Então a mãe dele ligou — e tudo saiu do controle.
Vera fechou a última caixa e sentou-se em um banquinho no meio da cozinha.

Uma sensação estranha: doze anos de vida couberam em quatro caixas de papelão e dois sacos de lixo.
O divórcio tinha sido assinado naquela manhã.
Rápido, silencioso, quase educado.
A juíza nem levantou os olhos enquanto lia.
Igor estava de pé com uma camisa nova, cheirava a um perfume masculino que não parecia dele e não olhou uma única vez na direção dela.
Vera também não olhava para ele.
Ela observava a rachadura na parede atrás da cabeça da juíza e pensava que aquela rachadura parecia o mapa do rio que eles tinham visto na Carélia quatro anos antes.
Naquela época ainda parecia que tudo ficaria bem.
Agora já não parecia.
O táxi deveria chegar em uma hora.
Vera o havia chamado até a estação.
De lá, pegaria o trem para Saratov, para a casa da mãe.
Temporariamente, claro.
Ou talvez não.
Ela ainda não sabia.
No peitoril da janela ficou o cacto.
Pequeno, torto, em um vaso com a borda lascada.
Vera o comprou no terceiro mês depois do casamento.
Igor então disse: para que você quer esse espinho, compre uma flor normal.
E ela respondeu: ele é resistente.
Eu gosto das coisas resistentes.
Agora o cacto estava no peitoril da janela e parecia que não se importava com nada.
Vera sentiu inveja.
Ela se levantou e abriu a geladeira.
Vazia.
Na prateleira de cima havia um pedaço de queijo embrulhado em plástico e um pote de mostarda.
Vera fechou a porta.
Depois abriu de novo.
Depois fechou.
Por algum motivo, limpou a maçaneta com uma toalha.
O telefone tocou quando ela já estava vestindo o casaco.
O número era conhecido.
Zinaida Pavlovna.
Sua sogra.
Ex-sogra, para ser mais exata.
Embora, com Zinaida Pavlovna, a palavra “ex” soasse como uma piada.
Aquela mulher nunca tinha sido ex.
Ela sempre era presente.
Presente demais.
Vera olhava para a tela e não atendia.
O telefone tocava.
Depois parou.
Depois começou a tocar de novo.
Na terceira vez, ela atendeu.
— Vera, você ainda está no apartamento?
A voz de Zinaida Pavlovna não soava como de costume.
Normalmente havia nela uma segurança que dava vontade de chamar de concreto.
Mas agora alguma coisa vacilou.
Só um pouco, por meia palavra.
— Sim, Zinaida Pavlovna.
Vou embora em quarenta minutos.
— Preciso ir até você.
— Para quê?
Uma pausa.
Longa.
Pelo telefone dava para ouvir Zinaida Pavlovna respirando.
E também algum outro som, como se ela estivesse mudando alguma coisa de lugar sobre a mesa.
— Porque preciso lhe entregar uma coisa.
E dizer outra.
Pessoalmente.
Vera quis recusar.
Durante doze anos ela tinha ouvido Zinaida Pavlovna.
Durante doze anos tinha assentido, suportado, sorrido quando queria gritar.
Poderia simplesmente dizer: “Não, obrigada, preciso ir”.
Desligar.
Ir embora.
Começar uma vida nova.
Em vez disso, disse:
— Venha.
E ela mesma não entendeu por quê.
Zinaida Pavlovna apareceu vinte e cinco minutos depois.
Com um longo casaco cinza, uma bolsa de couro e as botas que Vera se lembrava desde o primeiro encontro.
As botas eram velhas, mas estavam engraxadas até brilhar.
Zinaida Pavlovna era sempre assim: as coisas podiam estar gastas, mas sujas nunca estariam.
Ela entrou sem tirar os sapatos.
Antes, Vera teria ficado calada.
Agora também ficou calada, mas por outro motivo.
Que diferença fazia.
O apartamento já não era dela.
— Sente-se, — disse Zinaida Pavlovna.
— Estou bem em pé.
— Sente-se, Vera.
Vera se sentou.
Não porque obedeceu.
