â Serio⊠quer dizer, Denis, vocĂȘ estĂĄ ouvindo o que estĂĄ dizendo?
Katia colocou a xĂcara sobre a mesa e levantou lentamente os olhos.

â Repita mais uma vez, por favor.
Devagar.
â O que hĂĄ para repetir?
Ele nem sequer desviou os olhos do telefone.
â Ă difĂcil para a mamĂŁe viver sozinha.
Ela vai se mudar para cĂĄ.
Para o quarto grande.
â Quando vocĂȘ diz quarto grande, estĂĄ falando do nosso quarto?
â E onde mais ela ficaria?
A janela dĂĄ para o lado mais silencioso, entĂŁo ela se sentirĂĄ mais tranquila ali.
Katia pousou as mãos sobre os joelhos e olhou para ele como se olha para alguém que acabara de sugerir, com toda a seriedade, que o céu deveria ser pintado de outra cor.
â Denis, vamos por partes.
Onde nĂłs vamos dormir?
â No quarto pequeno.
Ou no sofĂĄ.
Que diferença faz?
â Faz muita diferença.
Ă a diferença entre âsomos adultosâ e âsomos mĂłveis dobrĂĄveisâ â respondeu ela com um sorriso irĂŽnico.
â VocĂȘ realmente acha isso normal?
â Escute, nĂŁo comece â disse ele, finalmente levantando a cabeça.
â Minha mĂŁe Ă© mais importante do que vocĂȘ, por isso ela vai morar no nosso quarto.
Ponto final.
Assunto encerrado.
Katia permaneceu em silĂȘncio por alguns instantes.
NĂŁo porque nĂŁo soubesse o que responder, mas porque queria que ele ouvisse as prĂłprias palavras pairando na cozinha.
â Mais importante â repetiu ela baixinho.
â EstĂĄ bem.
Eu ouvi vocĂȘ.
â Ătimo.
EstĂĄ vendo?
VocĂȘ consegue entender quando quer.
â Denis â disse ela suavemente, quase com carinho â, vocĂȘ sabe que ontem sua mĂŁe passou o apartamento dela para o nome da Aliona?
Sim, aquela que tem trĂȘs filhos.
Ou seja, ela deu o apartamento.
Por completo.
â E daĂ?
Isso Ă© problema delas.
Um assunto de famĂlia.
â E nĂłs somos o quĂȘ, entĂŁo?
Vizinhos do mesmo prédio?
â NĂŁo toque nesse assunto â disse ele, fazendo uma careta.
â Minha mĂŁe tem o direito de fazer o que quiser com a prĂłpria casa.
E vocĂȘ tenha a gentileza de garantir a ela uma velhice digna.
â Eu vou garantir â assentiu Katia.
â Na verdade, gosto muito de garantir as coisas.
Especialmente a justiça.
â O quĂȘ?
â Nada.
Um velho hĂĄbito de terminar meus pensamentos.
Vamos comer antes que esfrie.
Ele resmungou, claramente convencido de que havia vencido, e voltou a fixar os olhos na tela.
Katia terminou calmamente a refeição, lavou o próprio prato e pensou:
âQuem quer encontra um jeito, quem nĂŁo quer encontra uma desculpa.â
â Artiom, peça para mim a maior caneca de chĂĄ que eles tiverem â disse Katia, sentando-se diante do irmĂŁo e tirando o cachecol.
â E alguma coisa doce.
Hoje Ă© um dia de grandes descobertas.
â Pela sua expressĂŁo, vejo que Ă© sobre o Denis â disse o irmĂŁo, afastando o cardĂĄpio.
â O que aconteceu desta vez?
De novo aquele âmamĂŁe disseâ?
â Quase.
âMinha mĂŁe Ă© mais importante do que vocĂȘ, por isso ela vai morar no nosso quarto.â
Artiom engasgou.
â Ele disse exatamente isso?
â Palavra por palavra.
Até comecei a respeitå-lo pela sinceridade.
Normalmente, os homens pensam essas coisas em silĂȘncio durante anos, mas ele disse em voz alta logo de uma vez.
â Katia, por que vocĂȘ estĂĄ tĂŁo calma?
Se eu estivesse no seu lugarâŠ
â De que adianta estar no lugar de outra pessoa, Tioma?
Ela sorriu.
â Prefiro ficar no meu prĂłprio lugar.
E âmeu prĂłprioâ Ă© justamente a expressĂŁo principal aqui.
â O que vocĂȘ quer dizer?
â Exatamente o que eu disse.
De quem Ă© o apartamento?
