— Não foste tu que disseste que não querias netos nascidos de uma aventura?…

A campainha da porta soou curta e bruscamente, como se alguém tivesse carregado no botão com um dedo e retirado a mão imediatamente.

Nádia vinha do quarto, ajeitando o gancho no cabelo enquanto caminhava.

Aliska estava sentada no chão do corredor, concentrada em embrulhar com papel colorido um ursinho de peluche — um presente para o aniversariante.

Nádia sorriu para a filha e abriu a porta.

Tamara estava à porta.

Nádia sentiu-se como se tivesse levado um banho de água gelada.

Durante mais de três anos, tinha reconstruído a sua vida tijolo por tijolo — sem olhar para trás, sem passado, sem aquele rosto.

E agora ele estava ali novamente.

Na entrada, com os lábios apertados e um olhar penetrante.

— Olá, Nadezhda — disse Tamara, dando um passo em frente.

— Levei muito tempo para te encontrar.

— Escondeste-te da tua própria mãe como se eu fosse a peste.

Nádia bloqueou a passagem com o ombro.

— Olá, Tamara.

— Eu não me escondi.

— Simplesmente fui embora.

— Não me fales nesse tom! — a voz de Tamara elevou-se.

— Eu sou tua mãe!

— Tenho o direito de saber onde está a minha filha e o que lhe acontece!

— Desapareceste, mudaste de número de telefone e as tuas amigas mentiram-me na cara!

— Elas não mentiram.

— Elas realmente não sabiam de nada.

— Eu fiz questão de que não soubessem.

Tamara tentou olhar por cima do ombro de Nádia, e os seus olhos arregalaram-se quando viu a menina sentada no chão.

Loura, com olhos sérios e um laço que tinha escorregado para o lado.

— É ela? — a voz de Tamara tremeu.

— É a minha neta?

Nádia deu um passo em frente e fechou a porta atrás de si ao sair para o patamar.

A fechadura estalou.

Agora estavam frente a frente — mãe e filha — e entre elas havia três anos de silêncio.

— Deixa-me olhar para ela! — Tamara atirou-se contra a porta.

— Não tens qualquer direito moral de me privar da minha neta!

— Direito moral? — Nádia inclinou ligeiramente a cabeça.

— Que expressão interessante.

— Sobretudo vinda de ti.

— Dá quase vontade de a escrever.

— Para de gozar comigo!

— Estou a falar a sério!

— Eu também.

— Absolutamente a sério.

— Encontraste a minha morada, vieste sem telefonar, sem avisar, e estás a exigir acesso a uma criança que há três anos querias eliminar.

— É isto que está a acontecer, não é?

Tamara empalideceu.

— Estás a distorcer tudo!

— Não.

— Estou a citar-te.

— Palavra por palavra.

— Disseste: «Eu própria vou pegar-te pela mão e levar-te, e os médicos farão tudo antes que seja tarde demais».

— Lembras-te?

— Ou queres que também te recorde como me agarraste pelo cotovelo e me arrastaste até ao carro?

— Eu estava fora de mim!

— Não sabia o que estava a fazer!

— Durante uma semana?

— Durante uma semana inteira não sabias o que estavas a fazer?

— Durante sete dias não me disseste uma única palavra, e depois sabias muito bem o que estavas a fazer quando me ligavas seis vezes por dia e exigias sempre a mesma coisa: um aborto.

— Tinhas um plano, Tamara.

— Um plano claro e cuidadosamente pensado.

Tamara encostou-se à parede.

As suas mãos mexiam nervosamente na alça da mala.

— Eu estava assustada.

— Tu eras apenas uma miúda.

— Aquele teu… aquele rapaz fugiu.

— A mãe dele veio ter comigo com dinheiro, como se estivesse a tentar comprar o meu silêncio.

— Eu estava aterrorizada.

— Consegues compreender isso?

— Consigo — respondeu Nádia calmamente, acenando com a cabeça.

— Mas compreender e perdoar são dois verbos completamente diferentes.

— E conjugam-se de maneira diferente.

— Nádia, eu arrependo-me!

— Arrependes-te?

— Ou simplesmente precisaste de uma neta?

Tamara estremeceu, como se tivesse levado uma bofetada.

— O que estás para aí a dizer?!

— Vamos verificar isso.

— Diz-me, Tamara, como está o teu menino de ouro?

— Como está o Artom, o meu irmão?

— O medalhista, o aluno brilhante, o orgulho da família?

— Ele não deveria fazer-te feliz dando-te uma dúzia de netos?

— Tu dizias sempre: «O Artom é diferente, o Artom nunca me vai desiludir».

Tamara ficou em silêncio.

— Então?

— Não queres contar?

— Então conto eu.

— Porque, ao contrário de ti, sei encontrar informações discretamente.

