
— Parece móveis na entrada de um prédio.
Seu filho queria pegá-los, eu os entreguei.
— Você poderia ter ligado e avisado.
— Poderia.
Mas liguei para o seu filho.
Ele estava ciente.
Para onde exatamente levar era responsabilidade dele.
— Os vizinhos já estão ligando.
Estão perguntando.
— Galina Serguêievna, eu não respondo pelos seus vizinhos.
E não respondo pelas decisões do seu filho.
Ele foi embora, os móveis foram atrás.
— Você poderia ter se comportado de outra forma.
— Poderia.
Mas durante quatro anos eu me comportei de outra forma.
Com paciência, suavidade e esperança.
Chega.
A sogra ficou em silêncio.
Depois disse:
— Igor me contou.
Sobre vocês.
Eu sabia que ele tinha alguém.
Eu disse a ele para fazer tudo direito, sem pressa.
Ele não escutou.
Como sempre.
— A senhora sabia e não me contou?
— Isso não era assunto meu.
— Então os móveis também não são assunto meu.
Estamos quites.
Tânia desligou.
As mãos estavam quentes.
A cabeça, clara.
Nenhuma raiva, nenhuma mágoa.
Apenas uma certeza limpa e afiada: tudo o que era excesso devia ir para fora.
Meia hora depois, Alina ligou.
— Tânia, eu vi a foto.
Meu irmão é um palhaço.
— Alina, eu não queria envolver você.
— Você não me envolveu.
Ele envolveu.
Ele sempre envolve.
Quando eu estava me divorciando, ele me dizia: “A culpa é sua, devia ter aguentado.”
E agora ele mesmo não aguentou nem um ano com o brinquedo novo.
— Ela não é um brinquedo.
É uma pessoa viva.
— Não estou falando daquela mulher.
Estou falando dos móveis.
Ele é sempre assim, compra coisas para se sentir o dono.
Um armário não é um armário.
É a bandeira dele.
Como se dissesse: eu moro aqui, eu decido aqui.
— Eu sei.
— Você foi incrível.
Eu não teria conseguido.
Eu levei dois meses para tomar coragem de ir embora, e você resolveu tudo em um dia.
— Não tenho por que prolongar.
Ele disse que ia embora.
Eu disse que a porta estava aberta.
— E o sofá?
— Todo mundo pergunta sobre o sofá.
— Porque essa é a questão principal.
Tânia riu.
Curto, baixo.
— Vou doá-lo.
— Para ele?
— Não.
Para Marina.
Ela tem um quarto de dezoito metros, uma criança e um cachorro.
Ela precisa mais dele.
— Isso é perfeito.
— Isso é justo.
Por volta das seis da tarde, Tânia ligou para Marina.
Ela atendeu imediatamente, com a voz de quem está acostumada a pegar o telefone entre uma mamada e outra.
— Tânia, e então?
— O sofá.
Você quer?
— Que sofá?
— Cinza, de canto, quase novo.
Eu não preciso dele.
Para você vai ser útil.
— Você está brincando.
— Não.
Se disser “sim”, eles levam agora mesmo.
— Tânia, ele é caro.
— Ele não é caro.
É gratuito.
Porque ninguém me deu esse sofá, ele foi comprado sem o meu consentimento.
E aquilo que é comprado sem consentimento não vale nada.
— Kóstia! — gritou Marina para o lado.
Kóstia, tira o carrinho do corredor!
Vão trazer um sofá para nós!
Tânia ouviu uma voz masculina abafada: “Que sofá?”
E o latido do cachorro.
E, por algum motivo, justamente aquele latido, alegre e bobo, pareceu-lhe a resposta mais correta para todas as perguntas dos últimos quatro anos.
À noite, o apartamento estava vazio.
Não morto, exatamente vazio.
Livre.
O aparador da avó, que Tânia havia guardado no depósito, agora estava na cozinha.
Velho, com puxadores gastos.
Em cima dele, uma xícara, um prato, uma colher.
O suficiente.
O telefone tocou por volta das nove.
Ruslan.
Tânia o tinha visto duas vezes em todos os quatro anos, e nas duas ele veio com Igor, falou alto e aconselhou comprar alguma coisa.
— Tatiana, você cometeu um erro.