Simplesmente porque suas pernas estavam cansadas.
Estava de pé desde as seis da manhã: arrumando as coisas, indo ao tribunal, voltando, arrumando de novo.
O corpo inteiro latejava.
Zinaida Pavlovna colocou a bolsa sobre a mesa.
Abriu o zíper.
Tirou um envelope.
Um envelope branco comum, sem nada escrito.
— O que é isso?
— Abra.
Vera virou o envelope nas mãos.
Leve.
Dentro havia algo de papel, fino.
Ela rasgou a borda e tirou uma folha.
Depois a segunda.
Depois a terceira.
A primeira folha era uma cópia de um extrato bancário.
Em nome de Igor.
Data: um ano e meio antes.
Transferência de quatrocentos e oitenta mil rublos.
Destinatária: Krivtsova D. A.
A segunda folha era outro extrato.
Trezentos e vinte mil.
Para a mesma destinatária.
Data: onze meses antes.
A terceira folha era uma impressão de mensagens.
Curta.
Cinco mensagens.
Vera leu a primeira: “Amor, transferi para a creche, obrigada, beijo”.
A segunda: “Compre para ela o macacão de inverno, depois mando mais”.
A terceira: “Quando você vem? Asya está perguntando pelo papai”.
Vera releu a última frase.
Depois releu de novo.
As letras continuavam no lugar, mas o sentido parecia escapar.
— Quem é Asya?
Zinaida Pavlovna não se sentou.
Estava de pé junto à janela, de costas para a luz.
— Asya é filha dele.
De outra mulher.
Ela tem três anos.
A cozinha ficou em silêncio.
Em algum lugar atrás da parede, os vizinhos ligaram a televisão.
Vera ouvia a voz abafada do apresentador e pensava: ali está uma pessoa que agora está bem.
Ele só está lendo as notícias.
Não há um envelope na mesa dele.
— Três anos, — repetiu Vera.
— Três anos e dois meses, para ser exata.
Vera colocou as folhas sobre a mesa.
Com cuidado, em pilha.
Por algum motivo, alinhou as bordas.
— A senhora sabia?
— Descobri há oito meses.
— E ficou calada.
— Fiquei calada.
— Por quê?
Zinaida Pavlovna se virou da janela.
Seu rosto estava cansado.
Não era mau, nem culpado.
Era exatamente cansado.
Assim parecem as pessoas que não dormem há muito tempo, não por insônia, mas por causa dos pensamentos.
— Porque pensei que ele mesmo contaria a você.
Eu esperei.
Esperei todos os meses.
Toda vez que vocês vinham jantar, eu olhava para ele e esperava que abrisse a boca e dissesse a verdade.
— Ele não disse.
— Não.
Vera olhou para o cacto.
O cacto estava ali.
Resistente.
Ela deveria ter ido embora vinte minutos antes.
O táxi provavelmente já tinha partido.
Ela não verificou o telefone.
— Zinaida Pavlovna, por que a senhora está me mostrando isso agora?
O divórcio já foi assinado.
Eu estou indo embora.
Que diferença faz para mim de quem ele tem uma filha?
Zinaida Pavlovna tirou da bolsa uma segunda coisa.
Também era um envelope, mas mais grosso.
Vera olhou, mas não pegou.
— Pegue.
Dentro havia documentos.
Uma cópia do certificado de propriedade do apartamento de Zinaida Pavlovna em Podolsk.
Uma cópia do contrato de doação.
E uma folha separada, escrita à mão com uma letra grande e regular.
“Eu, Maslova Zinaida Pavlovna, pretendo transferir o apartamento de um quarto situado no endereço cidade de Podolsk, rua Sadovaya, n.º 14, apartamento 37, para Maslova Vera Andreevna.
Motivo: decisão pessoal, detalhes na declaração notarial”.
Vera leu duas vezes.
Depois colocou a folha sobre a mesa.
— Isso é uma piada.
— Eu pareço uma pessoa que faz piadas?
Não, Zinaida Pavlovna não parecia uma pessoa que fazia piadas.
Em doze anos, Vera tinha ouvido exatamente uma piada dela.
