Durante o almoço em família, meu sogro anunciou sua decisão sobre a casa.
Todos esperavam um escândalo.

Mas Lida apenas sorriu e ficou calada, porque sabia de algo que ninguém naquela mesa sabia.
O sogro se levantou da mesa enquanto todos ainda estavam mastigando.
Ergueu a mão, e as conversas cessaram.
Lida pousou o garfo.
Ela sabia que Gennadi Pavlovitch não era do tipo que fazia brindes.
Se ele havia se levantado, era porque se tratava de outra coisa.
— Então é assim — disse ele, percorrendo com os olhos a mesa onde estavam sentadas cerca de doze pessoas.
— Construí esta casa durante quarenta anos.
Com as minhas próprias mãos.
E decidi quem vai ficar com ela.
O silêncio era tão denso que se podia ouvir a compota borbulhando no fogão.
Ao lado de Lida, Kostia ficou tenso.
Ela percebeu isso quando ele moveu a perna debaixo da mesa e tocou o tornozelo dela.
Não foi de propósito.
O corpo dele simplesmente reagiu antes da cabeça.
Do outro lado da mesa estava sentada Zoia, a nora mais velha.
Ela parou de cortar a carne e ficou imóvel com a faca na mão.
Seus lábios se entreabriram, mas nenhum som saiu.
— A casa ficará para Artiom — disse o sogro.
E se sentou.
Artiom era o mais novo.
Tinha vinte e quatro anos, não era casado, não tinha filhos, alugava um quarto em Tver e fazia trabalhos extras em um armazém.
Estava sentado na ponta da mesa, mexendo a salada vinagrete com o garfo, e parecia não ter entendido o que acabara de acontecer.
Zoia pousou a faca.
Devagar, cuidadosamente, paralela ao prato.
— Espere, pai — disse Valeri, marido dela e filho do meio de Gennadi Pavlovitch.
— Há quinze anos nós consertamos este telhado, refizemos a cerca e construímos a sauna.
E a casa vai para Artiom?
Gennadi Pavlovitch olhou para ele como se Valeri tivesse perguntado quanto era dois mais dois.
— Eu já disse.
Lida olhava para o prato.
O hambúrguer de carne esfriava, e o molho começava a endurecer nas bordas.
Ela ergueu os olhos e encontrou o olhar de Zoia.
Zoia a encarava como se esperasse que Lida também começasse a protestar.
Mas Lida sorriu.
Só um pouco, apenas com os lábios.
E voltou a pegar o garfo.
Depois do almoço, todos se espalharam pela casa como as pessoas costumam fazer depois de uma notícia dessas.
Ainda estavam juntos, mas cada um ficou sozinho com os próprios pensamentos.
Zoia lavava a louça com uma expressão como se os pratos fossem pessoalmente culpados pelo que acontecera.
Os pratos batiam na pia.
Valeri fumava na varanda, embora tivesse parado três anos antes.
Kostia estava junto à janela do quarto no segundo andar.
Lida entrou e fechou a porta atrás de si.
— Por que você ficou calada? — perguntou ele, sem se virar.
— O que eu deveria ter dito?
— Não sei.
Zoia vai acabar quebrando toda a louça.
— Que quebre.
A louça é dela.
Ele se virou.
Seu rosto estava confuso, como o de um menino que não havia ganhado presente no Ano-Novo.
— Lida, estamos falando da casa.
Da casa do meu pai.
Viemos para cá todos os verões.
As crianças cresceram aqui.
— As crianças passaram as férias aqui.
Não é a mesma coisa.
Kostia esfregou a ponte do nariz.
Era um hábito que só aparecia quando ele não sabia se devia se irritar ou concordar.
— Artiom não terá dinheiro nem para os reparos.
O salário dele é de apenas trinta mil.
— Isso é problema de Artiom.
— É problema da casa.
A casa vai apodrecer em cinco anos.
Lida se sentou na cama.
As molas rangeram.
Aquela cama já rangia quando eles vinham para lá recém-casados, e ela tinha vergonha de se mexer durante a noite.
— Kostia, escute-me.
Seu pai tomou uma decisão.
Ele tem esse direito.
— Direito ele tem.
Mas e a justiça?
Ela não respondeu.
Justiça era uma palavra que havia muito tempo fazia suas palmas coçarem.
