Quero ter um filho do seu marido, e dar à luz sem estar casada é arriscado…

— A senhora é Tatiana Orlova, certo?

A jovem parou diante da mesa no escritório de Tania e, sem esperar por um convite, sentou-se na poltrona à sua frente.

Tatiana não tinha nenhuma reunião marcada, mas a mulher mostrou-se muito insistente.

— Eu sou Lena.

Tania ficou pensativa.

Ela não se lembrava daquela visitante.

Devia ter cerca de vinte e sete anos, cabelos claros, um vestido caro e uma pequena bolsa de uma marca conhecida.

— Sim.

Em que posso ajudar?

— Apenas saia do nosso caminho.

A senhora certamente sabe que eu e o seu marido estamos juntos há muito tempo.

O silêncio tomou conta do escritório.

Durante alguns segundos, Tania olhou para a desconhecida, tentando entender se aquilo era uma piada idiota ou algum tipo de brincadeira.

— Como disse?

— Eu e Dima estamos juntos há quase um ano.

Ele queria contar-lhe há muito tempo, mas nunca conseguiu criar coragem.

Continuava sempre a adiar essa conversa.

Quero ter um filho do seu marido, e dar à luz sem estar casada é arriscado.

— E o que espera que eu faça?

Que a leve até ao altar? — Tatiana ficou perplexa com aquela declaração.

— Apenas deixe o seu marido partir.

Em quinze anos no mundo dos negócios, Tania já tinha conduzido negociações extremamente difíceis.

As pessoas ameaçavam processá-la, tentavam chantageá-la e batiam as portas.

Mas agora, pela primeira vez, ela não sabia o que dizer.

— Nós amamo-nos — continuou Lena por ela.

Tania observou atentamente a jovem.

Ela não parecia culpada nem confusa.

Pelo contrário, parecia acreditar sinceramente que estava a agir de forma nobre.

— Suponhamos que sim — disse Tania por fim.

Mas como imagina que isso vai acontecer?

Lena soltou um suspiro de alívio.

Aparentemente, ela esperava gritos, lágrimas ou ameaças.

A calma de Tania deixou-a desconcertada.

— Dima quer deixá-la e vir viver comigo.

— Entendo…

— Ele é infeliz há muito tempo.

Tania permaneceu em silêncio.

— Compreendo que isto seja difícil para si — continuou Lena.

Mas, às vezes, é preciso simplesmente deixar uma pessoa partir.

— E as crianças?

Lena não percebeu imediatamente a pergunta.

— O quê?

— Não a incomoda o facto de termos dois filhos?

— Não.

Não me incomoda nada.

Ela até sorriu.

— As crianças não são um problema.

Eu gosto de crianças.

Acho que vamos dar-nos muito bem.

— Até isso… — Tania sentiu a sua calma começar a desaparecer.

— Mais do que isso — continuou Lena com entusiasmo —, tenho a certeza de que conseguirei ser uma mãe melhor para eles do que a senhora.

Durante alguns segundos, Tania limitou-se a olhar para ela.

Pareceu-lhe que tinha ouvido mal.

— O que foi que disse?

— Dima contou-me muitas coisas sobre a vossa família.

Ele acha que os rapazes sentem muita falta de uma mãe.

A senhora está sempre a trabalhar e constantemente em viagens de negócios.

Ele disse que as crianças o veem mais vezes do que a veem a si.

Aquelas palavras feriram profundamente, talvez porque a própria Tania às vezes pensasse nisso.

Ela realmente raramente conseguia ir às festas da escola, perdia as competições dos filhos e regressava a casa quando eles já estavam a dormir.

E, todas as vezes, consolava-se com um único pensamento.

Ela trabalhava pela família.

— A senhora é uma carreirista — disse Lena com ainda mais confiança.

E as crianças precisam de uma mãe.

Estou convencida de que consigo dar-lhes muito mais carinho.

Tania levantou-se lentamente da mesa.

— Sabe, Lena…

Até este momento, eu ainda tinha dúvidas sobre se valia a pena continuar esta conversa.

— O que quer dizer?

— Exatamente aquilo que disse.

Se tivesse apenas dito que ama o meu marido, talvez eu a tivesse acompanhado até à porta.

Mas, já que decidiu falar também dos meus filhos, então realmente temos muito sobre o que conversar.

Lena ficou visivelmente tensa.

Ela tinha-se preparado claramente para um escândalo e talvez até tivesse ensaiado mentalmente respostas para as acusações.

Mas a calma de Tania tinha mais efeito do que qualquer grito.

— Sente-se — disse ela, apontando para a poltrona.

A conversa está apenas a começar.

Lena voltou a sentar-se, hesitante.

— A senhora disse que está pronta para se tornar mãe dos meus filhos, certo?

— Sim.

— E tem a certeza de que vai cuidar deles melhor do que eu?

— Tenho a certeza.

— Excelente.

Tania abriu uma garrafa de água, encheu um copo e bebeu alguns goles.

— Mas certamente compreende que eu quero apenas o melhor para a minha família e preciso de me certificar de que as crianças e o pai delas viverão com conforto.

Portanto, vamos começar pelo mais importante.

