— Andrei, queres mais um pouco de salada?
Procurei de propósito aquela carne de porco assada de que gostavas tanto no décimo ano.

Lembras-te de que a comprávamos sempre na mercearia da esquina?
Valentina Petrovna andava de um lado para o outro à volta da mesa como uma noviça num templo.
As suas mãos, cobertas pelas manchas de pigmentação deixadas pelo tempo, tremiam enquanto servia mais comida no prato do filho.
— Mãe, obrigado, está delicioso.
Mas nós não viemos aqui para comer — disse Andrei, afastando o prato depois de mal ter tocado na carne.
— O nosso avião parte amanhã à noite.
Temos pouquíssimo tempo.
Ele estava sentado à velha mesa redonda, que ainda se lembrava dos seus rabiscos dos tempos de escola, e parecia ali um elemento estranho.
Um casaco caro, uma camisa branca demais e a maneira de olhar ligeiramente por cima da pessoa com quem falava.
Ao lado dele estavam sentadas a esposa, mergulhada no telemóvel, e a filha pequena, que espalhava migalhas de bolacha pela toalha.
Nina, sentada em frente, permanecia calada, mexendo com o garfo nas batatas já frias.
Ela via como a mãe bebia cada palavra do irmão e acompanhava todos os seus movimentos, como se ele fosse uma divindade que tivesse descido até aos simples mortais.
— Como vão as coisas?
Correu tudo bem com o contrato? — perguntou timidamente Valentina Petrovna, sentando-se na ponta da cadeira.
— Melhor do que bem.
Estão à nossa espera em Vancouver.
É outro nível, mãe.
Outro dinheiro, outra vida.
— Para sempre? — a voz da mãe tremeu.
— Para quê falar de forma tão definitiva?
Vamos vir visitar-vos.
Uma vez por ano, talvez duas.
Hoje em dia, o mundo está aberto.
Nina não se conteve.
— Sim, claro, está aberto.
Em cinco anos, vieste cá uma única vez.
E mesmo assim só porque precisavas de tratar de documentos.
Andrei lançou à irmã um olhar pesado.
— Nina, não comeces.
Eu tenho uma carreira.
Estou a construir o futuro da minha família.
É difícil para ti compreenderes a dimensão das coisas, sentada nesta cidade.
— Claro, como poderia eu compreender? — bufou Nina.
— Nós aqui alimentamo-nos de pó.
— Parem, por favor! — exclamou Valentina Petrovna, agitando as mãos.
— É um dia tão especial, o Andrei veio!
Netinha, olha, a avó tem um doce.
A menina lançou um olhar indiferente ao doce que lhe era oferecido e virou-se para a mãe.
A esposa de Andrei nem sequer levantou a cabeça.
— Está bem, vamos ao assunto — disse Andrei, tirando uma pasta da mala.
— Mãe, precisamos de dinheiro para o início.
A mudança, a renda, o seguro.
As quantias lá são astronómicas.
Tenho uma proposta.
Valentina Petrovna ouvia o filho, e o seu rosto iluminava-se cada vez mais a cada palavra.
Ele falava dela e explicava que queria receber já a sua parte, para depois não a incomodar com questões de herança.
Falava com suavidade, de forma envolvente e persuasiva.
— Fiz perante um notário uma renúncia à minha parte do apartamento a teu favor, mãe.
Mas preciso de uma compensação.
O valor de mercado, menos um desconto por causa da urgência.
Nina levantou-se de repente e derrubou um copo vazio.
O som do plástico a bater na madeira foi patético, mas suficiente para interromper o discurso monótono do irmão.
— Enlouqueceste?
Onde é que ela vai arranjar tanto dinheiro?
Estamos a falar de milhões!
— Já me informei sobre tudo — continuou Andrei calmamente, sem olhar para a irmã.
— O banco concederá o empréstimo.
A reforma da mãe é boa, e tu serás fiadora.
O apartamento ficará inteiramente para vocês.
Nunca mais vou reclamar nada.
Nunca.
