— Com licença, quem são vocês e por que espalharam suas coisas no meu quarto? — perguntou Elena, parando à porta do cômodo.
A mulher junto ao guarda-roupa se assustou tão bruscamente que o cabide escapou de sua mão e caiu no chão.

Sobre a cama de Elena havia blusinhas infantis, um pacote de lenços umedecidos, um coelho de pelúcia com uma orelha arrancada e uma nécessaire que não era dela.
Perto da janela havia duas caixas grandes, e em uma delas estava escrito com uma letra torta: “Louça. Cuidado”.
— E você… quem é? — perguntou a desconhecida, endireitando-se lentamente e apertando contra o peito uma camisa masculina dobrada.
Elena olhou para ela por alguns segundos e depois desviou o olhar para o próprio guarda-roupa, onde, no lugar de seus vestidos, já estavam pendurados casacos alheios e um macacão infantil.
— Eu sou a proprietária deste apartamento.
Do corredor veio uma voz masculina.
— Olya, quem está aí?
Um instante depois, um homem alto, vestindo calças de ficar em casa e camiseta, entrou no quarto.
Atrás dele apareceu uma menina de cerca de seis anos, com um biscoito na mão.
O homem viu Elena, empalideceu e, por reflexo, colocou-se à frente da criança.
— Como você entrou?
Elena levantou as chaves.
— Abri a porta.
A minha.
O silêncio ficou tão denso que se ouviu até o rangido da alça de um carrinho de bebê no corredor.
Apenas três dias antes, Elena havia viajado a trabalho para uma região vizinha.
Planejava ficar por uma semana: reunião com fornecedores, conferência de documentos e negociações.
Mas tudo terminou mais cedo.
Na sexta-feira à tarde, assinaram os papéis de que ela precisava, e Elena decidiu não permanecer no hotel até segunda-feira.
Ela comprou uma passagem para o trem suburbano mais próximo, pegou um café em copo de papel no caminho e até teve tempo de pensar em como seria agradável voltar para casa antes do previsto: tomar banho, colocar um filme e desfazer a mala tranquilamente.
Ela não avisou ninguém.
Nem mesmo seu ex-marido, Sergei, com quem, depois do divórcio, mantinha um contato raro por causa de assuntos relacionados ao carro antigo, que havia ficado com ele na divisão dos bens.
Elena não comunicou seu retorno a ninguém.
E agora estava no meio do próprio quarto, onde uma mulher desconhecida organizava coisas nas prateleiras dela.
— Vamos conversar com calma — disse o homem primeiro.
— Provavelmente houve um mal-entendido.
Elena virou-se lentamente para ele.
— Mal-entendido é quando os vizinhos trocam as sacolas deixadas à porta.
Quando eu volto para casa e vejo brinquedos estranhos na minha cama, isso tem outro nome.
A mulher, a quem o homem havia chamado de Olya, piscava rapidamente, olhando ora para Elena, ora para o marido.
— Sergei disse que podíamos ficar aqui.
Ao ouvir o nome do ex-marido, Elena nem sequer ergueu uma sobrancelha.
Apenas apertou com mais força o molho de chaves.
— Que Sergei?
— Sergei Viktorovich.
Ele disse que o apartamento estava vazio de qualquer maneira, que você estava em outra cidade e que nós ficaríamos apenas por algumas semanas.
Somos parentes da tia dele.
Mais precisamente, a mãe do meu marido era prima dela.
O homem pigarreou, constrangido.
— Eu sou Artyom.
Esta é minha esposa, Olga.
As crianças estão na sala.
Nós realmente achávamos que tudo estava combinado.
— Com quem?
— Com o proprietário do apartamento.
Elena assentiu lentamente.
— Entendi.
Só que a proprietária do apartamento está diante de vocês.
E Sergei não mora aqui há dois anos e não tem qualquer relação com este apartamento.
Olga inspirou ruidosamente.
— Mas ele abriu a porta com as próprias chaves…
— Isso também me interessa muito.
Elena saiu para o corredor.
Ali havia três malas, um carrinho de bebê, sacolas de compras e um grande saco de sapatos.
Sobre o aparador dela havia uma carteira alheia, e ao lado estavam jogadas chaves de carro.
Na sala, um menino de cerca de dez anos estava sentado no sofá, assistindo a um desenho animado em um tablet.
Sobre a mesa de centro havia sanduíches, maçãs, livros de colorir e canetinhas.
No chão, ao lado da poltrona, estava a pasta de Elena com documentos.
