🔆 — Quem é você para dar ordens? Eu sou o futuro marido da sua irmã, minha mãe vai morar aqui, — ele não devia ter dito isso, uma bofetada e um nariz quebrado…

Marina apertou o botão do interfone três vezes — ninguém respondeu.

Ela ligou para Vera, mas ela rejeitou a chamada e enviou uma mensagem: “A chave está debaixo do tapete, vou chegar em uma hora, por favor, entre”.

Era um pedido estranho vindo de uma pessoa que deveria estar esperando a irmã na estação.

A chave realmente estava debaixo do tapete.

Marina a pegou, girou-a na fechadura e empurrou a porta.

No hall havia dois pares de chinelos estranhos, no cabide pendia um casaco desconhecido, e no chão havia uma mala aberta com coisas meio desarrumadas.

Da cozinha vinha o som de água correndo.

Marina deixou sua bolsa e caminhou pelo corredor.

À mesa da cozinha estava sentada uma mulher de uns cinquenta e cinco anos, usando um roupão bege, bebendo kefir de uma caneca grande.

— Bom dia — disse Marina.

— Eu sou irmã da Vera.

— E a senhora, quem é?

A mulher ergueu os olhos, olhou Marina dos pés à cabeça e tomou mais um gole.

— Tamara Grigorievna — respondeu ela, sem se levantar.

— Mãe de Anton.

— Muito prazer.

— A senhora veio visitar?

— Vim morar aqui.

Marina encostou-se no batente da porta.

Ela não entendeu de imediato se tinha ouvido corretamente.

Depois sorriu — suavemente, como sempre sorria quando a situação ainda parecia poder ser resolvida sem palavras desnecessárias.

— Morar aqui é uma palavra forte.

— Por quanto tempo pretende ficar?

— Para sempre.

Do quarto saiu uma adolescente de shorts curtos e camiseta com a inscrição em cirílico “Não toque”.

Ela mordia uma maçã e olhava para Marina sem interesse.

— Esta é minha filha Dasha — disse Tamara Grigorievna.

— Conheça, Dasha, esta é a irmã da Vera.

— Aham — Dasha assentiu e se sentou em frente à mãe.

Marina examinou lentamente a cozinha.

No parapeito da janela havia vitaminas desconhecidas e potinhos com alguns suplementos.

Na geladeira apareceram ímãs que Vera certamente não havia comprado.

No escorredor havia louças que Marina via pela primeira vez.

— Tamara Grigorievna, diga-me, por favor.

— Vera sabe que vocês estão aqui?

— Anton decidiu tudo.

— Isso não responde à minha pergunta.

— Vera sabe?

Tamara Grigorievna olhou para a filha.

Dasha deu de ombros.

Tamara Grigorievna terminou o kefir, colocou a caneca na pia e se virou.

— Escute, Marina, ou seja lá qual for o seu nome, eu não sou obrigada a prestar contas a você.

— Anton deu as chaves, Anton nos trouxe.

— Se alguma coisa não lhe agrada, fale com Anton.

— Eu vou falar.

— Mas primeiro quero entender a dimensão da situação.

— Vocês já colocaram suas coisas nos armários?

— E onde eu deveria colocá-las, jogar no chão?

Marina saiu para o corredor e abriu a porta do quarto de Vera.

O armário estava meio cheio de roupas estranhas.

Na mesinha de cabeceira havia óculos de leitura de alguém, um bloco de notas e um controle remoto de uma televisão que Vera não havia comprado — ele estava sobre a cômoda, novo, ainda com etiqueta.

No pequeno quarto, que antes era o escritório de Vera, agora havia um colchão inflável coberto com uma manta xadrez.

Sobre o colchão estavam jogados fones de ouvido, um carregador de celular e uma revista de adolescente.

Marina pegou o telefone e ligou para Vera.

— Verochka, explique-me com calma, por favor.

— O que está acontecendo aqui?

Houve silêncio na linha por uns cinco segundos.

