Sou uma vagabunda!?

Então eu vou alugar o apartamento, e vocês arrumem as malas e vão embora!

declarou Yana à sogra.

Yana vivia com o marido Igor em um apartamento que ela mesma havia comprado ainda antes do casamento — sem ajuda, sem fiadores e sem grandes discursos.

Ela comprou esse apartamento de dois quartos cinco anos atrás.

Na época, trabalhava como programadora em uma empresa de TI, ganhava bem.

Economizou por três anos, depois fez um pequeno financiamento de dez anos e quitou antecipadamente em quatro anos.

Cada parcela era uma vitória pessoal dela.

O apartamento ficava em um prédio novo em Mitino.

Não era o centro, mas havia metrô perto, parque, toda a infraestrutura.

Yana escolheu a planta sozinha, fez a reforma sozinha.

Tudo com as próprias mãos e com o próprio dinheiro.

Ela conheceu Igor dois anos atrás em uma conferência de desenvolvedores.

Ele trabalhava como administrador de sistemas em um banco.

Se conheceram, começaram a namorar.

Um ano depois se casaram.

— Eu vou me mudar para a sua casa? — perguntou Igor antes do casamento.

— Sim — Yana assentiu.

— Mas eu quero combinar uma coisa desde já: este apartamento é meu.

Foi comprado antes do casamento.

Está no meu nome.

— Entendi.

Tudo bem.

— Você não se importa?

— Não, claro.

Eu respeito isso.

Igor se mudou.

No primeiro ano, viveram tranquilos, sem problemas.

Depois do casamento, Igor insistiu para que a mãe dele, Liudmila Sergueievna, “ficasse um pouco”, enquanto resolvia seus assuntos.

Isso aconteceu um ano depois do casamento.

Igor ligou do trabalho numa quarta-feira à tarde.

— Yan, olha, a mamãe está com um problema.

— Que problema?

— Ela brigou com a vizinha.

Brigou feio.

Estão ameaçando processar, chamaram a polícia.

Ela precisa passar um tempo fora.

Ela pode ficar aqui com a gente por uma ou duas semanas?

Yana estava sentada com o notebook, terminando um código.

— Igor, a gente não combinou isso.

— Yan, mas ela é minha mãe.

Lá está realmente difícil para ela agora.

É só por umas duas semanas.

No máximo.

— E depois ela vai para onde?

— Vai encontrar alguma coisa.

Ou faz as pazes com a vizinha.

Não sei.

Mas agora ela precisa de ajuda.

Yana suspirou.

— Está bem.

Duas semanas.

Não mais do que isso.

— Obrigado, meu amor!

Liudmila Sergueievna chegou na sexta-feira à noite.

Com duas malas.

E com caixas.

Esse “um pouco” se estendeu por meses, e o apartamento foi deixando, aos poucos, de ser a casa de Yana.

Duas semanas viraram um mês.

Um mês virou dois.

Depois três.

Liudmila Sergueievna se instalou no quarto, espalhou as coisas, ocupou metade do armário do corredor.

— Igor, quando a sua mãe vai embora? — perguntava Yana ao marido toda semana.

— Já já, já já.

Ela está procurando opções.

— Já se passaram dois meses.

— Yan, você entende que não é fácil alugar um apartamento rápido.

Agora está tudo caro.

— A gente combinou duas semanas.

— Aguenta mais um pouco, tá?

Yana aguentou.

Mas o apartamento deixou de ser a casa dela.

Em todo lugar havia coisas da sogra.

Na cozinha apareceu a louça dela.

No banheiro, os cosméticos dela.

Na geladeira, a comida dela, marcada com adesivos “não mexer”.

Yana voltava do trabalho e se sentia uma visita no próprio apartamento.

A sogra acordava mais tarde do que todos, comentava cada passo de Yana e adorava repetir que “trabalho de verdade não é ficar sentada no computador”.

Liudmila Sergueievna não trabalhava.

De jeito nenhum.

Ela acordava por volta das onze da manhã, quando Yana e Igor já estavam no trabalho havia muito tempo.

Fazia o próprio café da manhã, assistia séries, andava pelo apartamento.

Yana trabalhava em home office três dias por semana.

Nesses dias, a sogra não a deixava em paz.

— Yanotchka, o que é isso, de novo sentada no computador? — entrava ela no quarto sem bater.

— Eu estou trabalhando, Liudmila Sergueievna.

— Que trabalho é esse?

