«A partir de janeiro — cada um por si», disse a sogra.

O marido obedeceu — e no Ano-Novo recebeu aquilo que não esperava.

O cheiro de tangerinas e de pinho fresco naquele ano não trazia alegria.

O trinta e um de dezembro, no apartamento de Ira e Zhenya, foi tenso como a corda de um violão velho, pronta para arrebentar a qualquer instante: de manhã, Vera Ignátievna e a irmã dela, Lyuda, chegaram para visitar — e, já na porta, começaram a mandar como se fosse a casa delas.

À mesa, alisando com majestade as dobras da toalha festiva, sentava-se Vera Ignátievna — como dona em apartamento alheio, embora morasse separada, no seu próprio.

Ao lado dela, concordando com tudo e tilintando a colherzinha na porcelana, acomodou-se a irmã mais nova, tia Lyuda — uma mulher corpulenta, com uma expressão eterna de descontentamento no rosto e olhinhos atrevidos, inquietos.

Lyuda também morava separada e vinha “para a festa” apenas para alimentar a irmã com conselhos “sábios” e incentivá-la a pressionar os jovens.

— Enfim, crianças, — Vera Ignátievna enxugou os lábios com o guardanapo, como se carimbasse uma sentença.

— Os tempos estão difíceis.

— Os preços sobem, a aposentadoria não estica.

— A Lyudótschka abriu meus olhos.

— A partir de janeiro — cada um por si.

Ira ficou imóvel com a tigela de salada nas mãos.

— Como assim, Vera Ignátievna?

— Eu e meu marido pagamos as contas do apartamento meio a meio, eu compro os alimentos…

— Assim mesmo! — interrompeu tia Lyuda, espetando sem cerimônia, com o garfo, um pedaço de carne assada.

— Você, Irka, tem salário de restaurante, e ainda deve ter gorjetas.

— E o Zhenka, meu sobrinho, se mata de trabalhar na fábrica.

— Vocês são uma família jovem, e a Vera é uma mulher idosa.

— Chega de tirar da mãe.

— A partir de janeiro, orçamentos separados.

— O seu dinheiro é seu, o do Zhenya é dele.

— E as despesas do apartamento vocês dividem pelos medidores.

— E a comida — cada um a sua.

Ira olhou para o marido.

Zhenya, um homem forte de trinta anos, que trabalhava como carregador numa fábrica de móveis, estava sentado, com os olhos no prato de aspic.

Ele não gostava de conflitos.

Para ele era mais fácil ficar calado do que discutir com a mãe, que tinha vindo “visitar”, mas falava como se tivesse o direito de decidir por eles.

— Zhenya? — perguntou Ira, baixinho.

— Você concorda?

— Nós somos uma família.

— A gente tinha um caixa comum.

Zhenya levantou os olhos, cheios de uma tristeza culpada, e resmungou:

— Bem, a mãe diz que assim vai ser mais justo.

— Economia, Ira.

— Vamos tentar.

Por dentro, algo se rompeu em Ira.

Ela colocou a tigela de salada na mesa com um baque tão forte que tia Lyuda se assustou.

— Está bem, — a voz de Ira ficou gelada como o vento de janeiro.

— Cada um por si.

— Lembrem-se deste dia.

Janeiro veio nevoso e cruel.

A nova vida começou imediatamente, sem transição.

Ira trabalhava como subchefe de cozinha no restaurante “Uyut”.

Era um trabalho pesado: doze horas em pé, calor, vapor, mas a equipe era acolhedora.

Antes, Ira levava sacolas de comida para casa, fazia jantares de três pratos para agradar o marido, lavava roupa, limpava a casa.

Agora ela mudou de estratégia.

No restaurante, os funcionários tinham direito a duas refeições por dia.

A comida era excelente: sopas reforçadas, ensopados de carne, saladas frescas.

O chef, tio Misha, um armênio grande, de olhos bondosos, dizia sempre: “Irótchka, quem trabalha bem tem que comer bem.

Pegue, não tenha vergonha, leve para casa.”

Mas Ira não levava para casa.

Ela passou a tomar café da manhã, almoçar e jantar no trabalho.

Em casa, chegava saciada e tranquila.

Comprava para si apenas iogurtes para a manhã, frutas e um chá bom.

Em casa, a geladeira foi dividida em prateleiras.

A de cima — da Ira.

Ali havia potinhos de iogurte grego, queijo, abacate.

As de baixo — do Zhenya.

No começo, havia pelmeni, linguiça barata e um pão.

Zhenya, acostumado a almôndegas caseiras e a um borsch bem encorpado, logo ficou desanimado.

O trabalho de carregador exige calorias.

Só com sanduíches não dá para aguentar muito — faltam forças para virar armários.

— Ira, a gente vai jantar? — perguntou ele um dia, espiando uma panela vazia.

— Eu já comi no trabalho, Zhenya.

— A gente tem orçamento separado.

— Cada um se alimenta sozinho.

— Cozinhe um macarrão para você.

