💱— VocĂȘ Ă© apenas uma esposa. E uma esposa deve saber o seu lugar — disse o marido, com ar presunçoso. đŸ˜€

— VocĂȘ Ă© apenas uma esposa. E uma esposa deve saber o seu lugar — disse o marido, com ar presunçoso. đŸ˜€

Mas ainda faltavam trĂȘs meses felizes para essa frase ser dita, e tudo havia começado de uma maneira completamente diferente.

**Parte um. O apartamento do avĂŽ**

As caixas estavam empilhadas no corredor como uma torre, e Igor chutava a de baixo com a ponta do sapato, como um jogador de futebol antes do chute decisivo.

Izolda ria, segurando uma manta enrolada sobre o ombro.

No apartamento de um quarto era apertado, claro e, por algum motivo, muito divertido. 🙂

— Olha — Igor abriu os braços, como se estivesse mostrando a ela um salão de palácio.

— Quinze metros quadrados de felicidade pura.

— Do meu avî.

— Ele morou aqui por quarenta anos e deixou o apartamento para mim.

— Seu avî era um homem digno — concordou Izolda com um aceno.

— Sabia escolher os herdeiros.

— Sabia escolher os favoritos — corrigiu ele.

— Eu.

— Não os primos.

— ModĂ©stia Ă© realmente o seu ponto forte, pelo que estou vendo.

— Um verdadeiro puro-sangue árabe.

Rimma Petrovna chegou no terceiro dia, trazendo roupa de cama e sua opiniĂŁo.

A opiniĂŁo pesava mais.

Ela examinou os cantos, tocou o parapeito da janela e deu seu veredito, olhando para a nora quase com carinho.

— VocĂȘ teve sorte, Izolda — disse ela.

— Um homem com apartamento.

— Próprio.

— Sem financiamento, sem dívidas, sem estranhos.

— Eu tive sorte — concordou Izolda.

— Na verdade, eu sempre tenho sorte com as pessoas.

— AtĂ© hoje.

— E vocĂȘ, de onde veio mesmo?

— VocĂȘ saiu de um apartamento de trĂȘs quartos alugado, se bem me lembro.

— Eu alugava — respondeu Izolda tranquilamente.

— Dei sorte com a proprietária.

— Ela era tranquila.

Ela nĂŁo mentiu.

Apenas nĂŁo contou tudo.

O apartamento de trĂȘs quartos pertencia Ă  tia Valentina, e depois de ficar doente, Valentina passou a morar com a irmĂŁ — a mĂŁe de Izolda — porque a prĂłpria filha da tia desapareceu durante um mĂȘs difĂ­cil como a neblina da manhĂŁ sobre o rio.

— Pegue as chaves e more lĂĄ — dissera a tia naquela Ă©poca.

— Não vou deixar este apartamento para a minha filha.

— Ela nem atende o telefone.

— Tia Val, a senhora vai melhorar.

— Vou melhorar.

— E o apartamento será seu.

— Só não fique espalhando isso por aí.

— Homens, Izol, são como crianças: quando descobrem que existe uma torta, exigem o pedaço maior.

O primeiro mĂȘs parecia um comercial de famĂ­lia feliz.

Igor trazia tangerinas no meio do inverno, e Izolda escondia bilhetinhos no bolso da jaqueta dele.

Eles discutiam sobre filmes e faziam as pazes dez minutos depois.

Ela olhava para ele e pensava que tinha tirado o bilhete premiado. 💛

EntĂŁo Igor foi promovido.

— Izol! — ele entrou correndo no apartamento sem nem tirar o gorro.

— Fui promovido!

— Salário maior, escritório separado, tudo de bom!

— ParabĂ©ns! — ela o abraçou pelo pescoço.

— VocĂȘ nĂŁo disse que o outro candidato era mais forte?

— Ele se demitiu — respondeu Igor, fazendo um gesto de desdĂ©m.

— Foi embora e pronto.

— Então foi o destino.