— Marinka, me perdoe — a voz da irmã estava fina, sufocada.

— Anton as trouxe há três dias.

— Disse que era temporário, enquanto durasse a reforma.

— Mas ontem Tamara Grigorievna disse que não havia reforma nenhuma e que elas ficariam.

— E você ficou calada?

— Eu não fiquei calada.

— Eu falei com Anton.

— Ele disse que eu devia demonstrar respeito pela família dele.

— Disse que, como vamos nos casar em breve, esta é uma moradia comum.

— O apartamento está no seu nome?

— Claro.

— Então por que você só me ligou ontem, e não no mesmo dia em que elas apareceram?

— Porque eu achei que conseguiria resolver sozinha.

Marina fechou os olhos.

Ela conhecia aquela entonação.

Vera sempre falava assim quando se sentia culpada pelo comportamento dos outros.

Ela havia herdado isso do pai — uma disposição infinita de acreditar que as pessoas cairiam em si.

— Está bem — disse Marina.

— Não venha.

— Não apareça aqui pelo menos até a noite.

— Eu vou resolver.

— Marinka, só sem escândalo, por favor.

— Vera, eu não faço escândalos.

— Eu resolvo problemas.

Marina voltou para a cozinha.

Tamara Grigorievna lavava a caneca, e Dasha folheava algo no telefone.

Era por volta das dez da manhã, e o sol já estava alto — julho não tinha piedade.

— Tamara Grigorievna, vamos conversar — disse Marina, sentando-se à mesa.

— Eu não quero conflito, e tenho certeza de que a senhora também não.

— Mas preciso entender a situação.

— Eu já expliquei tudo.

— Não.

— A senhora disse três palavras e me mandou procurar Anton.

— Mas Anton não mora aqui, e a senhora mora.

— Por isso estou falando com a senhora.

Tamara Grigorievna enxugou as mãos em uma toalha e se virou para Marina.

Não havia hostilidade em seu rosto — havia outra coisa.

Indiferença.

Uma indiferença completa, polida, como a de pessoas acostumadas a que alguém sempre decida tudo por elas.

— Meu filho vai se casar com sua irmã — disse Tamara Grigorievna.

— Seremos uma família só.

— Vou morar perto do meu filho.

— Perto significa em outra casa.

— Ou em um hotel.

— Ou no seu próprio apartamento.

— Pelo que sei, a senhora tem um apartamento de dois quartos.

— Como você sabe do meu apartamento?

— Minha irmã contou.

— E por que Vera conta a estranhos sobre minha propriedade?

— Eu não sou uma estranha.

— Sou irmã dela.

— E daí?

— Ser irmã não significa ser dona.

Marina sentiu a paciência começar a se desfazer pelas bordas, mas manteve o tom.

— Tamara Grigorievna, vou tentar mais uma vez.

— A senhora se mudou para o apartamento de outra pessoa sem o consentimento da proprietária.

— Seu filho não tem o direito de distribuir chaves de uma moradia alheia.

— Vera é a proprietária.

— A senhora não está registrada aqui, não tem residência aqui e não foi convidada pessoalmente por ela.

— Anton convidou.

— Pare.

— Anton não tem essa autoridade.

— Ele é meu filho.

— Essa é uma ótima característica.

— Mas ela não lhe dá o direito de dispor do apartamento da noiva.

Dasha tirou os olhos do telefone e olhou para Marina com desafio.

— E quem é você para nos mandar fazer alguma coisa?

— Chegou de outra cidade e está dando ordens.

— Dasha, estou falando com sua mãe.

— Quando eu precisar da sua opinião, vou pedi-la.

— Eu não vou esperar até que peçam.

— Vai ter que esperar.

— Você tem dezesseis anos.

— Espere até os adultos terminarem.

Dasha ficou vermelha e abriu a boca, mas Tamara Grigorievna colocou a mão em seu ombro.

Em silêncio.

Dasha se calou, mas continuou cravando o olhar em Marina.

— Muito bem — disse Marina.

