Ela veio verificar o apartamento vazio da mãe.

Sveta ficou paralisada na soleira.

— Eu moro aqui, e você quem é? — perguntou uma desconhecida, contrariada.

A chave girou na fechadura suavemente, sem esforço.

Sveta observou automaticamente que já estava na hora de lubrificar o mecanismo, mas o pensamento desapareceu assim que a porta se abriu para dentro do apartamento.

No corredor de entrada, a luz estava acesa.

Na sapateira havia tênis estranhos, pequenos, femininos, e botinhas de borracha cor-de-rosa com unicórnios desenhados.

Da cozinha vinha o cheiro de café recém-passado.

Sveta congelou na soleira.

As chaves escorregaram de seus dedos e caíram com um ruído seco no piso laminado.

Uma mulher saiu do quarto.

Tinha cerca de trinta e cinco anos, era magra, com cabelos cor de rato presos em um coque descuidado.

Ela usava um roupão de casa, exatamente aquele que Sveta havia dado à mãe dois anos antes.

Azul, com centáureas bordadas.

A mulher olhava para Sveta sem medo, mais com uma irritação cansada.

— Eu moro aqui, — disse ela, contrariada.

— E você quem é?

Sveta abriu a boca e a fechou.

O ar do apartamento era estranho.

Não cheirava ao perfume de sua mãe, mas a sabão em pó e a algo infantil, leitoso.

— Eu… este é o apartamento da minha mãe, — disse ela, com a voz rouca e pouco convincente.

— Quem é você?

— Como entrou aqui?

Atrás da mulher, apareceu uma menina.

Tinha uns cinco anos, tranças claras, olhos curiosos e uma marca de travesseiro na bochecha.

Ela apertava contra o peito um coelho de pelúcia com uma orelha arrancada.

Sveta já tinha visto aquele coelho antes.

Ele ficava em uma prateleira do armário, no quarto que a mãe chamava de quarto das crianças, embora não houvesse crianças naquele apartamento havia trinta anos.

— Mamãe, quem é ela? — perguntou a menina.

A mulher empurrou a criança para trás de si.

Foi um gesto automático, maternal.

Sveta sentiu a náusea subir à garganta.

Ela reconheceu aquele gesto.

Era assim que sua mãe fazia quando Sveta era pequena e alguém desconhecido se aproximava delas.

— Vou chamar a polícia, — disse Sveta, estendendo a mão para o telefone.

— Chame, — respondeu a mulher com calma.

— Eu tenho um contrato.

— Que contrato?

— De comodato gratuito.

— Galina Ivanovna me deu.

— A proprietária do apartamento.

Sveta ficou imóvel.

O telefone tremia em sua mão.

— Você está mentindo.

A mulher se aproximou da cômoda no corredor, puxou uma gaveta e tirou uma pasta.

Estendeu-a a Sveta.

Dentro havia um contrato, impresso em duas folhas, com a assinatura da mãe no final.

Sveta reconheceu a letra.

Letras cuidadosas, floreios, tinta roxa.

A mãe sempre usava apenas canetas roxas.

Era um hábito que mantinha desde os tempos em que trabalhava na contabilidade.

O contrato estava redigido corretamente, com os dados do passaporte das duas partes.

Anna Sergeevna Belikova, nascida em 1982.

Sveta releu o sobrenome duas vezes e não sentiu nada.

Ainda não sentiu nada naquele momento.

— Vou ligar para minha mãe, — disse ela, de forma cortante.

— Ligue, — a mulher deu de ombros.

Os toques se prolongaram.

Cinco, seis, sete.

Sveta já ia desligar quando uma voz soou no telefone.

— Sim, Sveta, o que aconteceu? — Galina Ivanovna falava com calma, até com sono.

Ao fundo, ouvia-se o rádio transmitindo a previsão do tempo.

— Mãe, há estranhos no seu apartamento.

— Uma mulher com uma criança.

A pausa no telefone durou um segundo.

Talvez dois.

Mas, para Sveta, pareceu uma eternidade.

— Não ouse tocar nelas, — disse finalmente a mãe.

Sua voz mudou, endureceu.

— Esta é a minha casa, e eu tenho o direito de deixar entrar quem eu achar necessário.

— Você não é ninguém nesse apartamento enquanto eu estiver viva.

Sveta ficou parada no meio do corredor, pressionando o telefone contra o ouvido.

As palavras da mãe a atingiam como golpes.

Ninguém.

Enquanto eu estiver viva.

Ela olhava para a mulher desconhecida no roupão com centáureas, para a menina com o coelho de pelúcia, e o mundo ao seu redor virava lentamente de cabeça para baixo.

— Mãe, explique…

— Não há nada para explicar, — cortou Galina Ivanovna.

— Anna mora aí, ponto final.

— Não se meta, Svetlana.

— Eu já disse.

O telefone emitiu sinais curtos.

Sveta abaixou a mão.

Anna a observava com a mesma expressão calma no rosto.

— Convencida? — perguntou ela.

Sveta não respondeu.

Ela se abaixou, pegou as chaves do chão e de repente ficou imóvel.

Seu olhar caiu sobre uma fotografia antiga que estava sobre a cômoda.

Ela sempre estivera ali, desde que Sveta se lembrava.

A jovem mãe, com um lenço branco na cabeça, segurava um recém-nascido enrolado em uma manta.

A fotografia era em preto e branco, com um canto dobrado.

Só agora Sveta percebeu algo que nunca havia notado antes.

O rosto do bebê na foto estava apagado.

Com cuidado, mas de forma grosseira, fora raspado com algo afiado, como se alguém o tivesse arranhado com a unha ou com uma lâmina.

No lugar dos pequenos traços havia apenas uma mancha branca.

— O que é isso? — perguntou Sveta, apontando para a fotografia.

Anna olhou, e pela primeira vez passou por seu rosto algo parecido com incerteza.

— Não sei, — disse ela.

— Foi Galina Ivanovna quem colocou aí quando se mudou.

— Eu não toquei.