Alguém a havia tirado da prateleira para colocar livros infantis no lugar.
Elena se aproximou, pegou a pasta e a colocou debaixo do braço.
— Muito bem — disse ela.
— Agora todos os adultos vão para a cozinha.
As crianças ficam na sala.
E, sem fazer barulho desnecessário, vocês vão me explicar exatamente como foram parar no meu apartamento.
Artyom trocou um olhar com a esposa.
— Não queríamos problemas.
— Eles já existem.
Na cozinha, Elena percebeu outro detalhe desagradável.
Na geladeira havia alimentos alheios, seus recipientes tinham sido empurrados para o fundo, e sobre a bancada havia uma panela que ela nunca tinha visto.
Olga sentou-se na ponta de uma cadeira e juntou as mãos sobre os joelhos.
Artyom permaneceu em pé.
— Sergei disse que você era a ex-esposa dele — começou ele com cautela.
— Disse que o apartamento tinha sido da família de vocês, mas que agora estava vazio.
Disse que você tinha viajado por bastante tempo e que ele tinha o direito de nos deixar entrar.
Elena sorriu sem humor, apenas com os olhos.
— Este apartamento nunca foi da família.
Eu o comprei antes do casamento.
Sergei morou aqui enquanto éramos casados porque eu permiti.
Depois do divórcio, ele se mudou.
— Ele disse que você pretendia alugá-lo de qualquer maneira.
— Mesmo que eu pretendesse, isso não lhe dava o direito de trazer pessoas para cá.
Olga ficou vermelha.
— Nós pagamos a ele.
Elena virou-se lentamente para ela.
— O quê?
Artyom lançou um olhar irritado para a esposa, mas já era tarde demais.
— Ele disse que você cobrava um adiantamento — falou Olga em voz baixa.
— Entregamos o valor de um mês e um depósito pelas chaves.
Ele escreveu um recibo à mão.
O silêncio caiu sobre a cozinha.
Elena apenas olhou para a mulher por alguns segundos.
Depois estendeu a mão.
— Mostre-me.
Olga levantou-se de repente, correu até o corredor e voltou com uma bolsa.
Tirou de dentro uma folha amassada arrancada de um bloco.
Elena abriu o papel.
Reconheceu imediatamente a caligrafia de Sergei.
Torta, espalhada, com longos traços nas letras.
No recibo estava escrito que Sergei havia recebido dinheiro pela estadia temporária da família de Artyom no apartamento daquele endereço.
Embaixo estava a data: o dia anterior.
Elena colocou o papel sobre a mesa.
— Ele ainda por cima pegou dinheiro.
Artyom passou a mão bruscamente pelo rosto.
— Que desgraçado…
Olga apertou a alça da bolsa com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Nós não sabíamos.
Sinceramente.
Ele falava com tanta segurança.
Disse que você mesma tinha pedido para ele cuidar do apartamento enquanto estivesse fora.
Nós nos mudamos ontem.
Nem terminamos de desfazer as coisas.
— Ontem?
— Sim.
Ele mesmo nos trouxe.
Ajudou a subir as malas.
Mostrou onde ficava a roupa de cama.
Elena olhou para a porta do quarto.
— No meu guarda-roupa?
Olga baixou os olhos.
— Ele disse que podíamos usar.
Elena pegou o telefone.
— Agora o próprio Sergei vai explicar tudo.
Ela ligou para o ex-marido.
Na primeira chamada, ele desligou.
Na segunda também.
Na terceira, atendeu irritado.
— Lena, estou ocupado.
O que aconteceu?
— Venha até aqui.
— Aonde?
— Ao meu apartamento.
Do outro lado da linha, fez-se silêncio.
— Você não estava viajando a trabalho?
— Não mais.
Sergei ficou em silêncio por tanto tempo que Elena chegou a olhar para a tela para ver se a ligação havia caído.
— Lena, não faça escândalo…
— Venha em quarenta minutos.
Ou chamarei a polícia agora mesmo, e seus parentes vão explicar quem os deixou entrar aqui.
— Não chame a polícia.
Estou indo.
Elena encerrou a ligação.
Artyom perguntou, tenso:
— O que devemos fazer?
— Arrumar suas coisas.
Olga levantou-se de um salto.
— Mas temos crianças!
Não podemos ir para a rua agora!
Elena a observou com atenção.
Em Olga não havia a arrogância que Elena imaginara no início.
Havia cansaço, medo e raiva, mas não contra Elena.