— Vejo que uma conversa pacífica não lhes convém.

— Vamos esperar Anton.

— Pode ligar para ele?

— Anton está ocupado.

— Então eu mesma ligo.

Marina discou o número de Anton.

Os toques demoraram, depois ele atendeu.

— Sim, estou ouvindo.

— Anton, bom dia.

— Aqui é Marina, irmã de Vera.

— Estou no apartamento de Vera.

— Sua mãe e sua irmã estão aqui.

— Explique-me, por favor, o que está acontecendo.

— O que há de incompreensível?

— Elas vieram.

— Vão morar conosco depois do casamento.

— “Conosco” significa com quem?

— Comigo e com Vera.

— Nós vamos nos casar, se você esqueceu.

— Eu não esqueci.

— Mas o apartamento de Vera tem dois quartos e um escritório.

— Não há espaço aqui para quatro pessoas.

— Vamos dar um jeito.

— Isso é assunto nosso, de família.

— Anton, escute-me.

— Sua mãe tem o próprio apartamento.

— De dois quartos.

— Por que ela precisa morar no de outra pessoa?

Anton ficou em silêncio.

Depois respondeu — e pela voz dava para perceber que ele sorria.

É assim que sorriem as pessoas convencidas de que o interlocutor não pode mudar nada.

— Decidimos alugar aquele apartamento.

— A renda será dividida ao meio, entre mim e minha mãe.

— E vamos morar todos aqui.

— Vera concordou.

— Vera não concordou.

— Ela não se opôs.

— Não se opor e concordar são coisas diferentes, Anton.

— Escute, Marina, isso não é da sua conta.

— Você veio para o casamento, então cuide dos assuntos do casamento.

— As questões domésticas nós resolveremos sozinhos.

— Entendi.

Marina desligou.

Ela olhou para a tela por alguns segundos.

Depois guardou o telefone no bolso e se virou para Tamara Grigorievna.

— Então o plano é este: vocês alugam o próprio apartamento, dividem o dinheiro com seu filho e moram de graça na casa da minha irmã.

— Correto?

— É uma decisão de família.

— De qual família?

— Vera soube dessa “decisão” depois do fato consumado.

— Anton sabe o que faz.

A campainha tocou.

Marina estremeceu — não esperava ninguém.

Tamara Grigorievna levantou-se e foi abrir, movendo-se com segurança, como dona da casa, como se aquela fosse sua entrada, sua fechadura e sua soleira.

No limiar estava uma jovem de cerca de vinte e cinco anos.

Cabelos claros, jaqueta jeans, mochila em um ombro.

Ela sorriu para Tamara Grigorievna e lhe entregou uma sacola.

— Tamara Grigorievna, aqui está, como a senhora pediu — trouxe roupa de cama e toalhas.

— Obrigada, Polinochka.

— Entre, não fique aí parada.

Marina estava no corredor e observava a desconhecida Polinochka tirar os tênis e colocá-los certinhos junto à parede.

Observou-a tirar da mochila outra sacola — com mantimentos.

Observou-a entrar na cozinha, abrir a geladeira e começar a arrumar iogurtes nas prateleiras.

— Desculpe — disse Marina.

— E você é quem?

Polina virou-se.

O sorriso em seu rosto congelou por um segundo, depois voltou a florescer — regular, educado, automático.

— Sou Polina.

— Amiga da Dasha.

— Amiga da Dasha — repetiu Marina.

— A amiga da Dasha traz roupa de cama para a mãe de Anton no apartamento da minha irmã?

— Tamara Grigorievna pediu ajuda com a mudança.

— Com a mudança — Marina assentiu.

— Certo.

— Muito interessante.

Tamara Grigorievna estava ao lado e olhava para o lado.

Dasha sorria — brevemente, quase imperceptivelmente.

Marina voltou-se para Polina.

— Polina, há quanto tempo você conhece a família de Anton?

— Uns cinco anos.

— Cinco anos.

— Conhece Vera?