A casa ficava na extremidade da aldeia de Sosnovka, a cento e setenta quilômetros de Moscou.
Era de madeira, construída sobre uma fundação alta, com uma varanda que Gennadi Pavlovitch havia acrescentado em 1992.
O telhado era de telhas metálicas, o mesmo que Valeri havia consertado.
Lida se lembrava daquela casa de outra forma.
Quando ela e Kostia foram para lá pela primeira vez, ela tinha vinte e três anos.
Era novembro, a lama chegava aos joelhos, e o vento entrava pelas frestas das janelas com tanta força que as cortinas se moviam.
Sua sogra, Tamara Ilinitchna, ainda estava viva.
Era pequena, magra, com mãos que cheiravam a endro e sabão em barra.
Ela colocou diante de Lida um prato de sopa de repolho e disse:
— Coma.
Você está magra demais.
Lida comeu.
A sopa estava salgada demais, mas ela tomou até a última gota.
Tamara Ilinitchna assentiu como se Lida tivesse passado em uma prova.
Treze anos haviam se passado desde então.
Tamara Ilinitchna não chegou a viver até aquele almoço por cinco anos.
Às vezes Lida pensava que, se ela estivesse ali, toda aquela história da casa teria tomado outro rumo.
Ou talvez não.
À noite, Zoia entrou no quarto deles.
Sem bater, como se estivesse entrando no próprio quarto.
— Posso entrar? — perguntou, embora já estivesse lá dentro.
Lida estava sentada na cama, mexendo no telefone.
Kostia havia ido falar com o pai, supostamente para ajudá-lo com o gerador.
— Entre.
Zoia se sentou na cadeira junto à janela.
Era uma mulher grande, de ombros largos e mãos pesadas, que sempre deixava sobre os joelhos quando estava nervosa.
Naquele momento, também estavam ali.
— O que você pensa sobre tudo isso? — perguntou.
— Sobre a casa?
— Sobre a casa, sobre Artiom, sobre tudo.
Lida pousou o telefone.
— Acho que Gennadi Pavlovitch sabe o que está fazendo.
— Sabe?
Ele está dando a casa para um garoto que esteve aqui pela última vez há dois anos.
E ficou apenas meio dia.
Chegou, comeu borsch e foi embora.
Zoia falava em tom calmo, mas seus dedos sobre os joelhos estavam brancos.
— E nós?
Estamos aqui todos os verões.
Valera refez a cerca, eu cuido da horta.
Os tomates são meus, os morangos são meus, fui eu quem podou as macieiras.
Treze anos, Lida.
— Eu sei.
— Então por que você fica calada?
Você e Kostia também não são estranhos aqui.
Se todos nós falarmos com o pai…
— Para dizer o quê?
— Que isso é injusto.
Aquela palavra de novo.
Lida mordeu levemente o lábio inferior.
— Zoia, responda sinceramente.
Você precisa desta casa?
Zoia piscou.
Aquela não era a pergunta que ela esperava.
— Nós precisamos de justiça.
— Isso não é uma resposta.
Você precisa desta casa?
Quer morar nela, aquecê-la, consertá-la e pagar os impostos?
Zoia ficou calada.
Algo farfalhou do lado de fora da janela.
Talvez um gato tivesse passado pelo telhado do galpão.
— Temos um apartamento em Odintsovo.
Só ficamos aqui no verão…
— Exatamente.
No verão.
Dois meses.
Zoia endireitou as costas.
— Mas Artiom nem sequer vem no verão.
Que diferença isso faz?
— Faz muita diferença.
Mas isso não é assunto meu.
E, Zoia, também não é assunto seu.
É assunto de Gennadi Pavlovitch.
Zoia se levantou.
A cadeira recuou e bateu no peitoril da janela.
— Você é estranha, Lida.
Sempre foi estranha.
Ela saiu.
Não bateu a porta, apenas a fechou de um jeito que deixava claro que a conversa tinha terminado.
Lida ficou deitada no escuro, ouvindo a casa respirar.
Casas antigas respiram, especialmente à noite.
As toras estalam, as tábuas do chão gemem e o vento assobia na chaminé, embora o fogão já tivesse sido substituído por uma caldeira há muito tempo.
Kostia voltou tarde.
Deitou-se ao lado dela.
Cheirava a tabaco e a algo azedo, talvez às maçãs do pomar, talvez a álcool.
— Não está dormindo? — sussurrou.
