Dezessete minutos depois, ele se arrependeu.
Parei o carro perto da cerca torta do terreno da dacha, dentro de uma associação de jardins.

O portãozinho estava escancarado.
Zakhar estava junto à churrasqueira de tijolos, virando os espetos.
— Demoraram para chegar, moscovitas, — disse ele, sem se virar.
Meu marido, Filipp, saiu primeiro do carro.
Ele se espreguiçou, estalando o pescoço, e foi cumprimentar o irmão.
Eu abri o porta-malas.
Lá dentro havia quatro sacolas pesadas da “Lenta”.
Pescoço de porco a quinhentos e vinte rublos o quilo, legumes frescos, carvão e três caixas do meu queijo: camembert, gouda, stracciatella.
Eu mesma os fazia.
Era o meu negócio, pequeno, mas estável.
— Fil, irmão, ajuda a tirar as sacolas, — soltou Zakhar.
Filipp pegou obedientemente uma sacola.
A mais leve, com verduras e pão.
Eu peguei em silêncio duas sacolas pesadíssimas com carne e queijo.
Meus dedos ficaram imediatamente brancos pela pressão das alças de plástico.
Zakhar finalmente se virou.
Ele usava um avental manchado de gordura, que eu havia dado de presente à minha sogra no Oito de Março do ano anterior.
— Milena, joga as chaves do carro na mesa, — disse Zakhar, apontando para a varanda com a pinça de carne.
— Depois vou tirar o meu carro, e também mudo o seu de lugar para não atrapalhar.
— Você parou atravessada no meio do caminho.
Olhei para meu chaveiro.
Zakhar gostava de dirigir o meu carro.
O velho carro importado dele precisava de conserto havia muito tempo, enquanto o meu era novo.
Passei pela churrasqueira e coloquei as chaves na mesa de madeira na entrada da casa.
Da cozinha de verão saiu minha sogra, Vera Ignatyevna.
Ela enxugava as mãos com uma toalha.
— Ah, finalmente! — exclamou, erguendo as mãos.
— Milenochka, você trouxe o seu queijo?
— Tia Tonya pediu tanto, tanto.
— Trouxe, Vera Ignatyevna, — respondi, colocando as sacolas no banco.
— E por que tão pouco? — Zakhar olhou dentro da sacola.
— Isso não vai dar para vinte pessoas.
— A família está vindo.
— Tio Vitya de Ryazan, Tonya com o marido, os sobrinhos.
— Vamos festejar!
— Aqui há três quilos, — respondi calmamente.
— É suficiente.
— Está sendo pão-duro, — zombou Zakhar.
— É produção sua.
— Podia ter trazido uma caixa inteira.
— Somos família.
Ele disse isso com leveza.
Com um sorriso.
Tirei da sacola o recipiente com a carne marinada.
Zakhar o tomou das minhas mãos.
— Ah, a marinada ficou boa, — avaliou ele, cheirando.
— Está aprendendo.
— Vai lá, sua mãe está cortando os legumes na cozinha, ajuda.
— Enquanto isso, eu e Fil cuidamos das coisas de homem.
As coisas de homem consistiam em beber cerveja em copos de plástico e olhar para as brasas.
Fui para a cozinha de verão.
Lá cheirava a cebola frita e a toalha de mesa velha de plástico.
Sobre a mesa havia uma montanha de tomates e pepinos por lavar.
— Milena, pega uma faca, corta em pedaços grandes, — ordenou Vera Ignatyevna.
— Vamos, vamos, os convidados chegam em uma hora.
— Ainda precisa descascar as batatas.
— O balde está ali.
Ela apontou para um balde de plástico perto do lavatório.
Dez litros de batatas sujas.
— Vera Ignatyevna, nós tínhamos combinado que cada um traria um pouco, — eu disse, pegando a faca.
Minha sogra suspirou tão pesadamente como se eu a tivesse obrigado a descarregar vagões.
— Milena.
— Nós somos os anfitriões.
— A dacha é minha.
— Zakhar assa a carne.
— Você só comprou os produtos e agora está cortando um pouco.
— É tão difícil assim fazer isso pela família?