Trabalho de verdade é em pé, com gente, suando.

E você só fica apertando teclas.

— Eu escrevo programas.

Essa é a minha profissão.

— Programas — a sogra bufava.

Fica em casa no quentinho, toma chá, e isso se chama trabalho.

No meu tempo não se trabalhava assim.

— Liudmila Sergueievna, eu preciso me concentrar.

— Sim, sim, se concentrar.

E o almoço, quem vai fazer?

— Eu mesma vou fazer para mim.

— Então faça.

Já que é tão independente.

Cada dia de trabalho em casa virava uma tortura.

Igor preferia fingir que nada estava acontecendo, enterrado no celular ou saindo de casa.

Yana tentou conversar com o marido.

— Igor, a sua mãe me esgotou.

Ela comenta tudo o que eu faço.

Entra no meu quarto quando eu trabalho.

Diz que meu trabalho não é trabalho.

— Yan, ela é só da velha guarda.

Não entende o que é trabalho remoto.

— Eu não quero saber se ela entende.

Este apartamento é meu.

Eu trabalho aqui.

E eu quero que não me incomodem.

— Tá, eu vou falar com ela.

Mas nada mudava.

Igor chegava em casa, jantava e ia para o quarto com o celular ou a televisão.

Se começava um conflito entre Yana e a mãe dele, ele saía do apartamento em silêncio.

— Estão me ligando do trabalho — dizia ele, e sumia.

Yana ficava sozinha com a sogra.

Naquele dia, Yana voltou depois de uma reunião longa de trabalho e encontrou a sogra na cozinha com uma vizinha.

Era terça-feira.

Yana tinha ido ao escritório para uma reunião com um cliente.

A reunião se estendeu até as sete da noite.

Ela chegou em casa cansada, com fome.

Abriu a porta com a chave.

O apartamento cheirava a batatas cozidas e dava para ouvir vozes.

Yana tirou os sapatos e passou pelo corredor.

Na cozinha, à mesa, estavam sentadas Liudmila Sergueievna e a vizinha, tia Sveta do quinto andar.

Elas tomavam chá e comiam biscoitos.

A conversa era alta, sem nenhum constrangimento, como se a dona da casa nem existisse.

— Eu te digo, Sveta — discursava Liudmila Sergueievna.

A juventude de hoje não sabe trabalhar.

— É mesmo? — concordava tia Sveta.

— A minha nora, por exemplo.

Fica o dia inteiro em casa.

No computador.

E isso, veja só, se chama trabalho.

— E o que ela faz?

— Quem sabe!

Fica lá digitando alguma coisa.

Escreve uns programas.

Eu não entendo que programas são esses.

Isso não é trabalho!

— Mas pagam, não pagam?

— Pagam, claro.

Mas ainda assim não é trabalho de verdade.

Trabalho de verdade é na fábrica, no hospital, na escola.

Com gente, com serviço de verdade.

Ficar em casa olhando para o computador é brincadeira.

Yana estava na porta da cozinha.

Escutava.

Liudmila Sergueievna, com um sorrisinho, explicava que a nora era uma “vagabunda”, porque “fica o dia inteiro em casa e não serve para nada”.

A sogra não viu Yana.

Continuou falando.

— Meu filho rala de manhã até de noite.

Trabalha em banco, responsabilidade enorme.

E ela é uma vagabunda.

Fica em casa, toma chá, fica na internet.

E ainda por cima levanta o nariz, tipo: eu estou trabalhando, não me atrapalhem.

Que trabalho é esse?

Eu, na idade dela, trabalhava em dois empregos.

Isso sim era serviço.

E agora o quê?

O dia inteiro em casa e não serve para nada.

Nem um almoço decente, nem ordem na casa.

Ninguém nem passa a camisa do Igor.

Eu que passo.

Porque não tem quem faça.

— Nossa, não pode ser! — exclamou tia Sveta.

— Palavra de honra!

Vagabunda ela é, não esposa.

Yana entrou devagar na cozinha.

Yana parou na porta, tirou a jaqueta lentamente e colocou as chaves com cuidado no aparador.

Ela não tinha pressa.

Tirou a jaqueta.

Pendurò na cadeira.

Tirou as chaves do bolso.

Colocou-as no aparador perto da geladeira.

Depois olhou para a sogra.

Liudmila Sergueievna parou no meio da frase.

Viu Yana.

Ficou pálida.

Tia Sveta também congelou com a xícara na mão.

