O pai dele invadiu o nosso quarto e arrancou o cobertor de cima de mim!
O que está acontecendo?

Isso não pode ser verdade!
“O cobertor voou para cima, e o ar gelado me trouxe imediatamente de volta à realidade…”
Num instante, perdi os últimos restos de sono; aquela surpresa me fez encolher por causa do frio repentino e de uma sensação pegajosa, aguda e penetrante de vergonha.
— Levantar!
O tempo começou!
— trovejou perto do meu ouvido uma voz masculina desconhecida, assustadoramente grave e retumbante, tão poderosa que parecia fazer vibrar os vidros das janelas.
Veronika soltou um grito de susto, tentando convulsivamente se cobrir com os pedaços da fina camisola de renda, e piscou confusa, ofuscada pelo sol da manhã que batia em seus olhos.
Na cabeça dela girava insistentemente um único pensamento: “O que está acontecendo?
Isso não pode ser verdade!
É apenas um sonho ruim, absurdo e ridículo.”
Mas a realidade era impiedosa.
Bem diante dela, junto à cama dos recém-casados, estava um homem monumental, como se tivesse sido talhado em granito, com um olhar de aço e os lábios firmemente cerrados.
Era o seu recém-formado sogro!
O homem em cuja casa ela havia passado sua primeira noite de casamento.
A visão da nora seminua, paralisada na postura de uma vítima indefesa, não o constrangeu nem um pouco.
Pelo contrário, em seu rosto severo, marcado por rugas profundas, nem um músculo se moveu.
Foi assim que começou aquilo que deveria ter sido o início de uma vida familiar feliz, mas que se transformou em um pesadelo longo, exaustivo e sufocante.
E pensar que, apenas um ano antes, Veronika acreditava sinceramente ter tirado a sorte grande.
Seu encontro com Kirill parecia o enredo de um belo melodrama romântico.
Diante dos rapazes modernos, preguiçosos, desleixados e sempre enfiados nas telas dos celulares, Kirill parecia um extraterrestre, o homem ideal de uma época passada.
Ele sempre cheirava a perfume caro e algodão recém-lavado.
O vinco de suas calças poderia servir como modelo de geometria, seus sapatos brilhavam como espelhos, e sua postura fazia os passantes se virarem na rua.
Além disso, Kirill cozinhava com maestria, mantinha seu estúdio de solteiro numa limpeza estéril e nunca se esquecia de puxar a cadeira para Veronika no café.
— Kirill, admita, qual é o seu segredo?
— perguntava ela, rindo, encostando-se ao ombro forte e treinado dele durante mais uma caminhada noturna.
— Não existem homens tão perfeitos assim na natureza.
Você tem certeza de que não é um robô de algum laboratório secreto?
Kirill sorriu suavemente, mas em seus olhos, por um instante, passou uma sombra estranha, quase imperceptível — uma mistura de orgulho e de um medo antigo, profundamente escondido.
— É tudo muito mais simples, Nika.
Meu pai é coronel aposentado.
Viktor Petrovich.
Toda a minha vida, desde que me lembro, foi submetida a uma disciplina rigorosa.
Meu pai fez de mim um homem, ensinou-me a aguentar golpes, a valorizar a ordem e a não ficar choramingando.
Esporte, rotina, responsabilidade — isso é coisa de família para nós.
— Uau… — Veronika ergueu as sobrancelhas com respeito.
— Então ele é rígido?
Já estou ficando um pouco apreensiva.
Mas, por outro lado, ele criou um filho incrível.
Mal posso esperar para conhecê-lo!
Se ele fez você ser assim, então deve ser uma pessoa extraordinária.
— Sim, extraordinária, — repetiu Kirill, baixo demais, olhando para algum ponto além dela.
— Vamos, está ficando frio.
O tão aguardado primeiro encontro com os sogros aconteceu em um restaurante tranquilo e respeitável, escolhido pessoalmente por Viktor Petrovich.
Veronika passou muito tempo diante do espelho escolhendo a roupa: decidiu por uma saia elegante um pouco abaixo dos joelhos e uma blusa leve, completando o visual com uma clássica manicure vermelho-vivo.
Ela queria parecer confiante e moderna.
Quando entraram na sala VIP, a atmosfera pareceu a Veronika estranhamente opressiva.
Os pais de Kirill já estavam sentados à mesa.
A mãe, Irina Vasilievna, uma mulher pálida e silenciosa, de olhar apagado e penteado impecável, fio por fio, assentiu quase imperceptivelmente para Veronika e logo escondeu timidamente as mãos sob a toalha, como se temesse chamar atenção demais.
Já o chefe da família parecia ocupar todo o espaço da sala.
Viktor Petrovich estava sentado com os ombros maciços abertos.
Seu olhar pesado e examinador cravou-se imediatamente na jovem que entrava.
Ele a observou lentamente, de baixo para cima, como se estivesse avaliando uma recruta em um posto de alistamento.
— Viktor Petrovich, — apresentou-se ele em voz sonora, com uma rouquidão metálica, sem sequer pensar em se levantar para cumprimentá-la.
Em vez de um aperto de mão ou de um sorriso educado, disse secamente: — Anastasia… desculpe, Veronika.
Seus sapatos estão sujos.
No salto esquerdo há uma mancha visível de água de chuva seca.
Veronika ficou atônita, achando que aquilo fosse algum tipo específico de piada militar.
Olhou confusa para os próprios pés, depois para o noivo.
— Desculpe?
O que o senhor disse?
— Disse que há sujeira nos seus sapatos, — repetiu o coronel com ênfase, franzindo o rosto com desagrado.
— Além disso, a saia, na região da coxa direita, está mal passada; há dobras do tempo em que ficou sentada no carro.
E as unhas… essa cor provocante, gritante.
Parece vulgar.
Dentro de Veronika, uma onda de protesto explodiu imediatamente.
O famoso designer para quem ela trabalhava como principal profissional de marketing chamava seu estilo de impecável, e agora um homem idoso a repreendia como uma colegial.
— Manicure vermelha é um clássico, Viktor Petrovich.
É apropriada sempre e em qualquer lugar, — tentou a moça defender seus limites com firmeza, mas de forma educada.
— Na minha compreensão, isso é inaceitável, — cortou o sogro, cruzando os braços no peito.
— Uma mulher deve chamar atenção pela inteligência e pela modéstia, não por uma pintura de guerra indígena.
— Pai, por favor, não comece, não ofenda a Nika, — interveio Kirill em tom suplicante, encolhendo-se sob o olhar do pai e perdendo instantaneamente toda a masculinidade que costumava aparentar.
— Eu não a ofendo, Kirill.
Faço observações construtivas e objetivas.
Uma pessoa de verdade sabe aceitar críticas e trabalhar nos próprios erros, em vez de fazer bico, — disse Viktor Petrovich em tom professoral.
Todo o restante da noite se transformou, para Veronika, em uma sofisticada execução psicológica.