Olhei pela janela.
Zakhar estava junto à churrasqueira.
Ele assava a carne que eu havia comprado e marinado.
Nas brasas que eu havia trazido.
Na dacha cujo telhado novo eu havia pago.
Desviei o olhar da janela e comecei a cortar os tomates.
Parte 2.
A chegada dos convidados.
Os carros começaram a chegar por volta das duas da tarde.
Velhos “Zhiguli”, sedãs coreanos usados.
O portãozinho batia sem parar.
Vinte e duas pessoas.
Tias, tios, primos distantes, sobrinhos.
A família de Filipp se reunia assim todo verão.
Chamavam isso de “tradição familiar”.
A tradição consistia em eles chegarem, sentarem-se à mesa grande, comerem, beberem e discutirem como tudo havia ficado caro.
Eu estava junto à pia, lavando as ervas.
A água do lavatório saía em um fio fino, fria a ponto de doer nos ossos.
— Milena!
— Onde estão as toalhas limpas? — gritou tia Tonya da varanda.
— Na gaveta de cima da cômoda, — gritei de volta.
— Então traga!
— Estou com as mãos molhadas!
Enxuguei minhas mãos molhadas nos jeans, fui até a casa, peguei as toalhas e as levei para a varanda.
Os homens já estavam sentados à mesa.
Zakhar servia vodca nos copinhos.
Filipp estava sentado ao lado dele, rindo de alguma piada.
— E eu digo a ele: essa lata-velha tem que ir para o ferro-velho! — discursava Zakhar em voz alta, agitando um espeto.
— Hoje os caras normais estão trocando por carros chineses.
— Eu também estou pensando em me livrar do meu e pegar algo decente.
Tio Vitya, um homenzinho magro de camisa xadrez, resmungou.
— Zakhar, e você já ganhou dinheiro para comprar um chinês?
— Sua loja de autopeças fechou lá na primavera.
Zakhar não ficou nem um pouco constrangido.
— São dificuldades temporárias, tio Vitya.
— Negócio é assim mesmo.
— Hoje vazio, amanhã cheio.
— Fil não vai me deixar mentir.
Ele deu um tapinha no ombro do meu marido.
Filipp assentiu e desviou os olhos.
Parei junto à mesa.
Um mês antes, Filipp havia transferido cem mil rublos para Zakhar pelo sistema de pagamentos rápidos.
“Para ajudar meu irmão a recomeçar o negócio”, ele disse na época.
Era dinheiro da minha conta de empreendedora individual, que eu havia passado para Filipp pagar as contas do nosso apartamento.
Coloquei as toalhas diante de tia Tonya.
— Ah, Milenochka, — Tonya segurou minha mão.
— Por que você está tão pálida?
— Trabalha demais, não é?
— Nossa mulher de negócios.
Na expressão “mulher de negócios” havia tanta condescendência que parecia que eu vendia sementes de girassol na estação.
— Trabalho, tia Tonya, — respondi, soltando minha mão com cuidado.
— Pois Zakhar também diz que você está soterrada em dinheiro, — disse Vera Ignatyevna, trazendo uma enorme travessa de pepinos.
— Não vê mais a família.
— Vem uma vez por mês, joga os produtos como se fossem esmola e fica olhando para o telefone.
— Poderia ao menos ficar conosco de coração.
Fiquei imóvel.
Por dentro, tudo ficou frio e muito calmo.
— Vera Ignatyevna, eu não jogo produtos.
— Eu compro.
— Com o meu dinheiro, — respondi em tom uniforme.
Minha sogra apertou os lábios.
Zakhar bateu o copinho na mesa.
— Milena, lá vem você de novo, — ele fez uma careta.
— Por que você sempre transforma tudo em dinheiro?
— Nós falamos de relacionamento, de calor humano, e você fala de recibos.
— Você sempre se comporta como se não se importasse com as nossas tradições.
Olhei para Filipp.
Meu marido estudava atentamente o desenho da toalha de plástico.
— Sim, Zakhar.
— Eu não me importo, — disse baixinho, mas a mesa ficou mais silenciosa.
Zakhar recostou-se na cadeira de plástico.