A mulher claramente entendia que havia entrado em uma história alheia e agora não sabia como sair dela.
— Vocês têm carro?
— Sim.
— Têm parentes na cidade?
Artyom respondeu após uma breve pausa.
— Podemos dormir na casa da minha irmã.
Mas é um apartamento de um cômodo, seria desconfortável.
— Desconforto não é motivo para morar no apartamento de outra pessoa sem a autorização da proprietária.
Ele assentiu.
— Sim.
Você tem razão.
Olga cobriu o rosto com as mãos.
— Eu sabia.
Eu disse a você, Artyom, que estava tudo fácil demais.
Um apartamento bom, com urgência, sem contrato, apenas um recibo…
E você dizia: ele é parente, não vai nos enganar.
Artyom não respondeu.
Elena foi até a sala.
As crianças olhavam para ela com cautela.
A menina apertava contra o peito o mesmo coelho de pelúcia, e o menino havia colocado o tablet sobre os joelhos.
— Vocês terão de guardar os brinquedos — disse Elena, com uma voz mais suave.
— Seus pais vão explicar tudo agora.
A menina perguntou em um sussurro:
— Estão nos expulsando?
Elena se agachou ao lado dela, mas não fingiu uma ternura que não sentia.
— Os adultos fizeram um acordo errado.
Vocês não têm culpa de nada.
Agora seus pais vão arrumar as coisas, e vocês irão para outro lugar.
A menina assentiu, mas seus lábios tremeram.
Elena se levantou.
Ela não tinha nada contra as crianças.
Mas cada minuto em que pessoas estranhas permaneciam dentro de sua casa a feria ainda mais.
Ela voltou para a cozinha.
— Arrumem-se.
Sergei chegará em breve.
Enquanto Olga recolhia as coisas no quarto, Elena percorria o apartamento, verificando o que já haviam mexido.
No banheiro, sobre sua prateleira, havia xampus alheios.
No cesto estavam toalhas que Olga aparentemente havia tirado do armário.
Sobre a máquina de lavar, secavam meias infantis.
No escritório, Elena encontrou Artyom perto da estante.
Ele recuou depressa.
— Eu só estava pegando uma caixa.
Colocamos cabos nela.
Elena assentiu, mas ainda assim se aproximou da prateleira.
Seus documentos não estavam como ela os havia deixado.
Um envelope estava aberto.
— Quem mexeu nisso?
Artyom franziu a testa.
— Não fui eu.
Do quarto veio a voz de Olga.
— Sergei olhou.
Ele disse que precisava verificar se havia objetos pessoais seus que seria melhor guardar.
Elena ficou imóvel.
Depois pegou o envelope.
Dentro havia cópias de antigos documentos do apartamento, o seguro e recibos.
Nada especialmente valioso, mas o simples fato de Sergei ter remexido em seus papéis fez com que ela respirasse lentamente várias vezes para não começar a gritar.
Ela fotografou o envelope, a gaveta aberta, os objetos alheios nos cômodos, as malas, o carrinho de bebê e o recibo.
Artyom a observava com o rosto sombrio.
— Você vai registrar uma queixa?
Elena olhou para ele.
— Por enquanto, estou documentando o que aconteceu.
Como isso terminará depende de Sergei.
— Ele vai devolver nosso dinheiro?
— Pergunte a ele.
Mas vocês deixarão meu apartamento independentemente da resposta.
Artyom cerrou os dentes e assentiu.
Sergei chegou trinta e cinco minutos depois.
Elena ouviu quando ele abriu apressadamente a porta com a própria chave.
Portanto, ele realmente havia conservado um jogo.
Entrou no corredor, viu as malas, Artyom com as bolsas, Olga com o rosto vermelho e Elena parada perto do espelho com a pasta nas mãos.
— Lena, não comece…
Ela estendeu a mão.
— As chaves.
Sergei não tirou o molho imediatamente.
Primeiro, tentou sorrir.
— Vou explicar tudo.
— As chaves.
Ele tirou do bolso duas chaves presas a um chaveiro antigo.
Elena as pegou e perguntou imediatamente:
— Há outras?
— Não.
— Pense bem.
Sergei soltou o ar, irritado.
— Já disse que não.
Artyom avançou bruscamente na direção dele.
— Devolva o dinheiro.
Sergei virou-se para ele.
— Espere.
Vamos resolver tudo agora.
— Resolver o quê?
Você disse que o apartamento era seu e da sua ex-esposa.
Disse que podia nos deixar entrar.
Pegou o dinheiro.