No casamento.
Algo sobre a noiva ser bonita e o filho ainda não merecê-la.
Os convidados riram.
Zinaida Pavlovna não.
— Por que a senhora quer fazer isso?
— Não é para mim.
É para você.
— Mas por quê?
Zinaida Pavlovna se sentou no segundo banquinho.
Devagar, como se estivesse verificando se ele aguentaria.
O banquinho rangeu.
— Porque meu filho agiu de forma vil.
E fui eu que o criei.
Isso significa que parte da vileza dele é minha.
Não quero viver com isso.
Vera abriu a boca e fechou.
Depois abriu de novo.
— Zinaida Pavlovna, eu não posso aceitar o seu apartamento.
— Pode.
— Isso não é certo.
— Errado é um marido viver doze anos com a esposa e, durante três anos, sustentar outra família enquanto a esposa só descobre tudo depois do divórcio.
Isso é errado.
O apartamento é justiça.
Vera esfregou a testa.
A cabeça zumbia.
Lembrou-se de como, seis meses antes, Igor de repente parou de colocar dinheiro na conta conjunta.
Disse que havia atraso no trabalho.
Depois outra vez.
Depois mais uma.
Vera então não discutiu.
Pensou: tudo bem, acontece.
Acontece.
Quatrocentos e oitenta mil.
Trezentos e vinte mil.
Creche.
Macacão de inverno.
Asya.
— Ele sabe que a senhora está aqui?
— Não.
E não saberá até que tudo esteja formalizado.
Vera conhecia Zinaida Pavlovna havia doze anos.
E durante todos esses doze anos teve medo dela.
Não a ponto de tremer.
Não se escondia, não chorava.
Apenas sempre sentia ao lado dela uma tensão, como antes de uma tempestade, quando o ar fica pesado e se torna difícil respirar.
Zinaida Pavlovna nunca gritava.
Não insultava.
Não arremessava pratos.
Fazia pior: dizia a verdade com um tom que dava vontade de afundar no chão.
“Vera, a sopa está salgada demais”.
Não “sopa horrível”.
Não “você não sabe cozinhar”.
Apenas: salgada demais.
Um fato.
De concreto, como a voz dela.
“Vera, Igor emagreceu.
Você está alimentando ele?”
Sem acusação.
Sem grito.
Apenas uma pergunta, depois da qual dava vontade de se justificar, embora não houvesse nada do que se justificar.
“Vera, com esse vestido você parece mais velha”.
Não “fica ruim”.
Mais velha.
E depois o silêncio, no qual Vera completava sozinha todo o resto.
Ela aprendeu a não discutir.
Aprendeu a assentir.
Aprendeu a cozinhar borsch pela receita de Zinaida Pavlovna, a passar camisas como Zinaida Pavlovna mostrava, a parabenizar os parentes nos dias determinados por Zinaida Pavlovna.
E nenhuma vez, em doze anos, ouviu dela: “Obrigada, Vera.
Você foi ótima”.
Nenhuma vez.
Por isso, agora, quando Zinaida Pavlovna estava sentada diante dela oferecendo-lhe um apartamento, Vera não conseguia acreditar.
Não no apartamento.
No fato de que aquela mulher tinha ido até ela.
Por vontade própria.
Não pelo filho.
Por ela.
— Zinaida Pavlovna.
— O quê.
— A senhora nunca gostou de mim.
Silêncio.
A televisão dos vizinhos murmurava algo sobre o tempo.
Prometiam chuva.
— Não, — respondeu Zinaida Pavlovna.
Não gostava.
Eu achava que ele merecia alguém melhor.
Desculpe por isso.
Vera esperou que ela continuasse.
Mas Zinaida Pavlovna ficou calada.
Apenas sentada, com as mãos sobre os joelhos.
As botas engraxadas.
O casaco abotoado até o último botão.
Os olhos secos.
— E agora?
— Agora acho que ele não merece o melhor.
Aquilo não era um pedido de desculpas.
Não era uma declaração de afeto.
Não eram palavras calorosas que fazem a gente querer chorar.
Era a verdade, dita com a mesma voz de concreto.