Ao som de facas e garfos, o coronel distribuía metodicamente, com pausas calculadas, novas porções de sua opinião “construtiva”.
Em duas horas de jantar, Veronika descobriu que tinha um físico absolutamente nada esportivo, uma postura curvada, um corte de cabelo inadequado e uma profissão extremamente pouco séria e frívola.
Quando finalmente deixaram aquele tribunal improvisado e entraram no táxi, Veronika tremia literalmente de indignação.
Ela se virou para Kirill, tentando falar o mais baixo e delicadamente possível, embora tudo dentro dela fervesse.
— Kirill… me diga, seu pai é sempre assim?
Ele sempre se comunica com as pessoas em modo de interrogatório e distribuição de diagnósticos?
Kirill suspirou pesadamente, olhando pela janela para as luzes da cidade noturna.
— Sim, Nika.
A profissão e os longos anos de comando deixam marcas.
Ele não faz por mal, entende?
Ele só está acostumado a que haja ordem perfeita ao redor dele.
Você vai se acostumar, de verdade.
A mamãe se acostumou.
“Ah, não, eu com certeza não vou me acostumar com esse absurdo,” pensou Veronika com raiva, cerrando os punhos.
“Graças a Deus somos adultos, vamos viver separados e ver meus sogros apenas em grandes feriados, uma vez a cada seis meses.
Vou suportar por causa de Kirill.”
No entanto, o destino decidiu de outro modo, riscando cruelmente todos os planos de Veronika para uma vida independente.
Literalmente duas semanas antes do casamento marcado, a empresa têxtil internacional onde ela trabalhava havia três anos anunciou de repente falência e liquidação da filial russa.
As indenizações dos funcionários demitidos foram reduzidas ao mínimo, e as contas foram congeladas.
Veronika teve de procurar um novo emprego às pressas.
O mercado estava turbulento, e a sorte só sorriu para ela em uma pequena agência local.
Mas ali as responsabilidades eram o dobro das anteriores, e o salário era miserável, mal cobrindo comida e transporte.
Ao ouvir da futura esposa o valor do novo salário dela, Kirill ficou genuinamente horrorizado.
Durante um bom tempo, calculou algo na calculadora, franziu a testa e andou nervosamente pelo quarto.
— Nika, isso é uma catástrofe, — concluiu ele, enfiando os dedos nos cabelos.
— Com esses seus novos trocados, simplesmente não vamos conseguir pagar um apartamento alugado no centro.
E nós planejávamos juntar para a entrada da hipoteca!
Se entregarmos metade do meu salário a um estranho por aluguel, vamos nos afundar em dívidas para o resto da vida.
— E o que devemos fazer?
— os olhos de Veronika se encheram de lágrimas de desespero.
— Talvez procuremos uma opção mais modesta?
Um quarto na periferia?
Um estúdio em uma área em construção?
Kirill parou de repente e olhou para ela com uma animação que imediatamente pareceu suspeita a Veronika.
— Existe uma opção melhor.
Vamos nos mudar para a casa dos meus pais.
Papai me ligou ontem e ofereceu que ficássemos com eles por algum tempo.
Eles têm um enorme apartamento de três cômodos em um prédio antigo, há espaço para todos.
Ele disse que gastar dinheiro absurdo com aluguel na nossa situação é o cúmulo da estupidez e da ignorância econômica.
Em um ano, um ano e meio, juntaremos uma boa quantia e compraremos nossa própria casa.
Um suor gelado percorreu Veronika.
Diante de seus olhos surgiu imediatamente o rosto severo do coronel criticando suas unhas e sua saia.
— Kirill, não… por favor.
Não acho que eu consiga viver sob o mesmo teto que seu pai.
Ele é uma pessoa muito… específica.
Nós vamos nos devorar na primeira semana!
— Nika, mas que outra saída temos?
— Kirill aproximou-se, pegou as mãos dela e olhou em seus olhos com uma rigidez incomum.
— Você quer que passemos fome por orgulho?
Papai é normal, desde que não se perturbe a paz dele.
Vamos aguentar um pouco.
Pelo nosso futuro em comum.
Veronika abaixou a cabeça, sentindo as paredes de uma armadilha invisível se fecharem lentamente ao seu redor.
Respondeu baixo, resignada.
— Realmente não há saída.
Está bem, vamos tentar.
O casamento em si, surpreendentemente, correu bem e até foi divertido.
Veronika esperou algum golpe baixo até o último instante, mas Viktor Petrovich, vestido com um rigoroso traje formal, comportou-se com uma contenção ostensiva.
Não fez brindes intermináveis, não se meteu a dar lições aos convidados, embora seu rosto de pedra deixasse perfeitamente claro que tudo o que acontecia ao redor — o barulho, a música, as danças — lhe era profundamente repulsivo.
Ele parecia estar cumprindo uma obrigação.
Depois do banquete, os recém-casados, cansados mas felizes, chegaram ao apartamento dos pais.
Adormecendo na enorme cama do quarto que lhes fora destinado, Veronika permitiu-se relaxar: “Pronto, tudo ficou para trás.
Talvez o coronel só seja severo em público, e em casa seja apenas um aposentado comum?
Tudo vai ficar bem.”
Como ela estava cruelmente enganada.
— Dez minutos para se arrumar!
Traje: cotidiano, asseado.
Apresentar-se na sala para a formação matinal!
— essa ordem berrada por Viktor Petrovich, logo depois de ele arrancar a coberta sem qualquer cerimônia, fez Veronika saltar na cama.
Ela se encolheu, apertando o travesseiro contra o peito, sentindo-se absolutamente indefesa em sua camisola de renda semitransparente.
O sogro nem pensou em se virar ou pedir desculpas.
Girou nos calcanhares e saiu do quarto com passos marcados, batendo a porta com força.
Com as mãos trêmulas, Veronika agarrou o telefone na mesinha de cabeceira.
Na tela brilhavam os números: 07:30.
— Sete e meia da manhã?!
— sussurrou para o vazio, sem acreditar nos próprios olhos.
— Num domingo?!
Depois do casamento?!
Ela virou a cabeça na esperança de encontrar proteção no marido, mas a outra metade da cama estava vazia e já fria.
Kirill não estava no quarto.
Rapidamente, atrapalhando-se nas pernas da calça de casa e abotoando convulsivamente uma camisa fechada, Veronika se arrumou.
O coração batia descontrolado em seu peito por causa da injustiça e da raiva crescente.
Ela saiu para o corredor e seguiu para a espaçosa sala.
Lá, toda a família já a esperava, lembrando uma cena congelada de um teatro soviético.
Viktor Petrovich estava sentado à cabeceira da mesa maciça de carvalho.
À sua direita, com as costas eretas, estava Kirill — já barbeado, penteado e vestido com um pulôver rigoroso.
Um pouco afastada, na beiradinha da cadeira, estava Irina Vasilievna, com o olhar fixo na toalha.
— Sentar!
— comandou o coronel, curto, como se falasse com um cachorro, apontando para a cadeira vazia ao lado de Kirill.
