Quarenta dias depois da morte do marido, Seda recebeu uma mensagem do número de telefone dele.
«Amanhã, às onze, o nosso filho virá. Diga ele o que disser, não assines nada. Abre a caixa azul só depois de ele sair».
Seda estava junto à janela, com os cabelos grisalhos apanhados de forma descuidada, vestida com aquele casaco de malha castanho que Vahan dizia sempre ser a sua peça de roupa preferida. Apertou o telefone com tanta força que os dedos começaram a doer-lhe.
Aquele número não ligava há quarenta dias.
O telefone de Vahan estava na gaveta do quarto, desligado, ao lado do carregador.
Seda marcou o número.

«O número para o qual ligou encontra-se indisponível».
Voltou a ler a mensagem. Depois sentou-se no sofá e ficou muito tempo a olhar para a fotografia do marido.
— Vahan… o que é isto?
Tinham vivido juntos durante quarenta e três anos. Nos últimos meses, o marido fechava-se frequentemente no escritório e respondia sempre da mesma maneira às perguntas de Seda.
— Tenho alguns assuntos para terminar. Em breve conto-te tudo.
Não chegou a fazê-lo.
O enfarte aconteceu numa manhã como tantas outras, enquanto Seda preparava café na cozinha.
Desde esse dia, o filho, Gor, vinha quase todos os dias. Trazia compras, organizava os medicamentos e lembrava à mãe que não fosse sozinha ao banco.
Seda encontrava forças naquele cuidado.
Mas, depois da mensagem, lembrou-se pela primeira vez de quantas vezes Gor lhe tinha perguntado pelos documentos da casa.
Na manhã seguinte, precisamente às onze, a campainha tocou.
Gor entrou acompanhado por uma jovem que trazia uma pasta preta na mão.
— Mãe, esta é a Anna. É advogada. Viemos para te poupar a complicações desnecessárias.
Seda levou-os para a sala e pediu-lhes que se sentassem.
— Que complicações?
Gor pousou a pasta na mesa.
— Os assuntos da herança. A casa, as contas… é preciso organizar tudo. Só tens de assinar uma procuração. Eu trato do resto.
Anna abriu os documentos e aproximou a caneta.
— É um procedimento habitual.
Seda olhou para a primeira página. Viu o seu nome e, depois, palavras cujo significado não compreendia inteiramente.
— Deixem-me ler.
— Mãe, é muito longo, vais cansar-te — disse Gor rapidamente. — Foi por isso que trouxemos uma especialista.
Seda lembrou-se da mensagem.
— Hoje não vou assinar.
O sorriso desapareceu do rosto do filho.
— Porquê?
— Primeiro quero compreender.
— Não confias em mim?
A pergunta magoou-a. Seda ergueu os olhos para o filho.
— Confiar em ti não significa que não deva ler.
Gor levantou-se.
— Está bem. Mas depois não digas que te deixei sozinha com tudo isto.
Foram-se embora, levando os documentos.
Seda esperou até deixar de ouvir o carro e entrou no escritório. Na prateleira de cima do armário havia uma caixa azul de metal. Durante anos, pensara que continha fotografias antigas de Vahan.
Encontrou a chave na gaveta da secretária dele.
Não havia fotografias dentro da caixa.
Havia extratos bancários, cópias de alguns contratos, uma pequena pen USB e um envelope com o seu nome.
Seda abriu o envelope.
«Seda, querida, se estás a ler isto, significa que não consegui contar-te a tempo. O nosso filho tem dívidas enormes. Já as paguei duas vezes, mas da última vez recusei. Depois descobri que ele está à procura de um comprador para a nossa casa».
Seda parou de ler.
Diante dos seus olhos surgiu Gor aos dez anos, com a mochila escolar ao ombro e, na mão, flores que tinha colhido pelo caminho para a mãe.
Depois voltou a olhar para a carta.
«Ele apresentou uma procuração com a minha assinatura. Eu não assinei esse documento. O nosso advogado, Mikael, já está a tratar do assunto. O número dele está abaixo. Por favor, ouve-o primeiro».
Seda telefonou.
Mikael parecia estar à espera.
— Senhora Seda, encontrou a caixa?
— Foi o senhor que enviou a mensagem?
— Sim. Vahan pediu-me que, se fosse necessário, escrevesse do número dele. Deu-me o cartão SIM. Receava que passasse a Gor um aviso recebido do meu número desconhecido.
— E como sabia que ele vinha hoje?
— Ontem, Gor contactou o meu escritório. Disse que a senhora tinha concordado com a venda da casa e que a procuração ficaria pronta hoje. Tentei telefonar-lhe, mas não atendeu.
Seda lembrou-se das chamadas não atendidas do dia anterior.
— Porque é que Vahan não me dizia nada?