— O Artom casou-se com uma mulher que já tem dois filhos.

— E essa mulher, ao que parece, não tem qualquer vontade de ter mais filhos.

— É verdade?

— Tu…

— Erraste, Tamara.

— Vieste parar ao deserto do bom senso.

— Não vieste ter comigo.

— Vieste ter com a tua opção de reserva.

— O Artom não te deu netos — e então lembraste-te da Nádia.

— A Nádia teve um filho.

— A Nádia tem uma criança.

— Podes vir aqui e exigir a tua parte do bolo.

— Isso não é verdade! — gritou Tamara, elevando a voz quase até ao limite.

— Pensei em ti todos os dias!

— Todos os dias!

— Pensaste.

— Mas não me procuraste.

— Três anos, Tamara.

— Três anos.

— No primeiro mês ligaste umas vinte vezes — e apenas por causa do aborto.

— Depois, silêncio.

— Nem uma única chamada a perguntar: «Como estás?»

— «Estás viva?»

— «Estás bem de saúde?»

— Zero.

— Eu contei.

— Tenho boa memória — é um hábito profissional.

— Eu não sabia onde te procurar!

— E agora, afinal, descobriste.

— Quando precisaste.

— Quando o teu menino de ouro, Artom, se revelou incapaz de te dar herdeiros.

— Que coincidência extraordinária.

Tamara soluçou.

— És cruel.

— Não, Tamara.

— Crueldade é quando uma mãe arrasta a filha grávida para fazer um aborto.

— Crueldade é quando aceitas dinheiro daquela mulher, a mãe do rapaz que me abandonou.

— Tu aceitaste-o, não aceitaste?

— Não negues.

— Ela veio com um envelope e tu não o devolveste.

Tamara desviou o olhar.

— Eu depois…

— Eu…

— Estás a ver?

— Nem sequer consegues mentir de forma convincente.

— Aquela mulher veio comprar um aborto para o meu filho, e tu, em vez de a expulsar pela porta, acenaste com a cabeça e aceitaste.

— Vocês as duas decidiram que a minha filha era um problema.

— Lixo.

— Um erro.

— Uma criança nascida de uma aventura.

— Não fales assim!

— E como queres que eu fale?

— Não foste tu que disseste que não querias netos nascidos de uma aventura?

— Palavra por palavra.

— Na cozinha.

— Na minha cara.

— À tua própria filha.

— Eu tinha vinte anos e estava tão assustada que os meus joelhos tremiam.

Tamara cobriu o rosto com as mãos.

— Agora sou uma pessoa diferente — sussurrou com voz abafada.

— Eu mudei.

— Dá-me uma oportunidade.

— Uma oportunidade? — Nádia ficou em silêncio por um segundo.

— Sabes, eu dei uma oportunidade a mim mesma.

— Quando fugi de ti com o meu passaporte e três mil rublos.

— Quando dormi em casa de desconhecidos.

— Quando dei à luz sozinha, sem a minha mãe ao meu lado.

— Dei-me uma oportunidade e aproveitei-a.

— Mas tu não aproveitaste a tua.

A porta atrás de Nádia entreabriu-se.

Igor saiu — alto, calmo, com Aliska ao colo.

A menina apertava contra o peito o ursinho embrulhado.

— Nádia, prometemos que estaríamos na casa do Lesha dentro de uma hora — disse ele suavemente.

— É o aniversário do Danilka, lembras-te?

— A Aliska já embrulhou o presente.

— Mostra-mo a cada cinco minutos.

Aliska levantou imediatamente o embrulho.

— Mamã, olha!

— Fiz bem?

— Fizeste muito bem, querida — respondeu Nádia, sorrindo para a filha.

— O Danilka vai gostar.

Tamara olhava avidamente para a neta, sem conseguir desviar os olhos dela.

A menina era parecida com Nádia — os mesmos olhos, o mesmo queixo teimoso.

Os lábios de Tamara começaram a tremer.

— É ela — sussurrou Tamara.

— É tão bonita…

Igor olhou para Tamara.

Tinha ouvido toda a conversa atrás da porta.

Conhecia aquela história — Nádia tinha-lhe contado tudo logo no primeiro mês em que começaram a namorar.

Sem esconder nada e sem embelezar os factos.

— Igor — disse Nádia, olhando para o marido — vamos embora.

— Estou pronto — respondeu ele, acenando com a cabeça e embalando ligeiramente Aliska nos braços.

— Alis, diz: «Vamos chegar atrasados à festa!»

— Vamos chegar atrasados à festa! — repetiu a menina alegremente.

Nádia virou-se para a mãe.

— Tamara.

— Encontraste-me — parabéns.

— Mas não encontraste a minha filha.

— Porque ela nunca esteve perdida.

— Ela estava comigo.

— Desde o início.