— Boa noite, Ruslan.
— Os móveis custaram dinheiro sério.
Quatrocentos e doze mil, para ser exato.
Posso levantar os recibos.
— Levante.
Os móveis estão na entrada do prédio de Galina Serguêievna.
Os recibos, entregue ao Igor.
— Você entende que isso está errado?
— Errado é quando uma pessoa compra coisas para o apartamento de outra, sem perguntar à dona.
Errado é ir embora e apresentar uma conta.
Eu apenas devolvi.
Rápido, limpo, sem conversas.
— Igor investiu no seu apartamento.
— No meu apartamento.
Não no dele.
Eu não pedi.
Os móveis da minha avó ficaram aqui por vinte anos e ficariam por mais vinte.
Ele os substituiu porque quis.
Não eu.
Ele.
— Você poderia pelo menos ter discutido.
— Eu discuti.
Quatro anos atrás, quando ele trouxe o primeiro armário.
Eu disse: “Não precisa.”
Ele não ouviu.
Um mês depois veio a cozinha.
Mais dois meses depois, a cômoda.
Eu dizia todas as vezes.
Ele decidia pelos dois todas as vezes.
— Era para a casa…
— Era para o orgulho dele, Ruslan.
E você sabe disso melhor do que eu.
Você escolheu para ele, deu descontos, disse que assim era certo.
E agora liga para mim.
— Estou ligando porque ele está chateado.
— Ele está chateado porque os móveis estão na entrada do prédio da mãe dele?
Ou porque eu não paguei?
— Pelas duas coisas.
— Transmita a ele o seguinte.
O apartamento é da minha avó.
Eu moro nele com a permissão dela.
Os móveis ele comprou sozinho, contra a minha vontade.
Eu devolvi tudo até a última poltrona.
Se quiser, que pegue e coloque na casa da nova mulher dele.
Se não quiser, que jogue fora.
Não tenho nada a devolver a ele, porque ele não me deu nada.
Ele deu a si mesmo.
— Isso é duro.
— Isso é honesto.
— E o sofá?
— O sofá eu dei a uma amiga.
Ela tem um filho, um marido e um cachorro em um quarto só.
Ele será útil para ela.
— Você deu um sofá de cento e vinte mil?
— Eu dei um sofá de que não preciso.
O preço dele é problema de quem o comprou sem perguntar.
Ruslan ficou em silêncio.
Tânia esperou.
Ela não tinha nada a acrescentar.
Tudo já estava em seu lugar: o aparador na cozinha, a cama dobrável no quarto, a xícara sobre a mesa.
Limpo, quieto, correto.
— Vai transmitir ao Igor? — perguntou ela.
— Vou transmitir.
— Obrigada.
E, Ruslan?
— Sim?
— Não me ligue mais.
Você é amigo dele, então seja amigo dele.
E apague meu número.
Ela desligou.
Meia hora depois, chegou uma mensagem de Alina:
“Ele está furioso.
A mãe também.
Os móveis ainda estão na entrada do prédio.
Ninguém consegue combinar com os carregadores porque ninguém quer pagar.
Os vizinhos começaram a tirar fotos.
Ruslan chegou e está parado com uma cara como se tivessem vendido a ele um produto defeituoso.
Tânia, você é um monumento ao bom senso.”
Tânia respondeu: “Obrigada.
Cuide-se.”
Depois desligou o telefone.
Caminhou pelo apartamento vazio.
Os cômodos pareciam enormes, como eram na infância, quando ela vinha visitar a avó nas férias de verão.
Paredes nuas, tetos altos, o som dos passos.
Nada em excesso.
Nada alheio.
Amanhã ela ligaria para o pai e pediria que trouxesse da casa de campo o sofá da avó.
Aquele mesmo, duro, rangente, com o estofado desbotado.
Ele ficou naquele apartamento por quarenta anos.
E ainda ficaria.
Quanto a Igor, ela desejou boa sorte.
Mentalmente, de forma breve, sem continuação.
Boa sorte e adeus.
Porque a única coisa que ela lhe devia era uma porta.
Ela a abriu.
Ele saiu.
Ela a fechou.
A fechadura fez um clique preciso, sem esforço.
Fim.