— Então foi o destino — concordou Izolda.

— O destino gosta daqueles que, na hora certa, acabam sendo os Ășltimos da lista.

— VocĂȘ estĂĄ brincando ou me alfinetando?

— Eu te dei os parabĂ©ns.

— Com humor.

— Humor Ă© como vitamina, nĂŁo Ă© absorvido imediatamente.

Ele escolheu o café.

Convidou os colegas de escola, os colegas de trabalho e o amigo Kostia com a esposa, Lera.

Izolda vestiu um vestido verde e sorriu sinceramente durante toda a noite.

AtĂ© que Nastia apareceu na porta. 😳

— Ah, e aqui está a Nastiusha! — exclamou Igor, feliz, para o salão inteiro.

Os antigos colegas trocaram olhares.

Lera soltou um suspiro discreto.

Izolda se levantou, ajeitou o vestido e estendeu a mĂŁo primeiro.

— Izolda.

— Prazer.

— Nastia — respondeu a convidada, desconcertada.

— Eu
 sĂł vim dar os parabĂ©ns.

— EntĂŁo dĂȘ os parabĂ©ns.

— Ele gosta disso.

A noite chegou ao fim tranquilamente, como um trem seguindo o horĂĄrio.

Izolda fazia piadas, servia ågua aos convidados e ria das histórias da décima série.

Mais tarde, Kostia disse a Lera no vestiĂĄrio: “Essa garota Ă© durona”.

“Eu não conseguiria fazer isso”.

Em casa, Izolda tirou os brincos e disse calmamente:

— Igor.

— VocĂȘ agiu de maneira imprudente com Nastia.

— O que vocĂȘ quer dizer? — Ele abriu a camisa com um movimento brusco.

— Exatamente o que eu disse.

— Ela Ă© minha colega de escola!

— Ela Ă© sua ex-namorada.

— NĂŁo Ă© a mesma coisa, mesmo que vocĂȘs tenham o mesmo ĂĄlbum de formatura.

Foi então que ele se endireitou, olhou para ela de cima e disse — devagar, com prazer, como se estivesse experimentando um novo papel:

— VocĂȘ Ă© apenas uma esposa.

— E uma esposa deve saber o seu lugar.

Izolda ficou em silĂȘncio por trĂȘs segundos.

EntĂŁo assentiu, pegou o telefone e ligou para a sogra.

— Rimma Petrovna, boa noite!

— Tenho uma pergunta teórica.

— Qual Ă© o lugar de uma esposa?

— Que histórias são essas, Izol? — perguntou ela, surpresa.

— Uma esposa Ă© metade da casa.

— É a dona do lar, o apoio e a conselheira.

— Uma esposa Ă© respeito, Ă© a primeira pessoa da famĂ­lia depois do marido e, Ă s vezes, atĂ© antes dele.

— Quem disse isso a vocĂȘ?

— Seu filho.

— No corredor.

Do outro lado da linha, fez-se silĂȘncio.

Igor ficou paralisado no meio do quarto, como alguém que pisou em um ancinho e percebe que o cabo estå prestes a voltar contra o seu rosto.

— Bem
 — prolongou Rimma Petrovna, com outra voz.

— EntĂŁo vocĂȘ o levou a isso.

— Igor não diria uma coisa dessas sem motivo.

— Ele Ă© tĂŁo controlado.

— Obrigada — disse Izolda educadamente.

— VocĂȘ me ajudou muito.

— A sua posição agora Ă© como uma biruta: nĂŁo mostra o vento, mostra o seu filho.

— Não fale comigo desse jeito!

— Estou apenas tirando as conclusĂ”es.

— Boa noite.

**Parte dois. A função**

Uma semana depois, no trabalho, Izolda ouviu a palavra “demissão”.

Os jovens especialistas eram os primeiros a entrar na lista, sem qualquer sentimentalismo.

Ela saiu para o corredor, contou atĂ© vinte e, de repente, sorriu. 😏

À noite, anunciou ao marido durante o jantar:

— Eu me demiti.