— Queres endividar a mãe na velhice?
Queres que ela viva de pão e água? — Nina levantou a voz, sentindo uma onda quente de indignação ferver dentro dela.
— Nina, acalma-te! — disse Valentina Petrovna com firmeza, olhando severamente para a filha.
— O teu irmão está a fazer uma proposta séria.
Neste momento, ele precisa mais.
Tem família, uma criança e perspetivas.
E nós?
Nós havemos de conseguir.
— Mãe, tu não percebes!
Isto é uma escravidão durante dez anos! — gritou Nina, agarrando a mãe pelos ombros.
— Ele vai embora, mas quem vai pagar?
Tu?
Eu?
O meu salário não estica!
— Não contes o dinheiro dos outros — atirou Andrei friamente.
— Mãe, concordas?
Esta é a tua única oportunidade de me ajudar.
Ou queres que eu perca o contrato?
Valentina Petrovna libertou-se das mãos da filha.
O seu olhar tornou-se firme, quase fanático.
— Claro, meu filho.
Vou assinar tudo.
Vamos lá já amanhã.
— Idiota!
És simplesmente uma idiota! — gritou Nina, incapaz de se controlar.
Ela batia com a palma da mão na mesa com tanta força que as chávenas tilintavam.
— Ele está a usar-te!
Vai tirar-te tudo e depois deitar-te fora!
— Cala a boca! — rugiu Andrei, mostrando pela primeira vez a sua verdadeira face.
— Tu estás apenas com inveja.
Ficas aqui sentada, fracassada, a engasgar-te com a tua própria maldade.
A mãe quer ajudar o filho.
Isso é normal para uma mãe.
Ele inclinou-se e tirou de um saco grande uma enorme caixa forrada a veludo.
Colocou-a solenemente em cima da mesa.
— Aqui está.
É para ti, mãe.
Um conjunto de luxo.
Prateado.
Para oito pessoas.
Para que possam viver bem aqui e comer como gente.
Com lágrimas de gratidão nos olhos, Valentina Petrovna acariciava a tampa de veludo.
Nina olhava para aquela caixa de Pandora e sentia a náusea subir-lhe à garganta.
— Leva os teus garfos — sibilou ela.
— E engasga-te com eles.
— Vou fingir que não ouvi isso — disse Andrei, endireitando-se e ajustando os punhos da camisa.
— Amanhã, às dez horas, junto ao banco, mãe.
Oito anos de silêncio foram mais ensurdecedores do que qualquer grito.
Andrei desapareceu exatamente no momento em que o dinheiro entrou na sua conta.
O seu número ficou indisponível e as contas nas redes sociais foram fechadas.
Durante os primeiros seis meses, Valentina Petrovna corria todos os dias até à caixa do correio.
Esperava um postal, uma carta ou pelo menos alguma notícia de Vancouver.
Depois começou a ir lá cada vez menos.
A caixa com o conjunto de talheres para oito pessoas ocupou um lugar de honra na gaveta inferior do aparador.
A mãe proibia que alguém lhe tocasse.
“É para uma ocasião especial.
Quando o Andrei voltar, vamos pôr a mesa…” — dizia ela, limpando o pó do veludo.
Nina arrastava o peso do empréstimo como um boi.
Teve de aceitar trabalhos extra e renunciar às férias e a roupas novas.
Via a mãe envelhecer e a esperança apagar-se nos seus olhos, dando lugar a uma tristeza surda e dolorosa.
Certa noite, quando um cobrador ligou para lembrar uma prestação em atraso, porque a mãe se esquecera de pagar a sua parte, Nina entrou no quarto de Valentina Petrovna.
A mãe estava deitada no sofá, virada para a parede.
— Temos de conversar — disse Nina com dureza.
— Dói-me a cabeça, minha filha.
— A mim também.
Por causa das dívidas.
Mãe, vamos alterar o testamento.
Vamos chamar agora mesmo um notário a casa.
— Para quê?
