Uma hora depois, ele saiu voando dali sem noiva e sem chaves.
— Olya, por que você está aí parada como se fosse uma estranha?

Mexa-se, vamos, cuide dos convidados.
Eu segurava nas mãos uma travessa com comida quente: coxas de frango assadas com batatas, preparadas para duas pessoas, aliás, porque eu e Stas tínhamos combinado de jantar a sós e conversar sobre o casamento.
Com calma.
Cardápio, convidados, orçamento — tudo aquilo que pessoas adultas discutem.
Mas chegaram quatro pessoas.
Sem telefonar.
Sem perguntar: “Podemos?”.
Simplesmente, às seis da tarde de sábado, a campainha tocou, e na porta estava Stas com sua mãe, Tamara Anatolyevna, seu pai, Viktor Sergeyevich, e sua irmã mais velha, Alla, com o marido dela, Dima.
— Surpresa! — disse Stas, beijando-me na bochecha.
— Conselho de família!
Naquele momento, eu ainda fiquei calada.
Sorri.
Deixei-os entrar.
Pensei: tudo bem, foi inesperado, mas vou preparar alguma coisa.
Na geladeira havia linguiça, eu tinha salgado arenque de manhã para o jantar, e as coxas de frango já estavam no forno.
Abri a garrafa de “Khortytsia” que o vizinho, tio Vitya, tinha me dado na semana anterior, quando consertei a chaleira dele através da parede.
Eles ficaram sentados por uma hora.
Tamara Anatolyevna examinou o apartamento e apertou os lábios.
Viktor Sergeyevich se sentou na minha poltrona junto à janela, a única onde deixo uma manta porque o estofado está gasto, e começou a folhear o meu livro que estava ali ao lado.
Alla e Dima se acomodaram no sofá, e Alla perguntou logo:
— Isso aí é papel de parede ou é um azulejo assim mesmo? — apontando para o revestimento da cozinha.
— Azulejo.
— Estranho.
Na nossa casa colocavam algo assim em dois mil e dez.
Também fiquei calada nessa hora.
Embora eu tivesse colocado aqueles azulejos no ano passado.
Sozinha.
Com nível.
E os azulejos eram normais, brancos, estilo metrô, nada “estranhos”.
Mas quando Stas disse “mexa-se, cuide dos convidados”, algo dentro de mim fez clique.
Bem baixinho.
Como um interruptor.
Coloquei a travessa sobre a mesa.
— Stas.
Pode vir comigo ao corredor por um minuto?
— Olya, depois, já estamos discutindo tudo aqui…
— Por um minuto.
Ele revirou os olhos de forma teatral, para os pais verem, como se dissesse: estão vendo como ela é mimada, mas se levantou.
Saímos para o corredor.
— Stas.
Você está na sua casa?
— Como assim?
— Literalmente.
De quem é este apartamento?
— Seu, claro.
E daí?
— Nada.
Só quero ter certeza de que nós dois lembramos disso.
Ele olhou para mim como se eu fosse idiota.
— Olya, por que você está nervosa?
Minha mãe e meu pai vieram, e Alla com Dima também.
É família!
Daqui a um mês é o casamento, precisamos nos conhecer melhor.
— Stas.
Conhecer-se melhor é quando avisam com antecedência.
E quando chegam com um bolo.
Não quando aparecem em seis pessoas sem telefonar.
— Em quatro.
— O quê?
— Eles são quatro, nós dois.
Seis no total.
Eu olhei para ele.
Sério.
Ele estava ali me corrigindo na aritmética.
Com toda a seriedade.
— Stas.
Volte para os seus.
Eu já vou.
Entrei na cozinha, não na sala com eles, mas na cozinha.
Fechei a porta.
Peguei o telefone.
Abri as notas.
E fiz o que deveria ter feito um mês antes, quando Tamara Anatolyevna me disse pela primeira vez ao telefone: “Olechka, o principal é que você nem pense em ter filhos logo.