— O quĂȘ?! — O garfo tilintou.

— Como assim vocĂȘ se demitiu?

— VocĂȘ ficou louca?

— Não.

— Vivo com a minha razão há muito tempo e já me acostumei com ela.

— E o dinheiro?!

— NĂŁo precisamos pagar aluguel, tudo bem, mas temos comida, contas, carro, meu cartĂŁo de crĂ©dito!

— Eu vou sustentar nós dois sozinho?!

— Igor — Izolda apoiou a bochecha na palma da mão.

— Foi vocĂȘ mesmo que explicou a estrutura.

— Eu sou apenas a esposa.

— Então eu conheço o meu lugar.

— E onde fica o lugar do marido?

— VocĂȘ estĂĄ distorcendo o que eu disse!

— Estou apenas citando.

— Se existe uma esposa que Ă© apenas esposa, entĂŁo existe tambĂ©m um marido que Ă© apenas o provedor.

— VocĂȘ escolheu a divisĂŁo de papĂ©is.

— Eu não estou discutindo.

— Sou obediente.

— Trabalhe, ganhe dinheiro e traga o mamute para casa.

— Eu não sou caçador de mamutes!

— EntĂŁo repense o seu discurso da Ășltima terça-feira.

— Palavras são como pregos: depois de martelados, dói arrancá-los.

Ele foi ao café encontrar Kostia.

Pegou uma cerveja, espalhou os nĂșmeros sobre um guardanapo e percebeu de repente que o novo cargo tinha aumentado sua dor de cabeça em cem por cento, enquanto o dinheiro tinha aumentado apenas quatorze.

— Por que essa cara amarrada? — perguntou Kostia.

— Minha esposa se demitiu.

— E daí?

— Ela vai encontrar outro emprego.

— Ela não está procurando!

— Ela fica em casa e, imagine só, está satisfeita!

— E por que ela estaria insatisfeita? — Kostia deu de ombros.

— VocĂȘ Ă© o homem, vocĂȘ a sustenta.

— Foi vocĂȘ que disse isso.

— Eu disse em outro contexto!

— Igor — Kostia se recostou na cadeira.

— Contexto Ă© uma coisa traiçoeira.

— Nem sempre ele vai para onde vocĂȘ o manda.

Durante o dia, Izolda ia a duas entrevistas de emprego.

Ela voltava uma hora antes do marido, trocava de roupa, soltava os cabelos e colocava uma mĂșsica tranquila.

Quando Igor entrava, ela parecia ter passado o dia inteiro observando as nuvens.

— VocĂȘ ficou em casa o dia inteiro? — perguntou ele assim que entrou.

— Estou cuidando da casa.

— E de mim mesma.

— Agachamentos, prancha, máscara facial.

— Uma esposa deve estar sempre bonita e bem cuidada, não acha?

— Izolda, eu não consigo sustentar duas pessoas! — ele elevou a voz.

— O aumento Ă© uma ninharia, e o trabalho triplicou!

— Sinto muito.

— De verdade.

— Mas essa Ă© a sua ĂĄrea de responsabilidade.

— VocĂȘ mesmo a delimitou e fincou uma bandeira nela.

— VocĂȘ estĂĄ zombando de mim?!

— Estou apenas cumprindo.

— A diferença Ă© que vocĂȘ nĂŁo gosta do resultado do seu prĂłprio roteiro.

— O autor sempre acha que os personagens serão mais obedientes.

De manhĂŁ, ela saiu para o corredor e pediu gentilmente:

— Igor, me dĂȘ dinheiro para ir ao cabeleireiro.

— Uma esposa precisa estar bem cuidada.

— VocĂȘ mesmo gritou ontem sobre ter uma casa perfeita.

Ele tirou o dinheiro, contou e colocou na mĂŁo dela.

Seus dedos estavam tensos de raiva.

— Obrigada, provedor — disse ela sem o menor sinal de ironia.