— Não.

— Nunca nos cruzamos.

— Curioso.

— Conhece a família do noivo há cinco anos, mas nunca viu a noiva.

Polina não respondeu nada.

Ela colocou o último iogurte na prateleira e fechou a geladeira.

Marina percebeu como Tamara Grigorievna olhou para Polina — rápido, avaliador, quase carinhoso.

Não se olha assim para a amiga da filha.

Olha-se assim para uma opção reserva.

— Tamara Grigorievna — disse Marina em voz baixa.

— Ela não é amiga da Dasha.

— O que você está inventando?

— Não estou inventando nada.

— Polina é o plano B de vocês.

— Aquela que vocês gostariam de ver ao lado do seu filho no lugar de Vera.

— Ou estou enganada?

Dasha deu um salto.

— Você é completamente louca!

— Que plano?

— Que “B”?

— Polina é minha amiga!

— Sente-se — disse Marina.

— Sente-se e fique calada.

— Não vou ficar calada na minha própria casa!

— Esta não é sua casa.

— É o apartamento da minha irmã.

Polina estava junto à geladeira, torcendo uma sacola vazia nas mãos.

Tamara Grigorievna sentou-se à mesa e cruzou as mãos diante de si — cuidadosamente, como em uma entrevista de emprego.

Dasha ficou junto à parede, com o rosto retorcido de ofensa.

Marina olhou para aquela cena e sentiu algo quente e pesado começar a subir dentro dela.

Não era mágoa — era raiva.

Pura, clara, sem mistura.

— Agora vou dizer como tudo vai acontecer — pronunciou Marina.

— E direi apenas uma vez.

— Você não está em posição de impor condições — respondeu Tamara Grigorievna.

— Estou exatamente nessa posição.

— O apartamento pertence a Vera.

— Vera é minha irmã.

— Vera me pediu para resolver este problema.

— Eu vou resolvê-lo.

— E Anton?

— Anton não é proprietário.

— Anton é um convidado a quem foi dada uma chave por confiança.

— Ele abusou dessa confiança.

— O assunto está encerrado.

Tamara Grigorievna sorriu com desdém — de forma fina, com um canto da boca.

— Você acha que tudo é tão simples assim?

— Nós já moramos aqui.

— As coisas já estão arrumadas.

— Anton tomou uma decisão.

— Anton tomou uma decisão alheia sobre um apartamento alheio.

— Isso não é decisão, é arbitrariedade.

— Palavras bonitas.

— Só que Vera não vai dizer nada.

— Ela é dócil.

— Ela vai engolir tudo.

Marina sentiu os dentes se apertarem.

Era isso.

Era com isso que eles contavam.

Com a docilidade de Vera.

Com sua incapacidade de dizer “não”.

Com seu medo de ofender.

Com sua maldita delicadeza, por causa da qual todos os que queriam se aproveitavam dela.

— Vera não vai dizer nada — assentiu Marina.

— Eu direi.

Ela foi até o armário no corredor, abriu-o e começou a tirar roupas estranhas dos cabides.

Vestidos, blusas, casacos — tudo voou para o chão.

Depois pegou a mala vazia debaixo da cama e começou a arrumar.

— O que você está fazendo? — Tamara Grigorievna levantou-se.

— Pare imediatamente!

— Estou juntando suas coisas.

— Vocês vão embora.

— Eu não vou a lugar nenhum!

— Vai.

— Em quinze minutos.

Dasha correu até a mala e tentou puxar as coisas de volta.

Marina segurou seu pulso — sem machucar, mas com firmeza.

— Não toque — disse Marina.

— Melhor se afastar.

— Você não tem direito — começou Dasha.

— Tenho.

— Afaste-se da mala.

Dasha recuou.

Seus olhos estavam molhados, mas não de dor — de impotência.

Ela não estava acostumada a ouvir um “não” daquele jeito — sem gritos, sem persuasões, simplesmente como um fato.

Polina moveu-se silenciosamente em direção à porta.

