— Se não gostas desta casa, a porta está aberta — disse Arman, agitando a mão sobre a mesa. — Mas a Milena fica comigo.
Nare não respondeu. Olhou para o copo de vinho diante do marido e depois para a filha de nove anos. Milena estava sentada entre os dois, escondendo o rosto nas suas pequenas mãos.
O jantar ainda estava quente sobre a mesa. Nare tinha preparado a massa preferida da filha, cortado o pão e colocado três pratos. Durante todo o dia, pensara que, pelo menos naquela noite, conseguiriam conversar com calma.
Mas Arman entrou em casa a queixar-se do cheiro da comida.
Depois reparou na mala no corredor.

E foi aí que tudo começou.
— Vou passar apenas alguns dias em casa da minha mãe — disse Nare calmamente. — Com a Milena. Precisamos de sossego.
— Precisas de sossego? Eu trabalho de manhã à noite, e tu ficas cansada de estar em casa sem fazer nada.
Nare apertou as mãos com força debaixo da mesa.
Trabalhava numa oficina de costura. De manhã, levava a filha à escola e depois passava oito horas de pé diante da máquina. À noite, corria para a loja, para casa, para a cozinha. Mas, nos últimos anos, o marido já nem considerava o trabalho dela um trabalho.
— Por favor, não comeces à frente da menina.
— Então não uses a menina para me ameaçar.
Os ombros de Milena estremeceram.
Nare inclinou-se imediatamente na sua direção.
— Querida, vai para o teu quarto. Já vou ter contigo.
A menina não se mexeu.
— Não quero.
— Milena, ouve a tua mãe.
— Se eu for, vocês vão falar ainda mais alto.
Ao ouvir aquelas palavras, Nare sentiu um aperto na garganta. Arman desviou o olhar, mas apenas por um instante. Depois pegou no copo.
— Estás a ver o que fizeste à menina?
Nare endireitou-se lentamente.
Pela primeira vez em dez anos, deixou de tentar explicar que era ela quem abraçava a filha depois de cada discussão, que, durante a noite, Milena se aproximava da porta do quarto deles para verificar se a mãe ainda estava em casa.
Disse apenas:
— Amanhã vamos embora.
Arman pousou bruscamente o copo na mesa.
— Tu podes ir embora. A minha filha não vai.
E foi precisamente nesse momento que Milena baixou as mãos.
Tinha as faces molhadas, mas a sua voz soou surpreendentemente clara.
— Pai, tenho medo de ficar sozinha contigo.
Um silêncio sepulcral instalou-se na sala.
Arman olhou para a filha como se não tivesse compreendido as suas palavras.
— O que estás a dizer? Alguma vez te bati?
Milena abanou a cabeça.
— Não.
— Então de que tens medo?
A menina mordeu o lábio.
— De que fales mal da mãe e eu tenha de concordar contigo.
Nare fechou os olhos.
Não sabia.
Não sabia que, na sua ausência, a filha participava em conversas assim.
Arman recostou-se na cadeira.
— Só lhe disse o quanto a mãe dela mudou.
— Disseste que, se a mãe fosse embora, deixaria de gostar de mim.
Milena começou a soluçar.
— E ontem perguntaste de quem eu era filha. Eu disse que era dos dois. Disseste que isso não podia ser.
Nare levantou-se e ajoelhou-se ao lado da filha.
— Pode, querida. És filha de nós os dois. E não tens de escolher.
Milena agarrou-lhe a manga.
— Então porque fizeste a mala?
Aquela pergunta magoou Nare mais do que todos os insultos do marido.
— Para podermos viver tranquilamente durante algum tempo.
— E o pai vai encontrar-nos?
— Milena, eu não sou um monstro — disse Arman, elevando a voz.
A menina sobressaltou-se e encostou-se ainda mais à mãe.
Arman viu aquilo.
Desta vez, viu verdadeiramente.
A mão que tinha levantado baixou lentamente até à mesa.
Nare levou a filha para o quarto, sentou-se na beira da cama e esperou que a sua respiração acalmasse. Foi então que Milena tirou um caderno azul de debaixo da almofada.
— Posso levá-lo comigo?
— Claro. Que caderno é esse?
A menina entregou-lho sem dizer uma palavra.
Na primeira página, numa caligrafia infantil irregular, estava escrito: «Quando eu crescer, ninguém vai gritar na nossa casa».
Nare virou a página.
Na seguinte, a filha tinha desenhado a mesma mesa. A mãe, o pai, três pratos.
A cadeira dela estava vazia.
— Onde estás neste desenho? — sussurrou Nare.
— No armário.
Nare ficou imóvel.
— Porquê?
— Lá ouço menos as vossas vozes.

Abraçou a filha com tanta força que Milena lhe pediu baixinho que a largasse um pouco.
Naquela noite, não esperaram pela manhã.
Nare pegou na mala, no casaco da filha e no caderno azul.
Arman estava no corredor.
— Agora estás a destruir tudo.
Nare olhou para ele.
— A nossa filha esconde-se no armário, Arman. Isto já está destruído. Eu estou a tirá-la de lá.
Abriu a porta.
Desta vez, o marido não a impediu de sair.
Na primeira noite em casa da avó, Milena adormeceu com a luz acesa. Na segunda, pediu que deixassem a porta aberta. No terceiro dia, perguntou de repente se podia entornar sumo sem querer.
A avó ficou surpreendida.
— Porque não haverias de poder? Limpamos.
A menina ficou a olhar para ela durante muito tempo e depois começou a chorar.
Nare percebeu quantas coisas não tinha visto enquanto, todos os dias, tentava apenas evitar mais uma discussão.
No início, Arman telefonava de hora a hora. Exigia que ela voltasse, culpava a sogra e dizia que Nare estava a pôr a filha contra ele.
Nare respondeu apenas uma vez.
— Tu ouviste-a. Agora, em vez de me culpares, pensa no que ela disse.
Duas semanas depois, Arman pediu para se encontrarem.
Nare concordou em encontrar-se com ele no parque, sem Milena.
O marido tinha emagrecido. Na mão, segurava uma cópia do caderno azul, que Nare lhe enviara a pedido dele.
— Não sabia que ela se escondia — disse.
— Eu também não sabia.
— Tornei-me igual ao meu pai.
Nare ficou em silêncio. Durante anos, o pai de Arman tinha humilhado a mulher. Sempre que Arman falava disso, jurava que a sua família seria diferente.
— Procurei ajuda — continuou ele. — Mas não te peço que acredites em mim agora.
— Ainda bem — respondeu Nare. — Porque agora não consigo.
Durante muito tempo, ela não prometeu voltar. No início, Milena encontrava-se com o pai na presença da mãe. Se não queria ir, ninguém a obrigava. Arman aprendia a ouvir o «não» da filha sem se ofender nem a culpar.
Meses depois, num domingo, Milena pediu que jantassem juntos.
Nare colocou três pratos na mesa da cozinha da mãe.
Quando Arman entornou água sem querer, a menina ficou imóvel.
O pai pegou num guardanapo.

— Não faz mal, eu limpo.
Milena observou-o atentamente. Depois voltou lentamente a comer.
Nare ainda não sabia se algum dia voltariam a viver juntos.
Mas, depois do jantar, a filha abriu o caderno azul e fez um novo desenho.
A mesma mesa.
Três pratos.
Desta vez, ela também estava sentada na sua cadeira.







