No quinto aniversário do nosso casamento, encontrei o meu marido num restaurante a beijar a minha própria irmã. Mas, quando ele colocou sobre a mesa um documento com a minha assinatura, percebi que os dois tinham planeado tirar-me muito mais do que a família.

— Não nos incomodes, Nare. Entende de uma vez: nunca te amei.

O meu marido disse isso na noite do quinto aniversário do nosso casamento, com a mão na cintura da mulher de vestido vermelho.

Eu estava no meio do restaurante, com o vestido branco que tínhamos escolhido juntos três meses antes. Tinha um pequeno presente na mão. E a mulher sentada ao lado dele era a minha própria irmã.

Mas o mais terrível não foi o beijo deles.

O mais terrível foi que Liana nem sequer se surpreendeu ao ver-me.

— Chegaste mais cedo do que esperávamos — disse ela, ajeitando a alça do vestido.

Naquele momento, percebi: aquele encontro não era um acaso. Tinham-me convidado para ali para me humilhar.

De manhã, Davit tinha enviado flores para o meu trabalho. No cartão, escrevera: «Hoje tudo vai mudar.»

Eu pensara que finalmente íamos fazer as pazes.

Nos últimos meses, ele chegava tarde, pousava o telemóvel com o ecrã virado para baixo e irritava-se com qualquer pergunta. Eu culpava o trabalho, o cansaço e até a mim própria.

Naquela manhã, guardava uma pequena alegria dentro de mim. Tinha recebido o resultado do exame no dia anterior. Depois de cinco anos de espera, estava grávida.

Dentro da caixinha havia umas meias de bebé.

Agora, apertava-a com tanta força que o cartão se tinha dobrado.

— Liana? — mal consegui dizer. — Ontem estavas sentada na minha cozinha a dizer que eu devia salvar o meu casamento.

A minha irmã encolheu os ombros.

— Queria que aceitasses isto com calma. Tu transformas sempre tudo num drama.

Davit colocou um envelope sobre a mesa.

— São os documentos do apartamento. Amanhã vamos ao notário. Assina a declaração em que me transferes a tua parte. Em troca, a separação será tranquila.

Olhei para ele.

— O apartamento cuja entrada foi paga pela minha mãe com o dinheiro da venda da casa dela?

— Nare, agora não é altura para isso.

— E é altura para quê? Para beijares a minha irmã ou para me pores na rua?

As conversas nas mesas próximas silenciaram-se.

Davit inclinou-se na minha direção.

— Baixa a voz. Não sabes em que situação estás.

Depois virou-se para Liana.

— Mostra-lhe.

A minha irmã pousou o telemóvel na mesa. No ecrã estava um contrato de crédito com a minha assinatura.

O nome da titular do empréstimo era o meu.

Quando vi o valor, os joelhos fraquejaram-me.

Eu nunca tinha pedido um empréstimo daqueles.

— Assinaste há três semanas — disse Davit. — Disse-te que eram documentos da empresa. Lembras-te?

Lembrava-me.

Estava na cozinha, a minha mãe tinha telefonado do hospital e Davit estava a apressar-me. Tinha aberto os documentos na página da assinatura.

Naquele dia, eu tinha confiado no meu marido.

— Se me transferires o apartamento, pago a dívida — continuou ele. — Se não o fizeres, pagas tu.

Desta vez, Liana baixou os olhos.

De repente, lembrei-me de como, nas últimas semanas, ela tinha insistido em ficar com o cartão bancário da nossa mãe.

«Andas muito cansada, eu trato dos pagamentos.»

A sua preocupação ganhou outro significado.

Sentei-me na cadeira vazia em frente deles.

— Há quanto tempo isto acontece?

— Há oito meses — respondeu a minha irmã.

Oito meses.

Durante esse tempo, eu tinha-a consolado depois da separação, dado dinheiro para a renda e oferecido, no aniversário dela, o vestido vermelho que agora usava.

— A nossa mãe sabe?

— Não metas a mãe nisto — disse ela, bruscamente.

Aquela resposta bastou para eu perceber do que tinha medo.

Peguei no telemóvel.