Mikael ficou em silêncio por um momento.
— Esperava que o filho corrigisse o erro. Queria falar primeiro com ele.
Nesse mesmo dia, o advogado foi a casa dela.
Explicou que o documento falsificado anterior tinha sido descoberto a tempo e que a transação fora suspensa. Agora, Gor precisava da assinatura verdadeira da mãe.
Na pen USB havia uma gravação.
Seda ouviu a voz cansada do marido.
— Não te vou deixar sem casa, Gor. Mas não vais tirar a casa à tua mãe.
Depois ouviu-se a resposta do filho.
— Não compreendes. Se não pagar até ao fim do mês, vou perder tudo.
— Então vende o teu apartamento.
— E onde vamos viver?
Vahan ficou em silêncio durante muito tempo.
— Portanto, para manteres a tua casa, queres deixar a tua mãe sem teto?
Seda tapou a boca com a mão. Mikael interrompeu a gravação.
— Já chega.
— Não — sussurrou ela. — Tenho de ouvir até ao fim.
À noite, Seda telefonou ao filho.
— Vem cá. Sozinho.
Gor chegou meia hora depois, com um ramo de flores na mão.
— Mãe, de manhã estava nervoso…
Calou-se ao ver a caixa azul em cima da mesa.
Seda já não precisava de perguntar. O rosto do filho disse-lhe tudo.
— Quanto deves?
Gor sentou-se.
— Eu devolveria o dinheiro. A casa é grande, comprava-te um apartamento mais pequeno.
— Tinhas-me perguntado?
— Não aceitarias.
— Por isso decidiste enganar-me?
Gor baixou a cabeça.
Seda esperava uma justificação, uma discussão, até mesmo raiva. Mas, de repente, o filho começou a chorar.
— Estava com medo, mãe.
Ela quis aproximar-se e abraçá-lo. Tinha feito isso durante toda a vida.
Desta vez, ficou onde estava.
— Eu também tenho medo. Todos os dias, desde a morte do teu pai. Mas isso não me dá o direito de destruir a vida de outra pessoa.
Gor contou-lhe tudo sobre as dívidas. Um negócio falhado, prejuízos escondidos, novos empréstimos para pagar os antigos. Seda ouviu-o até ao fim.
Depois disse:
— Vais contar a verdade ao advogado. Vais vender o teu apartamento. E podes vir aqui como meu filho. Não voltes a vir para levar a minha assinatura.
Gor foi-se embora sem levar as flores.
Três meses depois, regressou de mãos vazias. Tinha vendido o apartamento, mudado com a mulher para uma casa arrendada e começado a pagar as dívidas.
Seda abriu a porta, mas não o abraçou logo.

— Queres chá?
— Se deixares.
Ela afastou-se para o deixar entrar.
Na sala, a fotografia de Vahan continuava no mesmo lugar. A caixa azul já estava fechada no armário.
Seda colocou duas chávenas na mesa. Depois parou por um instante e voltou a guardar a terceira no armário.
Gor reparou. Desta vez, não fingiu que não tinha visto.
— Também tenho saudades dele, mãe.
Seda sentou-se em frente ao filho.
— Eu sei. Mas agora temos de aprender a viver de maneira a não baixar os olhos quando olhamos para a fotografia dele.