Zhenya mastigava, cabisbaixo, um macarrão sem graça, e Ira, com uma máscara no rosto, lia um livro.

De repente, ela percebeu quanto tempo livre tinha ganho.

Não precisava ficar no fogão, não precisava lavar montanhas de louça engordurada.

O dinheiro que antes ia para o “buraco comum” começou a ficar no cartão dela.

Ira comprou botas novas de inverno, com as quais sonhava havia dois anos, e marcou massagens.

Duas semanas depois, Zhenya encontrou uma saída.

Ele começou a ir jantar na casa da mãe.

Vera Ignátievna, no início, triunfou.

O filho com ela.

Lyuda elogiava: “Tá vendo, correu para a mamãe, aquela espevitada não alimenta ele.”

Mas a alegria durou pouco.

Zhenya era um homem saudável, com apetite de lobo.

Chegando depois do turno, comia metade da panela de sopa, pedia repeteco do segundo prato, tomava chá com biscoitos.

— Mãe, ainda tem almôndegas? — perguntava ele, limpando o prato com pão.

Vera Ignátievna apertava os lábios.

A aposentadoria dela não era ruim, mas ela também tinha seus gastos, e alimentar um homem adulto todos os dias “até cair” não fazia parte dos planos.

Os alimentos desapareciam diante dos olhos.

Carne, manteiga, verduras — tudo sumia no abismo do estômago de Zhenya.

No fim de fevereiro, Vera Ignátievna explodiu.

Tia Lyuda, que passou para visitar, pegou a irmã no fogão — vermelha, suada e furiosa.

— Verka, por que você está tão acabada?

— Por causa desse Zhenka! — Vera Ignátievna atirou a concha, nervosa.

— Ele come como se não houvesse amanhã.

— Eu cozinho para três dias — ele devora tudo numa noite.

— Já não sobra dinheiro para meus remédios, a gente está jogando tudo no vaso!

— Então diz para ele te dar dinheiro! — provocou Lyuda.

— Do meu próprio filho?

— É constrangedor…

— Isso é culpa da Ira, aquela cobra.

— Ela deixa ele com fome só para me irritar!

O desfecho veio no primeiro domingo de março.

Ira estava sozinha em casa, aproveitando o silêncio e separando coisas no armário.

A campainha tocou.

Na porta estava Vera Ignátievna.

Sem convite, com as botas sujas, ela foi direto para a cozinha.

— O que é que você está aprontando, mocinha? — começou já na entrada, sem cumprimentar.

— Está deixando o homem passar fome?

— Daqui a pouco ele vai ficar morando comigo, porque na casa de vocês não tem nada!

Ira calmamente se serviu de água.

— Vera Ignátievna, essa foi a decisão de vocês.

— “Cada um por si.”

— Eu trabalho num restaurante, lá eu como.

— Zhenya trabalha na fábrica, recebe salário.

— Que ele compre e cozinhe.

— Ou vá ao refeitório.

— Eu não sou empregada dele.

— Você é esposa! — guinchou a sogra, cuspindo saliva.

— Sua obrigação é alimentar o marido!

— Eu alimentei o pai dele a vida inteira!

— Não fale comigo assim, — Ira colocou o copo na mesa.

A voz dela era baixa, mas firme.

— Foi a senhora que destruiu a nossa família com esse conselho mesquinho.

— A senhora ficou com pena do dinheiro?

— Ou quis mandar?

— Você… você é uma ingrata! — Vera Ignátievna perdeu o fôlego.

— Eu vou contar ao Zhenya, ele vai se divorciar de você!

— Você é uma péssima dona de casa!

E então Ira estourou.

A mágoa acumulada por anos, o cansaço das implicâncias intermináveis, da falta de pulso do marido — tudo transbordou.

— Eu sou péssima? — Ira deu um passo na direção da sogra.

A outra recuou, assustada.

— Não, Vera Ignátievna.

— A senhora é uma péssima mãe.

— A senhora não criou um homem, criou um inválido doméstico e um molenga.

— Ele não dá um passo sem a senhora.

— Qualquer coisa — corre para se esconder atrás da saia da mamãe.

— A senhora se orgulha de ele comer na sua casa?

— Então alimente.

— Ele é o seu “produto”.

— A senhora queria que ele ficasse com a senhora?

— Pois tome.

— Eu estou cansada.

— Eu não fui contratada para servir um marmanjo adulto que nem consegue defender a esposa quando a estão enxovalhando.

A sogra saiu do apartamento como se tivesse levado água fervendo, batendo a porta com tanta força que caiu reboco.

À noite, Ira se sentiu mal.

A cabeça girou, uma náusea subiu pela garganta.

Ela achou que era a pressão por causa da briga.

Mas pela manhã, mal abriu os olhos, entendeu: era outra coisa.

Uma sensação conhecida pelos relatos das amigas, mas tão inesperada.

O teste, comprado na farmácia a caminho do trabalho, mostrou duas linhas bem nítidas.

Ira sentou na borda da banheira e chorou.

De felicidade e de medo.

Como criar uma criança num ambiente desses?