Só que, pela primeira vez, o concreto estava do lado dela.
Vera ligou para a estação e devolveu a passagem.
Perdeu trezentos rublos na devolução.
Depois ligou para a mãe.
— Mãe, vou me atrasar.
— Por muito tempo?
— Ainda não sei.
A mãe ficou em silêncio.
Vera ouviu, do outro lado, o tilintar de uma colher contra uma xícara.
— Você está bem?
— Não entendo o que está acontecendo.
Mas estou bem.
— É a mesma coisa, filha.
Quando você não entende, mas está bem, significa que algo certo aconteceu.
Vera sorriu.
Pela primeira vez naquele dia.
Ela desligou e olhou para Zinaida Pavlovna, que ainda estava sentada na cozinha.
Ela não tocava em nada, não olhava dentro das caixas, não comentava a geladeira vazia.
Apenas esperava.
— Preciso pensar, — disse Vera.
— Pense.
Mas leve os documentos com você.
O notário pode nos receber na quinta-feira.
— Nesta quinta-feira?
— E por que adiar?
Vera guardou os envelopes na bolsa.
Suas mãos tremiam um pouco, mas não de medo.
De outra coisa.
Ela não conseguia encontrar a palavra.
Igor ligou à noite.
Vera já estava sentada em um quarto alugado pelo Avito.
Pequeno, com um sofá afundado e cheiro de ar-condicionado de outra pessoa.
Na parede havia um calendário do ano anterior.
Março estava marcado com caneta vermelha, sem explicação.
— Onde você está?
— perguntou Igor.
A voz calma, regular.
Voz de alguém para quem tudo está saindo conforme o plano.
— Para que você quer saber?
— Você esqueceu o carregador no quarto.
— Fique com ele.
Pausa.
— Vera, não precisa ser assim.
Nós nos separamos normalmente.
Normalmente.
Vera repetiu essa palavra para si mesma e pensou que ela soava como o nome de um analgésico.
“Normalmente” — tomar três vezes ao dia, não combinar com a verdade.
— Igor, quem é Krivtsova?
Silêncio.
Não uma pausa.
Silêncio.
A diferença é que uma pausa termina, enquanto o silêncio às vezes não.
— De onde você…
— Não importa.
— Vera, escuta…
— Não.
Nada de “escuta”.
Durante doze anos você me disse “escuta”.
Eu escutei.
Chega.
Ela apertou o botão de encerrar a chamada.
O telefone caiu no sofá com a tela virada para baixo.
Vera olhou para o teto.
Não havia rachaduras.
Um teto branco e limpo.
Estranhamente, foi isso que a acalmou.
No dia seguinte, Vera foi até a casa de Zinaida Pavlovna.
Não porque tivesse se decidido.
Porque não conseguia ficar no quarto alugado, com o cheiro do ar-condicionado de outra pessoa, olhando para o calendário de março.
Zinaida Pavlovna abriu a porta de avental.
Na cozinha havia cheiro de cebola e de alguma coisa de carne.
Vera parou na soleira.
— A senhora está cozinhando?
— Eu cozinho todos os dias.
— Não, quero dizer… estava me esperando?
Zinaida Pavlovna olhou para ela.
Depois se virou e voltou para a cozinha.
— Tire os sapatos.
Os chinelos estão à direita.
Vera tirou os sapatos.
Os chinelos eram novos, ainda na embalagem.
Verdes, com sola macia.
Do tamanho dela.
Ela ficou parada com os chinelos nas mãos e não conseguia se mexer.
— Vai calçar ou não?
A sopa está esfriando.
Vera calçou.
A cozinha de Zinaida Pavlovna era pequena, mas limpa até o indecente.
Cada coisa estava em seu lugar.
O saleiro exatamente no centro da mesa.
A toalha no gancho, dobrada em quatro.
As xícaras em fila, com as alças viradas para o mesmo lado.
Sobre a mesa havia dois pratos.
Não um.
— Sente-se.
Vera se sentou.
Zinaida Pavlovna serviu a sopa.
De frango, com macarrão.
Vera pegou a colher e provou.