Aquilo era mais assustador do que a ironia.

No caminho, ele ligou para a mĂŁe e falou durante quinze minutos sem parar.

**Parte trĂȘs. A chave**

Izolda voltou da terceira entrevista de emprego de excelente humor.

Ela havia conseguido o emprego, e o salårio era um terço maior que o anterior.

Ela abriu a porta — e viu Rimma Petrovna sentada na poltrona como se fosse a dona do lugar. 😐

— Boa tarde — disse Izolda lentamente.

— Como vocĂȘ entrou?

— Com a chave — Rimma Petrovna balançou o molho de chaves.

— Eu sempre tive uma.

— O apartamento Ă© nosso.

— Da família.

— Entendi.

— Então a fechadura será trocada, e a chave vai virar uma lembrança.

— VocĂȘ estĂĄ se permitindo demais!

— Igor me contou tudo!

— VocĂȘ estĂĄ sentada sem trabalhar, com as pernas esticadas, enquanto ele se mata de trabalhar!

— Rimma Petrovna — Izolda sentou-se diante dela, tranquila como durante uma negociação.

— Lembra que eu liguei para a senhora e perguntei qual era o lugar de uma esposa?

— Lembro.

— Pois então, seu filho definiu o meu lugar.

— Eu sou apenas a esposa.

— Aceitei isso com gratidão e humildade.

— E se existe apenas uma esposa, então existe apenas um marido.

— E o nosso marido, segundo a prĂłpria teoria dele, Ă© o provedor.

— Eu não vou impedir um homem de se realizar.

— Isso seria cruel da minha parte.

— VocĂȘ colocou o meu filho no seu pescoço!

— Ele ofereceu o pescoço e ainda segurou meu cotovelo.

— Eu atĂ© recusei um pouco.

— Igor tirou vocĂȘ do apartamento alugado!

— VocĂȘ estaria vagando de um canto para outro!

— Rimma Petrovna, a senhora Ă© surpreendentemente bem informada sobre os meus cantos.

— É agradĂĄvel quando alguĂ©m pensa em vocĂȘ mais do que vocĂȘ mesma.

A mulher se levantou vermelha de raiva, apertou os lĂĄbios e saiu.

Bateu a porta com tanta força que alguém no corredor do prédio girou a fechadura assustado.

No elevador, ela jĂĄ ligava para o filho.

— Igor!

— Ela subiu no seu pescoço!

— E sabe quem Ă© o culpado?

— VocĂȘ!

— Quem diz uma coisa dessas para uma mulher — “conheça o seu lugar”?

— VocĂȘ deu um papel a ela, e ela estĂĄ desempenhando!

— MĂŁe, pelo menos vocĂȘ nĂŁo comece!

— Eu não estou começando.

— Estou terminando.

À noite, Igor trouxe Kostia e Lera — sem avisar, orgulhoso e com um grande gesto.

Izolda colocou sobre a mesa o que havia: pĂŁo, um pouco de queijo, legumes e um pote de azeitonas tirado do armĂĄrio do alto.

Kostia mastigava em silĂȘncio.

Lera olhava para o prato.

Quando os convidados foram embora, Igor explodiu.

Sua voz ficou aguda, fina e estranha.

— Por que a geladeira está vazia?!

— Porque o dinheiro acabou na quinta-feira.

— E vocĂȘ voltou para casa na sexta-feira com convidados e sem compras.

— VocĂȘ poderia ter ativado o cartĂŁo de crĂ©dito!

— O seu cartĂŁo de crĂ©dito? — Ela ergueu as sobrancelhas.

— Igor, em um momento vocĂȘ me define como esposa, que deve conhecer o seu lugar, e no seguinte me transforma em administradora de linhas de crĂ©dito.

— Decida-se!

— Eu não consigo trocar de papel tão rápido.

— Esposa Ă© aquela que trabalha, cuida da casa, obedece ao marido e nĂŁo o contradiz! — gritou ele.

— Excelente definição.

