đŸ”ș— A esposa quer o divĂłrcio? — EntĂŁo vou ficar com o carro, a casa de campo e o cachorro, — declarou o marido


Vera segurava a caneca com as duas mĂŁos, aquecendo os dedos, e olhava para Artiom com calma, quase com carinho.

— Ainda bem que vocĂȘ mesmo tocou nesse assunto, — disse ela em voz baixa.

— Eu pensei que teria de começar.

— Começar o quĂȘ? — ele sorriu com desdĂ©m, esparramando-se na cadeira.

— VocĂȘ ao menos entende que, sem mim, vai ficar sem nada?

— Explique.

— Estou ouvindo com atenção.

— O que há para explicar? — Artiom estalou os dedos, como se chamasse um garçom.

— O carro Ă© meu.

— A casa de campo Ă© minha.

— E tambĂ©m vou levar o cachorro, para vocĂȘ nĂŁo ficar aqui choramingando Ă  noite.

Vera deu um pequeno gole e pousou a caneca na mesa com muito cuidado, como se tivesse medo de acordar uma criança.

— A propĂłsito, Graf sĂł se aproxima de vocĂȘ quando vocĂȘ estĂĄ com linguiça, — observou ela.

— Mas isso são detalhes.

— Continue.

— Que detalhes?!

— Estou falando sĂ©rio.

— Se começar a se fazer de esperta, vai sair deste apartamento só de chinelos, entendeu?

— Artiom, — ela sorriu com o canto da boca.

— VocĂȘ estĂĄ bufando de um jeito tĂŁo ameaçador que o gato do vizinho provavelmente se escondeu debaixo do sofĂĄ.

— VocĂȘ estĂĄ zombando de mim?!

— Nem um pouco.

— Só estou apreciando o espetáculo.

Ele se inclinou para a frente, e sua voz começou a subir até alcançar tons estridentes.

— Verunia, pelo visto vocĂȘ nĂŁo estĂĄ entendendo.

— Vou acabar com vocĂȘ.

— Advogados, documentos, processos.

— Vou deixar vocĂȘ na misĂ©ria.

— Na misĂ©ria?

— Onde exatamente?

— Em uma viagem ao redor do mundo? — Vera inclinou a cabeça para o lado.

— Tentador, mas meus planos são mais modestos.

— Sempre com essas suas piadinhas! — ele bateu a palma da mão na mesa.

— Estou falando da sua vida, e vocĂȘ fica rindo!

— Eu não estou rindo.

— Estou sorrindo.

Artiom cerrou os maxilares e começou a falar devagar, pronunciando cada palavra entre os dentes, como se estivesse ensinando a ela as regras do jogo.

— Escute bem.

— Vou levar tudo o que conquistamos.

— De acordo com a lei.

— Entendeu?

— De acordo com a lei.

— Entendi, — Vera assentiu.

— A lei Ă© uma coisa boa.

— Principalmente quando se lĂȘ atĂ© o fim.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que ainda tenho paciĂȘncia com vocĂȘ.

— Por enquanto.

Artiom andava em cĂ­rculos pela cozinha, gesticulava com as mĂŁos e parecia muito convincente para si mesmo.

— Quem comprou o carro?

— Eu.

— Quem dirigia, pagava a gasolina e levava à oficina com o próprio dinheiro?

— Eu.

— Portanto, ele Ă© meu.

— VocĂȘ dirigia, sim, — concordou Vera.

— Mas preciso lembrar em nome de quem ele está registrado?

— Que diferença faz em nome de quem ele está registrado?!

— O importante Ă© quem o usava!

— Ah, que lógica maravilhosa.

Vera recostou-se no encosto da cadeira.

— Eu uso o elevador todos os dias.

— Vou buscá-lo e levá-lo para casa.

— Pare de bancar a palhaça! — rugiu ele.

— De quem Ă© a casa de campo?

— Eu pintei a cerca de lá!

— Uma vez.

— TrĂȘs anos atrĂĄs.

— E, aliĂĄs, naquele dia vocĂȘ tambĂ©m pintou o gato.

— O gato de novo!

— O que o gato tem a ver com isso?!

— O gato não tem nada a ver, — concordou ela suavemente.