— Polina, espere — chamou Marina.

— Você também vai ajudar a carregar as coisas.

— Já que trouxe, é lógico que também leve embora.

— Eu não vou participar disso.

— Então simplesmente desapareça.

— Antes que se torne cúmplice.

— Fora daqui.

Polina olhou para Tamara Grigorievna.

Ela fez um gesto com a mão — vá.

Polina escapuliu para o corredor e, um segundo depois, a porta de entrada bateu.

Marina continuou a juntar as coisas.

Metodicamente, sem pressa.

Do banheiro — escovas de dentes, xampus, creme para as mãos.

Da cozinha — vitaminas, kefir, a caneca estranha.

Do pequeno quarto — colchão inflável, manta, fones, revistas.

Tamara Grigorievna ficou parada à porta do quarto, olhando.

Ela não se mexia.

Não tentava impedir.

Ela esperava Anton — isso era claro pelo modo como de vez em quando lançava olhares ao telefone.

— Pode ligar para seu filho — disse Marina, sem se virar.

— Mas quando ele chegar, vocês já estarão no patamar da escada.

— Você vai se arrepender disso.

— Não hoje.

Tamara Grigorievna ligou para Anton.

Falou de modo breve, irritado, em voz baixa.

Marina ouviu fragmentos: “venha”, “está nos expulsando”, “escândalo”.

Depois Tamara Grigorievna guardou o telefone e se endireitou.

— Anton estará aqui em vinte minutos.

— Ótimo.

— Dá tempo de se vestir.

Marina levou a primeira mala para o patamar.

Depois a segunda — aquela que estava no hall desde o início.

Depois a sacola com a roupa de cama que Polina havia trazido.

Depois a televisão — tirou-a da cômoda e colocou-a perto do elevador.

Tamara Grigorievna trocou de roupa.

Ela estava no hall usando aquele mesmo casaco do cabide e olhava para Marina.

Seu rosto era impenetrável, mas as mãos tremiam levemente.

— Você está cometendo um erro — disse ela.

— Anton não vai perdoar.

— Anton não é meu noivo.

— E se Vera for inteligente, em breve deixará de ser o noivo dela também.

— Vera sem ele não é ninguém.

Marina parou.

Colocou a sacola no chão.

Aproximou-se muito de Tamara Grigorievna.

— Repita — disse ela em voz baixa.

— O quê?

— Repita o que acabou de dizer sobre minha irmã.

Tamara Grigorievna ficou calada.

Depois desviou o olhar.

— Eu quis dizer outra coisa.

— Não.

— A senhora quis dizer exatamente o que disse.

— E eu vou me lembrar disso.

— Agora, fora.

Dasha saiu primeiro — em silêncio, de dentes cerrados, com a mochila no ombro.

Tamara Grigorievna saiu em seguida, mas parou no limiar e se virou.

— Vera vai saber como você tratou a futura família dela.

— Vera sabe como a futura família dela a tratou.

Marina fechou a porta.

Girou a chave na fechadura.

Encostou-se na parede e soltou o ar — longa e profundamente.

Os joelhos tremiam um pouco, mas sua cabeça estava clara como vidro lavado.

Passaram-se doze minutos.

Então a campainha tocou — longa, insistente, irritada.

Marina abriu.

Anton estava no limiar.

Atrás dele, Tamara Grigorievna com o rosto de pedra e Dasha com os olhos vermelhos.

As coisas estavam amontoadas perto do elevador.

— O que você pensa que está fazendo? — disse Anton.

Ele entrou sem pedir permissão.

Foi até o quarto, examinou o armário vazio, a cômoda vazia, o cômodo vazio.

Depois voltou para Marina.

— Coloque tudo de volta no lugar.

— Não.

— Eu disse para colocar de volta.

— E eu disse não.

— Este é o apartamento de Vera.

— Sua mãe e sua irmã estavam aqui sem o consentimento dela.

— Eu pedi que fossem embora.

— Elas foram.