O irmĂŁo olhou para ela por um segundo e depois se recostou na cadeira.
â Era do papai.
Quer dizer, agora Ă© seu.
Ele deixou para vocĂȘ.
â Exatamente.
Antes do casamento.
Um presente registrado de acordo com todas as regras.
Denis Ă© um hĂłspede neste apartamento, um hĂłspede que tinha Ăłtimas maneiras.
Pelo menos até hoje.
â E ele se esqueceu disso?
â Ele nĂŁo se esqueceu â respondeu Katia, tomando um gole de chĂĄ.
â Ele decidiu que eu tinha esquecido.
Achou que eu suportaria tudo, concordaria com a cabeça e prepararia a cama da mãe dele no quarto onde estå o armårio do meu pai.
â E sua sogra?
VocĂȘ disse que ela deu o apartamento para a filha.
â Essa Ă© justamente a parte mais interessante â disse Katia, pousando a xĂcara.
â Eles planejaram tudo.
Aliona ganha uma casa pronta.
Liudmila ganha o meu quarto.
Denis ganha uma vida tranquila.
E a mim deram o papel da fada boazinha que cuida de tudo e fica calada.
â Que ganĂąncia â disse Artiom, franzindo o rosto.
â Ă fĂĄcil distribuir o que pertence aos outros.
â Muito fĂĄcil â concordou ela.
â Mas eles se esqueceram de um pequeno detalhe.
Um detalhe chamado âa proprietĂĄriaâ.
â E o que vocĂȘ vai fazer?
â Uma troca imobiliĂĄria â respondeu Katia calmamente.
â Com o meu apartamento.
Vou vendĂȘ-lo e comprar um menor.
Para mim.
SĂł para mim.
E eles poderĂŁo acomodar a âmamĂŁe tĂŁo importanteâ onde quiserem.
Por exemplo, no grande apartamento novo que deram com tanta generosidade.
Artiom assobiou.
â Isso Ă© duro.
â Isso Ă© justo â corrigiu ela.
â Duro Ă© ser expulsa do prĂłprio quarto e ainda ter de agradecer pela compreensĂŁo.
Eu apenas estou colocando tudo em ordem.
A melhor maneira de encerrar uma discussĂŁo Ă© deixar de participar dela.
â Precisa de ajuda?
â Preciso.
AmanhĂŁ vocĂȘ vai comigo falar com Oleg.
Ele Ă© um corretor competente.
E, TiomaâŠ
Ela apertou a mĂŁo do irmĂŁo.
â Obrigada por nĂŁo ter dito: âTalvez vocĂȘs ainda façam as pazes.â
â VocĂȘs vĂŁo fazer as pazes?
â NĂłs, nĂŁo â respondeu Katia, terminando o chĂĄ.
â Eu vou fazer as pazes comigo mesma.
Isso serĂĄ suficiente.
Em casa, um conselho de famĂlia completo esperava por ela.
A sogra estava sentada na poltrona como uma rainha durante uma audiĂȘncia, a cunhada deslizava o dedo pela tela do telefone, e Denis andava de um lado para o outro com a expressĂŁo de quem reunira todos para fazer um anĂșncio importante.
â Ah, temos quĂłrum â disse Katia, colocando a bolsa no chĂŁo.
â Perdi alguma coisa?
Ninguém nem sequer me avisou sobre a reunião dos acionistas.
â Pare de fazer graça â resmungou Denis.
â Sente-se.
Vamos decidir.
â Parece que vocĂȘs jĂĄ decidiram tudo.
Aparentemente, estou aqui no papel de um mĂłvel que pode ser deslocado.
â Katienka â começou a sogra com uma voz açucarada â, vocĂȘ precisa entender que eu nĂŁo sou uma estranha.
Eu ajudei muito vocĂȘs.
â Ajudou, sim â assentiu Katia.
â Especialmente quando passou o apartamento para o nome da Aliona.
Isso me ajudou muito.
â Isso nĂŁo Ă© da sua conta! â explodiu Aliona, finalmente afastando os olhos do telefone.
â Eu tenho trĂȘs filhos!
â ParabĂ©ns.
Eu tenho um apartamento.
E, imagine sĂł, gostaria de morar nele.
â VocĂȘ vai morar! â elevou a voz Denis.
â No quarto pequeno.
VocĂȘ nĂŁo pode ceder um cantinho para minha mĂŁe?
â Um cantinho, posso.
Meu quarto, nĂŁo.
E sejamos sinceros â disse Katia, cruzando os braços sobre o peito.