Onde pretendem viver?

Lena sorriu, confusa.

— Não percebi…

— Mostre-me o apartamento ou a casa onde os meus filhos e o meu marido vão viver.

— Para quê?

— Porque os meus filhos têm quinze e treze anos.

Já não são crianças pequenas.

Cada um precisa de ter o seu próprio quarto e o seu espaço pessoal.

Precisam de uma secretária para estudar e de um armário para guardar as suas coisas.

Espero que não esteja a pensar pôr dois adolescentes numa cama de beliche?

Lena piscou os olhos várias vezes.

— Nós…

Ainda não discutimos essa questão.

— Estranho.

A senhora já decidiu substituir a mãe deles.

A jovem ficou visivelmente constrangida.

— Acho que isso pode ser resolvido mais tarde.

— Não — respondeu Tania calmamente.

Essas coisas resolvem-se com antecedência.

E, se está a contar com uma divisão dos bens, pode esquecer essa ideia.

Todos os bens estão registados em nome da minha empresa.

Ela recostou-se na poltrona.

— Agora, a segunda questão.

Como pretende sustentar a família?

— O que quer dizer? — Lena corou.

— Exatamente isso.

A senhora trabalha?

— Sim…

Mas eu não pensei que isso fosse responsabilidade da mulher…

— Em quê?

— Sou gerente.

— Muito bem.

Nesse caso, vou precisar de um comprovativo dos seus rendimentos.

— Para quê?

— Preciso de saber se a mulher que pretende criar os meus filhos conseguirá garantir-lhes o nível de vida a que estão habituados.

— Mas Dima é o homem!

Ele trabalha!

Pela primeira vez durante toda a conversa, Tania permitiu-se um leve sorriso.

— A sério?

— Claro.

— Ele disse-lhe quanto ganha?

— Tenho a certeza de que ganha bem com a venda dos quadros!

Ele faz exposições constantemente!

É um grande artista!

— Isso está absolutamente correto.

Especialmente quando é a esposa que paga pelas exposições.

Lena ergueu para ela um olhar surpreendido.

— O que quer dizer com isso?

— O aluguer das salas, a impressão dos catálogos, o transporte dos quadros, o buffet e a publicidade custaram bastante dinheiro.

Por isso, se está a contar que, de agora em diante, será a senhora a tratar de tudo isso, aconselho-a a avaliar imediatamente as suas possibilidades.

A expressão de Lena mudou.

Parecia que ela finalmente tinha percebido que estava longe de saber tudo sobre a vida do homem que amava.

— Voltemos às despesas básicas — continuou Tania com a mesma calma.

O nosso filho mais velho faz robótica.

O mais novo joga hóquei.

Os dois estudam inglês com um professor particular.

Daqui a um ano, o mais velho vai candidatar-se a um liceu, por isso também serão necessárias aulas de matemática.

Depois há roupa, férias, dinheiro de bolso, dentista e viagens para competições…

Ela fez uma breve pausa.

— Ah, sim.

Em agosto, o mais novo está à espera de uma viagem à Disneyland.

Prometemos-lhe essa viagem como presente de aniversário ainda no inverno.

Espero que já tenha incluído essa despesa no orçamento familiar?

Lena permaneceu em silêncio.

Quase nada restava da sua confiança anterior.

— Alguma coisa está errada? — perguntou Tania calmamente.

— Talvez as crianças possam ficar consigo por enquanto?

— Nem pensar.

Se vai levar tudo, leve o pacote completo.

Tania olhou-a diretamente nos olhos.

— Eu…

Não tinha pensado nisso…

— Não tinha pensado?

A senhora imaginava que ser esposa significava viver numa casa bonita, beber café de manhã no terraço e esperar que um artista talentoso pinte a sua próxima obra-prima.

Mas uma família é algo completamente diferente.

Uma família é responsabilidade.

Todos os dias.

Sem folgas.

Ah, sim…

E, antes que me esqueça.

Juntamente com o marido, o pacote inclui também um avô num hospício.

Tem setenta mil por mês para pagar os cuidados dele?

Lena levantou-se lentamente.

— Eu…

Acho que preciso de pensar em tudo isto.

— Claro — respondeu Tania, assentindo com a cabeça.

Pense nisso.

E, quando estiver pronta para discutir onde os meus filhos vão viver, quem vai pagar pela educação deles e quem vai assumir todas as despesas da família, volte.

Então conversaremos.

Lena permaneceu em silêncio durante algum tempo.

Parecia não conseguir compreender por que motivo a conversa estava a decorrer de forma completamente diferente do cenário que tinha imaginado no caminho até ali.

Ela esperava lágrimas, censuras e talvez até súplicas para que deixasse o marido em paz.

Em vez disso, Tania estava a discutir com ela coisas totalmente práticas e realistas.

— Por que mede tudo com dinheiro? — perguntou Lena por fim.

Quando duas pessoas se amam, enfrentam juntas todas as dificuldades.

— Palavras maravilhosas.

Então responda-me a uma pergunta.

Onde vive Dima neste momento?

— Na casa.

— Exatamente.

Na casa que eu construí.

Lena permaneceu em silêncio.