— Mas a cerca e a casa de campo pertencem à minha mãe, Artiom.

— E o carro tambĂ©m estĂĄ registrado no nome dela.

— O terreno tambĂ©m.

— VocĂȘ sabe disso muito bem.

— AlĂŽ, tem alguĂ©m aĂ­?

Ele parou.

Seus olhos começaram a se mover inquietos e depois voltaram a se acender de raiva.

— E daí?!

— Vamos transferir tudo!

— Vou provar que investi dinheiro!

— Com o quĂȘ?

— Com uma lata de tinta e um gato estragado?

— VocĂȘ!
 — ele quase ficou sem ar.

— VocĂȘ sempre foi ardilosa!

— Colocou as mãos em tudo, registrou tudo no nome dos seus parentes, e eu fiquei feito um idiota!

— Nessa parte concordo parcialmente, — Vera assentiu.

— Não na parte de eu ter colocado as mãos em tudo, mas na parte do idiota.

— O que vocĂȘ disse?!

— Eu disse que vocĂȘ mesmo nunca registrou nada e agora estĂĄ indignado porque nĂŁo hĂĄ nada para dividir.

— É como ir ao casamento de outra pessoa e ficar ofendido porque não lhe deram um pedaço de bolo.

Artiom inclinou-se sobre a mesa, apoiando os nĂłs dos dedos no tampo.

— Estou avisando vocĂȘ.

— Por bem.

— Entregue a casa de campo, entregue o carro e nos separaremos em silĂȘncio.

— E se não for por bem? — Vera ergueu as sobrancelhas com curiosidade sincera.

— O que acontece então?

— Vai respirar ameaçadoramente na minha direção?

— Vou destruir a sua vida!

— Artiom, em dois anos vocĂȘ nem conseguiu instalar o varĂŁo da cortina no quarto.

— De que vida vocĂȘ estĂĄ falando?

— O que exatamente vai destruir?

Ele abriu a boca para dizer algo devastador, mas naquele momento a campainha tocou.

*

Lidia, mĂŁe de Artiom, estava parada Ă  porta.

Ela tirou o casaco, pendurou-o no gancho e entrou na cozinha com o passo seguro de alguém que não viera fazer uma visita, mas tratar de um assunto.

— Eu ouvi tudo ainda no corredor do prĂ©dio, — disse ela com tranquilidade.

— VocĂȘs estĂŁo gritando para o prĂ©dio inteiro ouvir.

— NĂŁo sou eu que estou gritando, Ă© ela que me provoca! — Artiom disparou imediatamente.

— Mãe, diga alguma coisa a ela!

— Diga que eu tenho direito!

Lidia sentou-se lentamente em uma cadeira, olhou para o filho e depois para Vera.

— A que vocĂȘ tem direito, meu filho? — perguntou calmamente.

— Enumere.

— Ao carro!

— À casa de campo!

— Sou o marido, sou o chefe da família!

— O chefe da família, — repetiu Lidia, balançando quase imperceptivelmente a cabeça.

— Deixe-me lembrar uma coisa.

— Mãe, não comece com as suas histórias


— Cale-se, — interrompeu-o, e sua voz ficou firme.

— Quando seu pai e eu nos divorciamos, ele levou tudo.

— Entende?

— Tudo.

— O carro, o apartamento, as economias.

— E, segundo os documentos, ele estava certo, porque tudo realmente pertencia a ele.

— EntĂŁo eu tambĂ©m


— VocĂȘ estĂĄ na situação oposta, — Lidia olhou diretamente para ele.

— VocĂȘ nĂŁo tem um Ășnico documento.

— Nada.

— E está sentado aqui exigindo o que pertence aos outros.

— Isso nĂŁo Ă© um direito, Artiom.

— É descaramento.

— De que lado vocĂȘ estĂĄ, afinal?! — explodiu ele.

— Do lado da justiça, — respondeu Lidia secamente.

— E hoje ela não está do seu lado.

Vera levantou-se em silĂȘncio, colocou a chaleira no fogo e tirou uma terceira caneca.

— Lidia Pavlovna, prefere com limão ou com hortelã?

— Com hortelã, Vera, obrigada.