— Não.
— Conversei com meu pai.
— E então?
— Ele disse que Artiom está sozinho.
Que eu e Valerka temos para onde ir.
Mas Artiom não tem.
Lida se virou de barriga para cima.
O teto daquele quarto era tão baixo que se podia tocá-lo com a mão ficando na ponta dos pés.
— O que mais ele disse?
— Que a mãe gostaria da mesma coisa.
O silêncio voltou.
Em algum lugar distante, um cachorro latia.
Não era um cachorro da aldeia.
O som era mais abafado, como se viesse de trás da floresta.
— Lida.
— O quê?
— Você realmente não ficou magoada?
Ela pensou.
Não na casa.
Pensou em como, doze anos antes, quando nasceu Micha, o filho mais velho deles, tinham ido para lá para o batizado.
Tamara Ilinitchna havia assado muitos pastéis, e Gennadi Pavlovitch construíra um balanço no quintal.
Era de madeira de bétula e continuava ali.
Só as cordas haviam sido trocadas.
Micha se balançara nele pela primeira vez com um ano e meio.
Gritou tão alto que o gato do vizinho atravessou três terrenos correndo.
— Não — disse Lida.
— Não fiquei magoada.
— Por quê?
Ela se virou para ele.
— Porque esta casa não é nossa, Kostia.
Nunca foi.
A manhã cheirava a panquecas e discussão.
Zoia e Valeri estavam sentados à mesa, em frente a Gennadi Pavlovitch.
Artiom fumava na varanda, e pela janela era possível ver sua mão tremendo com o cigarro.
— Pai, queremos conversar normalmente — começou Valeri.
Gennadi Pavlovitch passava manteiga em uma panqueca.
A faca se movia de maneira uniforme, de uma borda à outra.
— Fale.
— Eu e Zoia achamos que a casa deveria ser dividida.
Ou, pelo menos, discutida.
— Não há nada para discutir.
— Pai.
— Eu ouvi.
Não há nada para discutir.
Zoia se inclinou para a frente.
— Gennadi Pavlovitch.
Investimos nesta casa por quinze anos.
Dinheiro, tempo e trabalho.
O senhor se lembra do telhado?
Valera passou dois verões refazendo-o.
Nós construímos a sauna.
Eu cuidei da horta…
— A horta é sua — disse o sogro com calma.
— Pode levá-la.
Os vasos com mudas, a pá e tudo o que estiver nos canteiros.
É seu.
Zoia apertou os lábios.
Lida viu uma veia fina e pulsante aparecer em seu pescoço.
— Isso não é sério.
— É muito sério, Zoia.
A casa é minha.
Eu a construí.
Eu decido.
Valeri colocou a mão sobre a mesa, e Lida percebeu que seus nós dos dedos estavam brancos.
— Vamos procurar um advogado.
— Procurem.
Duas palavras.
Gennadi Pavlovitch mordeu a panqueca e mastigou olhando pela janela.
No quintal, Artiom apagou o cigarro e ficou parado com as mãos nos bolsos.
Lida bebia chá.
Era chá de ervas.
Tamara Ilinitchna havia secado tanta hortelã e tomilho que ainda havia bastante.
Todo verão, Lida encontrava no armário mais um embrulho envolto em jornal e amarrado com barbante.
A pessoa havia morrido há cinco anos, mas as ervas continuavam ali.
Ela tomou um gole e encontrou o olhar de Artiom através do vidro.
Ele a observava, e havia algo em seus olhos que ela nunca tinha notado antes.
Confusão.
Ou culpa.
Ou as duas coisas.
Depois do café da manhã, Lida saiu para o quintal.
Era setembro, mas o sol ainda aquecia como no verão.
As macieiras estavam carregadas de frutos, e os galhos se curvavam até o chão.
Zoia tinha razão.
Ela e Valeri cuidavam do jardim.
Toda primavera vinham, caiavam os troncos, cortavam os galhos secos e pulverizavam as árvores contra pulgões.
Lida se aproximou do balanço.
O mesmo balanço de bétula.
As cordas eram novas, mas a travessa continuava a mesma, escurecida, com uma rachadura no meio.
Artiom se aproximou por trás.
Ela o reconheceu pelos passos.
Eram leves, como se ele tivesse medo de incomodar.
— Lida.
— Sim.
— Você sabia?
Que ele decidiria isso?
