— Já que deste à luz uma filha e não um filho, desocupa o apartamento — declarou a sogra.

O marido colocou-se ao lado da esposa e apontou a porta à mãe.

Tamara estava no meio da sala como se tivesse vindo inspecionar um trabalho, e não visitar o próprio filho.

Kirill ainda segurava Nika adormecida nos braços, apertando-a contra o ombro.

Alina sentou-se na ponta do sofá, sem perceber se aquilo era uma brincadeira ou não.

— Tamara Petrovna, deixe-me preparar-lhe um chá — disse Alina com suavidade.

— Vem de viagem e deve estar cansada.

Podemos conversar com calma.

— Não quero o teu chá — cortou a sogra.

— Vim tratar de um assunto.

— Então tratemos do assunto.

Mas fale mais baixo, a bebé acabou de adormecer.

— E agora tenho de sussurrar dentro das minhas próprias paredes?

Kirill levou cuidadosamente a filha para o quarto e voltou.

Sentou-se ao lado da mulher e cobriu a mão dela com a sua.

Alina sentia que os dedos dele tremiam ligeiramente, mas a voz ainda permanecia controlada.

— Mãe, do que estás a falar? — perguntou ele.

— Que apartamento e que história é essa de «desocupar»?

— Daquele em que vocês estão instalados — Tamara indicou a sala com a mão.

— Eu investi dinheiro e ajudei-vos com a entrada inicial.

Lembras-te de quem vos estendeu a mão naquela altura?

— Lembro-me.

E devolvi-te tudo até ao último cêntimo um ano depois.

Tenho a declaração e os comprovativos das transferências.

— A declaração — bufou ela.

— Um pedaço de papel.

E quem me devolve o sangue e os nervos que perdi?

— Tamara Petrovna, estamos-lhe muito agradecidos — interveio Alina, tentando falar com cordialidade.

— A sério.

A senhora ajudou-nos num momento difícil.

Não vale a pena discutirmos por nada.

— O nada é teres dado à luz uma filha em vez de um herdeiro — disse a sogra com tranquilidade.

— Eu estava à espera de um neto.

A quem é que o apelido vai ser transmitido?

Àquela coisinha de rosa que só sabe guinchar?

Autora: Vika Trel © 5033

Alina olhou para o marido, perdida.

Estava disposta a atribuir tudo à idade e ao feitio difícil da mulher.

Dentro dela ainda restava a esperança de que Tamara voltasse a si e de que aquelas palavras lhe tivessem escapado num momento de raiva.

— A senhora ainda nem sequer a viu como deve ser — disse Alina em voz baixa.

— É a sua neta.

A menina mais bonita do mundo.

— Não preciso de netas.

Eu disse ao Kirill que escolhesse aquela rapariga calma, de uma família decente.

Mas não, trouxe esta.

— «Esta» chama-se Alina — recordou Kirill, e finalmente surgiu dureza na sua voz.

— Podes até chamar-lhe rainha.

Não soube dar à luz um rapaz, portanto não vale nada.

— Cala-te — disse ele.

— O quê? — a mãe virou-se para o filho.

— A quem é que estás a levantar a voz?

À tua própria mãe?

— Não estou a levantar a voz — disse Kirill lentamente.

— Estou a pedir-te que pares.

A bem.

Antes de dizeres algo que já não possas retirar.

— E eu não tenho intenção de retirar nada.

Essa rapariguinha sai por uma porta, e tu voltas para casa pela outra.

Passas o apartamento para o meu nome.

Vamos encontrar-te uma mulher normal, que saiba dar à luz filhos homens.

— Tamara Petrovna — Alina levantou-se, e a voz ainda lhe tremia pelo esforço de manter a paz.

— Eu peço-lhe.

Falamos amanhã.

— Ao que parece, ainda vives num mundo cor-de-rosa.

Começa a juntar as tuas coisas.

— Esta é a nossa casa.

— É um capricho meu que te ofereci.

O capricho acabou.

Kirill levantou-se e colocou-se entre a mãe e a mulher.

Não gritou.

Limitou-se a proteger Alina com o próprio corpo, como se protege alguém do vento.

— Então vamos esclarecer isto — disse ele.

— O apartamento está registado em meu nome e no de Alina.

Eu devolvi-te o dinheiro.