— VocĂȘs vĂŁo mesmo ficar aqui tomando chĂĄ?! — Artiom quase se engasgou de raiva.

— VocĂȘs se uniram contra mim?!

— NinguĂ©m se uniu contra vocĂȘ, — disse a mĂŁe dele com calma.

— Eu só não quero descobrir um dia que meu filho expulsou uma mulher do próprio apartamento enquanto balançava as chaves de outra pessoa.

*

Artiom andava de uma parede Ă  outra, sua voz falhava e as veias de suas tĂȘmporas estavam inchadas.

— Isso Ă© injusto!

— VocĂȘs duas estĂŁo contra mim!

— EntĂŁo agora eu nĂŁo sou ninguĂ©m?!

— VocĂȘ Ă© um homem adulto que, dez minutos atrĂĄs, ameaçava me expulsar daqui sĂł de chinelos, — lembrou Vera calmamente.

— Sente-se.

— Termine de beber.

— Escute.

— Não vou ouvir nada!

— Vai, sim, — disse Lidia em um tom que o fez sentar-se.

Vera colocou uma caneca diante dele e apoiou o quadril no armårio, cruzando os braços com naturalidade, sem qualquer desafio.

— Agora Ă© a minha vez de mostrar as cartas, — disse ela.

— VocĂȘ passou a noite inteira me assustando com a lei.

— Então vamos falar de acordo com a lei.

— Vamos! — ele ergueu o queixo.

— O carro pertence à minha mãe.

— A casa de campo tambĂ©m Ă© dela e foi registrada antes do nosso casamento.

— NĂŁo hĂĄ nada para dividir, porque isso nĂŁo Ă© patrimĂŽnio comum do casal.

— Zero.

— Vazio.

— E o apartamento?!

— Nós moramos aqui!

— Este apartamento me foi dado de presente.

— Existe uma escritura de doação, Artiom.

— De antes de vocĂȘ.

— VocĂȘ se mudou para cĂĄ com uma Ășnica mala e uma cafeteira.

— A cafeteira Ă© minha! — disparou ele e imediatamente se calou, percebendo como aquilo soara ridĂ­culo.

Vera sorriu.

— Leve a cafeteira.

— Sinceramente, de todo o coração.

— De qualquer forma, ela borbulha de manhã como um trator velho.

A sogra soltou uma risadinha discreta dentro da caneca.

— Portanto, não temos nada para dividir, — continuou Vera.

— Nem carro, nem casa de campo, nem metros quadrados.

— E quanto ao cachorro


— Graf, venha aqui.

O cão levantou-se preguiçosamente do canto, caminhou até ela e sentou-se aos seus pés, encostando o corpo em sua perna.

— Está vendo? — ela coçou atrás da orelha dele.

— Ele fez a escolha sem advogados.

— Isso Ă© injusto, — sussurrou Artiom.

— Ele vinha atĂ© mim


— Por causa da linguiça, — lembrou Vera.

— E isso, convenhamos, nĂŁo Ă© amor, Ă© comĂ©rcio.

Artiom ficou sentado, segurando a caneca com as duas mĂŁos.

Ele procurava uma brecha, repassava ameaças na cabeça, mas todas desmoronavam assim que tentava formulå-las.

— VocĂȘs
 vocĂȘs planejaram tudo isso com antecedĂȘncia, — conseguiu dizer por fim.

— Não, — respondeu Vera calmamente.

— Eu simplesmente cuidei dos documentos no momento certo, enquanto vocĂȘ pintava o gato.

— Chega de falar do gato!

— Está bem.

— Não vamos falar do gato.

Ela se sentou diante dele.

— Artiom, eu nĂŁo estou com raiva de vocĂȘ.

— Não mais.

— Cansei de sentir raiva por volta do segundo ano da nossa vida juntos.

— EntĂŁo vocĂȘ nĂŁo se importa comigo? — o lĂĄbio dele tremeu quase de forma lamentosa.

— NĂŁo Ă© que eu nĂŁo me importe com vocĂȘ, — disse ela suavemente.

— Eu apenas me sinto tranquila em relação a vocĂȘ.

— É um sentimento diferente, e para vocĂȘ Ă© muito pior.