Sergei lançou um olhar para Elena.
— Eu não disse que era meu.
Disse que era uma questão que podia ser resolvida.
Olga saiu do quarto com uma bolsa infantil.
— Você disse: podem ficar tranquilos, a proprietária não se importa.
Sergei ficou vermelho.
— Bem, eu achei que Lena não se importaria!
O apartamento estava vazio!
Elena soltou uma risada curta, sem sorrir.
— Você decidiu pensar por mim?
— Eu queria ajudar as pessoas!
— Por dinheiro?
Sergei abriu a boca, mas não encontrou resposta.
Elena colocou o recibo sobre o aparador.
— Você pegou dinheiro deles pelo meu apartamento.
Colocou pessoas estranhas no meu quarto.
Abriu meus armários.
Remexeu nos meus documentos.
E agora quer dizer que estava apenas ajudando?
Sergei passou a mão pela nuca.
— Lena, não exagere.
Eles ficariam uma semana.
No máximo duas.
Eu pretendia contar depois.
— Depois que eu voltasse e encontrasse pessoas estranhas aqui?
— Você não morreria por causa disso.
Olga se virou bruscamente para ele.
— Você é normal?
Nós dormimos aqui com nossos filhos!
E se ela tivesse chamado a polícia e nos levado para prestar esclarecimentos?
— Ninguém levaria vocês — resmungou Sergei.
— Acalmem-se.
Elena olhou para o ex-marido com tanta atenção que ele desviou os olhos.
— Você vai devolver o dinheiro deles agora.
— Não tenho toda a quantia em dinheiro vivo.
— Faça uma transferência.
— Lena, não me dê ordens.
— Então chamarei a polícia, e vocês três vão explicar a situação diante dos agentes.
Tenho o recibo, as fotografias e seu jogo de chaves.
Sergei ficou vermelho de raiva.
Manchas avermelhadas apareceram em suas têmporas.
— Você sempre gostou de pressionar os outros!
— E você sempre gostou de pegar o que não era seu e fingir que tinha direito.
Aquela frase atingiu exatamente o alvo.
Sergei virou-se bruscamente, tirou o telefone e começou a transferir o dinheiro para Artyom.
Artyom ficou ao lado dele, verificando o recebimento.
Quando o telefone em sua mão emitiu um som, ele disse:
— Chegou.
— Tudo? — perguntou Elena.
— Sim.
— Então terminem de recolher suas coisas.
A arrumação levou quase uma hora.
Olga tirava silenciosamente os objetos do guarda-roupa, dobrava as roupas das crianças e recolhia cosméticos e toalhas.
Cada vez que encontrava algo deles entre os pertences de Elena, ficava ainda mais vermelha.
— Desculpe — disse finalmente em voz baixa, quando ficaram sozinhas no quarto.
— Sei que você não é obrigada a ouvir isso, mas nós realmente não sabíamos.
Elena olhou para ela.
— Vocês deveriam ter assinado um contrato normal com o proprietário.
— Deveríamos.
— E verificado os documentos.
Olga assentiu.
— Sim.
É só que… quando você tem dois filhos, o aluguel que havia conseguido dá errado, as coisas já estão prontas, e alguém de repente diz: há uma opção, vocês podem entrar hoje mesmo…
O cérebro para de funcionar.
Elena não demonstrou pena em voz alta.
Mas sua raiva daquela mulher já havia praticamente desaparecido.
Toda a raiva agora era dirigida a Sergei.
— Pegue os brinquedos das crianças sobre a cama.
— Já vou.
No corredor, Sergei tentava falar com Artyom em voz baixa.
— Por que está fazendo essa cara agora?
Eu devolvi o dinheiro.
— Você nos colocou em uma situação terrível.
— Ninguém colocou ninguém em situação alguma.
Artyom colocou uma bolsa no chão.
— Você colocou meus filhos dentro do apartamento de uma desconhecida.
Você entende isso ou não?
Sergei fez uma careta.
— Já chega.
Elena saiu do quarto.
— Sergei, você vai ficar aqui até o fim e conferir se eles levaram tudo o que é deles.
Depois, você e eu iremos à sua casa buscar o segundo jogo, que certamente está guardado em algum lugar.
Ele se sobressaltou.
— Não vou a lugar nenhum.
— Vai, sim.
— Você não é mais ninguém para mandar em mim.
— Exatamente.
Não sou mais ninguém para você.
Por isso mesmo, você não tem qualquer direito de usar minha casa.