Veronika não se mexeu.
A ofensa e o orgulho exigiam uma resposta imediata.
— Viktor Petrovich, por que o senhor fala comigo nesse tom?
Eu não sou sua subordinada nem um cachorro para obedecer a comandos!
— disse ela em voz clara, cruzando os braços no peito.
Kirill empalideceu imediatamente, levantou-se de um salto, agarrou o braço dela e praticamente a forçou a sentar-se, sussurrando suplicante em seu ouvido.
— Nika, pelo amor de Deus, cale a boca.
Não irrite ele.
Depois conversamos a sós.
Por favor, só escute.
O coronel transferiu lentamente seu olhar pesado para a nora, e em seus olhos acendeu-se uma chama cruel de superioridade.
— Anastasia… quer dizer, Veronika.
A partir de hoje você é oficialmente membro da minha família e mora no meu território.
Isso significa que é obrigada a cumprir sem questionar as regras desta casa.
Minha casa, minhas leis.
Aqui não há lugar para caos, preguiça e desleixo.
Escute com atenção e memorize: não estou acostumado a repetir duas vezes.
Viktor Petrovich tirou do bolso uma folha dobrada em quatro, alisou-a cuidadosamente com a mão enorme e começou a ler com voz uniforme, monótona e intolerante a objeções.
Regra número um.
Rotina diária rígida.
O recolher para todos os membros da família é exatamente às 22h00.
O despertar em dias úteis é às 6h00; nos fins de semana e feriados, às 7h30.
Sem exceções e sem ficar deitada na cama.
Regra número dois.
Distribuição dos turnos domésticos.
De agora em diante, preparar o café da manhã para toda a família é sua obrigação pessoal.
Comida quente e fresca deve estar na mesa exatamente vinte minutos depois do despertar.
Regra número três.
Refeições coletivas.
Sentamos à mesa somente todos juntos.
Nada de lanches caóticos, idas ao refrigerador à noite ou comer nos quartos.
Quer comer?
Espere a reunião geral.
Regra número quatro.
Disciplina financeira.
A partir de hoje, você é obrigada a contribuir para o fundo familiar comum com exatamente 30% do seu salário mensal.
O dinheiro deve ser entregue pessoalmente a mim no dia em que receber seu pagamento.
É a taxa por serviços públicos e depreciação da moradia.
Regra número cinco.
Aparência.
Fora do seu quarto, você deve aparecer completamente vestida, penteada e lavada.
Nada de roupões, pijamas, cabelos desgrenhados ou pernas nuas.
Mantemos a postura até dentro de casa.
Regra número seis.
Ajuda mútua.
Se você estiver em casa e Irina Vasilievna precisar de ajuda nas tarefas domésticas — limpeza, lavagem, passar roupa, preparar conservas — você larga tudo e a ajuda sem reclamar.
Regra número sete.
Tempo pessoal.
Você terá exatamente duas horas de tempo livre por dia: uma hora de manhã, depois do café, e uma hora à noite, antes do recolher.
Pode usar esse tempo como desejar.
Regra número oito.
Educação física.
Corpo são, mente sã.
Você é obrigada a praticar esporte.
No início, eu pessoalmente controlarei seus treinos, suas metas e a melhoria da sua forma física.
Regra número nove.
Pureza da linhagem.
Quando você e Kirill decidirem ter um filho, após o nascimento será feito um teste oficial de DNA.
Isso não se discute.
Devo ter 100% de certeza de que estou criando um herdeiro legítimo do meu sobrenome, e não o filho de outro homem.
Regra número dez, a principal.
Quaisquer ordens, instruções e observações do chefe da família, ou seja, eu, são executadas imediatamente, sem questionamento e sem discussão.
Veronika ouviu aquela lista absurda sentindo as pernas fraquejarem.
Olhou nervosamente para os presentes, esperando sinceramente ver pelo menos uma sombra de sorriso em seus rostos.
Parecia-lhe que Kirill começaria a rir, a abraçaria e diria: “Olha só como te enganamos!
É só uma tradicional brincadeira militar para a jovem nora!”
Mas ninguém ria.
Kirill estava sentado encarando o próprio prato, enquanto Irina Vasilievna suspirava baixinho e enxugava discretamente uma lágrima com a ponta do avental.
Viktor Petrovich dobrou cuidadosamente a folha e guardou-a de volta no bolso.
— Hoje, levando em conta seu período de adaptação e a celebração de ontem, demonstrei magnanimidade.
Permiti que se levantasse mais tarde do que o normal, que saísse à sala sem a higiene prévia e a liberei da preparação do café da manhã.
Irina Vasilievna fez tudo sozinha.
Mas a partir de amanhã cedo, o regulamento entra plenamente em vigor.
Há perguntas?
Veronika engoliu com dificuldade o nó que subia à garganta.
— E se eu me recusar a cumprir essas suas… regras malucas?
Se eu não quiser viver de acordo com o regulamento de uma colônia penal de regime severo?
Os olhos do coronel se estreitaram, transformando-se em duas fendas geladas.
A atmosfera na sala esfriou instantaneamente uns dez graus.
— Então terá de deixar este apartamento em vinte e quatro horas.
Ou aceitar a punição correspondente por desobediência e violação da disciplina.
Não há terceira opção.
Veronika esboçou um sorriso nervoso e assustado.
— E o que o senhor vai fazer?
Vai me colocar numa solitária a pão e água?
Vai me amarrar?
Sua tentativa fraca de ironia se quebrou contra o olhar pesado e chumbo do sogro.
No rosto dele não havia uma única gota de humor — apenas a certeza absoluta e assustadora de sua própria razão e de seu poder ilimitado dentro daquelas paredes.
— Vá para o seu quarto e vista-se como deve, — ordenou o coronel em tom gelado.
— Em vinte minutos tomaremos café da manhã, e depois espero você no pátio, na quadra esportiva.
Vamos eliminar sua falta de fôlego e seu excesso de peso.
Marcha acelerada!
Aquele dia se transformou para Veronika em um verdadeiro inferno na terra.
Não a deixaram sentar nem por um minuto.
Primeiro, o sogro a levou ao estádio, onde a obrigou a correr voltas pela pista congelada, cronometrando impiedosamente seu tempo.
Quando Veronika, ofegante e segurando a dor no lado, caía no banco, ele se aproximava e berrava: “De pé!
Vai descansar no caixão!
Mais duas voltas e dez flexões no banco!”
Depois daquela execução, quando seus músculos tremiam de cansaço e sua visão escurecia, não veio nenhum descanso.
Em casa, Irina Vasilievna já a esperava.
Veronika foi carregada de tarefas domésticas pesadas: lavar janelas, limpar enormes tapetes com um aspirador antigo e pesado, e depois o sogro mandou ela e a mãe ao supermercado para arrastar sacolas impossíveis de erguer, com compras para a semana.
À noite, Veronika literalmente desabou na cama, sentindo-se espancada.