Salgada demais.
Só um pouquinho.
Ela levantou os olhos.
Zinaida Pavlovna comia em silêncio, sem olhar para ela.
— A sopa está gostosa.
— Está salgada demais, — respondeu Zinaida Pavlovna.
Eu sei.
Minhas mãos tremiam quando coloquei o sal.
Vera não perguntou por quê.
Apenas comeu.
A sopa estava quente e espessa, e fazia tudo ficar mais morno por dentro.
Depois do almoço, elas ficaram sentadas na sala.
Zinaida Pavlovna tirou do armário uma pasta.
Velha, marrom, com elástico.
— Isto é tudo o que encontrei nos últimos oito meses.
Vera abriu a pasta.
Dentro havia muito mais do que no envelope.
Extratos bancários.
Capturas de tela.
O endereço do apartamento que Igor alugava para Krivtsova em Odintsovo.
Recibos de uma loja infantil.
Uma fotografia: Igor em um parquinho, com uma menina nos braços.
A menina ria.
Vera olhou para a fotografia por muito tempo.
O rosto da menina era redondo, com covinhas.
Parecia com Igor.
Os mesmos olhos, o mesmo queixo.
— De onde a senhora tirou essas fotos?
— Encontrei o segundo telefone dele.
No casaco, quando ele o deixou comigo no inverno.
Vera imaginou Zinaida Pavlovna mexendo nos bolsos do casaco do filho.
Encontrando o telefone.
Descobrindo a senha.
Folheando a vida alheia.
Fechando o telefone.
Colocando-o de volta.
E ficando calada por oito meses.
— Deve ter sido difícil para a senhora.
Zinaida Pavlovna não respondeu.
Levantou-se, foi até a janela e ajeitou a cortina, que já estava perfeitamente reta.
— Difícil foi quando Tolik morreu.
Aquilo foi difícil.
Aqui é só vergonha.
Tolik era o marido de Zinaida Pavlovna.
O pai de Igor.
Morreu nove anos antes.
Vera esteve no funeral.
Zinaida Pavlovna estava junto ao caixão com o mesmo casaco cinza, os olhos secos, e apenas as mãos a denunciavam.
Os dedos apertavam o lenço com tanta força que os nós ficaram brancos.
— Tolik o teria matado, — disse Zinaida Pavlovna sem se virar.
E não me perdoaria por isto.
Por eu ter ficado calada.
Por eu ter permitido.
— A senhora não permitiu.
A senhora não sabia.
— Eu soube nos últimos oito meses.
Isso basta.
À noite, Vera voltou ao quarto alugado e espalhou os documentos sobre o sofá.
A cópia do certificado.
O contrato de doação.
A declaração escrita à mão.
A pasta com as provas.
Ela ficou sentada, olhando para tudo aquilo, e não conseguia alinhar os pensamentos.
Uma parte dela queria ir embora.
Simplesmente se levantar, juntar as caixas, entrar no trem e esquecer.
Esquecer tudo.
Igor, Krivtsova, Asya, o apartamento em Podolsk, a sopa salgada demais e os chinelos verdes.
A outra parte entendia que ir embora não seria possível.
Não por causa do apartamento.
Porque Zinaida Pavlovna tinha comprado chinelos para ela.
Novos.
Do tamanho dela.
Verdes.
Sem palavras, sem explicações.
Simplesmente colocou-os junto à porta.
Vera pegou o telefone.
Escreveu uma mensagem para a mãe: “Mãe, aqui é mais complicado do que eu pensava.
Conto depois”.
Enviou.
Depois apagou toda a conversa com Igor.
Não por raiva.
Por higiene.
Na quarta-feira, Vera voltou à casa de Zinaida Pavlovna.
Dessa vez sem convite.
Tocou a campainha e, quando ela abriu, disse:
— Vou com a senhora ao notário.
Mas preciso saber uma coisa.
— Qual.
— A senhora está fazendo isso por culpa?
Zinaida Pavlovna ficou parada no vão da porta.
Atrás dela, o relógio de parede fazia tique-taque.
Velho, com pêndulo, que Vera lembrava desde a primeira visita.