— Não.
— Mas não ficou surpresa.
— Não fiquei.
Ele parou ao lado dela, apoiando o ombro no poste do balanço.
— Eu não preciso desta casa.
Lida olhou para ele.
Artiom era magro, tinha as maçãs do rosto marcadas, as sobrancelhas do pai e o queixo da mãe.
Seus lábios eram finos, e suas mãos estreitas.
Tinha vinte e quatro anos, mas parecia ter vinte.
Ou quarenta.
Era difícil dizer.
— Então por que está calado?
Diga a ele.
— Não posso.
— Por quê?
— Porque ele ficará ofendido.
Ele está me dando um presente.
Não um apartamento nem dinheiro.
Uma casa.
Está me dando a vida inteira dele.
Lida segurou a corda do balanço.
Era áspera, nova e cheirava a cânhamo.
— Artiom, o que você quer?
Ele ficou calado por muito tempo.
Em algum lugar, um corvo grasnava, e o som se espalhava por toda a aldeia até a floresta.
— Quero que meu pai viva por mais tempo.
E quero que pare de pensar que vou desaparecer sem ele.
— Você vai?
— Não.
Eu trabalho.
Alugo um quarto.
Está tudo bem.
— Então diga isso a ele.
— Você não entende.
É assim que ele demonstra amor.
Por meio de coisas.
Por meio da casa.
Mamãe fazia o mesmo.
Com pastéis e geleias.
Ela escrevia o nome de cada um de nós nos potes.
Com caneta hidrográfica na tampa.
Lida soltou a corda.
Com caneta hidrográfica na tampa.
Ela se lembrava.
“Para Kostia”, “Para Valera”, “Para o pequeno Tioma”.
As letras eram redondas, infantis.
— Eu me lembro — disse ela em voz baixa.
— Exatamente.
E agora eu deveria dizer: “Pai, não precisa”?
Seria como jogar um pote de geleia no chão.
Durante o dia, Rita, irmã de Gennadi Pavlovitch, chegou.
Tinha setenta e um anos, era pequena, usava um casaco de tricô cor-de-rosa empoeirado e apoiava-se em uma bengala mais por solenidade do que por necessidade.
— Então — disse da porta, examinando todos como se tivesse chegado para uma inspeção.
— Quem está morrendo aqui?
— Ninguém — respondeu Gennadi Pavlovitch.
— Pelas caras, não parece.
Rita se sentou à mesa, tirou o casaco e o pendurou no encosto da cadeira.
Por baixo dele, usava outro casaco.
Lida serviu-lhe chá.
— Obrigada, querida.
Pelo menos uma pessoa normal.
Zoia bufou junto ao fogão, mas não disse nada.
— Guenka — disse Rita, olhando para o irmão.
— Valerka me ligou.
Disse que você vai passar a casa para Tioma.
— Não vou deixar em testamento.
Vou fazer uma escritura de doação.
— É a mesma coisa.
— Não.
Uma doação não pode ser cancelada.
Valeri, que estava junto ao batente da porta, se assustou.
Lida o viu abrir a boca e fechá-la novamente.
Zoia estava ao lado dele com os braços cruzados.
— Guena — continuou Rita, tomando um gole de chá e fazendo uma careta, talvez porque estivesse quente, talvez porque estivesse amargo.
— Você se lembra de como nosso pai dividiu a propriedade?
— Lembro.
— Ele também decidiu do jeito dele.
A casa para você.
O apartamento para mim.
Um apartamento de um cômodo em Kalinin.
E fiquei com raiva de você por trinta anos.
— Ainda está com raiva.
— Não.
Agora tenho setenta e um anos.
Tenho pressão alta e um gato.
Não tenho tempo para ficar com raiva.
Gennadi Pavlovitch esboçou um sorriso.
Pela primeira vez em dois dias, Lida viu algo parecido com calor em seu rosto.
— Rita, não pedi seu conselho.
— Não estou aconselhando.
Só estou contando.
Naquela época, nosso pai achou que você precisava mais da casa.
Família, filhos, trabalho na fazenda coletiva.
Eu estava sozinha, então um quarto seria suficiente para mim.
Ele nunca perguntou se realmente seria suficiente.
O silêncio voltou.
O velho relógio de parede continuava fazendo tique-taque.
Era um relógio de cuco cujo pássaro já não cantava havia muito tempo.