â VocĂȘs nĂŁo estĂŁo pedindo um cantinho.
VocĂȘs querem que eu entregue o que Ă© meu e ainda agradeça.
â Por que vocĂȘ continua repetindo âmeu, meuâ? â gritou o marido.
â Numa famĂlia, tudo Ă© de todos!
Quem manda aqui, afinal?
VocĂȘ?
â Quem manda aqui Ă© o proprietĂĄrio, Denis.
E a proprietĂĄria sou eu.
Um silĂȘncio absoluto caiu sobre a sala.
A sogra apertou os lĂĄbios.
Aliona franziu as sobrancelhas.
â VocĂȘâŠ
EstĂĄ falando do apartamento? â perguntou Denis lentamente.
â NĂŁo estou insinuando nada.
Estou apenas constatando um fato.
O apartamento estĂĄ registrado no meu nome.
Desde antes do nosso casamento.
Foi um presente do meu pai.
VocĂȘ sabe perfeitamente de tudo isso, apenas achou muito conveniente esquecer.
â Esta Ă© a nossa casa! â guinchou Aliona.
â NĂŁo, querida â respondeu Katia, virando-se para ela.
â Esta Ă© a minha casa, onde seu irmĂŁo mora temporariamente.
E, pelo visto, ele pretendia instalar a mĂŁe de vocĂȘs no meu quarto sem sequer me consultar.
Quando se pensa bem, Ă© uma insolĂȘncia inacreditĂĄvel.
â NĂŁo se atreva a falar assim da minha mĂŁe! â disse Denis, dando um passo Ă frente.
â E vocĂȘ nĂŁo se atreva a distribuir quartos que pertencem aos outros â respondeu Katia calmamente, sem recuar um Ășnico centĂmetro.
â EstĂĄ vendo como isso Ă© interessante?
Parece que eu tambĂ©m sei dizer ânĂŁo se atrevaâ.
â VocĂȘ vai se arrepender â sibilou ele entre os dentes.
â Duvido â respondeu ela, sorrindo.
â Raramente me arrependo das minhas decisĂ”es.
Na maioria das vezes, eu decido.
AliĂĄs, jĂĄ que estamos falando dissoâŠ
Liudmila, Aliona, aconselho vocĂȘs a pensarem com antecedĂȘncia em como vĂŁo se acomodar.
Agora vocĂȘs tĂȘm um apartamento grande para dividir entre duas.
Mais exatamente, entre quatro pessoas.
Ou talvez cinco.
NĂŁo, ainda nĂŁo contei seu marido, entĂŁo serĂŁo seis.
â O que vocĂȘ estĂĄ planejando? â perguntou Denis, estreitando os olhos.
â Boa noite a todos â disse Katia, pegando a bolsa e seguindo para o quarto pequeno.
â AmanhĂŁ preciso acordar cedo.
Tenho muita coisa para fazer.
*
Na manhĂŁ seguinte, enquanto todos ainda dormiam no apartamento, Katia jĂĄ estava sentada no escritĂłrio de Oleg examinando os documentos.
As folhas estavam organizadas em pilhas perfeitamente alinhadas sobre a mesa, e havia algo quase meditativo naquele gesto.
â Muito bem, Katerina â disse Oleg, batendo a caneta na mesa.
â Explique-me mais uma vez, com calma.
VocĂȘ quer vender seu apartamento e comprar um de um quarto.
Menor e mais barato.
E ficar com a diferença.
â Exatamente.
â Seu marido sabe?
â Meu marido sabe que nĂŁo Ă© o proprietĂĄrio.
O restante serĂĄ uma agradĂĄvel surpresa.
â VocĂȘ estĂĄ agindo de forma radical â riu Oleg.
â Normalmente, as pessoas adiam uma decisĂŁo dessas durante seis meses, destroem os prĂłprios nervos e continuam esperando.
â Esperança Ă© uma coisa boa no cafĂ© da manhĂŁ â respondeu Katia enquanto assinava uma folha.
â Mas Ă© pĂ©ssima no jantar.
Prefiro resolver tudo imediatamente.
Onde assino?
â Aqui e aqui.
O comprador, por sinal, é sério e estå pronto para concluir o negócio rapidamente.
JĂĄ mandei as fotos do apartamento para ele.
Ele ficou satisfeito.
â Na semana passada? â perguntou Katia, levantando uma sobrancelha.
â Oleg, vocĂȘ Ă© vidente?
â Eu apenas vi como vocĂȘ chegou aqui durante o Ășltimo mĂȘs â respondeu ele, dando de ombros.