Davit agarrou-me pelo pulso.

— Não vais telefonar a ninguém até chegarmos a um acordo.

— Larga-me.

Ele apertou com mais força.

Foi então que o gerente do restaurante se aproximou.

— A senhora pediu-lhe que lhe largasse a mão.

Davit afastou-se, contrariado.

Telefonei ao advogado da nossa família, Suren. Anos antes, tinha tratado da venda da casa da minha mãe.

— Há um empréstimo em meu nome de que eu não sabia. O meu marido exige que lhe transfira o apartamento.

Suren ouviu-me sem interromper. Depois perguntou:

— Assinaste algum documento novo?

— Não.

— Não assines nada. Amanhã de manhã começamos pelos documentos. Guarda tudo o que te estão a mostrar agora.

Fotografei o contrato.

Davit riu-se, mas já não parecia tão seguro.

— Não me vais assustar com um advogado.

— Não estou a tentar assustar-te. Pela primeira vez, simplesmente não estou a fazer o que me mandas.

Levantei-me.

Deixei a caixinha na mesa.

— Isto era para ti. Até esta noite.

Davit abriu-a.

As meias de bebé ficaram entre os seus dedos.

Durante alguns segundos, ninguém falou.

Depois, ele olhou para mim.

— Estás grávida?

Liana virou-se bruscamente para ele.

— Disseste que ela não podia ter filhos.

Aquela frase feriu-me mais profundamente do que o beijo deles.

Davit tinha transformado a minha dor num tema das suas conversas.

— De dez semanas — respondi.

Ele aproximou-se.

— Nare, espera. Precisamos de conversar.

— Hoje já disseste o suficiente.

Saí do restaurante. O gerente veio atrás de mim e chamou um táxi. Só comecei a chorar dentro do carro.

Fui para casa da minha mãe.

Quando abriu a porta, não fez perguntas. Abraçou-me como se eu fosse novamente uma menina que tinha regressado a casa com os joelhos esfolados.

No dia seguinte, descobrimos que a dívida era apenas uma parte do problema.

Suren obteve junto do banco uma cópia integral do contrato. O empréstimo tinha sido aprovado com uma declaração falsa dos meus rendimentos. O dinheiro tinha sido transferido para uma empresa em nome de Liana.

A minha irmã não era apenas a amante.

Era também a pessoa para cuja conta tinham ido os fundos do empréstimo contraído em meu nome.

Quando a minha mãe soube, ficou muito tempo sentada junto à janela. Depois telefonou a Liana e pediu-lhe que viesse.

A minha irmã só apareceu dois dias depois, sem o vestido vermelho e sem o seu sorriso habitual.

— Davit disse que ia devolver o dinheiro — sussurrou. — Eu pensava que vocês iam separar-se de qualquer maneira.

A minha mãe olhou para ela.

— A separação da tua irmã não te dava o direito de lhe tirar a vida que ela tinha construído.

Liana começou a chorar.

Naquele dia, não a abracei.

A investigação durou meses. Descobriu-se que Davit também tinha obtido dinheiro da mesma forma, em nome de um sócio. Quando deixou de conseguir pagar as dívidas, decidiu vender a minha parte do apartamento.

O nosso advogado contestou o empréstimo e eu pedi o divórcio.

Davit alternava entre ameaças, pedidos de desculpa e fotografias de roupa de bebé. Só respondi uma vez:

«Sobre a criança, falaremos através do advogado.»

A minha filha nasceu na primavera.

Quando a minha mãe a pegou ao colo, sorriu pela primeira vez em muitos meses.

Liana veio ao hospital, mas pediu para não entrar no quarto. Entregou, através da enfermeira, uma carta e umas pequenas meias brancas.

Li a carta mais tarde.

Pedia-me perdão sem me culpar e sem se esconder atrás de Davit.

Eu ainda não estava pronta para perdoar.

Mas guardei as meias.

Talvez um dia a minha filha pergunte por que temos dois pares.

Vou contar-lhe que comprei o primeiro para fazer alguém feliz.

E que recebi o segundo quando já estava a aprender a proteger-nos às duas.

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