— Desde o segundo em que decidiste que ela não deveria existir.

— Nádia, por favor…

— Não.

— Eu vou voltar!

— Eu vou esperar!

— Tens o direito de ficar no patamar.

— Mas eu tenho o direito de não abrir a porta.

— E vou exercê-lo.

— Não vou abrir.

Nádia pegou em Aliska dos braços de Igor e ajeitou-lhe o laço.

A menina encostou o nariz ao pescoço da mãe.

— Vamos, Aliska.

— Hoje temos uma festa.

— Nádia! — Tamara deu um passo em frente.

— Só um minuto!

— Eu só quero dizer…

— Já disseste tudo.

— Há três anos.

— E eu lembro-me de cada palavra.

— Disseste: «Não quero netos nascidos de uma aventura».

— Disseste: «Envergonhas a família».

— Disseste: «O Artom nunca faria uma coisa dessas».

— Então vive agora com o Artom, com as medalhas dele, com os diplomas dele e com a mulher dele, que não te dará um único neto.

— E eu vou viver com a minha filha «nascida de uma aventura», com um marido que nos ama às duas e com pessoas que nunca me sugeriram matar o meu filho.

Igor pegou na mão da mulher.

Desceram as escadas.

Aliska acenou por cima do ombro de Nádia — simplesmente porque tinha três anos e acenava para toda a gente.

Tamara ficou parada no patamar.

A porta da entrada do prédio bateu lá em baixo.

Tamara deixou-se escorregar para um degrau e sentou-se.

A mala caiu ao lado dela.

Lembrou-se daquela noite em que Zinaida entrou no apartamento — a mãe daquele rapaz, Kostia.

Entrou com confiança, um envelope na mão e um discurso ensaiado até à vírgula.

«A tua filha não precisa disto.

— O meu filho não precisa disto.

— Aqui está o dinheiro.

— Resolva o assunto.»

E Tamara acenou com a cabeça.

Não porque concordasse — mas porque estava assustada.

Tinha medo dos olhares alheios, das conversas dos outros e dos sussurros dos vizinhos.

Depois, o medo transformou-se em raiva.

Raiva contra Nádia — por ela ter «deixado aquilo acontecer».

Contra Kostia — por ele ter fugido.

Contra a mãe dele — por causa daquele envelope humilhante.

Mas, acima de tudo, contra si mesma.

E essa raiva contra si mesma, ela virou-a do avesso e descarregou-a sobre a filha.

Lembrou-se de como agarrou Nádia pela mão.

De como Nádia se soltou.

De como a porta bateu.

E de como ela ficou parada no corredor, pensando: «Ela vai voltar.

— Para onde haveria de ir?

— Vai acalmar-se e voltar.»

Ela não voltou.

Tamara tirou o telefone do bolso.

Percorreu os contactos.

Artom.

O seu menino de ouro.

O único que lhe restava.

Carregou no botão de chamada.

— Estou? — respondeu Artom com indiferença.

— Toma, encontrei a Nádia.

— Ela tem uma filha.

— A tua sobrinha.

— É tão bonita, loirinha…

— E então? — a voz de Artom era indiferente.

— A Nádia também não fala comigo.

— O que queres de mim?

— Apoio, Toma.

— Ajuda-me a falar com ela.

— Olha, já tenho problemas que cheguem.

— Resolve isso sozinha.

— Não tenho tempo.

A chamada terminou.

Tamara deixou o telefone cair sobre os joelhos.

O menino de ouro.

O medalhista.

O aluno brilhante.

Ele não tinha tempo.

Ela estava sentada no degrau de betão daquela escada desconhecida e pensava que o nascimento de Nádia e Artom tinha sido uma festa para ela.

Uma felicidade verdadeira, enorme, avassaladora.

Lembrava-se de cada detalhe — o primeiro choro da filha e o primeiro sorriso do filho.

E, algures entre aqueles dias e aquela escada de betão, tinha perdido tudo.

Não foi Nádia que a abandonou.

Foi ela própria que expulsou Nádia da sua vida.

Com as duas mãos.

Com o dinheiro de uma mulher desconhecida e palavras que já não podiam ser retiradas.

«Não quero netos nascidos de uma aventura.»

Cinco palavras.

Cinco palavras — e um vazio para o resto da vida.

Tamara levantou-se, pegou na mala e desceu lentamente as escadas.

Do outro lado da porta do prédio estava a cidade, onde algures a sua filha seguia de carro com o marido e a filha — para o aniversário de uma criança desconhecida, para junto de pessoas que se tinham tornado mais próximas do que a própria família.

E ela foi para casa.

Para o apartamento onde, na parede, estava pendurada uma fotografia de Artom com uma medalha de ouro.

E onde não havia uma única fotografia de Nádia.

Nem uma.

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