E, se esqueceu disso, posso lembrá-lo diante de testemunhas e policiais.
Sergei rangeu os dentes.
— Seu temperamento ficou completamente insuportável.
— Não.
Antes eu passava muito tempo explicando.
Agora ajo imediatamente.
Quando Artyom e Olga levaram as últimas bolsas, as crianças já estavam sentadas no carro no pátio.
Olga voltou para buscar o carrinho e parou novamente à porta.
— Deixamos suas toalhas no banheiro.
Não levamos nada.
Verifique, por favor.
— Vou verificar.
— E mais uma coisa…
Eu realmente não queria invadir sua casa.
Elena assentiu.
— Acredito em você.
Olga pareceu esperar outra resposta, mas não discutiu.
Saiu, fechando a porta com cuidado.
No apartamento, ficaram apenas Elena e Sergei.
Ele mudou imediatamente de comportamento.
Enquanto havia outras pessoas ali, havia se mostrado arrogante.
Agora seus ombros caíram, mas, em vez de arrependimento, havia irritação em seu rosto.
— Você fez um verdadeiro espetáculo.
Elena percorreu lentamente o corredor, verificou o armário e olhou o banheiro, a cozinha e o quarto.
— Quando você fez uma cópia das chaves?
Sergei deu de ombros.
— Há muito tempo.
Quando ainda morávamos juntos.
— Depois do divórcio, pedi que devolvesse todos os jogos.
— Eu esqueci.
— Não, Sergei.
Você os guardou de propósito.
Ele ficou em silêncio.
— Por quê?
— Nunca se sabe.
Vai que alguma coisa fosse necessária.
— E o que você precisou foi alugar meu apartamento para parentes.
— Não alugar, apenas deixá-los ficar temporariamente.
— Por dinheiro.
Ele se irritou.
— O que eu deveria fazer, ajudar todo mundo de graça?
Eles mesmos ofereceram uma gratificação.
Elena olhou para ele com tanta perplexidade como se o visse pela primeira vez.
Em outra época, havia vivido com aquele homem por quase oito anos.
Sabia como ele tomava café, como procurava o controle remoto e como se irritava quando perdia no xadrez pelo celular.
Mas agora não havia um ex-marido diante dela, e sim um homem estranho que sinceramente não entendia por que não podia dispor daquilo que pertencia a outra pessoa.
— Você tinha certeza de que eu não descobriria.
Sergei soltou um riso curto.
— E você nem deveria ter voltado.
— Exatamente.
Ele percebeu que havia falado demais.
Elena pegou a bolsa.
— Vamos.
— Aonde?
— Buscar as outras chaves.
— Já disse que não existem outras.
Elena tirou o telefone.
— Então esperaremos a polícia aqui.
Sergei murmurou um palavrão.
— Está bem.
Há um jogo na minha casa.
Para qualquer eventualidade.
— Então vamos buscá-lo.
Eles foram até o apartamento de Sergei em silêncio.
Elena dirigia, e Sergei estava no banco do passageiro.
Ele começou a falar várias vezes, mas em todas acabou se calando.
Diante do prédio, resmungou:
— Você entende pelo menos que eu não fiz isso por maldade?
Elena desligou o motor.
— Não me importa se foi por maldade ou por estupidez.
O resultado é o mesmo.
Sergei olhou de lado para ela.
— Antes você era diferente.
— Antes eu pensava que, se explicasse algo normalmente a uma pessoa, ela entenderia.
— E agora?
— Agora observo as atitudes.
Ele saiu primeiro do carro.
Seu apartamento estava desarrumado.
Havia sacolas jogadas no corredor, um casaco pendurado em uma cadeira e uma caixa de ferramentas no chão.
Sergei abriu a gaveta superior de uma cômoda e tirou um molho de chaves com um pequeno chaveiro em forma de peixe azul.
Elena o reconheceu.
Havia comprado aquele chaveiro durante uma viagem ao mar, quando ainda eram casados.
— Tome.
Ela pegou as chaves.
— Mais alguma?
— Não.
— Verifique.
Irritado, Sergei abriu outra gaveta, depois um armário da cozinha e, em seguida, a caixa de ferramentas.
Dentro da caixa apareceu outra chave.
Elena a ergueu com dois dedos.
— O que é isto?
Sergei desviou o olhar.
— Uma reserva.
— Um terceiro jogo?
— Esqueça isso de uma vez!
Elena colocou a chave na bolsa.
— Eu não esqueço nada.
Antes eu apenas não dizia tudo em voz alta.