A declaração, os extratos e tudo o resto estão na pasta que tu própria me ajudaste a preparar naquela altura.

Não há nada a discutir.

— Seu ingrato…

— Ainda não acabei — disse ele, levantando a mão.

— E agora o mais importante.

Nika é minha filha.

Alina é minha mulher.

E nesta casa ninguém voltará a chamar-lhe «esta».

— Kirill — Tamara estreitou os olhos — estás a escolher uma mulher estranha em vez da tua mãe?

— Estou a escolher a minha família.

E peço-te que te vás embora.

A porta é ali.

A sogra permaneceu calada durante alguns segundos, como se não acreditasse que o filho fosse capaz de semelhante coisa.

Depois, os lábios dela torceram-se num sorriso irónico.

— Vou-me embora — disse.

— Mas ainda voltarás a correr para mim.

Sem mim, vocês não são ninguém.

Vamos ver como estarão daqui a um mês.

— Veremos — respondeu Kirill com calma.

— Queres que te acompanhe à porta?

— Sei o caminho.

A porta bateu.

Alina voltou a sentar-se no sofá e encostou as palmas das mãos às faces.

Kirill sentou-se ao lado dela e abraçou-a.

— Desculpa — disse ele.

— Por teres tido de ouvir tudo isto.

— Ela pensa mesmo assim?

Sobre o rapaz?

— Não sei o que se passa na cabeça dela.

Sei apenas que nunca mais te vai tocar.

Dois dias depois, Alina encontrou-se com uma amiga num pequeno café junto ao jardim.

Veronika ouvia-a enquanto mexia com a colher o cappuccino já frio, franzindo cada vez mais a testa.

— Espera — interrompeu-a Veronika.

— Ela disse isso mesmo?

«Deste à luz uma filha, portanto desocupa o apartamento»?

— Palavra por palavra.

— E o Kirill fez o quê?

— Apontou-lhe a porta.

À minha frente.

Pôs-se à minha frente para me proteger.

— Então é preciso erguer-lhe um monumento — disse Veronika, recostando-se na cadeira.

— Sabes quantos homens, numa situação dessas, começam a gaguejar?

«Vá lá, mãe, vá lá, Alina, não discutam»?

— Eu pensei que ele fosse tentar abafar tudo.

Mas não adiou.

Resolveu tudo imediatamente.

— E agora? — perguntou Veronika.

— Tamara não vai deixar isto assim.

Tu conheces a mulher.

— Já não deixou — Alina mostrou-lhe o telefone.

— Está a escrever a todos os familiares.

Diz que sou uma caçadora de apartamentos.

Que enfeiticei o Kirill.

Que dei à luz uma menina de propósito, só para o contrariar.

— Para o contrariar?

Ela percebe sequer como é que isso funciona?

— É-lhe conveniente pensar assim.

A culpada tenho de ser eu.

— E tu, o que respondes?

— Nada.

Kirill disse-me para não entrar em discussões.

Ele vai tratar do assunto.

— E como pensa fazer isso?

— Não sei.

Mas está a preparar alguma coisa.

Quando se zanga, fica calmo e concentrado.

— Ouve — Veronika baixou a voz — mas ela não pode mesmo tentar ficar com o apartamento em tribunal?

Encontrar algum pretexto legal?

— Kirill diz que não.

Está tudo em ordem.

O dinheiro foi devolvido e os documentos estão corretos.

— E a família?

De que lado estão?

— Gleb, o irmão do Kirill, está do nosso lado.

Ele conhece Tamara melhor do que ninguém.

Os outros, por enquanto, olham para onde sopra o vento.

— Que alegria ter uma família dessas.

— O que mais me magoou — Alina afastou a chávena — foi ela olhar para Nika e não ver uma criança.

Via um produto errado.

Defeituoso.

— Isto não é sobre ti nem sobre Nika — disse Veronika com firmeza.

— É sobre ela.

Lembra-te disso.

Em casa, Kirill falava ao telefone com o irmão, e Alina, enquanto punha a mesa, ouvia involuntariamente metade da conversa.

— Gleb, ligaste-lhe? — perguntava Kirill.

— E ela, o que disse?

Houve uma pausa.

— Percebo.

Então anda a dizer a toda a gente que a expulsei para o frio — Kirill sorriu com ironia.

— Pois claro, para o frio do apartamento de duas assoalhadas dela.

Houve outra pausa.