Cada célula de seu corpo doía por causa do esforço incomum e exaustivo.
Mesmo assim, não conseguiu dormir.
Desde pequena, ela era uma típica “coruja”: o pico de sua atividade mental e inspiração chegava durante a noite, e ela estava acostumada a adormecer não antes de uma ou duas da manhã.
Depois de sofrer por meia hora no escuro sob o ronco monótono de Kirill cansado, Veronika tirou cuidadosamente da bolsa seu notebook de trabalho.
Colocou os fones, decidida a assistir a um filme leve para se distrair do estresse e relaxar os nervos tensionados.
Ao fazer isso, cometeu um erro fatal: não levou em conta que uma fina faixa de luz da tela passava traiçoeiramente por baixo da porta para o corredor escuro.
Não se passaram dez minutos quando a porta do quarto se escancarou com um forte chute.
Viktor Petrovich invadiu o quarto.
De cueca samba-canção e camiseta regata, parecia ainda mais ameaçador.
— Violação do regime de sono noturno!
Uso de aparelhos eletrônicos proibidos depois do recolher!
— rugiu ele, avançando até a cama e arrancando o notebook das mãos da moça atônita com um movimento brusco.
— Devolva!
Isso é meu!
Minha propriedade pessoal, o senhor não tem direito!
— gritou Veronika em lágrimas, tentando recuperar o computador.
— Na minha casa não existe propriedade pessoal, existem apenas meios para garantir as atividades vitais!
— cortou o coronel, enfiando o notebook debaixo do braço.
— Receberá seu bem amanhã de manhã, depois da corrida.
Agora, dormir!
O comando “recolher” foi dado há duas horas!
— Eu não consigo dormir!
O senhor entende com esse cérebro militar ou não?!
Não estou acostumada a deitar às dez da noite, meu organismo funciona de outro jeito!
— Veronika perdeu o controle e gritou.
O sogro parou na porta e se virou lentamente para ela.
— Se você não consegue dormir, Anastasia, isso significa apenas uma coisa: você não trabalhou com qualidade e empenho suficientes durante o dia.
Seu organismo não gastou energia.
Amanhã, sua carga física será dobrada.
E a partir de amanhã desligarei pessoalmente o roteador Wi-Fi de todo o apartamento exatamente às 21h55.
Para que não haja tentações.
Ele apagou a luz, mergulhando o quarto na escuridão, e saiu, trancando ruidosamente a porta atrás de si.
Veronika ficou sentada na cama, sufocando em lágrimas silenciosas.
Nesse momento, do outro lado do travesseiro, soou a voz sonolenta e irritada de Kirill, que havia acordado.
— E por que você armou esse circo?
Era tão difícil se cobrir até a cabeça com o cobertor, como todos nós fazemos?
Agora, por causa da sua estupidez, ele vai cortar a internet à noite.
Nem dá para mexer no celular, nem checar o e-mail antes de dormir.
Muito obrigado, você ajudou bastante.
Veronika congelou, chocada com as palavras dele.
No escuro, encarou a silhueta do marido e compreendeu com horror: ele não estava brincando.
Ele não pretendia protegê-la.
Ele sinceramente a culpava por tudo, e não ao pai insano.
Arrastaram-se longas semanas cinzentas, que para Veronika se fundiram em um interminável e sugador “dia da marmota” com forte inclinação militar.
Sua vida agora lembrava a permanência em um batalhão disciplinar.
Todos os santos dias ela acordava ao grito sonoro do sogro, trançava os cabelos enquanto andava, arrastava-se até a cozinha, onde, sob a supervisão de Viktor Petrovich, preparava mingau ou omelete para quatro pessoas.
Depois corria para o trabalho, que agora lhe parecia a única ilha de relativa liberdade.
À noite, voltava ao apartamento-caserna, ajudava a sogra em silêncio nas tarefas domésticas e, exatamente às dez, caía na cama, sofrendo por horas com insônia e olhando para o teto.
O pior de tudo era que Viktor Petrovich se imaginava sinceramente um Pigmaleão, decidido a moldar da nora “estragada pela civilização”, segundo suas próprias palavras, uma “pessoa verdadeira, completa e digna”.
Primeiro, foram proibidos todos os seus cosméticos e sua manicure.
“Todos esses enfeites femininos, batons, cremes e esmaltes são substitutos que mascaram preguiça e vícios,” declarava o sogro com autoridade, de pé sobre ela durante o café da manhã.
“Cabelos limpos e presos com cuidado, rosto lavado com sabão e unhas curtas, limpas e aparadas — essa é a verdadeira dignidade da mulher soviética.
O resto vem do maligno.”
Depois, o coronel organizou uma inspeção de suas habilidades domésticas.
Ele fazia Veronika relavar à mão suas camisas várias vezes se encontrasse nelas a menor manchinha despercebida, e engraxar novamente suas botas cromadas até conseguir ver nelas seu reflexo perfeito.
Então chegou a vez da culinária.
Ali, o controle sobre Veronika passou para Irina Vasilievna.
Essa mulher silenciosa e oprimida parecia ter perdido há muito tempo o próprio “eu”, transformando-se em uma sombra submissa do marido.
— Veronika, querida, escute-me, — sussurrava a sogra, assustada, olhando nervosamente para a porta da cozinha.
— As batatas para a sopa devem ser cortadas em cubos grandes, cerca de dois por dois centímetros.
Já a cenoura deve ser em tirinhas muito finas.
Se Viktor Petrovich vir rodelas de cenoura ou batatas pequenas, não vai comer.
Vai haver escândalo.
Não, não, veja, você cortou demais!
Tem de ser dois milímetros a menos, eu imploro, refaça!
“Que loucura… Que bobagem absurda e paranoica!” pensava Veronika, sentindo uma raiva surda ferver por dentro.
“Que pessoa normal mede cubos de batata no prato de sopa?
Ele fica lá com uma régua?”
Acontece que ficava.
Naquela mesma noite, Viktor Petrovich, ao pegar uma colher do borsch preparado por Veronika, parou com repulsa.
Examinou atentamente o conteúdo da colher, depois ergueu lentamente os olhos para a nora.
Sem uma única palavra, o coronel se levantou, pegou a panela pesada com a sopa quente, caminhou em passos regulares até o banheiro e despejou ruidosamente no vaso sanitário todos os cinco litros do trabalho de Veronika.
Ao voltar à cozinha, colocou com estrondo a panela vazia e fumegante diante da moça pálida e ordenou curto, com aço na voz.
— Violação da tecnologia de preparo dos alimentos.
A sopa está imprópria para consumo pelo efetivo.
Refaça.
Do zero.
O tempo começou.
Em outra ocasião, Veronika cometeu outro “erro imperdoável”: ousou violar a sagrada regra que proibia lanches não autorizados.
O dia no trabalho tinha sido insano, ela não conseguira almoçar, e à noite seu estômago literalmente roncava de fome.