— Especialmente a primeira parte, que contradiz vigorosamente o seu discurso no corredor.

— Nas suas exigĂȘncias, vocĂȘ Ă© como um bonde no gelo: hĂĄ direção, mas nĂŁo hĂĄ aderĂȘncia.

— Não seja espertinha!

— E vocĂȘ nĂŁo grite.

— Gritar nĂŁo Ă© argumento, Ă© apenas volume.

— Estou na minha própria casa!

— Na casa do seu avî — corrigiu ela suavemente.

— Seu avĂŽ, pelo que vocĂȘ conta, respeitava as mulheres.

Ele ficou sem ar.

EntĂŁo disparou:

— VocĂȘ ainda vai jogar a Nastia na minha cara?!

— Já joguei.

— VocĂȘ convidou sua ex-namorada para uma festa onde sua esposa estava sentada.

— Isso nĂŁo Ă© liberdade, Ă© um espetĂĄculo para o pĂșblico.

— Eu a convidei e continuarei convidando!

— Convido quem eu quiser!

— Tudo bem — disse Izolda.

E sorriu. 🙂

Na manhĂŁ seguinte, ela foi trabalhar sem explicar nada.

Durante o dia, Rimma Petrovna ligou: “Ela não está em casa de novo!”

Igor ligou para a esposa e ouviu: “Estou no trabalho”.

Ele ficou radiante.

Tudo estava se encaixando perfeitamente: a esposa trabalhava, a casa continuava de pé e a palavra do marido era obedecida.

Ele ainda nĂŁo havia entendido que o cronograma da vida dela jĂĄ nĂŁo lhe pertencia.

**Parte quatro. A palma da mĂŁo**

Um mĂȘs passou sobre uma corda esticada.

As conversas ficaram curtas como recibos de supermercado.

Izolda estava tranquila, educada e completamente inacessĂ­vel, e isso irritava Igor mais do que qualquer escĂąndalo.

Ela decidiu comemorar o primeiro salårio no novo emprego em um café.

Convidou as amigas e o marido.

Encomendou um bolo com um nĂșmero dourado ridĂ­culo e riu como nĂŁo ria em casa havia um mĂȘs. 🎉

— Por vocĂȘ! — a amiga Dasha levantou o copo.

— Salário maior que o anterior e um chefe razoável!

— À vida adulta — concordou Izolda.

Igor ficou calado e satisfeito: havia dinheiro na famĂ­lia e seu orgulho permanecia intacto.

EntĂŁo a porta se abriu e Artiom entrou.

— Ah, Tiemka! — gritaram as amigas.

— De onde vocĂȘ veio?!

— Estava passando por aqui — riu ele.

— Izolda, parabĂ©ns.

— Ouvi dizer que agora vocĂȘ Ă© uma estrela.

— Obrigada — disse ela, levantando-se.

— Ela o abraçou de maneira amigável e rápida.

Igor ficou petrificado.

Ele olhava para aquele homem, para a sua leveza, para a forma como todos ficaram felizes ao vĂȘ-lo, e por dentro começou a se sentir sufocado.

— Quem Ă© ele? — perguntou entre os dentes.

— Artiom.

— Nós namoramos na faculdade.

— Há cem anos.

— Ele atĂ© queria me pedir em casamento.

— VocĂȘ entende


— E vocĂȘ o convidou?!

— Ele apareceu sozinho.

— Assim como Nastia.

À noite, Igor andava de um lado para o outro em casa.

— VocĂȘ me humilhou! — começou em tom agudo.

— Trouxe seu ex para cá!

— Talvez vocĂȘ esteja dormindo com ele tambĂ©m?!

— Talvez vocĂȘ esteja dormindo com Nastia? — perguntou Izolda calmamente.

— Veja como o espelho funciona bem.

— VocĂȘ cospe nele e ele devolve tudo para vocĂȘ.

— Não se atreva!

— Eu me atrevo.