Ao voltar para casa, Elena ligou imediatamente para um chaveiro.
Ele chegou à noite.
Enquanto trocava as fechaduras, a vizinha do quinto andar, Valentina Petrovna, saiu para levar o lixo e parou diante da porta.
— Lenochka?
Vi que houve uma espécie de mudança aqui hoje.
Até achei estranho, porque pensava que você morava sozinha.
Elena sorriu, cansada.
— Não foi uma mudança.
Foi um erro do meu ex-marido.
A vizinha se animou imediatamente.
— Então foi ele quem trouxe aquelas pessoas ontem?
Até perguntei se ficariam por muito tempo.
E ele disse que vocês haviam combinado.
Elena se virou para ela.
— Ele disse isso?
— Claro.
Eu me lembro dele.
Antes morava aqui.
Então pensei: se é o ex-marido, deve estar tudo combinado.
Naquele momento, o chaveiro removeu a fechadura antiga.
Elena olhou para o mecanismo metálico nas mãos dele e de repente sentiu alívio.
Não alegria, nem triunfo, mas exatamente alívio: a porta finalmente deixaria de ser uma passagem aberta para uma pessoa que há muito deveria ter permanecido no passado.
— Agora certamente não está combinado — disse ela.
Valentina Petrovna balançou a cabeça.
— Veja só que tipo de gente.
Não têm nada próprio e ainda assim dispõem do que pertence aos outros.
Elena não respondeu.
No dia seguinte, Sergei ligou novamente.
Elena não atendeu.
Ele enviou uma mensagem:
“Lena, vamos evitar escândalos.
Eu me excedi.
Não precisa contar a ninguém.”
Ela leu e guardou o telefone.
Uma hora depois, chegou uma segunda mensagem:
“Artyom agora está ligando para todo mundo.
Está me fazendo parecer um golpista.”
Só então Elena respondeu:
“Você mesmo deu motivo para isso.”
Sergei ligou imediatamente.
Dessa vez, ela atendeu.
— Você realmente decidiu acabar comigo? — começou ele, sem cumprimentá-la.
— Até agora, não fiz nada.
— Mas poderia?
— Poderia.
Ele ficou em silêncio.
— Lena, você entende que não preciso de mais problemas agora.
— E eu precisava de pessoas estranhas no meu quarto?
— Eu teria pedido desculpas se você falasse de maneira normal.
Elena chegou a afastar o telefone do ouvido e olhar para a tela.
— Sergei, você está negociando um pedido de desculpas?
Ele soltou o ar, irritado.
— É impossível falar com você.
— Então não ligue.
— Eu queria dizer que você pegou todas as chaves.
— As fechaduras já foram trocadas.
Do outro lado, fez-se outra pausa.
— Você foi rápida.
— Sim.
Desta vez, fui rápida.
Ela encerrou a chamada.
Parecia que tudo havia terminado.
Mas, dois dias depois, Elena recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
“Olá.
Aqui é Olga.
Desculpe escrever.
Sergei não responde.
Ele prometeu devolver o dinheiro do transporte e do dia perdido.
Entendo que você não tem nada a ver com isso.
Só quero avisar: ele disse ao meu marido que também tem acesso a uma casa de campo sua.
É verdade?”
Elena releu a mensagem duas vezes.
A casa de campo.
Sergei nunca soubera parar na hora certa.
A casa de campo não pertencia a Elena, mas ao pai dela.
Era uma pequena casa fora da cidade, para onde ela ia algumas vezes no verão.
Sergei havia estado lá durante o casamento, mas não deveria ter as chaves.
Ela ligou imediatamente para o pai.
— Pai, por acaso Sergei ficou com as chaves da casa de campo?
O pai se surpreendeu.
— Eu mesmo dei a ele alguns anos atrás, quando ele me ajudou a verificar o telhado.
Ele não devolveu depois?
Achei que tivesse entregado a você.
Elena fechou os olhos e passou lentamente a mão pela testa.
— Não.
Não entregou.
— O que aconteceu?
— É uma história longa.
Só me diga: não há ninguém lá agora?
— Não.
Estive lá ontem, está tudo fechado.
— Amanhã vou até lá e trocarei as fechaduras do portão e da casa.
— Lena, o que esse sujeito aprontou?
— Decidiu que ter as chaves dos outros o tornava proprietário.
O pai soltou um palavrão curto.
— Vou com você.
Eles chegaram à casa de campo pela manhã.
A casa estava tranquila, sem sinais de presença estranha.