Sem esperar o jantar oficial, que estava programado apenas para dali a uma hora e meia, ela entrou escondida na cozinha, cortou um pedaço de pão com linguiça e já voltava para seu quarto, escondendo o sanduíche atrás das costas.
Mas na saída do corredor, como um verdadeiro guarda de fronteira, Viktor Petrovich a interceptou.
— Anastasia, parada!
— a voz dele a fez estremecer.
— O que você tem na mão?
Lembra-se da regra número três do nosso regulamento familiar a respeito das refeições?
— Viktor Petrovich, estou com uma fome terrível!
— exclamou Veronika, com lágrimas nos olhos, apertando o infeliz sanduíche na mão.
— Tive um dia pesado, não almocei!
Estou tonta de fome!
— Se você não se sacia nas refeições principais, então sua ração diária será revista e aumentada por meio da caloria dos mingaus, — respondeu o sogro com voz absolutamente calma e rígida.
— E agora vá até o lixo e jogue fora esse sanduíche.
Imediatamente.
— Mas isso é absurdo!
É desperdício de comida, no fim das contas!
Não se pode fazer isso, é pecado!
— indignou-se Veronika, tentando contorná-lo.
O coronel deu um passo para o lado, bloqueando totalmente sua passagem com os ombros maciços.
— Exatamente.
Jogar fora comida de qualidade é um crime.
E esse crime agora ficará inteiramente na sua consciência, Anastasia.
Você deve aprender disciplina de ferro e responsabilidade, se quiser viver com meu filho e no futuro me dar netos saudáveis e psicologicamente estáveis.
Jogue fora.
“Vá para o inferno!
Eu não vou parir ninguém para você nesta prisão!
Nunca na vida!” pensou Veronika com raiva e fúria.
Ela arremessou o sanduíche no lixo com força e correu para o quarto, chorando alto.
O desfecho dessa tirania chegou uma semana depois.
Por causa da insônia crônica e do cansaço selvagem, Veronika cometeu um deslize fatal: simplesmente perdeu a hora.
O despertador do telefone, por algum motivo, não tocou, e quando ela abriu os olhos já eram 06h15.
Entendendo que estava catastroficamente atrasada para preparar o café da manhã e que agora começaria mais um escândalo, Veronika saltou da cama em pânico.
Esquecendo todas as regras de aparência, saiu correndo pelo corredor como estava — de camisola amassada, cabelos despenteados e descalça — e correu para a cozinha.
Lá, de braços cruzados no peito, Viktor Petrovich já a esperava.
No pulso dele, um pesado relógio de comandante tiquetaqueava de modo demonstrativo.
— Anastasia, registro duas violações gravíssimas da ordem regulamentar, — disse ele em tom gelado.
— Primeiro: você perdeu o horário de levantar em quinze minutos, comprometendo o cronograma de alimentação da família.
Segundo: saiu da área do seu quarto em aparência inadequada, seminua, demonstrando extremo desrespeito aos mais antigos em posto.
Naquele momento, algo dentro de Veronika se rompeu definitivamente.
O cansaço, a mágoa, a raiva e a humilhação acumulados ao longo daqueles meses explodiram para fora em um fluxo poderoso e incontrolável.
Ela deu um passo direto em direção ao sogro, olhando-o diretamente nos olhos.
— Sim!
Eu perdi a hora!
E sim, saí de camisola!
E sabe de uma coisa?
Estou pouco me importando para as suas regras anormais e esquizofrênicas!
Nada terrível vai acontecer, o apocalipse não virá se, uma vez na vida, o senhor mesmo preparar seu maldito mingau!
O senhor é um homem doente, Viktor Petrovich!
Precisa se tratar, não mandar nas pessoas!
O rosto do coronel ficou instantaneamente vermelho-escuro, e as veias da testa incharam, parecendo cordas grossas.
— Quando você cruzou a soleira da minha casa, aceitou automaticamente suas condições, — disse ele baixo, mas com uma força tão assustadora que Veronika teve vontade de se encolher.
— Se algo não lhe agrada, ninguém a segura aqui, a porta está aberta.
Mas enquanto estiver aqui, você vai obedecer.
— O senhor sabe perfeitamente que agora não tenho para onde ir!
Meu salário não me permite alugar nem um quarto, e todas as economias foram para o casamento!
O que o senhor vai fazer?
Me jogar na rua no inverno, só de pijama?
— gritou Veronika.
— Não.
Eu não a jogarei na rua.
Não sou um monstro.
Vou apenas puni-la.
Limitarei sua liberdade para a sua própria correção, — respondeu ele calmamente.
Antes que Veronika conseguisse compreender suas palavras, Viktor Petrovich agarrou seu pulso com uma força de ferro.
Seus dedos se fecharam no braço dela como uma morsa de aço.
Sem prestar atenção aos seus gritos, chutes e tentativas de se soltar, ele literalmente a arrastou para fora da cozinha, puxou-a pelo longo corredor e a empurrou com força para o quarto dela e de Kirill.
Com um movimento hábil, arrancou do bolso dela o celular que estava ali, saiu do quarto e girou a chave na fechadura pelo lado de fora com um estalo alto.
— Oito horas de confinamento solitário em espaço fechado para refletir sobre seu comportamento, — soou por trás da porta sua voz abafada e sem emoção.
Veronika correu em pânico até a porta e começou a bater nela furiosamente com os punhos.
— O senhor enlouqueceu?!
Deixe-me sair imediatamente!
Daqui a uma hora preciso estar no trabalho!
Se eu não aparecer, vou receber multa por falta ou até ser demitida!
O senhor está destruindo minha vida!
— Você mesma é culpada, Anastasia.
Esta é a consequência lógica de suas próprias faltas conscientes e de seu desrespeito aos mais velhos.
Fique sentada em silêncio, sem aparelhos, e pense em como poderia ter evitado esta situação se simplesmente tivesse se levantado e se vestido a tempo.
E, como está na prisão disciplinar, não tem direito à ração do almoço.
Receberá comida apenas no jantar comum, à noite.
Veronika continuou gritando e batendo na porta até suas mãos começarem a doer.
Meia hora depois, ouviu Kirill se movimentando no corredor, preparando-se para ir trabalhar.
— Kirill!
Kirill, eu imploro, abra a porta!
Seu pai enlouqueceu, ele me trancou!
Deixe-me sair, preciso ir trabalhar!
— gritou ela com esperança.
Mas o marido nem chegou perto da porta.
Ela ouviu apenas seu suspiro baixo e irritado e o farfalhar da jaqueta.
Kirill simplesmente foi embora em silêncio, fugindo covardemente do conflito e deixando sua esposa trancada.
Logo Veronika percebeu que o sogro, além de tudo, havia desligado o roteador Wi-Fi de todo o apartamento.
Sem telefone e sem internet, ela se viu em isolamento informacional completo e absoluto.
Realmente não lhe restava nada além de sentar-se na cama e pensar.
As horas se arrastavam insuportavelmente devagar.