â Pensei que poderia ser Ăștil.
Ă melhor estar preparado do que sair correndo em pĂąnico depois.
â Vou me lembrar de vocĂȘ como um homem previdente â disse ela, sorrindo.
â Vou assinar.
A caneta deslizou facilmente sobre o papel.
Nenhuma cena teatral, nenhuma mĂŁo trĂȘmula.
Apenas uma mulher colocando a prĂłpria vida em ordem.
â E quanto Ă s coisas? â perguntou Oleg.
â Levarei as minhas.
As dos outros ficarĂŁo onde estĂŁo.
Os novos proprietĂĄrios decidirĂŁo o que fazer com elas.
Isso nĂŁo serĂĄ mais problema meu.
â E onde seu marido vai morar?
â Excelente pergunta â respondeu Katia, pousando a caneta.
â Agora ele tem uma escolha.
HĂĄ o grande apartamento que toda a famĂlia dele dividiu com tanta alegria ontem, Ă minha mesa.
Ele pode se mudar para lĂĄ.
Com a mamĂŁe tĂŁo importante e a irmĂŁ querida.
Naquele momento, o telefone tocou.
O nome âDenisâ apareceu na tela.
â Ah, ele acordou â disse Katia, levando o telefone ao ouvido.
â Bom dia, meu sol.
â Onde vocĂȘ estĂĄ?! â gritou ele com uma voz seca e furiosa.
â Acordei e vocĂȘ nĂŁo estava aqui.
â Estou assinando alguns documentos, Denis.
â Que documentos?
â Os documentos para a venda do apartamento.
Do meu apartamento.
Aquele mesmo cujo quarto deveria receber sua querida mamĂŁe.
Os planos mudaram um pouco.
Houve um silĂȘncio do outro lado da linha, e entĂŁo ele sibilou:
â VocĂȘ enlouqueceu?
Isso Ă© chantagem!
VocĂȘ nĂŁo tem o direitoâŠ
â Tenho, sim â interrompeu ela suavemente.
â Isso se chama direito de propriedade.
Uma coisa jurĂdica muito entediante, eu sei.
Mas extremamente Ăștil.
â NĂŁo vou deixar vocĂȘ fazer isso!
â JĂĄ estĂĄ feito, Denis.
Os documentos estĂŁo assinados.
HĂĄ um comprador.
EntĂŁo comece a arrumar suas coisas.
E diga Ă sua mĂŁe que o quarto, infelizmente, foi cancelado.
Em compensação, agora vocĂȘs tĂȘm uma casa em comum.
Aquele presente generoso, lembra?
â Katia!
Katerina!
Espere!
â Sabe â disse ela, levantando-se e segurando o telefone entre o ombro e a orelha â, sĂł tenho uma pergunta para vocĂȘ.
Quando disse âminha mĂŁe Ă© mais importante do que vocĂȘâ, vocĂȘ chegou a imaginar que essa frase poderia ter uma continuação?
Aqui estĂĄ ela.
Tudo de bom.
Ela desligou e guardou o telefone na bolsa.
â Oleg, tem cafĂ© aqui?
â Tem.
Como vocĂȘ quer?
â Vitorioso â respondeu Katia, sorrindo.
â Com duas colheres de tranquilidade.
Duas semanas depois, Katia estava no meio do seu novo apartamento, pequeno, claro e ainda um pouco vazio, organizando livros numa estante.
Artiom carregava caixas, resmungando de vez em quando e fazendo comentĂĄrios sobre o âminimalismo espartanoâ dela.
â Diga-me, eles ainda telefonam para vocĂȘ? â perguntou ele, colocando outra caixa no chĂŁo.
â Sim â assentiu ela.
â Denis ligou umas vinte vezes.
Liudmila, trĂȘs vezes.
Aliona, uma vez, mas com muita emoção.
â E o que dizem?
â No inĂcio, gritavam.
Depois, ficavam ofendidos.
E agora, imagine sĂł, estĂŁo tentando me convencer.
â Convencer vocĂȘ de quĂȘ?
â A voltar tudo ao que era antes â respondeu Katia com um sorriso irĂŽnico.
â Parece que eles se sentem apertados no grande apartamento que dividiram com tanta alegria.
Minha sogra e Aliona nĂŁo conseguem chegar a um acordo sobre os quartos.
As crianças fazem barulho.
Denis dorme na cozinha.
E, de repente, todos se lembraram de como eu era boa e de como meu quarto era confortĂĄvel.
â A consciĂȘncia deles despertou?
â NĂŁo foi a consciĂȘncia, Tioma.