— Não, não vou correr atrás dela para fazer as pazes.

Primeiro tem de pedir desculpa a Alina.

Não a mim, mas à minha mulher e à minha filha.

Desligou e aproximou-se da mulher.

— Gleb está do nosso lado — disse.

— Diz que ela já lhe ligou duas vezes, exigindo que ele me «faça mudar de ideias».

— E conseguiu?

— Disse-lhe que sou um homem adulto e que consigo resolver os meus problemas sozinho.

Kirill pegou num garfo da mesa e rodou-o entre os dedos.

— Alina, quero fazer uma coisa.

Quero que isto acabe de uma vez por todas.

Não quero que se arraste durante anos.

— O que queres fazer?

— Reunir toda a gente.

Uma vez.

E colocar tudo no devido lugar.

Diante de testemunhas, para que depois ninguém possa reescrever a história à sua maneira.

— Tens a certeza?

— Não quero que a nossa filha cresça numa casa onde, a qualquer momento, alguém possa entrar e chamar «esta» à mãe dela.

É melhor uma conversa difícil do que dez anos de coisas por dizer.

A reunião de família foi organizada na casa de campo de Gleb, em território neutro, com uma mesa grande e uma varanda.

Vieram quase todos: as tias, os primos, Gleb e a mulher.

Tamara chegou por último, com ar de vencedora, como se todos se tivessem reunido para a apoiar.

— Finalmente ganharam juízo — disse em voz alta, mal entrou.

— Onde está aquele?

Onde está a nora defeituosa?

— Tamara Petrovna, estamos todos aqui — respondeu Alina, segurando Nika nos braços.

— Entre e sente-se.

— Prefiro ficar de pé.

Não estou habituada a sentar-me com pessoas como tu.

— Mãe — Gleb levantou-se.

— Senta-te.

Kirill quer falar.

Todos querem ouvi-lo.

A sogra sentou-se com os lábios apertados.

Os familiares trocavam olhares, e alguém tamborilava nervosamente os dedos sobre a mesa.

Kirill colocou-se à cabeceira da mesa, calmo e sem qualquer papel nas mãos.

— Reuni-vos a todos — começou — para que depois ninguém conte a história à sua maneira.

Quero que todos ouçam a mesma coisa.

— Vá, vá, justifica-te — lançou a mãe.

— Não me estou a justificar.

Estou a explicar.

O apartamento está registado em meu nome e no de Alina.

O dinheiro que a minha mãe nos deu para a entrada foi devolvido há um ano e meio.

Gleb, tu estavas presente quando foi feita a transferência, não estavas?

— Estava — confirmou Gleb com a cabeça.

— Vi pessoalmente.

E também vi a declaração.

— Obrigado.

Continuemos.

— Depois disso — prosseguiu Kirill — disseram à minha mulher que, por ter dado à luz uma filha e não um filho, não valia nada e devia sair de casa.

Eu ouvi.

Alina ouviu.

Tia Liuda, tu também ouviste ao telefone a história da «nora defeituosa», não ouviste?

— Ouvi — admitiu com relutância uma mulher corpulenta sentada num canto.

— Foi assim que Tamara me contou.

— Pronto — Kirill percorreu a mesa com o olhar.

— Quero que percebam que o problema não é o apartamento.

Ninguém pode tirar-nos o apartamento, portanto nem sequer há nada a discutir.

O problema é terem chamado erro à minha filha e defeituosa à minha mulher.

— Eu não disse isso! — protestou Tamara.

— Então o que disseste? — o filho virou-se para ela.

— Repete diante de toda a gente.

Palavra por palavra, tal como naquele dia.

Tamara abriu a boca, pronta a responder como sempre fazia, mas, sob o olhar dos familiares, as palavras ficaram-lhe presas na garganta.

— Eu disse… que queria um neto — conseguiu finalmente dizer.

— Isso é crime?

— Querer, não — respondeu Kirill.

— Expulsar de casa a mãe da minha filha porque nasceu uma menina, sim.

É uma baixeza.

E ganância.

Tu não querias um neto.

Era o apartamento que não te deixava em paz.

— Como te atreves!

— Atrevo-me.

Porque, diante de mim, negociaste a minha família como se fossem objetos numa prateleira.

— Kirill tem razão — disse em voz baixa a mulher de Gleb.