A sombra da moldura da janela rastejava preguiçosamente pela parede oposta, contando os minutos de sua humilhação.
Dentro de Veronika, durante essas horas, ocorreu uma reorganização mental tectônica.
O medo e as lágrimas evaporaram gradualmente, dando lugar a um ódio frio, cristalino e feroz.
Ela se aproximou do grande espelho no canto, olhou para o próprio reflexo pálido, com os olhos inchados de lágrimas, e disse firme, clara e pausadamente.
— Vou fugir deste campo de concentração.
Custe o que custar.
Vou arrancar minha liberdade com os dentes.
Juntarei cada centavo, encontrarei um trabalho extra, alugarei qualquer canto, mesmo o mais sujo, mas vou embora daqui.
E mesmo que Kirill me implore de joelhos para ficar, eu irei embora.
Minha vida pertence apenas a mim.
À noite, quando a fechadura finalmente estalou e a porta se abriu, Veronika primeiro avançou sobre o marido que voltava do trabalho.
Ela o puxou para o quarto e, mal contendo o grito, sibilou.
— Você ouviu… você ouviu tudo de manhã, Kirill!
Ouviu seu pai louco me trancar, ouviu eu implorando por ajuda!
Por que não abriu a porta?!
Por que me traiu?!
Kirill suspirou cansado, jogou a pasta na poltrona e começou a tirar cuidadosamente a gravata, sem sequer olhar para a esposa.
— Porque você mesma é culpada, Nika.
Meu pai está certo: você quebrou as regras, fez uma histeria, disse coisas ofensivas a ele.
Nada terrível aconteceu com você; ficou um dia em casa no calor, descansou do trabalho.
Na infância e na adolescência, por qualquer pequena falta, eu ficava até uma semana trancado, sem televisão e sem livros, e nada aconteceu — cresci homem, como você vê.
Disciplina nunca fez mal a ninguém.
Veronika recuou dele, sentindo tudo dentro de si gelar de horror.
— Isso não é disciplina, Kirill… São torturas medievais, é violência psicológica!
Você entende que seu pai é um tirano doméstico e um sádico, e você é o escravo fiel dele, com a psique quebrada?
Eu não quero ficar aqui nem mais um minuto!
Vamos embora, amanhã mesmo!
Alugamos um quartinho em um apartamento compartilhado, um estúdio na periferia, o dinheiro vai dar se cortarmos despesas!
Por favor, salve o nosso casamento!
Kirill virou-se para ela, e seu rosto assumiu exatamente a mesma expressão fria e impenetrável do pai.
— Talvez, em vez de gastar um monte de dinheiro alugando cantos, você devesse simplesmente aprender a viver segundo as regras da nossa família?
Pense com a cabeça, desligue suas emoções: o que há de ruim nas exigências do papai?
Seguir uma rotina correta faz bem à saúde.
Comer comida caseira de forma normal e pontual é ótimo para o estômago.
Praticar esporte ao ar livre fortalece a imunidade.
É preciso procurar pontos positivos em tudo, Nika.
Ele se aproximou e tentou segurá-la pelos ombros, mas Veronika se afastou.
Kirill continuou.
— Meu pai é rígido, mas cuida de nós.
Na semana passada, quando caiu uma chuva forte, ele ligou o carro de propósito e foi buscá-la no seu escritório para que você não molhasse os pés e não andasse na chuva.
E quando você se resfriou três dias atrás e ficou de cama com febre, ele mesmo foi à farmácia e comprou os remédios importados mais caros para você.
Agora você faz parte da nossa família, e ele cuida de você como sabe.
— Sim… claro, pontos positivos existem, — rosnou Veronika entre os dentes, sentindo o enjoo subir à garganta.
— Mas por esses “benefícios” duvidosos e por gotinhas de cuidado, não estou disposta a entregar minha liberdade, minha personalidade e meu direito de decidir quando dormir e o que vestir!
— Então, Veronika, vou lhe dizer direta e uma única vez, — Kirill franziu o rosto, e em sua voz apareceram notas militares do pai.
— Sou categoricamente contra qualquer mudança.
Não temos dinheiro sobrando para isso, e não vou jogar fora meu dinheiro suado por causa dos seus caprichos.
Conforme-se, acalme suas ambições e tente, finalmente, corresponder ao nível da nossa família.
“Está tudo claro.
Não posso mais contar com Kirill.
Ele está completamente quebrado por esse sistema, faz parte dele,” Veronika compreendeu definitivamente.
“Vou ter de me salvar sozinha.
Perdoe-me, meu amor, mas minha liberdade e minha saúde mental valem cem vezes mais que seu conforto debaixo da asa do papai.”
A partir da manhã seguinte, Veronika mudou radicalmente sua estratégia de comportamento.
Transformou-se justamente na “nora ideal e obediente” com que Viktor Petrovich tanto sonhava.
Levantava-se cinco minutos antes das seis, sem esperar o grito do sogro.
Arrumava-se rapidamente de forma impecável, saía para a cozinha e preparava cafés da manhã luxuosos e abundantes.
Punha a mesa com precisão milimétrica, alinhando os talheres rigorosamente como se usasse uma régua.
As batatas para a sopa da noite agora eram cortadas por ela com precisão geométrica perfeita, como se um chef profissional tivesse trabalhado nelas.
Durante a reunião matinal, Viktor Petrovich olhou satisfeito para a mesa posta, pegou uma colher de mingau e olhou para a nora com um sorriso condescendente e vitorioso.
— Pronto, Anastasia, agora é outra coisa!
Você consegue quando quer.
Apenas oito horas de isolamento saudável e uma conversa preventiva — e que resultado impressionante, de qualidade!
A disciplina faz milagres.
Veronika baixou os olhos humildemente, colocando no rosto uma máscara de profundo arrependimento.
— Perdoe-me pela minha histeria tola anterior, Viktor Petrovich.
O senhor tinha absoluta razão.
Deu-me abrigo em sua casa, e eu demonstrei desrespeito.
Sou imensamente grata por seu ensinamento e cuidado.
Mas dentro dela, naquele momento, uma voz fria e calculista celebrava furiosamente.
“Alegre-se, velho tirano, comemore sua vitória imaginária enquanto pode!
Cada palavra sua, cada humilhação aproxima o dia do meu triunfo.
Assim que aparecer a menor oportunidade, desaparecerei daqui de um jeito que vocês nunca me encontrarão.”
Para passar o mínimo de tempo possível na atmosfera sufocante do apartamento-caserna, Veronika mergulhou de cabeça no trabalho, sem poupar forças.
Chegava ao escritório antes de todos, ficava até tarde, assumia voluntariamente os projetos mais complexos e rotineiros e as tarefas extras.
O trabalho tornou-se seu único pretexto legal e oficial para escapar das exaustivas obrigações domésticas e dos treinos com o sogro, pois Viktor Petrovich, como homem da velha guarda, respeitava o trabalho e a “necessidade produtiva”.
Seus esforços sobre-humanos e sua dedicação não passaram despercebidos pela direção.