Com um marido que escuta a mãe e uma sogra que a odeia?

Zhenya voltou para casa tarde.

Estava mais sombrio do que uma nuvem carregada.

A mãe já tinha ligado e descrito, com todos os detalhes, como Ira a tinha insultado, expulsado e quase partido para cima com os punhos.

— Ira, a gente precisa conversar, — começou ele, duro, entrando no quarto.

— A mãe disse…

Ira levantou para ele os olhos cheios de lágrimas.

Nas mãos, apertava o teste branco de plástico.

— Zhenya, senta.

Ele travou.

Viu o rosto pálido dela, as mãos tremendo.

— O que aconteceu?

— Você ficou doente?

— Eu estou grávida, Zhenya.

— Sexta semana.

O silêncio no quarto ficou denso, como algodão.

Zhenya olhava o teste, depois Ira.

Nos olhos dele, uma engrenagem complexa de pensamento se movia.

Ele se lembrou de como a mãe tinha gritado ao telefone naquele dia: “Bota ela para fora.

Ela não é para você.”

Lembrou de como Ira, nos últimos meses, tinha aguentado calada a falta de dinheiro e a impotência doméstica dele, como ela sozinha sustentava aquela rotina fria.

E, de repente, o mosaico se encaixou.

Ele entendeu como era mesquinha a confusão do “orçamento separado”.

Como era tolo e baixo deixar a esposa sozinha, correndo para comer borsch na casa da mãe, em vez de comprar um pedaço de carne e fazer jantar juntos.

Ele percebeu que podia ter perdido os dois — Ira e aquele pequeno ser, ainda não nascido.

— Grávida… — sussurrou ele.

— Irka… é meu?

— Nosso, bobo, — soluçou Ira.

Zhenya se ajoelhou diante dela.

Ele, um homem forte, carregador que levava sofás até o quinto andar, encostou o rosto nos joelhos dela e os ombros começaram a tremer.

— Me perdoa, — disse ele, abafado, entre lágrimas.

— Me perdoa por eu ser um idiota.

— Me perdoa por ter deixado elas se intrometerem.

— Eu não sabia…

— Eu achava que era assim, que a mãe queria o bem…

Ira alisava o cabelo áspero dele, e as próprias lágrimas também caíam.

No dia seguinte, Vera Ignátievna ligou para o filho, pronta para uma nova rodada de acusações.

— Zhenya, você resolveu com aquela grosseira?

— Mãe, — a voz de Zhenya estava de aço, como Vera Ignátievna nunca tinha ouvido.

— Cala a boca.

— O quê?! — ela ficou sem ar.

— Como você fala com a sua mãe?

— Foi ela que te ensinou isso!

— Me escuta com atenção, — interrompeu Zhenya.

— Ira é minha esposa.

— Ela está esperando meu filho.

— Se você ou a tia Lyuda disserem uma única palavra torta sobre ela, se vocês se meterem na nossa família com conselhos ou cobranças — vocês não vão me ver mais.

— Nunca.

— Entendeu?

Do outro lado, ficou um silêncio.

— Zhenyochka… um neto?

— Neto ou neta — não é da sua conta, enquanto você não aprender a respeitar a mãe dele.

— Chega.

— Agora a gente vive pela nossa cabeça.

— E o orçamento voltou a ser comum, como gente normal.

— E você gasta o seu dinheiro com você e com a Lyuda.

— Não liga para a gente por enquanto.

— Eu ligo quando eu estiver pronto.

Ele desligou.

As mãos dele tremiam, mas por dentro estava limpo e claro, como depois de uma tempestade.

À noite, ele chegou em casa com um enorme buquê de crisântemos brancos — Ira adorava.

E com sacolas cheias de compras: carne bovina, frutas, queijo cottage.

— O que é isso? — sorriu Ira, recebendo-o no corredor.

— Isso, Irisha, é família, — ele a pegou no colo com cuidado, como se fosse um vaso de cristal, e rodopiou com ela pelo quarto.

— Agora eu mesmo vou cozinhar.

— Os caras da fábrica me ensinaram a escolher carne.

— O principal, dizem, é olhar o corte — para as fibras ficarem firmes e a cor não ser escura, mas assim, bem vermelha.

— E marinar no kefir.

— Quer churrasquinho?

— Quero, — riu Ira.

Justiça não é quando se pune os culpados.

Justiça é quando as pessoas abrem os olhos e começam a valorizar o que têm.

Vera Ignátievna se aquietou.

Tia Lyuda até tentou alfinetar, mas a irmã a cortou rápido: o medo de perder o único filho e não ver o neto foi mais forte do que a influência da irmã.

Ela teve medo de se meter com os jovens.

E, sete meses depois, Ira e Zhenya tiveram um menino, forte, a cara do pai.

E quando a sogra veio timidamente buscar alta na maternidade, ficando de lado com um pacotinho de presentes, Zhenya mesmo a chamou, mas segurou Ira firme pela mão, sem soltá-la um segundo.

A fronteira estava traçada, e ninguém mais se atreveu a cruzá-la.

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