— Tamara Petrovna, calei-me durante um ano.

Chega.

— Estão todos contra mim! — Tamara levantou-se bruscamente.

— Combinaram isto!

Eu criei-vos, ajudei toda a gente, e vocês…

— Ninguém está contra ti — interrompeu-a Kirill com calma.

— Estamos contra o que fazes.

Ele interrompeu-se e corrigiu-se.

— Não é a mesma coisa.

— Não me venhas ensinar!

Ainda vais correr para mim quando estiveres em apuros!

Sem mim, vocês estão perdidos!

— Não estamos perdidos — disse ele.

— Nem agora estamos.

Mas tu, neste preciso momento, estás a perder a tua neta.

Pensa nisso antes que seja tarde demais.

— Eu não preciso da tua filha como neta!

— Então já não temos mais nada para conversar.

*

Fez-se um silêncio absoluto na sala da casa de campo.

Os familiares olhavam para a mesa, e alguém abanava a cabeça.

Tamara percorreu todos com o olhar, à procura de apoio, mas não encontrou um único rosto compreensivo.

— Então é assim — sibilou.

— Arranjaram-se bem.

Tiveram uma rapariga e agora descartam-me.

Lembra-te disto, Kirill: ainda vais pagar por esta.

— Lembra-te à vontade — disse ele, encolhendo os ombros.

— Mas não voltes a incomodar Alina.

Nem com palavras, nem com mensagens, nem através dos familiares.

Se eu souber que o fizeste, deixamos de falar por completo.

Para sempre.

— Estás a ameaçar a tua mãe?

— Estou a impor uma condição.

Ou respeitas a minha mulher e a minha filha, ou o caminho até nós fica fechado.

*

Tamara agarrou a mala e dirigiu-se à saída, dizendo enquanto caminhava:

— Ainda se vão arrepender.

Vão arrepender-se todos.

— Tia Tamara — chamou-a a sobrinha junto à porta — Nika é parecida consigo.

Tem os seus olhos.

A sogra ficou imóvel durante um segundo.

Depois saiu sem responder e bateu o portão.

Gleb aproximou-se do irmão e pousou-lhe uma mão no ombro.

— Custou-te muito.

— Estou bem — respondeu Kirill.

— É melhor cortar de uma vez do que continuar todos os dias a serrar uma ferida aberta.

— E se ela realmente não mudar de ideias?

— Então não muda.

Não permitirei que façam mal à minha filha.

Nem ela nem ninguém.

*

Regressaram a casa de carro, ao cair do crepúsculo.

Nika dormia na cadeirinha, e Alina mantinha uma mão sobre a barriguinha dela, sentindo a respiração subir e descer regularmente.

— Como estás? — perguntou Kirill, sem desviar os olhos da estrada.

— É estranho.

Pensei que teria medo.

Mas sinto-me leve.

— É porque já não tens de provar nada.

Já foi tudo dito.

— Não tiveste medo.

Diante de toda a gente.

Contra ela.

— Tive medo de outra coisa — admitiu ele.

— Que pensasses que eu tinha sacrificado a minha mãe por tua causa.

Não foi isso.

Não escolhi entre vocês.

Escolhi em que tipo de casa a nossa menina vai crescer.

*

— E se depois ela te culpar? — perguntou Alina.

— Se disser que, por causa da tua teimosia, perdeu a neta?

— Que me culpe.

Fechei a porta, mas não passei o ferrolho.

Se quiser comportar-se normalmente, virá de forma normal.

Pede-te desculpa e então poderá sentar-se à nossa mesa.

— Tu resolves sempre tudo tão depressa.

Eu ficaria um mês a sofrer.

— Para quê sofrer? — sorriu ligeiramente.

— O problema é um só: alguém humilhou a minha família.

A solução também é uma só: não voltar a permitir.

Para quê arrastar isto?

*

Em casa, depois de deitarem a filha, sentaram-se na cozinha para um jantar tardio.

O telefone de Alina emitiu um breve som: era uma mensagem de Veronika.

«Como correu?»

— O que escrevo à minha amiga? — perguntou Alina.

— Escreve a verdade — disse Kirill.

— «Está tudo bem.

Estamos em casa.

Todos estão no seu devido lugar».

— E Tamara Petrovna?

— Ela também está no lugar dela.

Simplesmente esse lugar já não é à nossa mesa.