Dois meses depois dessa rotina, a diretora-geral da agência, Natalya Vladimirovna, chamou Veronika ao seu gabinete para uma conversa séria.
— Veronika, sente-se, — disse a chefe suavemente, observando a jovem cansada, mas controlada.
— Tenho acompanhado atentamente seus resultados nas últimas semanas.
Você demonstra produtividade fantástica, literalmente carrega o departamento inteiro nas costas, apesar daquele lamentável dia inteiro de ausência no começo.
Precisamos muito de profissionais dedicados e fortes como você.
Natalya Vladimirovna fez uma pausa, mexendo nos papéis sobre a mesa.
— Tenho uma proposta séria para você.
Nossa filial na Sibéria está se expandindo, lá estamos lançando um grande projeto e precisamos de uma gerente de marketing anticrise.
Quero oferecer essa posição a você.
Isso trará um aumento colossal de salário — três vezes mais de imediato, além de bônus sólidos.
Mas há um “porém”: o cargo implica viagens de negócios longas e frequentes, deslocamentos constantes pelas regiões.
Sei que você se casou há pouco, talvez queira ficar em casa com seu jovem marido…
— Eu aceito!
Aceito absolutamente, sem condições, Natalya Vladimirovna!
— Veronika praticamente gritou, sem deixar a chefe terminar.
Seus olhos brilharam intensamente com a esperança repentina.
A diretora a olhou surpresa, ajustando os óculos.
— Uau… que entusiasmo.
Pois bem, fico feliz por não ter me enganado quanto à sua postura ambiciosa.
Então vamos preparar os documentos.
Seu primeiro voo de trabalho é já neste fim de semana.
Prepare-se.
Veronika voltou de sua primeira viagem de trabalho de duas semanas com uma sensação estranha, pesada e contraditória.
Lá, a milhares de quilômetros de Moscou, em um quarto de hotel aconchegante, pela primeira vez em longos meses ela respirou a plenos pulmões.
Sentiu novamente o gosto inebriante e esquecido da liberdade pessoal absoluta.
Ninguém a acordava com gritos selvagens às seis da manhã.
Ela podia dormir tranquilamente até as oito e, à noite, passear por uma cidade desconhecida, ir ao cinema nas sessões tardias, pedir pizza gostosa e nada saudável diretamente na cama e assistir às suas séries favoritas até as quatro da manhã, sem medo de que alguém arrombasse a porta e levasse seu computador.
A propósito, Viktor Petrovich desaprovava categoricamente seus gostos gastronômicos, aceitando apenas “comida soviética normal e saudável, como mingau e sopa de repolho”.
Agora, sentada no avião que se aproximava da capital, ela entendia claramente: estava voltando para a gaiola.
Para uma prisão sufocante, cinzenta e terrível.
Nem mesmo a lembrança de como Kirill a abraçara com carinho e força no aeroporto melhorava seu humor.
Ao contrário, olhando para o marido, Veronika percebeu com clareza gelada uma coisa terrível: ela não sentira saudade dele.
E não tinha mais certeza de que ainda restasse nela sequer uma gota daquele antigo amor por esse homem.
Em casa, ao entrar no quarto deles, Veronika sentou-se cansada no tapete e começou a desfazer lentamente a mala.
Nesse momento, seu celular, que estava sobre a cama, emitiu um som baixo, avisando sobre uma mensagem do banco.
Veronika desbloqueou a tela sem muita atenção, olhou os números e congelou.
Fechou os olhos, balançou a cabeça e olhou novamente para o visor.
A quantia em sua conta era simplesmente astronômica: havia caído o primeiro salário no novo valor, enormes ajudas de custo e pagamentos de viagem.
As mãos da jovem começaram a tremer.
Sem acreditar nos próprios olhos, ela discou nervosamente o número de Natalya Vladimirovna.
— Alô, Natalya Vladimirovna?
Desculpe incomodar fora do expediente… chegaram uns valores no meu cartão.
Há uma quantia gigantesca, acho que a contabilidade cometeu um erro e transferiu dinheiro de outra pessoa para mim!
Do outro lado da linha, ouviu-se a risada suave e satisfeita da chefe.
— Não há nenhum erro, Veronika.
Esse é seu prêmio oficial e os bônus pelo lançamento bem-sucedido do projeto siberiano.
Você nos ajudou incrivelmente, economizou milhões para a empresa com seu plano de marketing preciso.
Diga-me sinceramente, podemos contar com a mesma entrega de cem por cento e com sua disponibilidade para novas viagens longas no futuro?
— Sim!
Sim, Natalya Vladimirovna!
— Veronika quase gritou ao telefone, sentindo lágrimas rolarem por suas bochechas — mas agora eram lágrimas de felicidade e alívio sem limites.
— A qualquer momento!
Estou pronta para voar para qualquer lugar, até o fim do mundo, até amanhã!
Estou pronta para trabalhar dia e noite!
Nesse momento, a porta do quarto se entreabriu, e Kirill colocou a cabeça para dentro.
Ele franziu a testa com desaprovação, olhando para a esposa.
— Nika, por que você está gritando pela casa toda?
Papai está assistindo televisão na sala, você está atrapalhando.
Que gritaria é essa?
Veronika abaixou lentamente o telefone.
Olhou para o marido parado na porta — tão correto, passado a ferro, obediente.
Depois desviou o olhar para a mala meio desfeita, lembrou-se dos números preciosos do novo saldo no cartão bancário, que lhe davam total independência financeira, e respirou fundo.
A máscara da nora ideal caiu de seu rosto para sempre.
— Kirill… precisamos conversar seriamente, — disse ela com firmeza, sem nenhum vestígio da antiga timidez.
— Vamos nos divorciar.
Kirill ficou paralisado.
Seu queixo literalmente caiu, e seus olhos se arregalaram de sincera e profunda incompreensão.
— O quê?.. Você… está brincando, não está?
É alguma piada boba depois de uma viagem cansativa?
— balbuciou ele, dando um passo para dentro do quarto.
— Não estou brincando, Kirill.
Estou absolutamente séria, como nunca estive na vida, — respondeu Veronika calmamente, levantando-se do chão.
— Eu não amo mais você.
E não vou ficar nesta caserna militar insana nem um minuto a mais.
Entendo que para você tudo isso é normal; você cresceu assim, seu cérebro foi deformado desde a infância pelo delírio regulamentar do seu pai.
Mas visto de fora, para qualquer pessoa normal, toda a vida familiar de vocês é uma tirania profundamente doentia e perversa.
Eu vou embora.
Agora mesmo.
Enquanto dizia isso, Veronika começou a agarrar rapidamente suas coisas do armário em montes e a jogá-las de volta na mala e em sacolas plásticas.
Só nesse momento, vendo seus movimentos febris e seguros, Kirill finalmente entendeu: ela não estava blefando.
Aquilo estava acontecendo de verdade.
— Para onde você vai?!
Você ficou louca?!
A esta hora da noite?!