— Em parte.
— E sem ser por culpa?
— Porque você viveu doze anos com meu filho.
Suportou a mim.
Suportou a ele.
Cozinhou, limpou, esperou.
E em doze anos não roubou desta família nem um rublo, nem um dia, nem o marido de outra mulher.
Ele roubou tudo.
Vera estava no patamar da escada.
No prédio havia cheiro de tinta fresca.
Alguém havia pintado o corrimão, e uma gota caiu no degrau.
— Eu não sou uma nora ideal, Zinaida Pavlovna.
— E eu não sou uma sogra ideal.
Mas sou honesta.
Entre.
Vera entrou.
Os chinelos estavam no mesmo lugar.
Ao notário elas foram na quinta-feira, como combinado.
Zinaida Pavlovna vestiu-se como para uma recepção: terno escuro, brincos que Vera só tinha visto em fotografias.
Pequenos, de ouro, com uma pedra vermelha.
A notária era uma mulher de uns cinquenta anos, com cabelo curto e o hábito de bater a caneta na mesa enquanto esperava uma resposta.
— A senhora entende o que está assinando?
Zinaida Pavlovna assentiu.
— Espere.
Sou obrigada a esclarecer.
A senhora está transferindo sua única moradia?
— Tenho um quarto em um apartamento comunitário na Tverskaya.
Ficou de minha mãe.
Vou registrar residência lá.
A notária olhou para Vera.
Depois para Zinaida Pavlovna.
Depois de novo para Vera.
— Vocês são parentes?
— Ex-sogra e ex-nora, — disse Zinaida Pavlovna.
A notária ficou em silêncio.
Bateu a caneta.
— Acontece, — disse ela.
Não ficou claro a que isso se referia.
Os documentos foram preparados em uma hora e meia.
Vera assinava e sentia os dedos úmidos, embora a sala estivesse fresca.
Zinaida Pavlovna assinava com calma, com uma letra regular, sem perguntar de novo.
Quando saíram para a rua, Vera parou diante da entrada e disse:
— Obrigada.
Zinaida Pavlovna abotoava o casaco.
Um botão não queria entrar, e ela lutou com ele por uns dez segundos antes de conseguir.
— Não agradeça.
Não estou fazendo isso por você.
— Por quem, então?
— Por mim mesma.
Para que Tolik, se estiver olhando de algum lugar, não pense que sou igual a Igor.
Ela se virou e foi em direção ao ponto de ônibus.
As costas retas, o passo firme.
O casaco era um pouco grande demais, mas caía nela como se tivesse sido feito sob medida.
Igor ficou sabendo uma semana depois.
Não ligou para Vera.
Ligou para a mãe.
Vera não ouviu a conversa, mas Zinaida Pavlovna depois contou.
Brevemente, como sempre.
— Ele gritou?
— Gritou.
— O que disse?
— Que eu o traí.
Que fiquei do lado de uma mulher estranha.
Que aquele apartamento era a herança dele.
— E a senhora?
— Eu disse: a herança é recebida por quem a merece.
E você mereceu apenas o macacão infantil no recibo.
Vera imaginou a cena.
Zinaida Pavlovna ao telefone, na cozinha com as xícaras alinhadas, e a voz dela.
De concreto.
Calma.
Sem rachaduras.
— Ele vai aparecer.
— Que apareça.
Os documentos estão formalizados.
— Ele pode entrar na Justiça.
— Pode.
Mas não vai.
Porque então, no tribunal, virá à tona todo o resto.
Extratos.
Transferências.
Asya.
Vera estremeceu.
Não por causa do nome.
Pelo modo como Zinaida Pavlovna o pronunciou.
Sem raiva.
Com um cansaço mais profundo que a raiva.
— A senhora sente pena dessa menina?
Zinaida Pavlovna ficou muito tempo calada.
Tanto tempo que Vera pensou: ela não ouviu.
— Sinto pena de todas as crianças enganadas pelos adultos.
Mas não tenho nada para dar a ela.
Não sou avó dela.
Sou avó de apenas uma criança.
Que nunca nasceu.