Sveta não se lembrava de como saiu do apartamento.

Só o ar frio da escada a fez voltar a si.

A porta do elevador se fechou, e ela viu seu reflexo no painel espelhado.

Uma mulher de trinta e oito anos, corretora de imóveis bem-sucedida, casada, com um casaco caro e um penteado impecável.

E olhos acuados, como os de um cachorro espancado.

Ela dirigia e não via a estrada.

O navegador a guiava com uma voz indiferente, repetindo sempre a mesma coisa.

Sveta repassava mentalmente cada detalhe.

O contrato.

O roupão.

O coelho com a orelha arrancada.

E a fotografia.

A fotografia com o rosto apagado do bebê.

Dmitry a recebeu na cozinha.

Viu o rosto da esposa e imediatamente deixou de lado o telefone, no qual lia e-mails de trabalho.

— O que aconteceu?

Sveta sentou-se em uma cadeira sem tirar o casaco e contou tudo.

Dmitry ouviu atentamente, sem interrompê-la.

Em quinze anos de casamento, ele aprendera a ler o humor da esposa com meio olhar.

A lógica jurídica, afiada por anos de prática, começou a funcionar imediatamente.

— Sua mãe tinha o direito de firmar um contrato de comodato gratuito, — disse ele quando Sveta terminou.

— O apartamento é dela, ela é a proprietária.

— Mas, se quisermos contestar, precisamos de um motivo.

— Incapacidade, por exemplo.

— Ou…

— Dima, — interrompeu Sveta.

— Sobre a cômoda há uma fotografia.

— Eu olhei para ela centenas de vezes e nunca vi.

— Mas hoje eu vi.

— O rosto do bebê está raspado.

— Espere, o que a fotografia tem a ver com isso?

— Tem a ver porque minha mãe está escondendo alguma coisa, — Sveta se levantou e foi até a janela.

Atrás do vidro, a cidade ao anoitecer escurecia, as luzes se espalhavam na garoa.

— Essa Anna… você precisava tê-la visto.

— Ela nem teve medo de mim.

— Ela esperava que eu viesse.

— Provavelmente minha mãe a avisou.

Dmitry recostou-se na cadeira e esfregou a ponte do nariz.

— Vamos por partes.

— O que você sabe sobre essa Anna?

— Nada.

— Absolutamente nada.

— Viu o ano de nascimento no contrato?

— Mil novecentos e oitenta e dois.

Dmitry ficou em silêncio por um instante, fazendo as contas mentalmente.

— Sua mãe tinha dezenove anos naquela época.

Sveta virou-se lentamente da janela.

O pensamento que ela vinha afastando a noite inteira finalmente tomou forma em palavras.

— Vou à dacha da minha mãe, — disse ela.

— Agora mesmo.

— Sveta, já são nove da noite.

— Não me importo.

— Não vou dormir enquanto não souber o que está acontecendo.

Ela saiu de casa sem trocar de roupa, pegando apenas as chaves do carro.

Dmitry saiu atrás dela, jogando uma jaqueta por cima da camiseta de casa.

— Vou com você.

— Não precisa, — Sveta se virou.

— Você a conhece.

— Na sua frente, ela vai se fechar.

— E sozinha ela me quebra desde a infância em dois tempos.

— Só que eu preciso estar no meu território para não deixar que ela faça isso.

— Deixe-me ir sozinha.

Dmitry assentiu.

Ele conhecia a relação da esposa com Galina Ivanovna.

Conhecia e calava, como se calam os maridos que não querem entrar nas guerras familiares das mulheres.

— Ligue a cada duas horas.

— Se acontecer alguma coisa, eu vou imediatamente.

Sveta entrou no carro e pegou a estrada.

A rodovia rural estava vazia naquela noite de semana.

Os limpadores de para-brisa apagavam ritmicamente as gotas de chuva do vidro, criando a ilusão de um movimento tranquilo.

Por dentro, Sveta fervia.

Ela se lembrava.

Lembrava-se de quando, aos vinte anos, levou para a mãe a foto do rapaz com quem estava saindo.

“Ele tem futuro?” perguntou a mãe na época, sem sequer olhar para a imagem.

Sveta lembrou-se de quando, aos trinta e cinco anos, ouviu do ginecologista o diagnóstico de infertilidade tubária, e de como sua mãe disse: “Eu te avisei para não adiar os filhos”.

Como se aquilo fosse consequência não de uma inflamação negligenciada, suportada em pé durante a época de exames, mas de algum castigo cósmico pela carreira.

A dacha a recebeu com luz nas janelas e cheiro de fumaça vindo da chaminé.

Galina Ivanovna não dormia.

Ela estava sentada na varanda, em uma velha cadeira de balanço, bebendo chá e olhando para a escuridão além da janela.

Ao ouvir o som do motor, nem sequer se sobressaltou.

Estava esperando.

Sveta entrou sem bater.

Não tirou os sapatos sujos de propósito, deixando marcas de folhas molhadas no tapete limpo.

A mãe acompanhou aquela pequena provocação com o olhar e sorriu com ironia.

— Não tem respeito nenhum, entrando de sapatos assim.

— Para quem você entregou o meu apartamento, mãe?

A pergunta soou mais dura do que Sveta queria.

Mas já era tarde para recuar.

— O meu apartamento, — corrigiu Galina Ivanovna, afastando a xícara.

— Não o seu.

— O meu.

— O seu apartamento é na cidade, financiado, aliás, e eu não te dei um centavo para comprá-lo, porque você é orgulhosa e independente.

— Este aqui é meu.

Sveta sentou-se diante dela.

Tentava falar com calma, mas sua voz tremia.

— Quem é Anna?

— Por que ela tem um contrato?

— Por que ela vive no nosso apartamento com uma criança, e eu descubro isso por acaso?

— Porque você não apareceu lá nenhuma vez nos últimos seis meses, — cortou a mãe.

— Apareceu para regar o ficus.

— Mas ele já está seco há um mês, e você só percebeu agora.

— Não mude de assunto.

— Quem é ela?