O apartamento já ficará para ti e para o Andrei…
— Não! — gritou Nina, arrancando-lhe o cobertor.
— O Andrei não está aqui.
Sou eu que pago o empréstimo.
Tu pagas uma ninharia, e nem sempre.
Se não fizeres imediatamente uma escritura de doação apenas em meu nome, deixo de pagar.
Que o banco fique com o apartamento.
Que nos despejem.
Não me importo.
Valentina Petrovna sentou-se e olhou para a filha com medo.
Nunca tinha visto Nina assim.
Havia gelo nos olhos da filha.
Um frio absoluto, polar.
— Mas o Andrei…
Ele é teu irmão…
— Eu não tenho irmão.
Tu tens um filho ladrão, mas eu não tenho irmão.
Escolhe.
Ou proteges o meu futuro, ou vamos as duas mendigar para a rua.
A mãe começou a chorar em silêncio, resignada.
Mas chamou o notário.
Nina verificou cada letra do documento.
Uma escritura de doação.
O apartamento passava para a filha.
O filho ficava excluído.
Além disso, havia o documento em que Andrei renunciava à sua parte, que ele tinha assinado de forma tão imprudente muitos anos antes, trocando os seus metros quadrados por dinheiro rápido.
Nina guardava esse papel na pasta com os documentos mais importantes.
Valentina Petrovna morreu um mês antes de o empréstimo ser totalmente pago.
Morreu durante o sono, sem nunca ter recebido uma chamada do Canadá.
A caixa de veludo permaneceu fechada.
A cerimónia fúnebre foi modesta.
Nina não convidou ninguém desnecessário.
Depois do funeral, regressou ao apartamento vazio, impregnado do cheiro a medicamentos e velhice.
A primeira coisa que fez foi abrir as janelas de par em par.
Que o vento frio do outono expulsasse dali aquele espírito de submissão e espera cega.
Depois pegou em grandes sacos pretos do lixo.
As roupas da mãe, revistas antigas e inúmeros pequenos frascos de pomada foram parar ao ventre de plástico dos sacos.
Nina trabalhava metodicamente, sem lágrimas.
As lágrimas tinham acabado já no terceiro ano de pagamento do empréstimo.
Abriu a gaveta inferior do aparador.
A caixa estava lá, como um sarcófago.
Pesada, empoeirada e pretensiosa.
Nina levantou a tampa.
Os talheres brilhavam com um reflexo barato.
Garfos com ornamentos exagerados e colheres que pareciam desconfortáveis só de olhar.
“Um conjunto para oito pessoas.”
Para oito pessoas que nunca se tinham sentado àquela mesa.
Lembrou-se de como Andrei falava com entusiasmo sobre o valor daquele presente, enquanto a mãe assinava os documentos do empréstimo que a condenaria.
Lembrou-se de como a mãe protegia aqueles pedaços de metal, enquanto ela própria comia com uma colher de alumínio.
Nina não sentia pena nem nostalgia.
Apenas repulsa.
Agarrou na caixa e atirou-a com toda a força para dentro do maior saco do lixo.
Deitou trapos velhos por cima e apertou o nó com tanta força que os dedos ficaram brancos.
— Pronto, comemos muito bem — disse ela para o vazio do quarto.
À noite, levou os sacos até ao lixo.
O estrondo do “conjunto de luxo” a cair no contentor metálico soou-lhe como a melhor música do mundo.
Projeto “Uma vida num só dia” — Vladimir Leonidovitch Shorokhov | LitRes
A chamada chegou três meses depois.
Nina viu um número estrangeiro desconhecido e percebeu imediatamente quem era.
Carregou em “atender”, ligou o altifalante e pousou o telefone sobre a mesa, enquanto continuava a cortar legumes.
— Estou?
Nina? — a voz de Andrei soava como se ele tivesse saído apenas para comprar pão cinco minutos antes.
— Olá.
Ouve, eu soube…
A mãe morreu?
— Há quanto tempo sabes? — perguntou Nina, enquanto a faca batia ritmicamente na tábua.