Alina escreveu a mensagem e enviou-a.

Depois pousou o telefone e olhou demoradamente para o marido, com carinho.

*

— Sabes o que percebi? — disse ela.

— Até ao fim, esperava que ela nos aceitasse.

Que amasse Nika.

Mas ela só queria poder ou o apartamento.

Ainda não percebi qual dos dois.

— Não deposites esperança em quem quer destruir-te — respondeu Kirill.

— Protege quem se coloca ao teu lado.

É toda a sabedoria de que precisas.

— E tu colocaste-te ao meu lado.

— E continuarei aqui.

Contra quem quer que seja.

No quarto ao lado, Nika mexeu-se suavemente e estalou os lábios durante o sono.

Alina escutou e sorriu.

— Que cresça — disse.

— E que saiba que haverá sempre alguém para a defender.

— Saberá — confirmou Kirill.

— Vou certificar-me disso.

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Mas, quando descobri quem ela realmente era, caí de joelhos.»

Passou um mês.

Tamara não telefonou nem escreveu: nem censuras nem desculpas.

Os familiares acalmaram e deixaram de transmitir boatos de um lado para o outro.

No apartamento que alguém tanto queria «desocupar», a vida continuava a seguir o seu curso caloroso e tranquilo.

Uma noite, Gleb passou por casa deles, levando um chocalho para a sobrinha e uma notícia que parecia deixá-lo desconfortável.

— Kirill — disse à porta.

— Ela ligou-me ontem.

Ficou muito tempo em silêncio ao telefone.

Depois perguntou como estava Nika.

Como estava a crescer.

— E o que respondeste?

— Que está a crescer bem.

Que começou a sorrir.

Gleb hesitou.

— Ela também ficou em silêncio e desligou.

Mas perguntou.

— Perguntou — repetiu Kirill.

— Isso significa que o coração dela ainda não se transformou em pedra.

*

— Vais perdoá-la? — perguntou Gleb.

— Vou perdoá-la, se vier como uma pessoa civilizada.

Não deve dirigir-se a mim, mas a Alina.

Com palavras normais, sem os seus «queridinhas» e «esta».

— E se não vier?

— Então viverá com a escolha dela.

Eu não lhe fechei o caminho.

Fechei o caminho às humilhações.

Cabe-lhe decidir se, para ela, vale mais a neta ou o orgulho.

Gleb olhou para o irmão com respeito.

— Manténs-te muito firme.

— Quando sabes que tens razão, é fácil manteres-te firme — respondeu Kirill.

— É difícil quando estás dividido.

Eu não estou.

*

Alina saiu do quarto com a filha nos braços, depois de ouvir o fim da conversa.

— Gleb, fica para jantar — propôs.

— Ficamos contentes por ficares.

— Obrigado.

Fico.

Entregou Nika a Kirill, que apertou instintivamente a bebé contra o ombro.

A pequena agarrou o dedo dele com a mão minúscula e segurou-o com força, como se soubesse que aquele homem era a sua fortaleza.

— Estás a ver? — disse Kirill em voz baixa à mulher.

— Está a agarrar-me.

Percebe alguma coisa à maneira dela.

— Percebe — confirmou Alina.

— Sabe que aqui é amada.

E naquela cozinha comum, à volta daquela mesa comum, entre aqueles que tinham permanecido ao lado deles, havia mais lar do que em todos os apartamentos pelos quais alguém alguma vez tentara negociar.

*

Já era tarde quando Gleb se foi embora e Nika dormia profundamente.

Alina encontrou o marido junto à janela, com o telefone na mão.

Ele mantinha o dedo suspenso sobre o ecrã, como se decidisse se devia ligar ou não.

— A ela? — perguntou Alina.

— A ela — confirmou ele.

— Estou a pensar enviar-lhe uma única mensagem.

A última desta história.

— O que escreveste?

Ele virou o telefone para ela.

No ecrã brilhava uma frase curta: «Mãe.

A porta não está trancada.

Quando quiseres ver a tua neta com boas intenções, vem.

Sem condições e sem ressentimentos contra Alina.

A decisão é tua».

— Envio? — perguntou ele.

— Envia — disse Alina.

Ele carregou em «enviar» e guardou o telefone.

Agora a palavra pertencia à outra pessoa, enquanto eles já tinham feito tudo o que podiam.

FIM

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