Galina Ivanovna apertou os lábios e ficou muito tempo calada.

Depois se levantou, foi até o aparador, pegou uma garrafa de licor caseiro e despejou um pouco no chá.

Suas mãos não tremiam, mas os movimentos eram lentos, pesados.

— Ela é uma inquilina.

— Eu a deixei entrar porque não me custa nada, e elas não têm onde morar.

— O que você tem a ver com isso?

— Mãe, — Sveta elevou a voz.

— Você deixa uma desconhecida com uma criança entrar no apartamento, não me diz nada, e quando eu chego essa desconhecida me declara que mora lá.

— O que eu deveria pensar?

Galina Ivanovna virou-se bruscamente.

Seus olhos brilharam com uma luz perigosa, familiar a Sveta desde a infância.

Esse olhar aparecia no rosto da mãe antes dos escândalos, depois dos quais Sveta chorava no travesseiro e escrevia no diário que odiava a si mesma.

— Você deveria pensar que viveu sua vida como quis! — a voz da mãe subiu até se tornar um grito agudo.

— Nunca se privou de nada!

— Fez carreira, arranjou um homem, tem dinheiro!

— Mas filhos você não tem!

— Seu ventre, Sveta, é um poço seco.

— Você não quis parir, foi adiando, adiando, e agora o trem partiu.

— Anna pariu.

— Entende?

— Pariu uma alma viva.

Sveta sentiu o sangue subir ao rosto.

Seus ouvidos zumbiram.

Um poço seco.

A mãe disse aquilo de forma corriqueira, como se falasse do tempo, sem sequer estremecer.

— Você… você sabe por que eu não posso ter filhos? — sussurrou Sveta.

— Porque Deus não dá a quem não pede.

— Não, mãe.

— Porque quando eu estava no terceiro ano da universidade, você me ligava todos os dias e dizia que filha inútil eu era.

— Que eu te envergonhava por ainda não estar casada.

— Eu corria para uma prova chorando e fui atropelada porque não olhei para a rua.

— Tive hemorragia interna, infecção, complicações.

— Você ao menos se lembra disso?

Galina Ivanovna empalideceu, mas logo se recompôs.

— Você está sempre procurando culpados.

— Eu queria o seu bem, e você distorceu tudo.

— Quem é Anna? — repetiu Sveta, com dureza.

A mãe ficou em silêncio.

Virou-se para a janela, cruzando os braços sobre o peito.

Era uma postura fechada, defensiva.

Sveta compreendeu de repente: sua mãe estava escondendo algo.

Não apenas a história da inquilina, mas algo muito mais sério.

Algo que fazia ela, autoritária e nunca disposta a se justificar, agora esconder os olhos.

— Tenho o direito de saber, — disse Sveta em voz baixa.

— Você entregou as chaves a uma mulher estranha.

— Deixou-a entrar na casa onde eu cresci.

— No meu quarto.

— Seu quarto está vazio, — disse Galina Ivanovna sem se virar.

— Você não mora lá há vinte anos.

— Anna não é uma estranha.

— Ela… — a mãe hesitou.

— Ela tem mais direito de morar lá do que você.

Sveta se levantou.

Aproximou-se lentamente da mãe e ficou de modo a ver seu rosto.

— Por quê?

Galina Ivanovna olhava para o chão.

As rugas ao redor de sua boca pareciam mais profundas do que antes.

Seus lábios tremeram.

Por um segundo, Sveta achou que a mãe fosse chorar, mas isso não aconteceu.

— Vá embora, — disse ela com voz surda.

— Estou cansada.

— Não vou embora até você explicar.

— Vá embora, Sveta.

— Por favor.

A palavra “por favor” dita pela mãe era tão rara para Sveta que teve mais força do que um grito.

Ela ficou ali mais um minuto, depois se virou e saiu.

Sentou-se no carro e permaneceu muito tempo imóvel, olhando para as janelas iluminadas da dacha.

A mãe não saiu, não a chamou.

Apenas uma sombra se movia atrás das cortinas, e havia naquele movimento algo assustador.

Em casa, Dmitry a esperava com o jantar e preocupação nos olhos.

Sveta contou a conversa, e ao fim do relato o marido parecia mais sombrio que uma nuvem carregada.

— Ela está escondendo alguma coisa, — repetiu ele o pensamento dela.

— E essa coisa, pelo visto, está diretamente ligada à Anna.

— Não é apenas uma inquilina.

— O que vamos fazer?

— Procurar informações, — Dmitry abriu o notebook.

— Belikova Anna Sergeevna, nascida em mil novecentos e oitenta e dois.

— Isso é suficiente para consultar algumas bases.

— Dima, isso é legal?

— Tenho um conhecido no departamento de passaportes que me deve um favor.

— Informal.

Sveta assentiu.

Pela primeira vez naquela noite, sentiu algo parecido com apoio.

Dmitry sempre fora assim.

Quando as emoções passavam dos limites, ele ativava o advogado e organizava o problema por partes.

Os dias seguintes se transformaram em espera.

Sveta ia ao trabalho, mostrava imóveis, sorria para clientes, mas verificava o telefone a cada cinco minutos.

No terceiro dia, Dmitry chegou em casa com impressões.

— Sente-se, — disse ele da porta.

— Há algo para você ler aqui.

Anna Sergeevna Belikova, natural da cidade de Kolchugino, na região de Vladimir.

Criada no orfanato número quatro.

Pais desconhecidos.

No campo “mãe” havia um traço.

No campo “pai” havia um traço.

Data de nascimento: quatro de novembro de mil novecentos e oitenta e dois.

Sveta releu a data de nascimento três vezes.

Depois pegou o telefone e começou a folhear fotografias antigas no armazenamento em nuvem.

Encontrou o álbum que havia digitalizado alguns anos antes a pedido da mãe.

Folheou por muito tempo, até parar em uma foto que havia fotografado com o celular.

A jovem Galina Ivanovna estava diante de um quarto de hospital.

Nos braços, segurava um embrulho com um bebê.