Ele me olhou com uma expressão estranha.
Uma mistura de ofensa e sincera certeza de que tinha razão.
— Eu sou o irmão mais velho, — disse ele de repente, sem desafio, quase com calma.
— Nosso pai morreu quando Fil tinha dez anos.
— Eu tenho que ser o chefe.
— Eu tenho que reunir todos.
— Mas meu negócio desmoronou.
— E o seu deslanchou.
— E agora você vem aqui e olha para todos nós como parentes pobres.
— Eu quero pelo menos aqui, na casa da minha mãe, me sentir o dono.
— Você entende isso ou não?
Era verdade.
Uma verdade simples, humana, torta.
Ele precisava de um lugar onde fosse o chefe.
E se fazia chefe às minhas custas.
Não encontrei o que responder.
De fato, eu os afastava com dinheiro.
Para mim era mais fácil pagar pelo aplicativo a entrega dos produtos, transferir dinheiro para consertar o telhado, só para não ouvir reclamações e não participar das longas conversas sem sentido sobre quem disse o quê a quem dez anos atrás.
Eu mesma lhes dei o direito de usar o meu dinheiro.
Fiquei em silêncio e voltei para a cozinha.
Lá estava o balde de batatas por descascar.
Parte 3.
Confissões junto à pia.
Uma hora depois, terminei de descascar as batatas, coloquei-as para cozinhar no fogareiro a gás e comecei a cortar o queijo.
O meu queijo.
O camembert estava perfeito, com a crosta branca e aveludada e o centro macio e cremoso.
Tia Tonya entrou na cozinha.
Ela procurava o sal.
— Está ali na prateleira, no pote amarelo, — indiquei, arrumando o queijo sobre uma tábua de madeira.
Tonya pegou o pote e olhou para o queijo.
— Você faz bonito, Milena.
— E gostoso.
Ela hesitou, trocando o peso de uma perna para a outra.
— Escute, não deixe Zakhar escapar dessa.
— Ele perdeu totalmente os limites.
Levantei a cabeça.
Tonya sempre ficava calada ou concordava com Vera Ignatyevna.
— Do que a senhora está falando? — perguntei.
Tonya olhou para a porta.
Na varanda, ouviam-se pratos e risadas.
— Outro dia ele foi à casa de Vera.
— Eu tinha acabado de levar umas mudas.
— Ouvi eles discutindo.
— Zakhar dizia à mãe: que Milena construa uma sauna nova, já que tem dinheiro sobrando.
— E Vera respondeu: ela não vai aceitar.
— E Zakhar riu.
— Disse: para onde ela vai fugir? Fil a manipula como quer.
— Disse também que a casa, de qualquer forma, logo será minha.
— Disse: se a mulher de Fil pode ganhar dinheiro sozinha para um apartamento, então eles já pagam aqui pelo telhado novo mesmo.
Parei de cortar o queijo.
A faca bateu surdamente na tábua.
— Ele disse exatamente isso?
— Palavra por palavra, — suspirou Tonya.
— Eles veem você como uma carteira, Milena.
— Desculpe por me meter.
— Mas quando vi você ali na churrasqueira com as sacolas, e Zakhar exigindo as chaves do seu carro…
— Lembrei daquela conversa.
Ela pegou o sal e saiu.
Olhei para minhas mãos.
Havia marcas de terra nos dedos, porque eu tinha descascado as batatas deles.
O esmalte da unha do indicador estava descascado.
Eu havia trabalhado sem folgas nos últimos três meses para fazer a queijaria dar lucro.
Acordava às cinco da manhã.
Eu mesma entregava os pedidos quando o entregador ficava doente.
Aproximei-me do pequeno espelho pendurado acima do lavatório.
De lá, uma mulher cansada me olhava, com o cabelo preso em um rabo de cavalo descuidado.
Ela tinha trinta e oito anos.
Tinha o próprio negócio, o próprio apartamento, o próprio carro.
E estava em pé na cozinha de verão de outra pessoa, ouvindo pessoas dividirem o seu dinheiro sem sequer dizerem obrigada.
Não foram eles que me obrigaram.
Fui eu que aceitei.
