No dia do meu casamento, o meu pai escondia os pés debaixo da cadeira. Quando descobri o motivo, tirei os sapatos e mandei parar a música.

No dia do meu casamento, o meu pai estava sentado no canto mais afastado do salão e recusava-se obstinadamente a levantar-se.

Ao princípio, pensei que estivesse cansado.

Tinha setenta anos e, nos últimos meses, até ao subir as escadas parava muitas vezes, fingindo procurar alguma coisa no bolso.

Mas, quando me aproximei, reparei que encolheu rapidamente os pés para debaixo da cadeira.

— Pai, porque estás aqui sentado sozinho?

— Estou bem aqui, minha filha. Vai ter com os teus convidados.

Sorriu, mas o guardanapo que segurava estava amarrotado e ainda não tinha bebido um único gole do copo pousado à sua frente.

Foi então que ouvi a voz da minha sogra.

— Não o levem para as fotografias. Podia, pelo menos, ter vindo com outros sapatos.

Estava a falar com a irmã, convencida de que eu não a ouviria por causa da música.

O meu pai ouviu.

Vi os seus ombros encolherem dentro do casaco.

Olhei para debaixo da mesa.

Trazia os velhos sapatos castanhos. O direito estava rachado de lado e a biqueira do esquerdo encontrava-se tão gasta que a graxa já não conseguia disfarçar a marca clara.

Mas, apenas dois dias antes, o meu pai tinha-me mostrado uma caixa com sapatos novos.

E agora os sapatos novos não estavam ali.

***

O meu pai criou-me sozinho desde os meus doze anos.

Depois da morte da minha mãe, trabalhava numa oficina ferroviária e, à noite, reparava as cadeiras e os armários partidos dos vizinhos.

A minha recordação mais querida da infância estava ligada à sua bancada de trabalho. Eu fazia os trabalhos de casa numa ponta, enquanto ele lixava madeira na outra.

Quando precisei de um vestido para o baile da escola, vendeu o relógio.

Quando as propinas da universidade aumentaram, disse que tinha recebido um prémio no trabalho.

Só anos depois descobri que, durante meses, tinha feito turnos noturnos.

Repetia sempre a mesma frase.

— Tu trata das tuas coisas, não te preocupes comigo.

Durante os preparativos do meu casamento, voltou a repeti-la.

Eu e o meu marido, Daniel, tínhamos planeado uma festa modesta. Um salão pequeno, as pessoas mais próximas, sem dívidas.

Mas a mãe dele, Eleonora, queixava-se constantemente.

— Só se casam uma vez. O que vão pensar os nossos familiares?

Os extras que exigia foram surgindo nas encomendas, um após outro: flores mais caras, uma mesa separada, convidados adicionais.

Daniel discutia com ela e, depois, a mãe anunciava que pagaria tudo do seu próprio bolso.

Eu acreditei.

***

— Onde estão os teus sapatos novos, pai?

O meu pai desviou o olhar para a pista de dança.

— Estes são mais confortáveis.

— Disseste-me que os velhos te magoavam os pés.

— Os novos ainda estavam duros.

Mentia mal. Havia sempre um gesto que o denunciava: esfregava com o polegar a aliança que não tinha tirado nem depois da morte da minha mãe.

Nesse momento, aproximou-se o responsável pelo salão.

— Senhor Vítor, peço desculpa pelo incómodo. Aqui está o comprovativo do pagamento. O valor em falta já está totalmente liquidado.

O meu pai estendeu a mão à pressa, mas fui eu quem pegou primeiro no papel.

Quando vi o valor, pensei que estivesse a ler mal.

Era o equivalente a quase quatro meses da sua reforma.

— O que é isto?

— Falamos depois, minha filha.

O documento discriminava as encomendas adicionais.

Todas as que Eleonora tinha exigido.

Eu ainda estava a olhar para os números quando a minha sogra apareceu ao meu lado.

— É uma pequena questão de contas. Hoje não é altura para isso.

— Porque é que o meu pai pagou pelas suas encomendas?

O sorriso desapareceu-lhe do rosto.

— O pai da noiva também deve contribuir, não é verdade? Deixar tudo por conta da família do noivo não fica bem.

O meu pai levantou-se.

— Já chega, por favor. Hoje é o dia dos nossos filhos.

E foi então que reparei que estava a coxear.