Vera abaixou os olhos.
Era uma ferida antiga.
Ela e Igor tentaram por cinco anos.
Não deu certo.
Os médicos diziam coisas diferentes.
Igor primeiro a consolava, depois parou.
Depois encontrou Krivtsova.
Ao que parecia, com ela deu certo.
— Zinaida Pavlovna, não quero falar sobre isso.
— Eu também não.
Quer chá?
Vera se mudou para o apartamento em Podolsk duas semanas depois.
Um apartamento de um cômodo, no terceiro andar, com varanda e vista para o parque.
As paredes estavam cobertas com papel de parede antigo, de florzinhas pequenas.
No banheiro havia um copo de plástico com duas escovas de dente.
Uma era de Zinaida Pavlovna.
A segunda não se sabia de quem era.
Talvez de Tolik.
Talvez apenas uma reserva.
Vera não jogou fora.
Guardou no armário.
Na primeira noite, ela ficou deitada no sofá de Zinaida Pavlovna e escutou o silêncio.
Podolsk era mais silenciosa que Moscou.
Os carros passavam raramente.
Em algum lugar, um cachorro latia, mas de modo preguiçoso, sem entusiasmo.
Ela pensava que, doze anos antes, tinha entrado no apartamento de Igor como esposa.
E agora entrava no apartamento da mãe dele como… o quê?
Herdeira?
Beneficiária?
Ex-parente com escritura?
Não.
Entrava como uma pessoa que, pela primeira vez, recebeu algo simplesmente assim.
Não pelo borsch.
Não pela paciência.
Não pelo silêncio.
Mas porque assim decidiu uma mulher que, durante doze anos, a considerou insuficiente.
Vera virou-se de lado.
Sobre o criado-mudo havia um despertador.
Velho, mecânico, com dois sininhos.
Os ponteiros marcavam quinze para meia-noite.
Ela fechou os olhos.
Amanhã precisaria comprar mantimentos.
Encontrar a clínica mais próxima.
Organizar os documentos.
Desfazer a última caixa.
Amanhã precisaria começar.
Igor apareceu três dias depois.
Sem ligar, sem avisar.
Tocou a campainha de manhã, quando Vera tinha acabado de se levantar e estava preparando café na velha cezve de Zinaida Pavlovna.
Ela abriu a porta e o viu.
Ele estava no patamar, com a mesma camisa do tribunal.
Ou uma parecida.
O rosto estava irritado, mas não com uma irritação segura; antes, uma irritação perdida.
Como a de alguém que preparou um discurso, mas esqueceu a primeira palavra.
— Este apartamento é meu, — disse ele.
— Era.
Agora é meu.
— Minha mãe não tinha esse direito.
— Tinha.
Era propriedade dela.
Era.
Ele deu um passo à frente.
Vera não recuou.
— Vera, você não entende o que está fazendo.
Isso é manipulação.
Ela está usando você.
— Para quê?
— Para me atingir!
— E você tem com o que ser atingido, Igor?
Ele abriu a boca.
Fechou.
As mãos se fecharam em punhos, depois se abriram.
Ele olhou além dela, para o corredor, e viu os chinelos junto à porta.
Verdes.
— Esses são os chinelos da mamãe?
— Não.
São meus.
Ele ficou ali por mais uns dez segundos.
Depois se virou e foi embora.
Os passos na escada eram rápidos, irregulares.
Uma vez ele tropeçou.
Vera ouviu.
Ela fechou a porta.
Voltou para a cozinha.
O café tinha transbordado.
Enquanto limpava o fogão, o telefone tocou.
Zinaida Pavlovna.
— Ele foi aí?
— Foi.
— Gritou?
— Não.
Ficou parado e foi embora.
— Pior.
Significa que está pensando.
— Que pense.
Pausa.
— Vera.
— Sim?
— O café está no armário de cima, atrás dos cereais.
Esqueci de dizer.
— Eu encontrei.
— Ótimo.
Zinaida Pavlovna desligou.
Vera ficou parada com o pano na mão e sorriu.
Não muito.
Só com o canto dos lábios.
Passou um mês.