Para a estação, para debaixo da ponte?!
— indignou-se ele, tentando arrancar das mãos dela outro monte de roupas.
— Você vai se perder sozinha com seus trocados!
— Primeiro vou para um bom hostel ou hotel, e amanhã de manhã alugarei um excelente apartamento de dois quartos bem no centro, — respondeu Veronika com orgulho e prazer, jogando uma sacola na cama.
— Fui oficialmente promovida, Kirill.
Minha renda agora é várias vezes maior que a sua.
Posso pagar absolutamente tudo o que eu quiser.
E, para isso, não preciso mais de um homem ao meu lado que não é capaz de proteger a própria esposa do próprio pai.
Nesse momento, a porta do quarto se abriu com um estrondo.
Na soleira apareceu a figura monumental de Viktor Petrovich.
Seu rosto expressava o grau máximo de desagrado despótico.
— Então, que reunião não autorizada é essa na área da unidade?!
Chega de conversa, vocês já se cumprimentaram, o tempo de comunicação livre acabou!
Kirill, marcha acelerada para o pátio, lavar e limpar o carro para a saída de amanhã.
Anastasia, imediatamente para a cozinha ajudar Irina Vasilievna a limpar o peixe para o jantar.
Rápido, o tempo começou!
Veronika se endireitou lentamente, virou-se de frente para o coronel e olhou para ele com um desprezo e uma ironia tão abertos e sinceros que Viktor Petrovich, pela primeira vez em todo aquele tempo, se calou e ergueu as sobrancelhas surpreso.
— Eu não vou limpar o seu peixe, Viktor Petrovich, — disse Veronika com um prazer profundo e indescritível, saboreando cada palavra.
— E também não vou mais às suas corridas idiotas.
Estou me divorciando do seu filho agora mesmo.
Isso significa que, a partir de agora, o senhor para mim não é ninguém.
Um vazio.
Um estranho, um homem idoso profundamente infeliz, com a psique quebrada.
E sabe de uma coisa?
A consciência desse fato é a coisa mais agradável e maravilhosa que me aconteceu em todo este ano.
O coronel quase sufocou de indignação, seu rosto ficou púrpura, e ele abriu a boca para despejar uma torrente de insultos e ordens, mas Veronika o contornou com um movimento leve e confiante, pegou sua mala e foi para a saída.
Nem Kirill nem Viktor Petrovich fizeram qualquer tentativa de impedi-la — ficaram parados no meio do quarto, como atingidos por um raio, transformados em monumentos silenciosos da própria tirania.
Passou exatamente um ano…
Veronika caminhava por uma rua movimentada de primavera no centro da cidade, oferecendo o rosto aos raios mornos e gentis do sol.
Ao longo daquele ano, sua vida havia mudado a ponto de ficar irreconhecível.
Sua chefe, Natalya Vladimirovna, fora promovida e transferida para o escritório europeu da empresa, e Veronika, graças a seu talento e ao seu vício em trabalho, assumira o lugar dela, tornando-se diretora de todo o departamento de marketing de uma grande agência.
Ela mudara radicalmente seu estilo: fizera um corte curto, ousado e elegante; vestia um luxuoso casaco de grife; e em seus lábios brilhava exatamente aquele batom clássico vermelho-vivo que um dia enfurecera tanto seu ex-sogro.
Ela estava livre, bem-sucedida e absolutamente feliz.
De repente, no meio da multidão de passantes, seu olhar captou uma silhueta masculina dolorosamente familiar.
Kirill vinha em sua direção.
A postura ainda era perfeita, o pulôver impecavelmente passado.
Mas ele não estava sozinho.
Ao lado dele, segurando-se firmemente em seu braço, caminhava uma jovem frágil.
Veronika baixou involuntariamente o olhar para a mão dela: no dedo anelar brilhava nitidamente uma aliança nova.
A nova esposa.
Veronika diminuiu o passo por um segundo, examinando atentamente a desconhecida.
O que viu fez seu coração apertar dolorosamente de pena.
No rosto da moça não havia um grama de maquiagem — pele pálida e limpa, lavada com simples sabão.
Os cabelos estavam presos de forma apertada e sem graça em um pequeno coque na nuca.
A saia era rígida, longa, passada com precisão maníaca até o milímetro.
Os sapatos brilhavam com um lustro militar de graxa.
Mas o mais terrível era o olhar dela.
Um olhar apagado, assustado, oprimido, o olhar de uma criatura que vive vinte e quatro horas por dia sob a mira do controle total de outra pessoa.
“Meu Deus… Eu já passei por isso, eu sei,” pensou Veronika com um sorriso triste.
“Mais uma vítima do regulamento do coronel.
A linha de produção de destinos quebrados funciona sem interrupções.”
Nesse momento, Kirill também notou Veronika.
Parou como se tivesse sido pregado ao chão, e seus olhos se arregalaram de surpresa e choque.
Ele não reconheceu de imediato, naquela mulher de negócios luxuosa e confiante, a garota pálida e chorosa de camisola que um dia havia deixado trancada.
Mas quando finalmente entendeu quem estava diante dele, em seus olhos passou instantaneamente um medo selvagem e pânico — ele percebeu que sua ex-esposa caminhava com segurança diretamente em direção a eles.
No entanto, o próprio Kirill interessava a Veronika menos do que qualquer coisa no mundo.
Ela se aproximou, ignorou o olhar assustado dele e encarou diretamente os olhos oprimidos da nova esposa.
Ao alcançá-la, Veronika disse baixo, mas com máxima clareza e peso.
— Escute meu bom conselho, menina… Fuja.
Fuja desta caserna militar insana agora mesmo, antes que eles pisoteiem definitivamente sua personalidade e destruam sua alma.
Você merece muito mais, acredite em mim.
A moça recuou assustada, apertando-se contra o ombro de Kirill, e murmurou confusa.
— O quê?.. Quem é a senhora?
Do que está falando?
Kirill, quem é ela?!
— Não dê ouvidos a ela, Anechka, vamos logo!
É uma louca, uma louca da cidade, não preste atenção, — Kirill se agitou, agarrando a nova esposa pela mão e praticamente a arrastando pela calçada.
Veronika virou-se e os observou se afastarem.
Ainda teve tempo de notar que, nos olhos de Anechka, por um segundo, passou uma compreensão profunda e consciente.
A moça claramente adivinhara de que “caserna” se tratava, e seu rosto assumiu uma expressão de reflexão profunda e dolorosa.
A semente da dúvida fora plantada com sucesso.
“Quantas outras garotas ingênuas e bobas ainda virão depois de mim e depois dessa pobre Anechka?” refletiu Veronika, continuando seu caminho para o trabalho que amava.
“Sim, Kirill… você jamais verá na vida uma felicidade familiar verdadeira e tranquila enquanto seu pai louco estiver atrás de você com sua régua e seu regulamento interno.
Nem todas as pessoas nasceram para viver em uma caserna.
Algumas nasceram para voar.”