Lidia colocou a caneca na mesa e se levantou.

— Meu filho, escute-me pela Ășltima vez hoje, — disse ela.

— Certa vez fiquei sem nada porque acreditei em palavras bonitas e não li os documentos.

— Não quero que Vera repita o meu erro.

— E tambĂ©m nĂŁo quero que vocĂȘ repita o erro do seu pai.

— Então sente-se, respire e aceite uma coisa simples.

— Aqui, nada pertence a vocĂȘ.

— VocĂȘ nĂŁo construiu nada.

— E para onde eu vou? — perguntou ele em voz baixa.

— Para o lugar de onde veio, — respondeu Vera sem raiva.

— Com a mala e a cafeteira.

— Vou atĂ© lhe dar uma caixa, para que vocĂȘ nĂŁo perca nada pelo caminho.

Ele ficou em silĂȘncio por muito tempo.

Depois levantou os olhos, e jå não havia neles nem gritos agudos nem ameaças, apenas a confusão de um homem de quem haviam puxado o banco debaixo dos pés enquanto ele estava em cima dele balançando o punho.

— E se eu quiser ficar? — conseguiu dizer.

— Como uma pessoa civilizada.

— É tarde demais, — respondeu Vera calmamente.

— Sabe qual Ă© a diferença entre nĂłs?

— VocĂȘ enrolou, ameaçou e procurou algo para tomar.

— Eu simplesmente tomo decisĂ”es.

— Rapidamente.

— E hoje eu tomei a minha decisão.

— Assim, de repente?

— Para que prolongar?

— Prolongar as coisas Ă© a sua especialidade.

— Eu funciono de outro jeito.

A sogra aproximou-se da porta e se virou.

— Vera, deixe as chaves do carro e os documentos da casa de campo com vocĂȘ, — disse ela.

— Depois vocĂȘ os entrega Ă  sua mĂŁe, e eu mesma ligo para ela.

— E vocĂȘ, Artiom, arrume as suas coisas.

— Vou acompanhĂĄ-lo atĂ© a entrada do prĂ©dio, para que no caminho vocĂȘ nĂŁo se lembre de mais alguma coisa que seja supostamente “sua”.

— Mãe!

— E não se esqueça da cafeteira, — acrescentou Vera, entregando-lhe a caixa.

— Eu prometi.

Artiom levantou-se, pegou a caixa de forma desajeitada e apertou-a contra o peito como uma criança aperta a mochila no primeiro dia de escola, quando tudo ainda parece assustador e incompreensível.

— VocĂȘ vai se arrepender
 — começou ele por hĂĄbito, mas parou ao encontrar o olhar dela.

— Não precisa, — disse Vera calmamente.

— O final desta cena já está escrito.

— E, imagine só, nele não há carro, nem casa de campo, nem Graf.

— Apenas vocĂȘ e a cafeteira.

— Cuidem um do outro.

Ele permaneceu ali por mais um segundo, como se esperasse que ela mudasse de ideia, risse e dissesse: “Está bem, fique.”

Mas ela simplesmente abriu a porta diante dele.

— Graf, despeça-se, — disse ela.

O cĂŁo latiu uma vez, de forma curta e objetiva, e depois se virou para a tigela.

— Está vendo? — Vera sorriu.

— Nem ele gosta de despedidas prolongadas.

A porta se fechou suavemente, sem bater.

Vera girou a chave, apoiou-se no batente e soltou o ar com leveza, como alguém que finalmente larga uma bolsa pesada.

— Lidia Pavlovna vai acompanhĂĄ-lo, — disse ela em voz alta, embora jĂĄ nĂŁo houvesse ninguĂ©m atrĂĄs da porta.

— Quanto a mim, acho que vou tomar um chá.

— Com hortelã.

— E sem ameaças.

Graf se aproximou, sentou-se ao lado dela e apoiou a cabeça em seu joelho.

— Pronto, dividimos tudo, — disse ela baixinho para ele.

— O sofĂĄ para vocĂȘ.

— O silĂȘncio para mim.

— E a cafeteira para ele.

— Na minha opinião, foi justo.

E ela riu com calma e leveza, como uma pessoa que finalmente havia colocado tudo no devido lugar.

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