— Toma, sua esposa, disse-me depois que Guena sabia que nosso pai estava errado.
Mas não admitiria, porque era mais conveniente assim.
Gennadi Pavlovitch pousou a caneca.
Não bruscamente, mas com firmeza.
A caneca era grossa, de cerâmica, decorada com um galo, e produziu um som abafado.
— Toma dizia muitas coisas.
— Toma era uma mulher inteligente.
Mais inteligente do que nós dois.
Lida saiu para o jardim.
Precisava respirar.
Não porque estivesse abafado, mas porque as paredes daquela casa se lembravam de coisas demais, e às vezes esse peso sufocava.
Ela caminhou até a cerca, a mesma que Valeri havia refeito.
As ripas estavam alinhadas e pintadas de verde.
A tinta já começava a descascar na parte de baixo, onde a neve se acumulava no inverno.
Atrás da cerca, havia um campo e depois a floresta.
O céu estava alto, pálido, com aparência de setembro.
Cheirava a folhas úmidas e um pouco a fumaça.
Alguém queimava restos de plantas dois terrenos adiante.
Lida ficou ali pensando no que sabia havia muito tempo, mas nunca contara a ninguém.
Seis meses antes, em março, Gennadi Pavlovitch havia telefonado para ela.
Não para Kostia nem para Valeri.
Para ela.
Ligou durante o intervalo do almoço, quando ela estava sentada no carro diante do trabalho, comendo um sanduíche de queijo.
— Lida, preciso de um conselho.
— Estou ouvindo, Gennadi Pavlovitch.
— Quero passar a casa para alguém.
Enquanto ainda estou vivo.
Para que eles não briguem depois.
— Para quem?
— Para Tioma.
Ela parou de mastigar.
O queijo estava duro, e o pedaço ficou preso em sua garganta.
— Por que Artiom?
— Porque ele vai se perder, Lida.
Valerka é forte.
Kostia tem você, tem em quem se apoiar.
Mas Tioma está sozinho.
Completamente sozinho.
Como Rita esteve um dia.
— O senhor ouviu o que Rita contou sobre seu pai.
— Ouvi.
Mas meu pai não errou por ter dado a casa a mim.
Errou por não ter explicado a Rita por quê.
Lida ficou calada.
Uma chuva fina caía do lado de fora do carro, e os limpadores ainda estavam úmidos desde a manhã.
— Lida, estou pedindo.
Quando eu anunciar, não entre na briga.
Kostia vai ouvir você.
Quanto a Valerka, ninguém manda nele mesmo, então deixe que fique furioso.
— O senhor está me pedindo para ficar calada.
— Estou pedindo para não destruir o que estou construindo.
Ela terminou o sanduíche.
Bebeu água da garrafa.
— Está bem.
— Obrigado, minha filha.
Ele nunca antes a chamara de filha.
E também nunca mais a chamou depois.
Foi por isso que ela sorriu.
Não porque não se importasse.
E não porque concordasse.
Mas porque havia prometido.
Porque o velho que construíra aquela casa durante quarenta anos lhe pedira uma única coisa, e ela respondera: “Está bem”.
Kostia não sabia.
Zoia muito menos.
Artiom parecia suspeitar que o pai havia pedido conselho a alguém, mas não fazia perguntas.
Lida ficou junto à cerca pensando na justiça.
Todos falavam de justiça como se ela fosse igual para todos.
Mas Valeri havia investido suas próprias mãos.
Zoia havia investido seu tempo.
Kostia havia investido sua presença.
E Artiom não havia investido nada, porque ninguém o chamava.
Ou talvez o chamassem, mas não da maneira como ele precisava.
Ela se lembrava de como Artiom chegara ao hospital cinco anos antes, quando Tamara Ilinitchna estava internada.
Veio sozinho, sem carro, primeiro de trem e depois de ônibus.
Quatro horas em cada direção.
Trouxe laranjas que ela já não podia comer e ficou sentado ao lado dela o dia inteiro.
Em silêncio.
Valeri também vinha com Zoia, de carro.
Levavam coisas e conversavam com os médicos.
Kostia telefonava e transferia dinheiro.
Mas Artiom ficava sentado.
Simplesmente sentado ao lado dela, segurando sua mão e em silêncio.
Quando Lida espiou o quarto, Tamara Ilinitchna dormia, e Artiom contava as placas do teto.