No verso havia uma inscrição em tinta roxa, com a letra da mãe: “Anechka, novembro de 1983”.

— Isso não pode ser, — sussurrou Sveta.

Ela foi aos arquivos da família, guardados em uma caixa no maleiro.

Encontrou a certidão de casamento dos pais.

Sete de fevereiro de mil novecentos e oitenta e quatro.

Dois meses depois do nascimento de Anna.

— Ela deu à luz antes do casamento, — Sveta falava em voz alta, mas as palavras soavam abafadas, como através de algodão.

— Deu à luz e renunciou à criança.

— Deixou-a na maternidade.

— E depois se casou com meu pai, que provavelmente não sabia de nada.

— Ou sabia e ficou calado.

Dmitry pegou os documentos das mãos dela e os examinou atentamente.

— Parece que sim.

— Anna é sua irmã, Sveta.

— Por parte de mãe.

O mundo balançou e voltou ao lugar, mas em outra configuração.

Todas as mágoas da infância, todos os reproches da mãe, todo aquele “você é uma filha ingrata” ganharam de repente um novo sentido.

A mãe não exigia apenas perfeição de Sveta.

Ela tentava expiar um pecado por meio dela.

Aquele mesmo pecado que cometera aos dezenove anos, quando se assustou com a vergonha e abandonou a primeira filha.

— Ela deu o apartamento a ela, — disse Sveta baixinho.

— À sua filha secreta.

— E me colocou para fora.

Dmitry sentou-se ao lado dela e a abraçou pelos ombros.

— Podemos contestar o ato.

— Se provarmos que sua mãe agiu sob influência de erro ou pressão.

— Que pressão, Dima?

— Ela mesma a encontrou.

— Ela mesma a deixou entrar.

— A vida inteira ela ia à igreja e rezava, e eu achava que era coisa da idade.

— Agora entendo que ela rezava para expiar o pecado.

Sveta levantou-se bruscamente.

Foi até a janela e abriu a folha, deixando entrar o ar frio da primavera.

Ela precisava arejar a cabeça, onde batia um único pensamento.

Ela tinha uma irmã.

Uma irmã que vira uma única vez na vida e que agora morava no apartamento dela e de sua mãe.

— Preciso falar com Anna, — disse ela.

— Talvez primeiro com sua mãe?

— Minha mãe vai mentir.

— Ela sempre mente quando se trata do passado dela.

— Eu nem sabia que, antes de se casar com meu pai, ela tinha ido embora por um ano.

— Ela dizia que cuidava da avó doente.

— A avó tinha morrido três anos antes, eu conferi nos documentos.

— Passei a vida inteira acreditando em histórias.

Sveta vestiu jeans e suéter, pegou as chaves.

— Vou até Anna.

— Sozinha.

— Sveta, deixe-me ir com você, — Dmitry se levantou.

— Não, — ela se virou.

— Se eu chegar com um advogado, ela vai se fechar e chamar a polícia.

— Eu preciso entender que tipo de pessoa ela é.

— Talvez ela nem saiba de quem realmente é filha.

— Ou talvez saiba muito bem, — disse Dmitry em voz baixa.

— Tome cuidado.

Sveta chegou ao prédio da mãe, estacionou no pátio e ficou muito tempo sentada no carro, juntando os pensamentos.

Depois subiu de elevador e tocou a campainha.

Desta vez, não abriu com sua chave.

Tinha esse direito, mas não queria.

Aquele já era território alheio.

Anna abriu quase imediatamente.

Dava para ver que estava esperando.

Atrás dela, no corredor, a mesma menina, Sonya, ao que parecia, brincava com uma boneca.

Ao ver Sveta, a menina ficou alerta, mas não fugiu.

— Entre, — disse Anna.

— Só que não estou sozinha, hoje Sonya não foi ao jardim de infância.

— Eu sei, — Sveta entrou no corredor e tirou os sapatos.

Olhou para o cabide.

Ali estava pendurada a velha jaqueta da mãe, que Galina Ivanovna usava ainda nos anos noventa.

Anna, evidentemente, usava as roupas que ela deixara.

Foram para a cozinha.

Anna pôs a chaleira no fogo e sentou-se em frente.

Sonya brincava no quarto, e dava para ouvi-la conversando com a boneca.

— Fale, — disse Anna.

— Por que veio?

Sveta tomou coragem.

De repente, sentiu medo.

Aquilo que estava prestes a dizer poderia destruir a vida daquela mulher.

Ou, ao contrário, dar-lhe as respostas que ela esperava havia toda uma vida.

— Como você conheceu minha mãe? — perguntou Sveta.

Anna deu de ombros.

— Ela mesma me encontrou.

— Há uns dois anos.

— Foi ao orfanato, quer dizer, ao arquivo do orfanato, porque ele já não funciona, mas os documentos foram preservados.

— Disse que procurava ex-internos para ajudar.

— No começo, eu não acreditei.

— Quem iria precisar de mim, uma órfã com trinta anos de experiência?

— Mas ela vinha toda semana.

— Trazia mantimentos, depois me ajudou com trabalho.

— Depois propôs que eu me mudasse para cá.

— Ela contou alguma coisa sobre si mesma?

— Dizia que era uma mulher solitária, que a filha estava ocupada com a carreira, que não tinha netos, que precisava cuidar de alguém, — Anna olhou atentamente para Sveta.

— Eu sei que você é filha dela.

— Ela me falou de você.

— O que ela contou?

— Que você é bem-sucedida, trabalha com imóveis, é casada.

— Mas que a relação de vocês não é muito boa.

— Isso é dizer pouco.

A chaleira ferveu.

Anna serviu o chá e empurrou uma xícara para Sveta.

Suas mãos estavam calmas, seus movimentos suaves.

Nenhuma agressividade.

Sveta percebeu de repente que quase não sentia antipatia por aquela mulher.

Apenas cansaço e uma estranha sensação de aperto no estômago.

— Posso te fazer uma pergunta direta? — disse Sveta.

— Pergunte.

— Você sabe quem é sua mãe biológica?