— Que carro conduz?

— Um jipe.

— Um carro que eu também comprei.

Onde fica o atelier dele?

— Ele disse que ficava em casa…

— Exatamente.

No atelier que eu preparei para ele.

Sabe ao menos quanto custa organizar uma única exposição?

Lena encolheu os ombros.

— Não.

— Porque Dima nunca tratou disso.

Ele pintava os quadros.

Eu tratava de todo o resto.

— Mas ele é um artista…

— E eu nunca o impedi de ser artista.

Pelo contrário, fiz tudo para que ele pudesse pintar sem pensar em como iria pagar a eletricidade no dia seguinte ou comprar roupa de inverno para os filhos.

Tania ficou em silêncio por um momento e depois acrescentou com total calma:

— Agora será a sua vez de tratar disso.

Lena abriu a boca, mas não conseguiu responder.

— Está a ver? — disse Tania baixinho.

A senhora pretende construir uma família com um homem e nem sequer sabe de que vive.

— Isso não é o mais importante — murmurou ela.

— Para um romance, talvez não.

Para uma família, é essencial.

O silêncio voltou a cair no escritório.

Lena começou a preparar-se para sair.

— Diga a Dima que estarei à espera dele em casa esta noite.

Está realmente na hora de termos uma conversa.

Mas, desta vez, sem ilusões.

Durante todo o resto do dia, Dima não conseguiu encontrar paz.

Tentou ligar várias vezes para Lena, mas ela não respondeu.

Só tarde da noite é que ela própria lhe ligou de volta.

— Precisamos de conversar.

— O que aconteceu?

— Acabei de sair da casa de Tania.

— Eu sei.

— Por que não me disseste que a casa pertence a ela?

Dima ficou em silêncio.

— Lena…

— Por que não me disseste que ela paga pelas tuas exposições?

— Não é bem assim…

— Então como é?

Ela mentiu?

— Não…

— Então por que ficaste calado?

— Porque isso não muda nada.

Eu amo-te.

— Não, Dima.

Muda tudo.

Ela falava agora com uma voz completamente diferente, sem o entusiasmo de antes.

— Eu pensava que eras um artista de sucesso.

Sim, uma pessoa criativa, não um homem de negócios.

Mas bem-sucedido.

E hoje descobri que, durante todos estes anos, a tua esposa esteve por trás de todos os teus sucessos.

Ela construiu a casa, pagou pelas exposições e sustentou a família, enquanto tu me dizias como estavas cansado de viver com uma carreirista fria.

— Não foi assim…

— Então como foi?

Ela alguma vez te censurou por causa do dinheiro?

Dima permaneceu em silêncio.

Repassou mentalmente todos os anos do casamento, mas não conseguiu lembrar-se de uma única situação dessas.

Tania realmente nunca calculava quem ganhava mais ou menos.

— Estás a ver? — disse Lena em voz baixa.

Tu queixavas-te da mulher que te permitiu viver exatamente como querias.

— Agora estás do lado dela?

— Não.

Apenas ouvi esta história de outra pessoa além de ti.

Seguiu-se uma longa pausa.

— E agora? — perguntou Dima por fim.

— Agora quero fazer-te uma pergunta.

— Qual?

— O que vais fazer se amanhã Tania deixar de pagar pela tua vida?

Dima não respondeu.

Porque não tinha uma resposta honesta.

— Foi o que pensei — disse Lena baixinho.

No dia seguinte, ela enviou apenas uma mensagem:

“Desculpa.

Percebi que estava apaixonada por um homem que eu própria tinha inventado.”

Depois disso, Lena desapareceu.

Não respondeu às chamadas, bloqueou Dima em todas as aplicações de mensagens e nunca mais tentou encontrar-se com ele.

Dima voltou para casa.

— Tania…

Podemos conversar?

Ela fechou o computador portátil.

— Podemos.

— Há alguns dias, cometi o maior erro da minha vida.

— Não, Dima.

Ele levantou os olhos para ela.

— O maior erro da tua vida cometeste muito antes.

Ele permaneceu em silêncio.

— Lena não te deixou apenas porque ficou assustada com a falta de dinheiro.

Ela foi embora porque viu a verdade pela primeira vez.

Descobriu que, ao lado do artista talentoso, sempre esteve discretamente uma mulher que resolvia todos os problemas.

E, quando essa mulher deixou de o fazer, desapareceu o conto de fadas em que vocês dois acreditavam com tanto entusiasmo.

Tania aproximou-se da porta e abriu-a.

— Agora vai embora.

— Nem sequer me vais dar uma oportunidade?

— Eu dei-te dezasseis anos.

Não tenho mais nada a acrescentar.

Dima saiu lentamente para o alpendre.

A porta fechou-se.

Tania aproximou-se da janela.

No pátio estava o homem por quem, em tempos, ela teria sido capaz de virar o mundo inteiro de pernas para o ar.

Agora já não queria correr atrás dele.

Finalmente, compreendeu uma coisa simples.

Algumas pessoas não vão embora porque encontraram o amor.

Vão embora porque deixam de valorizar aqueles que estiveram ao seu lado durante todo esse tempo.

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