Ela perguntou:
— Está tudo bem?
— Duzentas e dezoito — respondeu ele.
— O quê?
— Placas.
São duzentas e dezoito.
Então ela percebeu que ele já estava ali havia muito tempo.
Ao anoitecer, os ânimos se acalmaram.
Valeri tomava chá com Rita e já não falava em advogado.
Zoia estava sentada na varanda, olhando para o jardim que considerava seu.
E talvez, de certa forma, tivesse razão.
Gennadi Pavlovitch foi para a oficina.
Ele tinha um hábito.
Quando tudo dava errado, ele aplainava alguma coisa.
Banquinhos, tábuas de cortar ou colheres.
Objetos inúteis que já existiam em quantidade maior do que o necessário na casa.
Lida o encontrou ali.
Cheirava a lascas de madeira e óleo.
Sobre a bancada havia uma tábua quase intocada, com marcações feitas a lápis.
— Gennadi Pavlovitch.
— Sim.
— Rita tinha razão.
— Sobre o quê?
— É preciso explicar.
Não a decisão, mas o motivo.
Ele não ergueu a cabeça.
A plaina deslizava de maneira uniforme sobre a madeira, produzindo um leve som.
— Eu expliquei.
Artiom não tem para onde ir.
— Isso não é suficiente.
Valeri sente que o trabalho dele foi desvalorizado.
Zoia sente que foi descartada.
Kostia sente que está em algum lugar no meio sem saber exatamente onde.
Gennadi Pavlovitch parou.
Pousou a plaina.
— E você?
O que sente?
— Sinto que o senhor está certo.
Mas está fazendo isso de uma maneira muito dura.
— Fiz tudo de maneira dura a vida inteira.
Toma dizia que, no lugar do coração, eu tinha um nível de pedreiro.
Reto, preciso e frio.
Lida sorriu.
Dessa vez, de verdade.
— Tamara Ilinitchna amava o senhor.
— Amava.
E também ficava com raiva de mim.
Uma coisa não impedia a outra.
Ele ergueu a tábua, virou-a entre as mãos e a colocou de volta.
— Lida.
Vou contar o que Toma me disse antes…
Antes do hospital.
Ela disse: “Guena, não divida a casa em partes iguais.
Partes iguais significam guerra.
Dê para quem mais precisa.
E aceite a raiva dos outros.”
— E o senhor decidiu que Artiom precisava mais.
— Decidi que, sem uma casa, Artiom vai se perder.
Não fisicamente.
Por dentro.
Ele não tem em que se apoiar.
Os outros dois têm.
— Kostia também está sofrendo.
— Kostia tem você.
Isso será suficiente.
Ele disse isso de maneira simples.
Sem elogio, sem calor.
Como um fato.
Como se falasse de uma parede que sustentava o telhado.
Lida saiu da oficina e ficou algum tempo diante da porta.
Uma lasca de madeira grudara na sola de seu sapato.
Ela se abaixou, retirou-a e girou-a entre os dedos.
Era fina, enrolada em espiral e cheirava a pinho.
Durante a noite, Kostia não conseguia dormir.
Virava-se, suspirava e levantou duas vezes para beber água.
— Kostia.
— O quê?
— Pare.
— Não consigo.
— Consegue.
Ele se sentou na cama.
No escuro, ela via apenas sua silhueta, os ombros largos e o cabelo despenteado.
— Estou magoado, Lida.
Entendo que ele tem esse direito, que a casa é dele e que somos apenas convidados aqui.
Mas ainda dói.
É como quando eu era criança e compraram uma bicicleta para Tioma, enquanto me disseram que eu era mais velho e não precisava.
— Quantos anos você tinha?
— Doze.
— E agora tem trinta e seis.
— E daí?
— Nada.
Só estou dizendo que doze e trinta e seis são duas histórias diferentes.
Ele se deitou novamente.
Ficou calado por algum tempo.
— Você sabe de algo que eu não sei.
— Por que acha isso?
— Você está calma demais.
Isso não é normal para você.
Lida fechou os olhos.
O teto baixo de madeira parecia pesar sobre ela.
O cheiro de verniz já havia desaparecido havia muito tempo, mas continuava em sua memória.
— Eu simplesmente aceitei, Kostia.
Aceitar não significa concordar.
Significa parar de gastar forças com algo que você não pode mudar.