Foi a aritmĂ©tica â respondeu ela, colocando o Ășltimo livro na estante.
â Enquanto era vantajoso para eles, eu era um mĂłvel.
Quando deixou de ser vantajoso, voltei a ser uma pessoa.
Mas jĂĄ terminei de interpretar esse papel.
O intervalo acabou e a cortina caiu.
A campainha tocou.
Artiom foi abrir e voltou um segundo depois com uma expressĂŁo que dizia: âVocĂȘ nĂŁo vai acreditar.â
â Katia.
Ă ele.
Denis estava parado no corredor.
Sem a arrogĂąncia habitual e sem andar de um lado para o outro.
Ele simplesmente estava ali.
â Posso entrar? â perguntou baixinho.
â Pode â respondeu Katia, assentindo.
â Mas tire os sapatos.
O piso Ă© novo.
Ele entrou e olhou ao redor.
â EstĂĄ bonito aqui.
â Obrigada.
Ă um pouco pequeno, mas tudo Ă© meu.
E ninguém divide o quarto.
â Katia, escuteâŠ
Ele ficou em silĂȘncio por um instante.
â Eu estava errado.
Disse uma coisa estĂșpida naquele dia.
â VocĂȘ disse a verdade, Denis â respondeu ela calmamente.
â A sua verdade.
E eu a ouvi.
Sua mĂŁe Ă© mais importante do que eu.
Muito bem.
NĂŁo vou discutir.
Apenas decidi que nĂŁo quero mais ser a Ășltima pessoa dessa lista.
â Eu perdi a cabeça.
Com minha mĂŁe, com o apartamentoâŠ
â Com o apartamento, vocĂȘ nĂŁo perdeu a cabeça â disse ela, balançando a cabeça.
â VocĂȘ planejou tudo friamente.
Uma casa para Aliona.
Meu quarto para sua mĂŁe.
E, para mim, um silĂȘncio agradecido.
Isso nĂŁo foi impulso, Denis.
Foi cĂĄlculo.
E eu também sei calcular.
Melhor do que vocĂȘ, pelo que parece.
â E agora? â perguntou ele, olhando para ela.
â Acabou entre nĂłs?
â Acabou entre nĂłs hĂĄ muito tempo â respondeu Katia suavemente.
â Os documentos apenas demoraram mais do que os sentimentos para confirmar isso.
Volte para casa, Denis.
Para sua famĂlia tĂŁo importante.
Eles estĂŁo esperando por vocĂȘ.
Provavelmente.
â Eles discutem todos os dias â disse ele com a voz baixa.
â Estou sobrando lĂĄ.
â Sinto muito por vocĂȘ â respondeu ela sinceramente, sem qualquer satisfação maldosa.
â Mas aquele nĂŁo Ă© mais o meu quarto, o meu apartamento nem a minha tristeza.
Sabe, existe um bom pensamento:
NĂŁo se pode entrar duas vezes no mesmo rio.
Ele permaneceu ali por mais alguns instantes e depois assentiu.
â Adeus, Katia.
â Adeus.
E DenisâŠ
Ela o deteve quando ele jĂĄ estava perto da porta.
â Diga Ă sua mĂŁe que desejo a ela muita saĂșde e um quarto espaçoso.
No novo apartamento dela.
No lugar onde ela deve ficar.
A porta se fechou.
Artiom soltou o ar e sentou-se sobre uma caixa.
â VocĂȘ Ă© incrĂvel, irmĂŁzinha.
Eu nunca conseguiria fazer isso.
â Conseguiria â respondeu Katia, entregando-lhe uma xĂcara.
â Basta compreender uma coisa muito simples:
As pessoas respeitam vocĂȘ exatamente na mesma medida em que vocĂȘ respeita a si mesmo.
â VocĂȘ nĂŁo teve medo?
De virar tudo de cabeça para baixo assim, de uma hora para outra?
â Tive medo â admitiu ela.
â Mas sabe o que Ă© ainda mais assustador?
Acordar durante vinte anos num quarto pequeno e acreditar que aquilo Ă© toda a sua vida.
Isso Ă© realmente aterrorizante.
â A vocĂȘ â disse Artiom, levantando a xĂcara.
â Ă ordem â respondeu Katia, sorrindo.
â E Ă s pessoas que se lembram a tempo de qual nome estĂĄ escrito nos documentos.
Eles brindaram com as xĂcaras, e no novo apartamento iluminado tudo se tornou leve e simples, como acontece quando finalmente restam numa casa exatamente as pessoas necessĂĄrias.