— O assunto está encerrado.

— Que história é essa de “assunto encerrado”?

— Vera é minha noiva!

— Noiva, não escrava.

— Uma noiva é alguém com quem se conversa, não alguém em cuja casa se colocam moradores sem perguntar.

Anton deu um passo em sua direção.

Ele era uma cabeça mais alto e mais largo nos ombros.

Seus olhos ardiam — nem tanto de raiva, mas de algo mais primitivo.

Orgulho ferido.

Disseram “não” a ele, e ele não sabia o que fazer com aquele “não”.

— Você está se metendo onde não deve.

— Minha irmã é assunto meu.

— Vera tem a mim.

— Ela é minha esposa.

— Ela ainda não é sua esposa.

— E, a julgar pelo dia de hoje, talvez nunca seja.

— Você está me ameaçando?

— Não.

— Estou constatando.

Anton deu mais um passo.

Marina não recuou.

Ela ficou ereta, olhando nos olhos dele, e em seu olhar não havia medo nem desafio — apenas uma disposição calma e medida para o que viesse a seguir.

— Saia deste apartamento — disse ela.

— Pegue suas coisas e leve sua mãe e sua irmã para sua casa.

— Ou para a casa delas, o apartamento de dois quartos que você tanto sonha em alugar.

— Cale a boca.

— Não.

Anton agarrou-a pelo ombro e a puxou em direção à porta.

Marina bateu as costas na parede.

A blusa rasgou na costura da manga.

Anton puxou de novo — com mais força.

Marina caiu sobre um joelho, mas se levantou imediatamente.

Sua bochecha ardia — ele a atingira com o dorso da mão.

— Você acabou de bater em uma mulher — disse Marina.

— Em um apartamento que não lhe pertence.

— Antes do casamento com a irmã dela.

— Parabéns.

Anton ficou imóvel.

Suas mãos ainda estavam erguidas, os dedos cerrados.

Ele olhou para a própria mão, depois para Marina.

Para a manga rasgada.

Para o hematoma que começava a se formar sob a maçã do rosto.

— Eu não quis — murmurou ele, rouco.

— Claro que não quis.

— Ninguém nunca quer.

— Simplesmente acontece.

Marina passou por ele até a porta e a escancarou.

Tamara Grigorievna estava no patamar e tinha visto tudo — a porta estivera aberta o tempo todo.

E não disse nada.

Não impediu o filho.

Não gritou.

Apenas ficou parada, olhando.

— Fora — disse Marina a Anton.

— Os três.

— Agora.

Anton saiu.

Ele se movia pesadamente, como se as pernas tivessem se tornado estranhas.

No patamar, virou-se.

— Vou falar com Vera.

— Fale.

— Mas aviso: Vera verá este hematoma.

— E esta manga.

— E eu contarei a ela cada palavra que foi dita aqui.

— Cada uma.

Marina fechou a porta.

Trancou com duas voltas.

Pegou o telefone e tirou fotos de si mesma — o hematoma, a blusa rasgada, o arranhão no joelho.

Enviou as fotos para seu próprio e-mail.

Depois sentou-se em um banquinho no corredor e ligou para Vera.

— Pronto — disse ela.

— Eles foram embora.

— O apartamento está livre.

— Venha amanhã de manhã.

— Não hoje — amanhã.

— Preciso limpar.

— Marinka, o que aconteceu?

— Sua voz está estranha.

— Conto tudo amanhã.

— Venha.

— Marina, ele encostou em você?

Marina ficou em silêncio por três segundos.

— Venha amanhã, Verochka.

— Prometo que vou contar.

Ela desligou e apertou o telefone contra o peito.

Na cozinha, fazia tique-taque o relógio que Vera havia pendurado no ano anterior — redondo, de madeira, com uma coruja desenhada.

Marina olhava para a coruja e pensava que sua mãe e seu pai haviam morrido seis anos antes, e desde então Vera era tudo o que ela tinha.