— Yanotchka… — começou a sogra.

— Quando você chegou?

— Agora mesmo — respondeu Yana, sem alterar o tom.

— Ah, bom…

A gente estava aqui tomando chá com a vizinha…

— Eu ouvi.

O rosto dela continuava calmo, mas o olhar ficou frio e focado.

Yana não gritou.

Não gesticulou.

Apenas ficou ali e olhou para a sogra.

Mas Liudmila Sergueievna se encolheu.

Alguma coisa no olhar da nora a fez desviar os olhos.

— Yan, eu não quis dizer isso…

— Eu ouvi tudo perfeitamente — disse Yana, baixo.

A senhora me chamou de vagabunda.

No meu apartamento.

Na frente de gente de fora.

Tia Sveta se levantou depressa.

— Eu preciso ir.

Eu esqueci completamente, a sopa está no fogo!

Ela saiu do apartamento em dez segundos.

— Sou uma vagabunda!?

Então eu vou alugar o apartamento, e vocês arrumem as malas e vão embora!

declarou Yana à sogra.

A voz dela era baixa, mas cada palavra soava como um golpe.

Liudmila Sergueievna saltou da cadeira.

— O quê?!

Yana, do que você está falando?!

— Do que a senhora acabou de ouvir — Yana cruzou os braços no peito.

Eu sou a vagabunda que fica o dia inteiro em casa e não serve para nada.

Certo?

Foi isso que a senhora estava contando para a vizinha agora há pouco.

— Não foi isso que eu quis dizer!

— Foi exatamente isso.

Eu ouvi tudo.

Cada palavra.

— Yan, me perdoa, eu só…

— Não me interessam suas desculpas.

A senhora mora no meu apartamento há três meses.

De graça.

Não trabalha.

Fica deitada no sofá assistindo séries.

E me chama de vagabunda, a mim, que comprei este apartamento e pago todas as contas.

Que lógica interessante.

— Yana, eu não queria te magoar…

— Mas magoou.

E sabe de uma coisa?

Se eu sou tão vagabunda, então eu vou alugar este apartamento.

Que morem aqui pessoas normais, que paguem.

E a senhora arrume suas coisas e vá embora daqui.

Hoje.

No quarto caiu um silêncio em que as palavras soaram ainda mais claras e definitivas.

Liudmila Sergueievna ficou de boca aberta.

Não acreditava no que tinha ouvido.

— Você… você está me expulsando?

— Exatamente.

— Mas… mas eu sou a mãe do Igor!

— E daí?

Isso lhe dá o direito de me insultar na minha casa?

— Eu não te insultei!

— A senhora me chamou de vagabunda.

Disse que eu não sirvo para nada.

Na frente da vizinha.

Isso não é insulto?

— Bem… eu só estava conversando…

— Então vá conversar em outro lugar.

Aqui a senhora não é mais bem-vinda.

A sogra tentou se indignar, mas Yana já tirava uma pasta com documentos e abria o celular.

— Yana!

Você não pode simplesmente me expulsar!

Eu moro aqui há três meses!

— Justamente por isso eu estou expulsando.

Chega.

— Mas eu não tenho para onde ir!

— Isso é problema seu.

A senhora tem seu próprio apartamento.

— Lá tem a vizinha!

— Faça as pazes.

Ou alugue alguma coisa.

Yana abriu o armário, pegou uma pasta azul com os documentos.

O certificado de propriedade.

O extrato do registro.

O documento técnico do imóvel.

Colocou tudo na mesa diante da sogra.

— Está vendo?

Este apartamento é meu.

Está no meu nome.

Foi comprado antes do casamento.

Eu sou a proprietária.

E eu decido quem mora aqui.

E a senhora não vai mais morar aqui.

Depois pegou o celular.

Abriu o navegador.

Ela explicou com calma que o apartamento era dela e que a decisão estava tomada ali, naquele momento.

Yana abriu um site de anúncios de aluguel.

Começou a preencher o formulário.

— O que você está fazendo?! — ofegou Liudmila Sergueievna.

— Estou publicando um anúncio de aluguel do apartamento.

— Você está brincando?!

— Não.

Estou falando muito sério.

Apartamento de dois quartos em Mitino, cinquenta metros, boa reforma, perto do metrô.

Trinta e cinco mil rublos por mês.

Preço normal.

— Yana, para!

— Para quê?

A senhora mesma disse que eu sou vagabunda.