— Você fala bonito.
— Não é bonito.
É sincero.
Ele se virou para ela, e ela sentiu a respiração dele contra sua bochecha.
Quente e rápida.
— Nós realmente nunca mais voltaremos aqui?
— Voltaremos.
Se Artiom nos convidar.
— E se ele não convidar?
— Então compraremos nossa própria casa de campo.
Uma pequena.
Com uma cerca que você mesmo vai pintar.
— Não sei pintar cercas.
— Vai aprender.
Ele soltou uma risadinha abafada.
Não chegou a rir, mas algo dentro dele pareceu se mover um pouco.
Lida percebeu isso pela maneira como seus ombros relaxaram.
Na manhã seguinte, Artiom já havia arrumado suas coisas e esperava na varanda.
Sua mochila estava gasta e tinha um emblema de alguma banda que Lida não conhecia.
— Vai embora? — perguntou ela, saindo com uma caneca na mão.
— O ônibus é às onze e quarenta.
— Quer que levemos você até a estação?
— Não precisa.
Vou andando.
Ele ficou calado por um momento.
Depois tirou do bolso uma folha dobrada.
— O que é isso?
— Escrevi para meu pai dizendo que não posso aceitar a casa.
— Artiom.
— Sei o que você vai dizer.
Mas não posso.
Ela não é minha.
Não a construí, não a consertei e não morei aqui.
É a vida dele, não a minha.
Lida colocou a caneca sobre o corrimão.
Era a mesma caneca com o galo.
— Entregou a carta a ele?
— Ainda não.
Queria perguntar a você primeiro.
— A mim?
— Você é a única pessoa aqui que não grita, não se ofende e não finge que está tudo bem.
Isso significa que entende alguma coisa.
Lida pegou a carta.
Abriu-a.
A letra era desajeitada, e as palavras pareciam saltar como as de uma criança.
Havia apenas três linhas.
“Pai, obrigado.
Mas a casa deveria pertencer a quem a ama.
Eu amo você.
Mas não amo a casa.
Perdoe-me.”
Ela dobrou a folha novamente.
— Não entregue.
— Por quê?
— Porque ele não está dando uma casa a você.
Está dando um lugar.
Para que tenha para onde voltar.
— Eu tenho onde morar.
Alugo um quarto em Tver.
— Um quarto não é um lugar.
Um lugar é onde alguém espera por você.
Artiom pegou a carta de volta.
Guardou-a no bolso.
Depois olhou para a casa, para o telhado, para a varanda e para as macieiras.
— Ele não é eterno.
— A casa?
— Meu pai.
Lida não respondeu.
Ela já sabia.
O ônibus partiu às onze e quarenta.
Artiom foi embora sem entregar a carta.
Valeri e Zoia partiram depois do almoço.
Zoia levou potes de geleia, pepinos e tomates.
Carregou tudo no carro em silêncio.
Valeri apertou a mão do pai de maneira seca e breve, depois se sentou ao volante.
— Zoia — chamou Lida quando ela já estava abrindo a porta do carro.
Zoia se virou.
Seu rosto estava cansado, mas não zangado.
— O quê?
— A horta é sua.
Foi ele mesmo quem disse.
Isso significa que você voltará na primavera.
— Não preciso da horta dele…
Ela não terminou a frase.
Fez um gesto com a mão e entrou no carro.
Mas Lida percebeu.
O canto da boca de Zoia se moveu.
Zoia voltaria.
Lida e Kostia foram os últimos a partir.
Lida estava arrumando as coisas quando Gennadi Pavlovitch entrou no quarto.
Sem bater, como Zoia.
Naquela casa, todos entravam sem bater.
— Lida.
— Sim?
— Obrigado.
Ele estava na porta, grande e pesado, usando a mesma camisa xadrez, apenas com um botão a mais aberto.
Os braços estavam estendidos ao longo do corpo como os de um soldado.
— Não há nada para agradecer, Gennadi Pavlovitch.
— Há, sim.
Você foi a única que não entrou em guerra comigo.
— Eu havia prometido.
— Mesmo sem a promessa, você não faria isso.
Ela fechou a bolsa.
O zíper emperrou, e ela precisou puxá-lo duas vezes.
— Tioma escreveu uma carta — disse ela.
— Quer recusar a casa.
Gennadi Pavlovitch não pareceu surpreso.
Apenas assentiu.