— VocĂȘ estabeleceu as regras: ex-namorados sĂŁo normais, Ă© permitido convidĂĄ-los e nĂŁo Ă© preciso explicar nada.

— Eu sou apenas uma aluna aplicada.

— Cale essa boca!

— Não posso.

— Minha lĂ­ngua ainda pode ser Ăștil.

E entĂŁo ele bateu no rosto dela com a palma da mĂŁo.

O tapa ecoou.

Izolda virou ligeiramente a cabeça, endireitou-se devagar e tocou a maçã do rosto com os dedos.

— Agora vocĂȘ vai ficar quieta! — ele sussurrou.

— Está bem — disse ela.

Ele esperava gritos.

Esperava que ela pegasse a jaqueta e fugisse para a casa das amigas.

Ela foi ao banheiro, lavou o rosto, voltou e se deitou para dormir.

Igor ficou deitado ao lado dela sentindo dois sabores ao mesmo tempo: um triunfo adocicado — ela obedeceu! — e uma amargura dura por ter precisado chegar ao ponto de levantar a mão.

Ele se consolou com a ideia de que Ă© a mulher quem leva um homem a esse ponto.

Assim era mais fĂĄcil dormir.

De manhã, ela preparou o café da manhã dele, perguntou se ele havia pegado as chaves e desejou-lhe um bom dia.

Com voz tranquila.

Ele saiu quase feliz.

**Parte cinco. O armĂĄrio vazio**

À noite, ela não estava em casa.

Às nove — não estava.

Às dez — tambĂ©m nĂŁo.

Sua mĂŁe ligou com a pergunta habitual:

— EntĂŁo, como vocĂȘs estĂŁo?

— Izolda não está aqui.

— Como assim, não está?

— Ela está perambulando por aí de novo?

— Igor, eu avisei!

Ele desligou e foi para o quarto.

Abriu o armĂĄrio.

Metade das prateleiras estava vazia — tão vazia quanto fica quando uma pessoa faz as malas sem pressa, seguindo uma lista.

Igor discou o nĂșmero, e seus dedos escorregavam pela tela. 😹

— Sim — respondeu ela calmamente.

— Onde vocĂȘ estĂĄ?!

— Em casa.

— VocĂȘ estĂĄ em casa?!

— Eu estou em casa!

— VocĂȘ estĂĄ no apartamento do seu avĂŽ, Igor.

— E eu estou em casa.

— Que bobagem Ă© essa?!

— Volte imediatamente!

— Não.

— Escute com atenção.

— Vou dizer uma vez, e repetir jĂĄ seria uma sĂ©rie inteira.

— Eu não preciso de um marido que decidiu que sou apenas uma esposa e que devo conhecer o meu lugar.

— Eu nĂŁo preciso de um marido que convida a ex-namorada para uma festa, anuncia que continuarĂĄ convidando-a e me proĂ­be atĂ© de cumprimentar meu ex.

— E definitivamente não preciso de um marido que levantou a mão contra a mulher que ama.

— TrĂȘs pontos.

— VocĂȘ cumpriu pessoalmente os trĂȘs.

— VocĂȘ
 para onde vai?!

— Eu tenho um apartamento!

— VocĂȘ nĂŁo tem nada!

— VocĂȘ vai ficar vagando por apartamentos alugados!

Ela riu — leve, quase alegre.

— Igor, sabe o que Ă© mais engraçado no seu orgulho?

— Ele se sustentava em quinze metros quadrados.

— Pois Ă©, eu tenho um apartamento de trĂȘs quartos.

— Aquele mesmo “alugado”.

— Ele pertence à minha tia e foi transferido para o meu nome ainda no inverno.

— Eu simplesmente não contei.

— Para homens que consideram a esposa uma funcionĂĄria domĂ©stica, informação demais faz mal.

— TrĂȘs
 quartos?

— Com despensa.

— A ligação vai terminar em trĂȘs segundos.

— Um.

— Dois.

A ligação caiu.

Igor ficou parado no meio do quarto sem entender como aquilo havia acontecido.