Aceitei ser conveniente.
Aceitei esse “somos família”.
Achei que, se fosse generosa, eles me aceitariam.
Que estupidez.
A água da panela com as batatas começou a ferver.
Aproximei-me e baixei o fogo.
Coloquei sal.
Depois lavei as mãos com sabão.
Enxuguei-as com papel-toalha.
Peguei a tábua com o queijo e fui para a varanda.
Parte 4.
Dezessete minutos.
Todas as vinte e duas pessoas já estavam sentadas às mesas unidas em forma de “T”.
Sobre a toalha branca havia pratos com frios, saladas, jarras de compota e garrafas de vodca barata.
Zakhar estava sentado à cabeceira.
Ao lado dele estavam Vera Ignatyevna e Filipp.
Coloquei a tábua com o queijo no centro.
— Ah, o queijinho chegou, — anunciou Zakhar alegremente.
— Mãe, traga a carne!
— Está na hora do prato quente!
Vera Ignatyevna se levantou depressa e correu para a cozinha buscar a travessa com o churrasco.
Peguei um prato vazio que estava na beira da mesa e me sentei no único lugar livre, na ponta, perto da porta.
Minhas pernas latejavam.
Minhas costas doíam por eu ter passado uma hora inclinada sobre a pia.
Peguei o garfo.
Vera Ignatyevna trouxe uma enorme travessa de carne fumegante.
Ela a colocou no centro da mesa, bem diante de Zakhar.
— Então, ao feriado da família! — Zakhar ergueu o copinho.
— A nós!
Todos murmuraram alegremente e bateram os copos.
Zakhar começou a distribuir os pedaços de carne.
Para si mesmo, para Filipp, para tio Vitya.
A travessa estava longe de mim.
Levantei-me, estiquei o garfo, espetei um bom pedaço de porco bem assado e coloquei no meu prato.
Depois me sentei de novo e peguei a faca.
Só tive tempo de cortar um pedacinho.
Uma mão puxou bruscamente meu prato pela toalha de plástico.
O prato deslizou pela mesa com um rangido desagradável e parou perto de Zakhar.
Levantei os olhos.
Zakhar me olhava de cima para baixo.
Ele nem sequer estava com raiva.
Estava absolutamente certo do próprio direito.
— A criadagem come depois dos donos! — rugiu ele por toda a varanda.
Um silêncio caiu sobre a mesa.
Vinte e duas pessoas pararam de mastigar.
— Deixe os homens comerem primeiro, — acrescentou Vera Ignatyevna, servindo compota para Zakhar.
— Por que você se estica primeiro, Milena?
— Você espera.
Olhei para Filipp.
Meu marido, o homem com quem eu havia vivido oito anos, estava sentado à minha frente.
Ele baixou os olhos para o prato e deu um sorrisinho.
Apenas moveu o canto dos lábios.
O silêncio à mesa explodiu em risadas.
Tio Vitya riu.
Os sobrinhos deram risadinhas.
Tia Tonya baixou a cabeça e começou a cutucar atentamente a salada com o garfo.
Eles riam.
Sincera e alegremente.
Como diante de uma boa piada numa comédia.
Eu não gritei.
Não fiquei vermelha.
Dentro de mim, simplesmente, algum interruptor se desligou.
Olhei para o relógio de parede acima da porta.
Eram 15h10.
Levantei-me devagar.
A cadeira rangeu no assoalho.
As risadas começaram a morrer.
— Aonde você vai? — perguntou Zakhar com superioridade.
— Ficou ofendida, foi?
— Sente-se, não faça histeria.
— Brincamos e pronto.
Não respondi.
Fui até o armáriozinho junto à porta, onde estavam as chaves do meu carro.
As mesmas que ele havia mandado eu jogar sobre a mesa.
Peguei o chaveiro e o coloquei no bolso dos jeans.
O som das chaves caindo no bolso me pareceu muito alto.
— Sete mil e oitocentos rublos, — eu disse com voz uniforme.
— O quê? — Filipp não entendeu.
— Sete mil e oitocentos rublos custou a carne que você está comendo agora, Zakhar, — eu disse, apontando para o prato dele.