E alguém decidiu que podia entrar na casa dela, espalhar seus pertences e viver em seu território, e depois bater em sua irmã por ela ter pedido que fossem embora.

Marina levantou-se, foi à cozinha e começou a lavar a caneca estranha que esquecera de colocar para fora.

Lavou, secou e colocou perto da porta — eles viriam buscar.

A manhã estava clara, quente, insuportavelmente de verão.

Marina abriu a porta para Vera às sete horas.

Vera entrou, olhou para a irmã e ficou imóvel.

— Foi ele? — perguntou ela.

— Sim.

Vera ergueu a mão e tocou cuidadosamente o hematoma na maçã do rosto de Marina.

Depois olhou para a blusa rasgada, que Marina não havia trocado de propósito — para que Vera visse.

— Conte tudo — disse Vera.

— Desde o começo.

Marina contou.

Sobre Tamara Grigorievna de roupão.

Sobre Dasha com a maçã.

Sobre as coisas estranhas no armário, a televisão sobre a cômoda e as vitaminas no parapeito da janela.

Sobre Polina, que trouxera roupa de cama e arrumara iogurtes na geladeira.

Sobre a conversa com Anton pelo telefone — “alugar o apartamento, renda dividida ao meio”.

Sobre as palavras de Tamara Grigorievna: “Vera sem ele não é ninguém”.

Sobre como Anton a agarrou pelo ombro, puxou e bateu nela.

Sobre como Tamara Grigorievna ficou no patamar olhando.

Vera ouviu em silêncio.

Ela não interrompeu, não suspirou, não chorou.

Seu rosto mudava lentamente — como muda o tempo nas montanhas.

Primeiro, confusão.

Depois, incredulidade.

Depois, algo duro, desconhecido, que Marina nunca havia visto antes no rosto da irmã.

— Dê-me o endereço dele — disse Vera.

— Você sabe o endereço dele.

— Sim.

— Eu sei.

Vera virou-se e saiu.

Marina foi atrás — sem perguntar, sem impedir.

Elas chegaram à esquina e dobraram na rua vizinha.

O apartamento de Anton ficava a cinco minutos a pé — ele alugava ali perto de propósito, para estar mais próximo de Vera.

Vera tocou a campainha.

Anton abriu — de calça caseira e camiseta amassada.

Ele não teve tempo de dizer nada.

Vera bateu-lhe no rosto com a palma da mão.

O som foi seco e curto.

Anton recuou.

— Vera, espere…

Ela bateu de novo — com a mão aberta no nariz.

Com força, precisão e toda a energia que havia em sua mão magra.

O sangue jorrou do nariz.

Anton cobriu o rosto com a mão e se curvou.

— Vera! — gritou Tamara Grigorievna do fundo do apartamento.

Vera entrou.

Ela se movia rapidamente — não corria, não caminhava, mas avançava como uma pessoa que ainda tinha algo importante a fazer e nem um minuto sobrando para isso.

Tamara Grigorievna vinha ao seu encontro pelo corredor.

Vera viu a poltrona junto à parede — leve, com rodinhas — e a empurrou com força.

A poltrona rolou pelo corredor e bateu nas pernas de Tamara Grigorievna.

Ela gemeu e se agarrou à parede.

Dasha saiu correndo do quarto, viu Vera e recuou.

— Sente-se — disse Vera a ela.

Sua voz era baixa, uniforme, absolutamente irreconhecível.

Dasha se sentou.

Vera voltou-se para Anton.

Ele estava de pé, pressionando uma toalha contra o nariz.

O sangue pingava na camiseta.

Seus olhos estavam perdidos, assustados, infantis.

— Não haverá casamento — disse Vera.

— Vera, você não entende…

— Eu entendo perfeitamente.

— Você deu as chaves do meu apartamento à sua mãe sem meu conhecimento.

— Você decidiu alugar o apartamento dela e colocar o dinheiro no seu bolso.

— Você trouxe para minha casa pessoas que eu não convidei.