Vera conseguiu emprego na contabilidade de uma construtora.
Não era o trabalho dos sonhos, mas pagavam em dia e o escritório ficava a quinze minutos a pé.
Zinaida Pavlovna ligava uma vez por semana.
Sempre às quartas-feiras, sempre às sete da noite.
As conversas eram curtas.
— Como estão as coisas?
— Normais.
— Está comendo?
— Estou.
— Ótimo.
Às vezes acrescentava:
— Verifique o aquecedor do banheiro.
Ele pingou no ano passado.
Ou:
— A vizinha de cima, Tamara, se bater à porta, não abra.
Ela pede dinheiro.
Vera ouvia e anotava.
Não porque tivesse medo de esquecer.
Porque gostava que alguém se lembrasse do aquecedor do banheiro dela.
No fim de outubro, Vera comprou um cacto.
Pequeno, torto, em um vaso sem lascas.
Colocou-o no peitoril da janela, perto da janela que dava para o parque.
Ele ficava ali e parecia que não se importava com nada.
Vera já não o invejava.
Um dia, já em novembro, Zinaida Pavlovna ligou não numa quarta-feira, mas numa segunda.
A voz estava diferente.
Mais baixa.
— Vera, preciso lhe dizer uma coisa.
— O que aconteceu?
— Igor vai se casar.
Com Krivtsova.
Vera estava sentada no sofá, com as pernas dobradas, usando meias de lã que tinha encontrado no armário de Zinaida Pavlovna.
As meias eram grossas, caseiras, tricotadas à mão.
Provavelmente Tolik as usara um dia.
— Tudo bem, — disse Vera.
— Tudo bem?
— O que eu deveria dizer?
Zinaida Pavlovna ficou em silêncio.
— Não sei.
Achei que fosse doer em você.
Vera olhou pela janela.
O parque já estava amarelo, quase ruivo.
O vento empurrava as folhas pelo caminho.
Uma mulher com um carrinho de bebê caminhava ao longo da cerca, e a criança dentro do carrinho agitava uma luva vermelha.
— Não dói, Zinaida Pavlovna.
Não sinto nada.
— Isso é bom ou ruim?
— Não sei.
Provavelmente bom.
— Provavelmente.
Elas ficaram em silêncio.
Pelo telefone, ouvia-se o tique-taque daquele relógio com pêndulo.
— Zinaida Pavlovna.
— O quê.
— Venha no sábado.
Vou fazer sopa.
Uma longa pausa.
— Vai salgar demais, — disse Zinaida Pavlovna.
— Talvez.
— Está bem.
Eu vou.
Vera pousou o telefone.
Olhou para o cacto.
O cacto estava ali.
No peitoril da janela, ao lado dele, havia um molho de chaves.
Duas chaves do novo apartamento e um pequeno chaveiro.
Verde, de plástico, em forma de casinha.
Vera o comprou no mercado por quarenta rublos.
A vendedora perguntou: “Para você ou para presente?”
Vera respondeu: “Para mim”.
E era verdade.
No sábado, Zinaida Pavlovna chegou exatamente ao meio-dia.
Com o mesmo casaco cinza, a mesma bolsa de couro.
Tirou os sapatos na entrada.
Calçou os chinelos verdes.
Na cozinha havia cheiro de sopa de frango com macarrão.
Vera estava junto ao fogão, mexendo.
Zinaida Pavlovna se sentou à mesa.
Olhou para o saleiro, que não estava no centro, mas mais perto da borda.
Não o ajeitou.
— Sirvo?
— Sirva.
Vera colocou a sopa em dois pratos.
Pôs sobre a mesa.
As colheres já estavam ali.
Zinaida Pavlovna provou.
Devagar, como se estivesse avaliando.
Vera esperou.
— Normal, — disse Zinaida Pavlovna.
Não “gostosa”.
Não “muito bem”.
Normal.
Vera assentiu.
E isso bastava.
Não porque ela tivesse aprendido a se contentar com pouco.
Mas porque, pela primeira vez na vida, “normal” não soou como uma sentença, e sim como um começo.