— Quatro mil foram os legumes e as frutas.
— Oitenta mil foi o conserto desta varanda onde vocês estão sentados, um mês atrás.
Zakhar parou de sorrir.
— Que diabos você está dizendo? — disse ele com ameaça na voz.
Passei por ele em direção ao centro da mesa.
Peguei a tábua de madeira com o meu queijo.
— Milena, pare de fazer cena na frente dos convidados! — indignou-se Vera Ignatyevna, tentando segurar minha mão.
— Este queijo é meu.
— Eu o fiz.
— Estou levando de volta, — respondi, contornando-a cuidadosamente, segurando a tábua.
— E também vou levar o vinho do porta-malas.
— Eu o comprei para a família.
— Mas aqui não está a minha família.
— Então que vá, — bufou Zakhar, recostando-se na cadeira.
— Histérica.
— Fil, diga à sua mulher para se acalmar.
Filipp se levantou.
— Milena, sério, você está exagerando.
— Sente-se, coma.
— Zakhar só falou uma besteira.
— Filipp, — olhei diretamente nos olhos do meu marido.
— Você transferiu para ele cem mil rublos do meu dinheiro.
— Você riu quando me chamaram de criadagem.
— Fique.
— Esta é a sua família.
— Comam.
Virei-me e fui para a saída.
— Ei! — Zakhar gritou atrás de mim.
— E quem vai mover o carro?
— O meu está bloqueado!
— Deixe as chaves!
Parei na varanda da entrada.
Virei-me.
O rosto de Zakhar estava vermelho.
Ele não entendia.
Ele realmente não entendia que tudo havia mudado.
Estava acostumado a eu engolir tudo.
— Chame um guincho, — eu disse.
Fui até o carro, abri o porta-malas, peguei a caixa com o queijo, sentei-me ao volante e liguei o motor.
Pelo retrovisor, vi Zakhar sair correndo para a varanda e gritar alguma coisa, agitando os braços.
Filipp estava atrás dele.
Engatei a marcha e saí do quintal.
No relógio do carro eram 15h27.
Dezessete minutos.
Parte 5.
O corredor vazio.
A cidade me recebeu com engarrafamentos do fim da tarde e cheiro de asfalto quente.
Dirigi em silêncio, sem ligar o rádio.
O apartamento cheirava a poeira e aromatizador de ambiente.
No corredor estavam os tênis de Filipp.
No cabideiro pendia sua jaqueta corta-vento.
Não comecei a juntar as coisas dele.
Não as joguei no corredor do prédio nem fiz uma cena teatral com malas.
Isso era desnecessário.
O apartamento pertencia a mim, e juridicamente ele ali era apenas um hóspede.
Amanhã chamarei um chaveiro e trocarei as fechaduras.
Hoje eu só quero silêncio.
Aproximei-me da porta de entrada.
Coloquei a chave na fechadura.
Girei duas voltas.
E deixei a chave presa por dentro.
Agora a porta não poderia ser aberta por fora, mesmo que Filipp tivesse sua própria chave.
O telefone vibrava no meu bolso.
Duas chamadas perdidas de Vera Ignatyevna.
Quatro de Filipp.
Uma mensagem de tia Tonya: “Você fez certo”.
Não respondi.
Coloquei o telefone sobre o móvel, com a tela virada para baixo.
Fui para a cozinha.
Sobre a bancada estava a tábua de madeira com aquele mesmo queijo que eu havia levado da dacha.
Cortei um pequeno pedaço de camembert.
Coloquei-o na boca.
O queijo estava em temperatura ambiente, cremoso, com uma leve nota de cogumelo.
Perfeito.
Eu estava em pé no meio da minha cozinha, mastigando queijo e olhando as luzes se acenderem do lado de fora da janela.
Amanhã haverá muitas conversas difíceis, divisão de bens e gritos dizendo que eu destruí a família.
Mas isso será amanhã.
Hoje eu simplesmente estou jantando.
Primeiro.
O que precisou se quebrar dentro de mim ao longo desses oito anos para que eu acreditasse que o amor precisava ser comprado com queijo e um telhado novo?