— Eu disse que não concordava, mas você não me ouviu.

— E quando minha irmã tentou impedir isso, você bateu nela.

— Eu entendo tudo, Anton.

— Entendo tão bem que me dá náusea.

— Eu me exaltei.

— Com Marina, foi um acidente.

— Acidente é quando se deixa cair uma xícara.

— Quando se bate em uma mulher, isso é uma escolha.

— A sua escolha.

— Eu amo você.

— Não.

— Você ama meu apartamento.

— E uma esposa obediente que vai alimentar sua família e ficar calada.

— Isso você não terá mais.

Vera tirou o anel do dedo — simples, de prata, de noivado.

Colocou-o na prateleira do hall.

Ao lado de chaves alheias, luvas alheias e uma vida alheia à qual tentavam prendê-la sem perguntar.

— Vera — Tamara Grigorievna endireitou-se, esfregando o joelho machucado.

— Anton é um bom rapaz.

— Ele se exaltou.

— Qualquer mulher normal entenderia.

Vera olhou para ela.

— Tamara Grigorievna, sabe o que é mais terrível?

— Não é o fato de ele ter batido na minha irmã.

— É o fato de a senhora ter ficado parada olhando.

— A senhora poderia tê-lo impedido.

— Poderia ter dito: “Filho, chega”.

— Mas ficou parada.

— Porque aproveitou aquele momento como uma sádica.

— Porque, se ele quebrasse Marina, depois quebraria a mim também, e vocês viveriam no meu apartamento até o fim dos seus dias, enquanto alugariam o de vocês a estranhos.

— Eis todo o amor.

— Eis todo o “bom rapaz”.

Nos olhos de Tamara Grigorievna passou algo parecido com a compreensão de que a parede na qual ela se apoiava acabara de desmoronar.

Vera virou-se para Dasha.

— E a você, Dasha, direi uma coisa.

— Você tem dezesseis anos.

— Ainda tem tempo de crescer e se tornar uma pessoa normal.

— Mas, se seguir o exemplo desses dois, não vai conseguir.

Dasha ficou sentada em silêncio.

Ela olhava para Vera como se olha para uma pessoa que se vê pela primeira vez — embora a conhecesse havia um ano.

Vera saiu do apartamento.

Desceu as escadas sem esperar o elevador.

Empurrou a pesada porta do prédio e saiu para a rua.

Marina estava junto aos degraus.

Ela esperava — com as mãos nos bolsos e um hematoma na bochecha.

Vera aproximou-se dela.

Parou.

Olhou de baixo para cima — ela sempre fora meia cabeça mais baixa.

Depois encostou a testa no ombro de Marina e chorou.

Brevemente, em uma inspiração, em uma expiração.

Sem palavras, sem explicações.

Apenas se permitiu desabar.

Um minuto depois, endireitou-se.

Enxugou o rosto com o dorso da mão.

Olhou para Marina.

— Estou com fome — disse ela.

— Eu também — respondeu Marina.

— Vamos tomar café da manhã?

— Vamos.

Elas seguiram pela rua — lado a lado, ombro a ombro.

Vera disse algo sobre panquecas, Marina respondeu algo sobre omelete, e as duas riram — ao mesmo tempo, alto, de modo que um homem com um cachorro e uma mulher com um carrinho de bebê se viraram.

Anton saiu do prédio três minutos depois.

Ele caminhava atrás delas — lentamente, com a toalha contra o rosto, com o nariz quebrado e os planos destruídos.

Ele via as costas delas, ouvia suas vozes.

Queria chamá-las.

Queria alcançá-las.

Queria dizer algo — explicar, pedir, prometer.

Mas não teve coragem.

As irmãs dobraram a esquina.

Suas vozes se apagaram.

A toalha ficou encharcada.

Anton parou no meio da calçada e ficou ali por muito tempo — sozinho, com sangue na camiseta e silêncio no lugar do futuro.

E sobre a cidade subia o sol — indiferente, de julho, sem pertencer a ninguém.

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