— Bem…
Chegaram-me rumores.
Os meus sentimentos.
É pena não me terem avisado.
Eu teria…
Bem, teria estado convosco em pensamento.
— O que queres, Andrei?
— Por que és logo tão rude?
Estou apenas a ligar à minha irmã.
E também tenho uma questão prática.
Estou a planear passar pela Rússia por causa de uns negócios.
Preciso de tratar da herança.
O apartamento está livre agora.
Nina pousou a faca.
— Que herança?
— Como assim, que herança?
A parte da mãe.
Eu entendo que naquela altura renunciei à minha parte, mas a parte da mãe, segundo a lei, é dividida ao meio.
Já me informei sobre tudo e consultei especialistas.
Nós somos família, Nina.
Eu não te vou expulsar.
Vamos simplesmente vender o apartamento e dividir o dinheiro.
Estou a passar por uma fase difícil.
O negócio caiu e cada cêntimo conta.
Nina desatou a rir.
Alto, sinceramente e de forma assustadora.
— Estás a rir? — a voz do irmão ficou tensa.
— O que se passa contigo?
— Andrei, és idiota ou estás apenas a fingir? — Nina limpou as mãos a uma toalha.
— Que herança?
A mãe deixou-me tudo.
O teu nome não aparece na escritura de doação.
Nem uma única vez.
Fez-se silêncio do outro lado da linha.
Era possível ouvi-lo respirar pesadamente.
— Isso é ilegal.
Ela não estava em pleno uso das faculdades mentais.
Vou contestar.
Vou arranjar advogados.
Tu pressionaste-a!
— Pressionei-a? — Nina levantou a voz e aproximou-se do telefone.
— Sim, pressionei-a!
Eu paguei as tuas dívidas, mudei-lhe a roupa de cama e dei-lhe de comer enquanto tu construías a tua “vida bonita”!
Tenho todos os atestados que provam que ela estava em perfeito uso das faculdades mentais e tenho também a gravação em vídeo do notário.
Tenho a tua renúncia notarial à tua parte, assinada há dez anos.
Tenho os extratos bancários que mostram quem pagou o empréstimo.
Experimenta ir a tribunal, e eu vou exigir-te metade dos juros pagos por enriquecimento sem causa.
Queres guerra?
Vem!
Vou destruir-te em tribunal!
Andrei começou a respirar ruidosamente e mudou de tática.
A sua voz tornou-se melosa e queixosa.
— Nina, para quê isso?
Nós somos família.
Está bem, errei e não liguei.
Acontece.
Mas, humanamente…
Não se pode tratar um irmão assim.
Alguma coisa da mãe devia pertencer-me.
Uma lembrança qualquer.
Eu sou filho dela.
Nina sorriu para o seu reflexo na janela escura.
— Uma lembrança?
Claro.
Guardei para ti aquilo que havia de mais precioso.
O teu presente.
— O conjunto? — perguntou Andrei, animando-se de repente.
— Aquele mesmo?
Aquilo vale dinheiro!
É quase uma antiguidade!
Ouve, dá-me pelo menos isso.
Ou vende-o e transfere-me o dinheiro.
Seria justo.
— Está à tua espera, Andrei.
Tive o cuidado de o colocar num local apropriado.
— Onde?
Enviaste-o por encomenda?
— Não.
Coloquei-o exatamente onde merecia estar.
Na lixeira municipal.
Num contentor comum, juntamente com batatas podres e meias rasgadas.
— Tu…
Deitaste-o fora? — perguntou o irmão, com o horror genuíno da ganância na voz.
— Deitei.
Como lixo.
Juntamente com a lembrança de ti.
Se te apressares, talvez os sem-abrigo ainda não o tenham levado.
Os garfos eram prateados, não eram?
— Sua cabra! — gritou Andrei.
— Tu…
Nina carregou no botão para terminar a chamada.
Depois abriu as definições e adicionou o número à lista negra.
O silêncio no apartamento era puro, cristalino e surpreendentemente leve.