Elena percorreu o terreno, verificou o galpão, as janelas e a porta.
Tudo estava fechado.
O pai estava ao lado dela, apertando um boné velho na mão.
— Nunca imaginei que Sergei fosse capaz de algo assim.
Elena sorriu amargamente.
— Eu também não.
Até ver um carrinho de bebê estranho no meu corredor.
O pai virou a cabeça bruscamente.
— Que carrinho de bebê?
Então Elena contou tudo a ele.
Sem detalhes desnecessários, mas o suficiente para que o pai entendesse.
Ao fim da história, ele já não apenas segurava o boné, mas o amassava como se quisesse rasgá-lo.
— Ainda bem que você voltou mais cedo.
— Sim.
— E se não tivesse voltado?
Elena olhou para a casa.
Era essa a pergunta que fazia a si mesma desde o instante em que vira as malas estranhas.
Se tivesse voltado conforme o planejado, aquelas pessoas teriam morado ali por uma semana.
Talvez Sergei tivesse conseguido pegar mais dinheiro.
Talvez Artyom e Olga decidissem que poderiam permanecer por mais tempo.
Talvez os vizinhos já tivessem se acostumado com os novos moradores.
E depois Elena teria de provar o óbvio: que sua casa era sua.
— Por isso, nunca mais haverá chaves nas mãos de outras pessoas — disse ela.
O pai assentiu.
— Certo.
Eles chamaram um chaveiro local e trocaram as fechaduras do portão e da porta de entrada.
O pai entregou as chaves antigas a Elena.
— Jogue fora você mesma.
Tenho nojo até de olhar para elas.
À noite, Sergei apareceu sem avisar.
Naturalmente, sua velha chave não funcionou.
Ele tocou a campainha por muito tempo e depois começou a bater.
Elena olhou pelo olho mágico.
Sergei estava no corredor, irritado, despenteado e com a jaqueta aberta.
— Abra! — gritou ele.
— Sei que você está em casa!
Elena não abriu imediatamente.
Primeiro, ativou a gravação no telefone.
Depois abriu a porta, permanecendo no vão.
— O que você quer?
Sergei apontou para a fechadura.
— Você enlouqueceu de vez?
Estou aqui parado como um idiota diante da porta!
— Porque a chave não funciona mais.
— Já percebi!
— Então por que está batendo?
Ele deu um passo à frente, mas Elena não recuou.
— Preciso falar com você.
— Fale aqui.
— No corredor?
— Sim.
Sergei olhou para as portas dos vizinhos.
— Está me humilhando de propósito?
— Não.
Apenas não deixo mais você entrar no apartamento.
A bochecha dele estremeceu.
— Lena, devolva pelo menos uma chave.
Para qualquer eventualidade.
Elena o observou por alguns segundos e depois riu.
Desta vez, de verdade, por puro espanto.
— Depois de tudo, você veio pedir uma chave?
— Nunca se sabe.
Pode haver uma emergência, um cano pode estourar.
— Existe a administração do prédio.
Existem os vizinhos.
Existe meu telefone.
— E se você não atender?
— Então não será problema seu.
Sergei avançou mais um passo.
— Você não tem o direito de falar assim comigo.
Elena levantou o telefone.
— Tenho.
E estou gravando.
Ele recuou bruscamente.
— Você ainda está me gravando?
— Depois do que fez, sim.
A porta da vizinha se abriu um pouco.
Valentina Petrovna espiou para o corredor.
— Está tudo bem, Lenochka?
Sergei mudou de expressão imediatamente.
— Está tudo bem, Valentina Petrovna.
É uma conversa de família.
Elena não virou a cabeça.
— Não é uma conversa de família.
Meu ex-marido está exigindo uma chave do meu apartamento depois de ter colocado pessoas estranhas aqui sem permissão.
A vizinha abriu mais a porta.
— Ah, então é assim.
Sergei murmurou entre os dentes:
— Lena…
— O quê?
Ficou constrangido agora?
Ele permaneceu no corredor, respirando pesadamente.
— Eu queria resolver isso amigavelmente.
— Amigavelmente, você deveria ter devolvido todas as chaves logo depois do divórcio.
— Está bem.
Chega.
Entendi.
— Não, Sergei.
Você não entendeu.
Por isso, vou dizer claramente.
Mais uma visita sem convite, mais uma tentativa de abrir minha porta, mais uma conversa com os vizinhos sobre meu apartamento, e da próxima vez não vou me limitar a conversar.
Ele olhava para ela com raiva, mas não discutiu.