Então eu não preciso deste apartamento.

Que morem aqui pessoas que valorizem e paguem.

— Mas o Igor!

Seu marido!

— Igor vai achar onde morar.

Com a senhora, por exemplo.

Yana apertou o botão “Publicar anúncio”.

Igor apareceu mais tarde, olhando confuso da mãe para a esposa.

Ele voltou para casa às nove da noite.

Entrou no apartamento, viu a mãe chorando na cozinha e Yana com o rosto frio no quarto.

— O que aconteceu? — perguntou ele.

— Pergunte à sua mãe — respondeu Yana, sem tirar os olhos do notebook.

— Mãe, o que aconteceu?

— Igorzinho! — soluçou Liudmila Sergueievna.

Ela está me expulsando!

Sua esposa está me jogando na rua!

— O quê?!

Yan, isso é verdade?

— É verdade — Yana assentiu.

— Mas por quê?!

— Vá para a cozinha.

Que a sua mãe conte como me chamou de vagabunda na frente da vizinha.

Igor olhou para a mãe, atônito.

Yana não explicou nada — apenas mostrou a ele o anúncio de aluguel, já publicado na internet.

— Igor, olha — Yana virou o notebook para o marido.

Na tela havia o anúncio.

Com fotos do apartamento deles.

Com descrição.

Com o preço.

“Aluga-se apartamento de dois quartos em Mitino.

50 m².

Boa reforma.

Cozinha planejada.

Perto do metrô.

35.000 rublos por mês.

Disponível a partir do dia 1.”

— Você… você está falando sério? — sussurrou Igor.

— Completamente — respondeu Yana.

Sua mãe disse que eu sou vagabunda e que não sirvo para nada.

Na frente da vizinha.

Na minha cozinha.

No meu apartamento.

Eu tomei uma decisão.

Vou alugar o apartamento.

Nós vamos sair.

Todos.

— Mas… mas para onde?

— Não me importa.

Você aluga alguma coisa.

Ou mora com a sua mãe.

Decida você.

— Yan, você não pode fazer isso!

— Posso.

E já fiz.

O anúncio está publicado.

Amanhã vão começar a ligar.

À noite, as malas já estavam na porta, e a sogra, pela primeira vez em muito tempo, falava baixo.

Liudmila Sergueievna arrumou as coisas por duas horas.

Chorou.

Lamentou.

Igor a ajudou em silêncio.

— Igorzinho, diz alguma coisa para ela! — implorava ela ao filho.

— Mãe, você realmente chamou a Yana de vagabunda?

— Bem… eu só… estava falando com a vizinha…

— Mãe, o apartamento é dela.

Ela comprou sozinha.

Antes do nosso casamento.

E você a insultou.

— Mas eu não queria!

— Não importa.

Você disse.

Ela ouviu.

As malas estavam na porta.

Uma grande cinza e uma pequena vermelha.

Liudmila Sergueievna parecia miserável.

Falava baixo, pela primeira vez em três meses.

— Yana, me perdoa.

Eu realmente não queria te magoar.

— Tarde demais — respondeu Yana.

Yana fechou a porta atrás deles e, pela primeira vez em muitos meses, sentiu que no apartamento dava para respirar de novo.

Igor foi embora junto com a mãe.

Levou-a para a casa de uma amiga, onde ela combinou de ficar.

Yana ficou sozinha.

Andou pelo apartamento.

Entrou no quarto onde a sogra morava.

Vazio.

Limpo.

Silencioso.

Na cozinha já não havia cheiro de comida estranha.

No banheiro não havia coisas чужи espalhadas.

No corredor, o armário ficou livre.

Yana abriu a janela.

O ar fresco invadiu o apartamento.

Ela se sentou no sofá.

Inspirou fundo.

Expirou.

Silêncio.

Um silêncio verdadeiro, calmo.

A casa dela.

O apartamento dela.

As regras dela.

O telefone vibrou.

A primeira ligação do anúncio.

— Olá, é sobre o apartamento em Mitino?

— Sim — sorriu Yana.

O apartamento está livre a partir do dia primeiro.

Venha ver.

Ela tirou o anúncio do ar uma hora depois.

Igor ligou, pediu desculpas, pediu para voltar.

— Só sem a sua mãe — disse Yana.

— Só sem a minha mãe — concordou ele.

Liudmila Sergueievna nunca mais cruzou a porta daquele apartamento.

Yana voltou a respirar de peito cheio na própria casa.

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