Deixe o Stasik primeiro se firmar, ele ainda tem a hipoteca do carro.”
Hipoteca do carro.
De um “Granta”.
Naquela vez, eu também fiquei calada.
Então, nas notas, abri a lista.
Eu vinha mantendo aquela lista havia dois meses.
Não para fazer escândalo, mas para mim mesma.
Para entender no que eu estava me metendo.
A lista era assim:
— Stas mora comigo desde outubro.
Não paga mais aluguel, porque saiu da casa dele.
Não paga nem um rublo das minhas contas.
— Sou eu que compro comida.
Uma vez ele comprou cerveja e salgadinhos e disse: “Eu pago.”
— O carro dele está financiado.
Ele paga há três anos, ainda faltam mais dois.
— O anel que ele me deu.
De prata.
Eu fico calada.
Se é de prata, que seja de prata.
— Estamos planejando o casamento.
À custa de quem?
“Dividimos meio a meio.”
Vestido, restaurante, mestre de cerimônias: meio a meio.
O carro para o casamento: meu “Solaris”, porque o “Granta” dele “não é adequado para cerimônia”.
— O apartamento é meu.
Comprei sozinha, paguei a hipoteca por oito anos e quitei há dois anos.
Eu olhava para aquela lista e pensava: Olya, você é mesmo uma boba.
Você não é uma menina.
Tem trinta e cinco anos.
Viveu oito anos sozinha depois do primeiro divórcio, e viveu bem.
E agora isso simplesmente caiu sobre você.
Da sala veio a voz de Tamara Anatolyevna:
— Stasik, onde está a sua?
O frango está esfriando.
“Stasik”.
Claro.
Abri a porta da cozinha e saí para a sala.
Com calma.
Sem a travessa.
— Caros convidados.
Agora vou pedir que se vistam e vão para casa.
Silêncio.
Apenas Viktor Sergeyevich virou uma página do meu livro, mecanicamente.
— O quê? — perguntou Tamara Anatolyevna.
— O jantar acabou.
Por favor, vistam-se.
Vocês estão de carro lá embaixo?
Chegarão bem.
Alla se levantou um pouco:
— Olya, você está em seu juízo perfeito?
— Absolutamente.
Pela primeira vez em seis meses.
Stas apareceu correndo do corredor:
— Olya, o que você está fazendo?!
— Stas.
Você também.
Vista-se.
— Eu moro aqui!
— Você mora aqui porque eu convidei.
Estou retirando o convite.
Vou trazer suas coisas agora.
E fui para o quarto.
Abri o armário.
Peguei a bolsa esportiva dele, grande e azul, com a qual ele chegou em outubro.
Joguei lá dentro tudo o que era dele: três camisas, jeans, meias, barbeador, um livro dele sobre “sucesso de sucesso”, carregador de celular.
Em silêncio.
Rápido.
Em uns cinco minutos terminei.
Levei a bolsa para o corredor.
Coloquei perto da porta.
Os convidados estavam de pé.
De casaco.
Tamara Anatolyevna estava vermelha como um tomate, Viktor Sergeyevich estava calmo, como se aquilo nem tivesse nada a ver com ele.
Alla estava de boca aberta.
Dima era o único que, na minha opinião, estava contente.
Fiz um aceno silencioso para ele.
Ele respondeu com outro aceno silencioso.
Um bom homem, sem sorte com a esposa.
Stas estava parado no meio do corredor, piscando sem entender.
— Olya.
Olya, você vai se arrepender.
Você está falando sério?
Por causa do quê?
Porque eu pedi para você cuidar dos convidados?
— Stas.
Não é por causa disso.
É por causa de tudo.
— Tudo o quê?!
— Stas.
Você mora comigo há seis meses.
Não colocou um centavo neste apartamento.
Eu pago as contas, eu compro comida, eu cozinho, eu lavo.
Nós dividimos o casamento ao meio, mas você convidou quarenta pessoas, e eu convidei doze.