— Você mudou.
Elena respondeu com calma:
— Não.
Agora você apenas está vendo as consequências.
Ela fechou a porta na cara dele.
Dessa vez, sua mão não tremia.
Depois que Sergei foi embora, Elena caminhou por muito tempo pelo apartamento.
Jogou fora as embalagens alheias do banheiro, lavou novamente a roupa de cama e limpou as prateleiras do guarda-roupa.
Não porque estivessem sujas.
Ela precisava devolver à casa a sensação de que lhe pertencia.
No quarto, encontrou debaixo da cama uma pequena presilha infantil em forma de borboleta amarela.
Elena a pegou e a segurou na palma da mão por alguns segundos.
As crianças realmente não tinham culpa.
Mas os adultos muitas vezes se escondiam atrás das crianças justamente quando faziam algo errado.
Ela colocou a presilha em uma sacola com os objetos que Olga havia esquecido e lhe enviou uma mensagem curta.
Olga apareceu no dia seguinte.
Sozinha, sem o marido e sem os filhos.
Ficou diante da porta, constrangida e cansada.
— Obrigada por me avisar.
Elena entregou a sacola.
— Aqui estão a presilha, uma blusa infantil e um carregador.
Olga pegou a sacola e de repente disse:
— Alugamos um apartamento.
Da maneira correta, com contrato.
A proprietária mostrou os documentos.
Agora seremos mais espertos.
— Ótimo.
Olga ficou em silêncio por um momento.
— Sergei ligou para Artyom.
Pediu que ele dissesse que tudo havia sido iniciativa nossa.
Elena ergueu lentamente os olhos.
— E então?
— Artyom mandou que ele fosse para o inferno.
Sem palavras bonitas.
Elena sorriu pela primeira vez naqueles dias.
— Então a lição não serviu apenas para mim.
Olga também sorriu fracamente.
— Provavelmente.
Ela já ia embora, mas parou.
— Sabe…
Ontem, enquanto eu desfazia as malas, minha filha perguntou por que aquele homem nos deixou entrar na casa de outra pessoa.
Eu não soube o que responder.
Elena olhou para ela com mais atenção.
— Responda com honestidade.
Porque os adultos às vezes fingem ter direito àquilo que não lhes pertence.
Olga assentiu.
— É isso que direi.
Uma semana depois, Sergei enviou uma mensagem longa.
Escreveu que Elena havia exagerado tudo.
Que ele queria fazer o melhor.
Que antes ela era mais bondosa.
Que, por causa da rigidez dela, agora parecia diante dos outros a pior pessoa do mundo.
Elena leu a mensagem até o fim.
Depois a apagou.
Não havia nada a responder.
Naquele mesmo dia, ela abriu uma velha caixa com objetos que haviam restado depois do divórcio.
Encontrou algumas fotografias dos dois, cartões antigos, o chaveiro de um jogo reserva e um bilhete que Sergei certa vez havia deixado na geladeira: “Vou chegar tarde.
Não me espere”.
Ela ficou olhando para aquele bilhete por muito tempo.
Era engraçado, mas foi exatamente assim que as coisas acabaram.
Ela não esperava mais por ele.
Nem com explicações.
Nem com pedidos de desculpas.
Nem com mais um pedido para entrar em sua casa “por precaução”.
Elena colocou tudo em uma sacola e levou até os contêineres de lixo.
Ao voltar, encontrou Valentina Petrovna.
— E então, agora está tudo tranquilo? — perguntou a vizinha.
— Tranquilo.
— E isso é bom.
Um apartamento deve conhecer seus proprietários.
Elena subiu até sua casa, abriu a porta com a nova chave e permaneceu por um instante no limiar.
Não havia mais malas estranhas no corredor.
Ninguém organizava coisas no quarto.
No guarda-roupa estavam pendurados apenas seus vestidos e casacos.
Sobre a mesa estavam seus documentos, fechados e organizados cuidadosamente dentro da pasta.
Ela foi até a cozinha, serviu um pouco de água, sentou-se junto à janela e, pela primeira vez em vários dias, respirou com tranquilidade.
A viagem a trabalho havia terminado mais cedo por acaso.
Mas foi justamente esse acaso que lhe mostrou aquilo que por muito tempo não quis perceber: algumas pessoas consideram o que pertence aos outros disponível até o dia em que se deparam com uma porta fechada.
E agora aquela porta estava fechada da maneira correta.
Com segurança.
Por dentro.
Pela mão dela.