— Eu sei.
Eu o conheço.
— O que vai fazer?
— Esperar.
Até que ele entenda que não precisamos de um lugar quando simplesmente o desejamos, mas quando já não temos para onde ir.
Lida ergueu a bolsa.
Estava pesada, e não apenas por causa das coisas dentro dela.
— E se ele não entender?
— Vai entender.
É meu filho.
Gennadi Pavlovitch afastou-se da porta para deixá-la passar.
Quando ela passou por ele, colocou a mão em seu ombro.
Por apenas um segundo.
A palma era pesada, áspera e quente.
No carro, Kostia permaneceu em silêncio durante os primeiros vinte minutos.
Depois ligou o rádio, desligou e ligou novamente.
— Lida.
— Hum?
— Você havia conversado com meu pai?
— Quando?
— Não hoje.
Antes.
Antes daquele almoço.
Ela olhava pela janela.
Campos, floresta e a curva que levava à estrada principal.
A aldeia de Sosnovka ficara para trás, pequena, com uma igreja sem cúpula e uma torre de água que não funcionava desde 1998.
— Sim.
— E você sabia o que ele diria.
— Sim.
Kostia apertou o volante.
Seus nós dos dedos ficaram brancos, como os de Valeri à mesa.
— Por que não me contou?
— Ele me pediu.
— Ele pediu.
Mas eu sou seu marido.
— Justamente por isso.
Kostia diminuiu a velocidade no cruzamento.
Seguiam devagar atrás de um caminhão, e o cheiro de diesel entrava pela janela entreaberta.
— Como assim?
Justamente por isso?
— Porque você teria ido falar com ele.
Teria começado a discutir, argumentar e se ofender.
Como Valeri.
E ele ficaria ainda mais obstinado.
Mas assim você passou por isso sozinho.
E depois de dois dias, já não está mais com raiva.
— Estou com raiva.
— Não.
Você está magoado.
É diferente.
Ele ultrapassou o caminhão em um trecho reto e ficou em silêncio por algum tempo.
— Lida.
Não gosto que você decida por mim quando devo saber de algo e quando não devo.
— Eu não decidi por você.
Atendi ao pedido do seu pai.
— É a mesma coisa.
— Não, Kostia.
Não é a mesma coisa.
Ele lançou um olhar rápido para ela, afastando os olhos da estrada por um segundo.
E ela viu que ele não estava com raiva.
Estava tentando entender.
Isso estava escrito em seu rosto com a mesma clareza que as faixas no asfalto.
Eles chegaram em casa ao anoitecer.
As crianças estavam com a avó, a mãe de Lida, e o apartamento os recebeu em silêncio.
Não o silêncio vivo do campo, mas o silêncio vazio da cidade.
Lida colocou a bolsa no corredor.
Tirou os sapatos.
Foi até a cozinha.
Sobre a mesa estava uma xícara que ela havia esquecido de guardar antes da viagem.
Havia um pouco de café seco no fundo e um anel esbranquiçado na borda.
Ela lavou a xícara.
Depois a guardou no armário.
Kostia entrou atrás dela e se apoiou no batente da porta.
— Algum dia compraremos nossa própria casa de campo? — perguntou.
— Algum dia.
— Pequena?
— Pequena.
— Com uma cerca?
— Com uma cerca.
Ele sorriu.
Pela primeira vez em três dias.
— Não sei pintar cercas.
— Eu vou ensinar.
Ele se aproximou, abraçou-a por trás e encostou o nariz no topo de sua cabeça.
Ela ficou ali, segurando a borda da pia e olhando pela janela.
Lá fora, escurecia.
Os postes de luz se acendiam, e a cidade vibrava com um som constante e familiar.
Em algum lugar, a cento e setenta quilômetros dali, Gennadi Pavlovitch provavelmente aplainava outra tábua.
Artiom viajava de trem e amassava no bolso a carta que não havia entregado.
Zoia colocava os potes na prateleira e calculava quantos canteiros plantaria na primavera.
Valeri fumava, embora tivesse parado.
E Lida estava em sua própria cozinha, em seu próprio apartamento, em sua própria vida, sabendo de uma coisa.
Um lar não são paredes nem um terreno.
Um lar é quando alguém abraça você por trás, respira em seus cabelos e você não quer ir a lugar algum.
A xícara estava no armário.
Limpa.