Anna ficou imóvel com a colher de açúcar na mão.

Abaixou-a lentamente no açucareiro e sacudiu os grãos dos dedos.

— Disseram-me que meus pais eram desconhecidos.

— Sou uma criança abandonada.

— Naqueles anos havia muitas assim.

— E se eu disser que seus pais são conhecidos?

O silêncio caiu na cozinha.

Até Sonya, no quarto, ficou quieta, como se tivesse sentido a tensão.

— O que você quer dizer com isso? — a voz de Anna caiu para um sussurro.

Sveta tirou o telefone, encontrou a fotografia com a inscrição e mostrou a Anna.

— Esta é minha mãe, Galina Ivanovna.

— Você conhece a letra dela.

— Aqui está escrito “Anechka, 1983”.

— Você nasceu no outono de oitenta e dois.

— Coincidências não existem.

Anna olhou por muito tempo para a tela.

Depois transferiu o olhar para Sveta, e naquele olhar não havia surpresa.

Só havia dor.

Uma dor antiga, profunda, familiar desde a infância a uma criança abandonada.

— Eu sabia, — disse ela quase inaudível.

— O quê?

— Eu sabia, — repetiu Anna, mais alto.

— Ela confessou seis meses depois de me encontrar.

— Disse que eu era filha dela.

— Que tinha me deixado na maternidade porque estava com medo.

— Que se arrependera disso a vida inteira.

— E depois… — Anna hesitou.

— Ela me fez jurar.

— Eu deveria ficar calada e não procurar me encontrar com você.

— Por quê? — Sveta sentiu os dedos ficarem frios.

— Ela disse que você não entenderia.

— Que você era cruel e egoísta.

— E que, se soubesse de mim antes da hora, faria de tudo para nos separar.

Sveta recostou-se na cadeira.

O ar da cozinha de repente se tornou pesado, abafado.

A mãe brincava com as duas.

Encontrara a filha que abandonara e, ao mesmo tempo, a colocara contra Sveta.

Duas mulheres ligadas pelo mesmo sangue estavam proibidas de se conhecer.

Proibidas de se encontrar.

Para que a mãe pudesse permanecer no centro, como salvadora, como mártir.

— Escute, — Sveta se inclinou para a frente.

— Eu não quero separar vocês.

— Eu nem sabia da sua existência até ontem.

— Mas tenho o direito de saber o que está acontecendo na minha família.

— Na sua família? — Anna sorriu com amargura, e aquele sorriso não era mau, mas dolorido.

— Sveta, você teve uma família.

— Mãe, pai, apartamento, educação.

— Eu não tive nada.

— Apenas o orfanato, depois o alojamento, trabalhos ocasionais.

— Tive Sonya de um homem que desapareceu assim que soube da gravidez.

— Se não fosse Galina, eu estaria lavando escadas e morando em um apartamento comunitário.

— Galina abandonou você, — disse Sveta em voz baixa.

— Foi ela quem deixou você na maternidade em pleno inverno, entende?

— E agora voltou como benfeitora para expiar seus pecados.

— Mas você não é obrigada a adorá-la.

— E a quem eu sou obrigada?

— A você?

— A ninguém.

— Você não deve nada a ninguém.

— Mas ela também não tem o direito de manipular você.

Sonya começou a chorar no quarto.

Anna pediu desculpas e saiu, e Sveta ficou sozinha na cozinha.

Ela olhou ao redor.

No parapeito da janela havia um pote com ervas secas, na geladeira estava preso um desenho infantil: uma casinha, o sol, três bonecos de palito.

A legenda, em letras tortas, dizia: “Eu, mamãe e vovó Galya”.

Sveta sentiu uma pontada.

No desenho não havia nenhuma tia Sveta.

Ela simplesmente não existia naquele mundo.

Anna voltou trazendo Sonya nos braços.

A menina soluçava e esfregava os olhos.

— Assustou-se com alguma coisa, — explicou Anna.

— Já vai passar.

Sveta olhou para a menina, para seus cabelos claros, levemente ondulados nas têmporas.

Algo no rosto de Sonya lembrava imperceptivelmente a mãe.

O mesmo formato dos olhos, a mesma forma dos lábios.

Mas Sveta já sabia que às vezes a semelhança é casual.

Ou imposta.

Naquele momento, ela ainda não imaginava o quanto.

— Posso fazer uma pergunta estranha? — Sveta hesitou.

— Hoje você já disse tanta coisa estranha que uma pergunta a mais ou a menos não faz diferença…

— Você fez um teste de DNA?

— Para confirmar o parentesco com Galina?

— Não.

— Para quê?

— Ela mesma confessou.

— O que mais é preciso?

— Certeza, — disse Sveta.

— Eu quero ter certeza.

Anna balançou a cabeça, apertando a filha contra si.

— Você é estranha.

— Não acredita na sua mãe, não acredita em mim.

— Em quem você acredita, afinal?

— Nos fatos.

Elas se despediram friamente.

Sveta saiu do apartamento e desceu para o pátio.

A noite estava morna, mas ela tremia.

Entrou no carro e ligou para Dmitry.

— Precisamos reunir todos no mesmo cômodo, — disse ela.

— Minha mãe, Anna e eu.

— Não precisa de uma quarta pessoa, será uma conversa de adultos.

— Sveta, você tem certeza?

— Minha mãe está usando nós duas, Dima.

— Para Anna, ela diz que eu sou um monstro.

— Para mim, diz que Anna não é ninguém.

— E ela fica sentada esperando que nos destruamos uma à outra.

— Chega.

— É preciso cortar esse nó de uma vez por todas.

— Quando?

— Daqui a dois dias.

— Anna tem folga na quinta-feira.

— Vou combinar.

Ela desligou e ligou para a mãe.

A mãe demorou a atender, mas finalmente respondeu.

A voz era fraca, doente.

— O que você quer, Sveta?

— Na quinta-feira, vamos nos encontrar no apartamento.

— Você, eu e Anna.

— Para quê?