Ele sĂł queria que a esposa parasse de fazer perguntas sobre Nastia.

Uma frase, uma segunda, uma terceira — e agora a herança do avĂŽ havia se tornado a Ășnica coisa que lhe restava.

Suas mĂŁos tremiam tanto que o telefone pulava em sua palma.

Sua mĂŁe ligou novamente.

— Então, ela voltou?

— Foi embora.

— De vez.

— Com as coisas.

— Idiota! — Rimma Petrovna ficou sem ar.

— Deixar um marido bem de vida!

— Para onde ela vai?

— Vai ficar vagando por apartamentos alugados e voltar rastejando!

— Ela tem um apartamento de trĂȘs quartos, mĂŁe.

— Dela.

— Ela ficou em silĂȘncio sobre isso.

Houve uma longa pausa.

— Dela?! — A voz tornou-se sibilante.

— Então era por isso que ela desaparecia!

— E, claro, não estava sozinha!

— Com aquele ex dela!

— Tudo faz sentido, Igor!

— Passaram vocĂȘ para trĂĄs!

Ele se agarrou Ă quela ideia como um homem se afogando se agarra a um tronco.

Sentiu-se melhor.

NĂŁo era culpa dele.

Ele havia sido traĂ­do.

A raiva subiu como uma onda quente e, levado por aquela onda, ele entrou com o pedido de divórcio por meio de um aplicativo — rapidamente e triunfante, para ser o primeiro a cortar aquele nó.

Izolda recebeu a notificação durante a noite, sentada em sua grande sala.

Leu, colocou o telefone para carregar e dormiu tranquilamente.

No dia seguinte, Igor encontrou Kostia.

— Entrei com o pedido de divórcio — disse ele, desafiador.

— VocĂȘ acredita que ela tinha um apartamento de trĂȘs quartos!

— E ficou calada!

— E o ex dela apareceu.

— Ela está com ele.

Kostia bufou e depois caiu na gargalhada.

— VocĂȘ estĂĄ falando do Artiom?

— Igorku, Artiom tem esposa e dois meninos.

— Ele vive no parquinho infantil, não em intrigas.

— Ele aparece na nossa turma há anos, só para passar o tempo.

— O quĂȘ?..

— Isso mesmo.

— E Izolda Ă© uma garota incrĂ­vel.

— Inteligente, equilibrada e não leva desaforo para casa.

— Escuta, jĂĄ que vocĂȘs se separaram, vocĂȘ nĂŁo vai se importar se eu a convidar para tomar um cafĂ© algum dia?

— Só como amigos, claro.

Igor olhava para o amigo e sentia o chĂŁo ficar escorregadio.

— VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio?!

— Estou brincando — Kostia abriu os braços.

— Mais ou menos.

— Mas vou convidá-la.

Naquela noite, ele gritou com todo mundo.

Com a mãe — por ter colocado na cabeça dele aquela história de traição.

Com Izolda — por seu silĂȘncio e pelo apartamento de trĂȘs quartos.

Com Kostia — pelas brincadeiras.

Com Nastia — por ter aparecido naquele cafĂ©.

Com Artiom — simplesmente porque ele existia e estava tudo bem com ele.

Depois os gritos terminaram e ficou tudo em silĂȘncio.

Os quinze metros quadrados do orgulho herdado do avĂŽ se fecharam ao redor dele como as paredes de uma cela onde o prisioneiro Ă© ao mesmo tempo seu prĂłprio carcereiro e acusado.

Ele estava sentado no sofá, calculava mentalmente as despesas e compreendia que agora teria de arcar sozinho com tudo — exatamente como queria.

Enquanto isso, Izolda pendurava novas cortinas na grande sala e cantarolava.

Ela nunca suportou algo durante anos e nunca humilhou ninguém em resposta.

Ela simplesmente devolveu ao homem as próprias palavras dele — inteiras, sem nenhum desconto.

Exatamente no lugar que ele mesmo havia escolhido para si. ✹

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