O restaurante foi escolhido pela sua mãe, em um bairro onde eu nunca estive.
Você criticou meu vestido, disse que era “simples demais”.
Você me deu um anel de prata.
Planeja usar o meu carro no casamento.
E hoje seus pais vieram à minha casa sem telefonar, e você, dentro do meu apartamento, me deu a ordem: “mexa-se”.
Respirei fundo.
— Stas, eu não deixei de amar você.
Eu deixei de respeitar você.
E isso, sabe, é pior.
Tamara Anatolyevna abriu a boca:
— Ora, sua…!
Qualquer mulher para o Stasik…
— Tamara Anatolyevna.
Qualquer mulher, por favor.
Stasik está à sua disposição.
Leve-o de volta para sua casa.
E ajude-o a terminar de pagar o “Granta”.
Vocês têm uma casa nos arredores de Moscou, vendam a dacha, quem sabe.
Viktor Sergeyevich soltou um riso baixo.
Olhei para ele e percebi que ele estava sorrindo.
Baixinho.
Para si mesmo.
— Vamos, Toma — disse ele.
— A moça está falando com razão.
— Vitya!
— Eu disse vamos.
E eles saíram.
Alla foi atrás deles.
Dima ficou um instante na porta e me disse baixinho:
— Desculpe por tudo isso.
— Obrigada por não ter participado.
Ele assentiu e foi embora.
Stas ficou.
Com a bolsa aos pés.
— Olya.
Espere.
Vamos conversar.
Eu me exaltei, não pensei, eu…
— Stas.
As chaves.
— O quê?
— As chaves do meu apartamento.
Entregue.
— Olya…
— As chaves.
Ele tirou lentamente o molho de chaves do bolso.
Removeu minhas duas chaves, a da fechadura de cima e a da fechadura de baixo.
Colocou-as sobre o aparador.
— Olya.
Eu te amo.
— Stas.
Eu acredito em você.
Só que esse não é o amor de que eu preciso.
Adeus.
Ele saiu.
Fechei a porta.
Com as duas fechaduras.
Coloquei a corrente, pela primeira vez em seis meses.
Fiquei parada no corredor por uns cinco minutos, encostada na porta.
Não chorei.
Apenas fiquei ali.
Depois fui para a cozinha.
O frango no forno tinha esfriado, mas tudo bem, dava para esquentar.
As batatas também.
O arenque estava intocado, pelo visto nenhum deles gostava.
E graças a Deus, não vai sobrar para eles.
Servi-me de uma dose de “Khortytsia”.
Brindei comigo mesma, batendo o copo na quina da mesa.
Bebi.
Comi arenque como acompanhamento.
Liguei a televisão.
Passava alguma série, eu nem prestava atenção.
Era só para ter som.
Para não ficar silêncio demais.
E sabe o que eu pensei?
Pensei: ainda bem que ele disse “mexa-se” hoje.
E não daqui a um mês, depois do cartório.
Porque depois do cartório talvez eu tivesse mesmo me mexido.
Por hábito.
Por inércia.
Mas hoje, hoje eu ainda não sou esposa.
Hoje eu ainda sou dona.
Do meu apartamento, da minha vida, do meu frango no forno.
E sabe de uma coisa?
O frango ficou de lamber os dedos.
Claro, foi uma pena comer sozinha.
Mas guardei na geladeira.
Vai dar para amanhã.
E para depois de amanhã.
E talvez amanhã eu convide o tio Vitya: ele é um homem solitário, e consertou minha chaleira.
Por que isso não seria um bom motivo?
E o casamento, vamos cancelar.
Nem vou ligar para Stas.
Ele vai entender sozinho.
Afinal, ele tem uma mãe inteligente: Tamara Anatolyevna.
Ela vai explicar para ele.
Servi-me de uma segunda dose.
E desta vez não brindei.
Apenas bebi.
Pela liberdade.