— Para dizermos a verdade umas às outras.

— Toda a verdade.

Do outro lado da linha, caiu uma pausa.

Tão longa que Sveta pensou que a ligação tivesse caído.

Mas então a mãe falou, e sua voz não parecia nada doente.

Era de aço.

— Está bem.

— Eu irei.

— Só depois não reclame se a verdade não for aquela que você esperava.

Sveta desligou e se recostou no banco.

O coração batia contra as costelas.

O que a mãe queria dizer?

Que outro segredo ela escondia?

A quinta-feira chegou rápida e inevitável, como uma sentença.

Sveta acordou com dor de cabeça e uma sensação de desastre iminente.

Dmitry se ofereceu para ir com ela, mas ela recusou.

Aquela conversa deveria ser ouvida apenas pelo sangue.

Apenas por aqueles a quem dizia respeito diretamente.

No apartamento, havia cheiro de Corvalol.

Galina Ivanovna chegou primeiro.

Estava sentada na poltrona, reta como uma vara, com o rosto pálido.

Anna estava junto à janela, de braços cruzados.

Sonya fora enviada para a vizinha.

Sveta entrou por último, trancou a porta e, depois de hesitar, colocou a chave no bolso.

— Bem, estamos reunidas, — disse Galina Ivanovna.

— Quem começa?

— Eu começo, — Sveta foi para o centro da sala.

Tirou da bolsa uma pasta com documentos e a colocou sobre a mesa.

— Aqui está a história da família.

— A certidão de casamento dos meus pais, sete de fevereiro de oitenta e quatro.

— Aqui está a certidão de nascimento de Anna Belikova, quatro de novembro de oitenta e dois.

— E isto, — ela colocou a fotografia sobre a mesa, — é uma foto do álbum de família.

— A inscrição é da mão da mamãe: “Anechka, 1983”.

— Mãe, explique a nós duas o que isso significa.

Galina Ivanovna olhava para a fotografia sem piscar.

Depois ergueu os olhos para Sveta, e neles havia lágrimas.

Mas lágrimas raivosas, não arrependidas.

— Muito bem, — disse ela com voz surda.

— Você quer a verdade.

— Então ouça.

— Dei à luz uma menina em novembro de oitenta e dois.

— Eu tinha dezenove anos, não era casada.

— O pai da criança era casado, tinha três filhos e ocupava um cargo no partido.

— Meus pais disseram: ou você deixa essa criança aqui e esquece para sempre a vergonha, ou nós a renegamos.

— Eu tive medo.

— Eu desabei.

— Assinei a renúncia.

O silêncio pairou.

Anna permanecia imóvel, apenas os nós dos dedos embranquecidos revelavam seu estado.

— Pensei que esqueceria, — continuou Galina Ivanovna.

— Casei-me com seu pai, Sveta.

— Dei à luz você.

— Pensei que expiaria.

— Mas não expiei.

— Todas as noites eu via em sonho aquele bebê que deixei para trás.

— Todas as noites.

— Dois anos atrás, comecei a procurar.

— Encontrei Anna.

— Soube que ela teve uma vida difícil, que estava sozinha com a filha.

— E decidi que lhe daria tudo o que pudesse.

— Daria tudo? — perguntou Sveta.

— O apartamento?

— O dinheiro?

— E para mim, o que sobraria?

— Você já recebeu o seu, — cortou a mãe.

— Cresceu em uma família, com pai, em conforto.

— Teve educação, carreira, marido.

— O que ainda lhe falta?

— Mãe, — a voz de Sveta tremeu.

— Você pergunta o que me falta?

— Você me destruiu a vida inteira.

— Exigia que eu fosse perfeita.

— Dizia que eu te envergonhava porque não me casei aos vinte anos.

— Ligava para mim enquanto eu estudava e gritava ao telefone que eu era uma filha inútil.

— Você ao menos se lembra do acidente?

— Não ouse! — a mãe ergueu a mão.

— Não ouse jogar seus problemas em cima de mim!

— Estes não são meus problemas, mãe.

— São as consequências da sua criação.

— Fui atropelada porque corria para uma prova e chorava por causa de mais um dos seus escândalos.

— Tive hemorragia interna, removeram uma trompa, e a outra ficou obstruída por causa de uma infecção negligenciada.

— Sou infértil.

— Não porque Deus me castigou.

— Mas porque você me levou a isso.

Anna soltou um suspiro e levou a mão à boca.

Galina Ivanovna ficou imóvel, como se tivesse sido atingida.

Seu rosto ficou manchado de vermelho, manchas doentias.

— Você está mentindo, — sussurrou.

— Não estou mentindo.

— Eu simplesmente nunca lhe contei, porque você transformaria isso em mais uma história sobre como eu sou uma fracassada.

— Eu queria o seu bem, — a mãe falava devagar, como se provasse as palavras.

— Queria que tudo fosse certo para você.

— Tradicional.

— Família, filhos, casa.

— E você fazia tudo ao contrário.

— Eu não fazia ao contrário.

— Eu vivia a minha vida.

— E você vivia a minha.

O silêncio tomou a sala.

Anna estava junto à janela, e lágrimas escorriam por suas faces, silenciosas, claras como chuva de primavera.

Sveta olhava para a mãe e esperava algo.

Arrependimento, raiva, um grito.

Mas Galina Ivanovna ficou calada.

Depois se levantou pesadamente da poltrona e se aproximou da mesa onde estava a velha fotografia.

— Você quer saber por que o rosto foi apagado? — sussurrou ela.

— Porque eu não conseguia olhar para aquele rosto.

— Ver todos os dias os traços da criança que traí.

— Tentei apagar, mas apenas o papel se apagava, e a memória permanecia.

Anna falou de repente.

Sua voz era baixa, mas firme.

— Por que a senhora não me disse logo?

— Por que todo esse jogo?

Galina Ivanovna virou-se para ela, e seu rosto se deformou de sofrimento.

— Eu tinha medo.

— Você teria me odiado.

— Eu queria primeiro fazer algo bom por você.