***

Levei-o para uma pequena sala ao lado do salão.

Assim que fechei a porta, perguntei, sem levantar a voz:

— O que vendeste?

— Nada de que precisasse.

Sentei-me à sua frente.

— Pai.

Ficou muito tempo em silêncio. Do corredor chegava o tilintar dos copos.

— A máquina de trabalhar madeira.

Durante alguns instantes, não consegui responder.

Aquela máquina não era apenas uma ferramenta para ele. Tinha trabalhado com ela durante quarenta anos. Depois de se reformar, era graças àquela máquina que continuava a aceitar encomendas.

— Mas porquê?

— Disseram-me que, se não pagasse até ao fim do dia, parte das encomendas seria cancelada. Pensei que ias descobrir e ficar triste.

— E os sapatos?

Baixou os olhos para o chão.

— Devolvi-os. Ainda faltava algum dinheiro.

O casaco dele estava pousado na cadeira ao lado. Do bolso saía um recibo dobrado da sapataria.

Tirei-o. A devolução tinha sido feita no dia anterior. Por baixo, o meu pai tinha calculado a lápis o valor que faltava para pagar o salão. No fim, havia uma pequena anotação: «para a viagem».

Aquelas palavras apertaram-me a garganta. Até tinha calculado quanto precisava de guardar, depois de pagar a conta, para conseguir regressar a casa.

As minhas mãos tremiam.

— Porque não me disseste?

— Não queria que houvesse uma discussão por dinheiro no teu casamento.

A porta abriu-se. Era Daniel.

Tinha ouvido as últimas palavras.

Pegou no documento, olhou para o meu pai e saiu.

Fui atrás dele.

***

Eleonora estava ao lado do fotógrafo, a ajeitar o colar.

— Mãe, disseste ao Vítor que não tínhamos dinheiro para pagar?

— Eu disse que seria correto se…

— Ontem perguntei-te se as contas estavam pagas. Disseste que sim.

Alguns convidados viraram-se.

A minha sogra aproximou-se dele e sussurrou:

— Não me envergonhes agora.

Daniel tirou o telemóvel.

— Vamos devolver agora o dinheiro ao Vítor. Depois conversamos.

— Tudo aquilo era para o vosso casamento.

— Nós não encomendámos aquilo tudo.

Eu já não estava a ouvir a conversa.

O meu pai tinha saído da pequena sala e dirigia-se novamente para a cadeira no canto mais afastado.

Os músicos preparavam-se para a primeira dança.

Aproximei-me deles.

— Esperem um momento, por favor.

Aos poucos, o salão ficou em silêncio.

O meu pai parou.

Inclinei-me, desapertei as fivelas dos sapatos e tirei-os.

O chão estava frio.

Um dos convidados sussurrou qualquer coisa, mas eu só olhava para o meu pai.

Aproximei-me e estendi-lhe a mão.

— Pai, a primeira dança é tua.

O olhar dele desceu até aos meus pés descalços.

— Minha filha, vais sujar-te.

— Depois lavo-me.

Riu-se. Foi um riso breve e trémulo, depois do qual os olhos se lhe encheram de lágrimas.

A música começou.

O meu pai segurou-me a mão com cuidado, como fazia na minha infância, quando me ensinava a descer as escadas.

Movíamo-nos muito devagar.

O sapato velho dele tocava por vezes no meu pé e, de cada vez, pedia desculpa.

— Pai, lembras-te de quando eu era pequena e dançava em cima dos teus pés?

Acenou que sim.

— Agora também o faria, mas ia magoar-te.

Desta vez, sorriu sem desviar o olhar.

Dois dias depois, eu e Daniel encontrámos o homem que tinha comprado a máquina.

Ele já conhecia a história. Quando chegámos, tinha-a limpo e preparado para o transporte.

O meu pai zangou-se quando a viu novamente na oficina.

Depois, ficou muito tempo ao lado dela, com a mão pousada na bancada de madeira.

Também comprámos sapatos novos. Desta vez, escolheu-os ele próprio, caminhando demoradamente pela loja até ter a certeza de que não o apertavam em lado nenhum.

E a maior fotografia do casamento está agora pendurada em casa dele.

Nela, a bainha do meu vestido está um pouco suja e os meus olhos estão vermelhos.

O meu pai está a olhar para mim.

E, pela primeira vez naquele dia, já não tenta esconder os pés.

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