— Para que você entendesse que eu não sou um monstro.

— A senhora é um monstro, — disse Anna em voz baixa.

— A senhora destruiu a vida de nós duas.

Galina Ivanovna cambaleou e se agarrou à borda da mesa.

Sveta se moveu instintivamente para ajudá-la, mas se conteve.

A mãe havia escolhido aquele caminho sozinha.

— O apartamento, — rouquejou Galina Ivanovna.

— Eu prometi o apartamento a Anna.

— O apartamento, pela lei, ficará com quem estiver indicado no testamento, — disse Sveta.

— E, se você acha que pode simplesmente apagar uma filha por causa de outra, está enganada.

— Não é por causa de outra, — a mãe a olhou com desespero.

— É por mim.

— Quero ao menos antes de morrer não me sentir a pior criatura do mundo.

Nesse momento, Anna deu um passo à frente.

Decidido, brusco, tanto que Sveta até recuou.

— Eu não preciso do seu apartamento, — disse ela.

— Não quero ser moeda de troca na relação de vocês.

— A senhora me abandonou, e agora tenta me comprar.

— Sonya não é instrumento da sua salvação.

Com essas palavras, ela foi para o corredor.

Arrancou o casaco do cabide e enfiou os pés nas botas.

Sveta a alcançou na porta.

— Espere, Anna.

— Vamos conversar com calma.

— Você não precisa ir embora.

— Eu não consigo ficar aqui, — disse Anna, sem levantar os olhos.

— Pensei que tivesse encontrado uma família, mas descobri que sou apenas parte do roteiro de outra pessoa.

— Preciso de tempo para pensar.

— E Sonya também.

— Para onde vocês vão?

— Temos para onde ir.

— Não se preocupe.

A porta bateu.

Sveta ficou sozinha no corredor.

Da sala vinham sons, talvez soluços, talvez arquejos.

Galina Ivanovna estava sentada na poltrona, com o rosto coberto pelas mãos.

Sveta não se aproximou dela.

Em vez disso, ligou para Dmitry e disse brevemente:

— Tudo acabou.

— Anna foi embora.

— Minha mãe está histérica.

— Estou indo para casa.

Naquela mesma noite, Galina Ivanovna foi levada de ambulância.

Crise hipertensiva, suspeita de derrame.

Sveta recebeu uma ligação do hospital e, contra a vontade, foi até lá.

A mãe estava deitada com soro, pálida, pequena, diferente de si mesma.

Ao ver a filha, virou-se para a parede.

— Eu não queria, — sussurrou ela.

— Eu realmente não queria que acabasse assim.

Sveta ficou em pé ao lado da cama, sem saber o que dizer, e depois saiu para o corredor.

Pegou o telefone e ligou para Anna.

Os toques se prolongaram, quase cinco minutos, até que finalmente soou uma voz cansada.

— Sim.

— Anna, é Sveta.

— Minha mãe está no hospital.

— Entendo que talvez isso não importe para você agora, mas achei que deveria saber.

— Obrigada por me contar, — respondeu ela depois de uma pausa.

— Mas não vou lá.

— Eu não estou pedindo.

— É outra coisa.

— Você encontrou onde ficar?

— Estamos em um hostel.

— Não é um porão, é normal, não se preocupe.

— Anna, quero ajudar você.

— Não como irmã, porque nem sei se você é minha irmã ou não.

— Apenas como uma pessoa que entende que você não tem culpa de nada disso.

— Você virou um peão no jogo que nossa mãe começou.

— Desculpe, Galina Ivanovna.

— Por que você quer me ajudar?

— Porque eu também sou uma vítima, — Sveta encostou a testa no vidro frio do hospital.

— E sei como é quando tudo em que você acreditava se revela uma mentira.

— Vamos nos encontrar daqui a alguns dias, quando as emoções se acalmarem.

— Sem minha mãe.

— Só para conversar.

— Está bem, — disse Anna.

— Venha na quarta-feira.

— Por volta das três.

— Vou mandar o endereço do hostel.

Alguns dias se passaram.

Galina Ivanovna continuava no hospital, os médicos falavam em estabilização, mas davam prognósticos cautelosos.

Sveta ia vê-la todos os dias, mas não houve mais conversas.

A mãe calava, e a filha calava.

Tudo o que era essencial já havia sido dito naquele apartamento.

Na quarta-feira, Sveta foi ao hostel.

Anna a encontrou no saguão.

Ela parecia mal: abatida, com olheiras escuras, mas mantinha a calma.

Sonya brincava em um canto com um tablet.

— Quer comer alguma coisa? — perguntou Anna.

— Não.

— Vamos apenas conversar.

Encontraram um sofá no fundo do saguão.

Sentaram-se lado a lado, mas não perto demais, mantendo distância.

Duas mulheres que a vida jogara uma contra a outra por vontade de uma terceira.

— Pensei muito nestes dias, — começou Sveta.

— E percebi que não sinto ódio por você.

— Nenhum mesmo.

— Você não tem culpa do que aconteceu.

— Eu também não sinto ódio por você, — respondeu Anna.

— Mas é difícil.

— Sonya pergunta onde está a vovó Galya, por que fomos embora.

— Não sei o que dizer a ela.

— Diga a verdade.

— Que os adultos às vezes erram, e esses erros machucam aqueles que eles amam.

Anna sorriu fracamente e mexeu na bolsa.

Tirou um envelope amassado, retirou dele uma folha de papel e a entregou a Sveta.

— O que é isso?

— Lembra que você perguntou sobre o teste de DNA?

— Eu o fiz há um mês.

— Escondido de Galina.

— Decidi verificar se Sonya era realmente neta dela.

— Queria ter certeza de que tudo era verdadeiro.

— E então? — Sveta pegou a folha.

As linhas do laudo médico, os gráficos, os percentuais ficaram embaralhados diante de seus olhos.

— Leia a conclusão, — disse Anna em voz baixa.

A probabilidade de parentesco entre Galina Ivanovna e Sonya Belikova é de 0,01 por cento.

O parentesco biológico está excluído.

Sveta releu três vezes.

Depois ergueu os olhos para Anna.

Ela a observava com calma e resignação.

— Sonya não é neta dela.

— E eu não sou filha dela, — disse Anna.

— Galina se enganou.

— Ou talvez tenha se enganado de propósito.

— A verdadeira filha dela morreu ainda bebê, eu verifiquei os arquivos.

— Aquela Anechka que ela deu à luz em oitenta e dois viveu três meses e morreu de pneumonia.

— Eu sou apenas uma criança parecida, uma menina abandonada com a mesma data de nascimento.

— Coincidências assim nos registros de orfanatos existem aos montes.

— Galina me encontrou, viu uma semelhança, agarrou-se a ela e se convenceu de que era destino.

— De que eu era aquela mesma Anechka.

Sveta sentiu náusea.

Lembrou-se do rosto da mãe no quarto do hospital, de suas palavras sobre expiação, sobre o pecado que precisava ser redimido.

Tudo aquilo se baseava em um erro.

Nem mesmo em um erro: em uma ilusão que Galina Ivanovna havia construído para si mesma, porque a verdade era assustadora demais.

Sua filha estava morta.

Não havia nenhuma filha que tivesse crescido e dado à luz uma neta.

Havia um fantasma que a mãe substituiu por uma pessoa viva.

— Ela sabe? — perguntou Sveta.

— Eu não contei.

— Não consegui.

— Você precisa contar.

— Não, — Anna balançou a cabeça.

— Isso a mataria.

— Literalmente.

— Ela tem o coração fraco, a pressão instável.

— Se descobrir que durante esses dois anos cuidou de uma pessoa estranha, que sua verdadeira filha está morta há trinta anos… ela não sobreviverá.

Sveta se levantou e caminhou pelo saguão.

Os pensamentos corriam, colidiam, se despedaçavam.

Tudo desmoronara.

Tradições, sangue, pecados: tudo se revelara um castelo de cartas que caiu ao menor sopro.

— O que você vai fazer agora? — perguntou Sveta.

— Vou embora.

— Tenho uma tia na região de Kaluga, ela me chama há muito tempo.

— E o apartamento?

— O apartamento é de vocês, — Anna a olhou com firmeza.

— Não vou pegar nada.

— Não sou parente.

— Seria roubo.

Sveta pensou na mãe.

Em como ela estava sentada no quarto do hospital olhando para o teto.

Nos roteiros dela, que haviam desmoronado.

No orgulho familiar pisoteado por um simples teste de parentesco.

E de repente, inesperadamente, não sentiu triunfo, mas pena.

Amarga, corrosiva como absinto.

— Vou alugar um apartamento para você, — disse ela.

— Por seis meses.

— Não neste bairro, mais longe.

— Para que você possa procurar trabalho com calma e não pensar em moradia.

— Sveta…

— Não é caridade nem expiação.

— Para mim é mais simples assim.

— Não quero que você e Sonya morem em um hostel.

— Você é uma boa pessoa, Anna.

— Não fez nada de errado.

— E o fato de minha mãe ter usado você é culpa dela, não sua.

Anna ficou calada, de cabeça baixa.

Depois olhou para a filha e assentiu.

— Obrigada.

— Devolveremos o dinheiro assim que pudermos.

— Combinado, — Sveta se levantou.

— E agora preciso ir ao hospital.

Ela chegou ao quarto à noite.

Galina Ivanovna estava semideitada nos travesseiros e olhava para a televisão.

O som estava desligado, apenas as imagens se moviam.

Ao ver a filha, desligou a tela.

— Você veio, — disse ela.

— Vim.

Sveta sentou-se na beira da cama.

Olhou demoradamente para a mãe.

Ela havia emagrecido, estava abatida, mas os olhos permaneciam vivos e afiados.

Olhos de uma mulher que lutara a vida inteira: contra as circunstâncias, contra a família, contra si mesma.

— Mãe, quero te dizer uma coisa.

— Diga.

— Eu não te perdoei.

— E talvez nunca perdoe.

— Você destruiu minha vida com suas exigências e expectativas.

— Mas parei de odiar você.

— Isso consumia forças demais, e eu preciso das minhas forças para outra coisa.

Galina Ivanovna engolia as lágrimas.

Não respondia, apenas assentia, como se aceitasse uma sentença.

— E mais uma coisa, — Sveta fez uma pausa.

— Anna e Sonya foram embora.

— Eu as ajudei a encontrar moradia.

— Foram embora, — repetiu a mãe.

— Claro.

Elas ficaram em silêncio.

Do lado de fora da janela do quarto, o crepúsculo se adensava, e o vidro refletia a luz das lâmpadas do hospital.

— Você queria preservar as tradições, — disse Sveta em voz baixa.

— E destruiu tudo.

— Com suas próprias mãos.

— Com seu medo.

— Mas sabe, acho que decidi adotar uma criança.

— Não por sua causa.

— Apesar de você.

— Porque quero ser mãe não pelo sangue, mas pela escolha.

— Pelo amor.

— Uma mãe de verdade.

Galina Ivanovna fechou os olhos.

Uma lágrima escorreu por sua bochecha enrugada: lenta, pesada, como se carregasse em si toda a dor das últimas décadas.

Uma lágrima de vergonha.

Ou talvez de amor tardio, que chegara tarde demais para sempre.

Sveta se levantou, ajeitou o cobertor sobre a mãe e saiu do quarto.

O corredor estava vazio e silencioso, apenas em algum lugar no posto a enfermeira folheava papéis.

Sveta caminhava em direção ao elevador e pensava que no dia seguinte teria uma reunião com um advogado sobre adoção.

E que à noite precisaria ligar para Anna para saber como elas estavam instaladas.

E que, pela primeira vez em muitos anos, ela não sentia vazio, mas uma sensação estranha, frágil e nítida de paz.

O elevador chegou.

Sveta entrou, e as portas se fecharam atrás dela, cortando o passado.

Ela apertou o botão do térreo e desceu.

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