Então leve sua mãe também, — pediu Liudmila calmamente, e o marido abriu a mala de novo, devagar.
A mala estava aberta sobre a cama, como uma boca escancarada.
Serguei dobrava as camisas em pilhas cuidadosas, uma sobre a outra, como se estivesse se preparando para uma exposição, e não destruindo doze anos de vida em comum.
Liudmila estava parada no vão da porta, encostada com o ombro no batente, observando.
— Você nem pergunta para onde eu vou, — disse ele, sem se virar.
— Eu sei para onde você vai, Serioja.
Já sei há quatro meses.
Kristina, certo?
Ele ficou imóvel por um segundo.
A camisa em suas mãos amassou um pouco, mas ele imediatamente a alisou e a colocou na mala.
— Como você…
— Você parou de apagar as mensagens do telefone em novembro.
Ou esqueceu como se faz, ou deixou de achar necessário.
Serguei se virou lentamente.
Ele esperava lágrimas, gritos, acusações jogadas na cara.
Nada disso aconteceu.
Liudmila estava calma, e aquela calma o deixava mais inquieto do que qualquer escândalo.
— Liuda, eu não queria que fosse assim.
Eu pensei que conversaríamos normalmente, sentaríamos, discutiríamos tudo.
— Estamos conversando normalmente agora.
Você está arrumando suas coisas, eu estou olhando.
Tudo muito civilizado.
— Não precisa de ironia.
— Não é ironia, Serioja.
É constatação.
Você vai embora, eu não vou te segurar.
O apartamento é meu, era meu antes do casamento e continuará sendo meu depois.
Quanto a isso, não há discussão.
Ele assentiu, como se tivesse se sentido aliviado.
Fechou o zíper do bolso lateral.
Pegou o casaco de inverno no armário e o colocou sobre o braço.
— Fico feliz que você esteja encarando assim.
Sério, Liuda.
Eu tinha medo de que houvesse…
— Que houvesse o quê?
Histeria?
Louça quebrada?
Eu não estou numa série de TV, Serioja.
Tenho quarenta e um anos e tenho dignidade.
Ele soltou o ar.
Sentou-se na beirada da cama, ao lado da mala.
Esfregou uma mão na outra, um hábito que aparecia nele nos momentos de alívio nervoso.
— Vou deixar as chaves na prateleira do corredor.
— Deixe.
E leve sua mãe.
Serguei levantou a cabeça.
Olhou para ela como se ela tivesse dito algo em uma língua desconhecida.
— O quê?
— Serioja, eu disse: leve Valentina Petrovna.
Ela é sua mãe, não minha.
Você vai embora, ela vai com você.
— Você está brincando.
— Eu pareço alguém que está brincando?
Liudmila não sorria.
Não franzia a testa.
Seu rosto estava liso, como a superfície de uma mesa.
Serguei se levantou, pegou a mala pela alça e lentamente fechou a tampa de novo.
Colocou-a no chão.
— Liuda, isso é uma bobagem.
Ela mora aqui há seis anos.
Tem o quarto dela, os hábitos dela.
Para onde eu vou levá-la?
— Para sua casa.
Para a casa da Kristina.
Para onde você mesmo está indo.
— Para um estúdio?
Você ficou louca?
São trinta e oito metros quadrados.
— Não são os meus trinta e oito metros quadrados, Serioja.
E não são os meus problemas.
Ele colocou a mala de volta na cama.
Abriu.
Fechou.
Abriu novamente.
Suas mãos faziam movimentos sem sentido, enquanto sua cabeça se recusava a aceitar o que tinha acabado de ouvir.
— Vamos fazer assim, — disse ele mais baixo.
— Eu vou embora, e com ela a gente resolve depois.
Daqui a uma semana, daqui a um mês.
Encontraremos uma solução.
— Não.
— Liuda…
— Não, Serioja.
Nem daqui a uma semana, nem daqui a um mês.
Ou você vai embora com ela, ou não vai embora de jeito nenhum.
Autora: Vika Trel © 4769z
A manhã do dia seguinte começou em silêncio.
Serguei não foi embora.
A mala estava no canto do quarto, fechada, mas não guardada.
Valentina Petrovna estava sentada na cozinha, tomando chá com rosquinhas secas e folheando um catálogo de sementes, preparando-se para a temporada da dacha, sem suspeitar de nada.
Liudmila saiu para a varanda e ligou para a amiga.
— Natacha, ontem ele estava arrumando a mala.
— E aí?
— Eu disse para ele levar Valentina Petrovna.
Ele fechou a mala de novo.
Natália ficou em silêncio por um segundo.
— Você está falando sério?
— Absolutamente.
Ele achou que iria embora leve, e eu ficaria alimentando a mãe dele até o fim dos meus dias.
Natacha, eu não tenho obrigações com essa mulher.
Ela não é nada minha perante a lei, se nos divorciarmos.
— Liudka, você é um gênio.
— Não sou um gênio.
Eu só não pretendo ser conveniente.
Nesse momento, Serguei estava sentado no carro, no estacionamento em frente ao prédio, conversando com Denis pelo viva-voz.
A voz do amigo soava rouca; claramente ele tinha acabado de acordar.
— Denis, ela me deu uma condição.
Disse: leve Valentina Petrovna ou fique.
— Então leve.
— Para onde?!
A Kristina tem um estúdio!
— E o que eu te disse?
Eu te disse ainda em outubro: você está trocando seis por meia dúzia.
Você me ouviu?
— Você não está ajudando.
— Sou realista, Serioga.
Você quer uma vida bonita, mas tem uma mulher idosa nas suas costas, a quem você deve metade do que possui.
A outra metade ficou com sua irmã, e a própria Valentina Petrovna ficou sem moradia.
Você esqueceu isso?
— Não esqueci.
— Esqueceu.
Porque quando ela vendeu o apartamento de três quartos e entregou tudo a vocês dois, você não se opôs.
Pegou o dinheiro, comprou um carro, fez reforma no apartamento da sua esposa.
E agora quer ir embora deixando-a para Liudmila?
Com que direito?
Serguei apertou o volante.
O motor funcionava em ponto morto.
No banco de trás estava a mala: mesmo assim, ele a tinha levado para fora de manhã, enquanto Liudmila estava no banheiro.
— Vou falar com Kristina.
Vou explicar a situação.
— Boa sorte, — disse Denis, e desligou.
À noite, Serguei voltou.
Colocou a mala de novo no canto.
Durante o jantar, ficou quieto, comendo em silêncio.
Valentina Petrovna falava sobre uma nova variedade de tomates que prometia uma colheita incrível.
Liudmila assentia e colocava mais salada no prato dela.
— Seriojinha, por que você está tão abatido? — perguntou Valentina Petrovna.
— Cansado, — respondeu ele de forma curta.
Liudmila olhou para ele do outro lado da mesa.
Não disse nada.
Ela esperava.
Ela sabia que aquilo era apenas uma trégua.
💥 Recomendo a leitura: — Não me importa que você não tenha onde morar, o apartamento vai ficar comigo, — disse o marido com raiva; Natália piscou e riu baixinho.
Três dias depois, Serguei recomeçou.
Desta vez ele estava preparado, ou achava que estava.
— Liuda, eu pensei em tudo.
Minha mãe fica aqui.
Vou transferir dinheiro para você todos os meses para o sustento dela.
Vinte mil.
Vinte e cinco.
Quanto você disser.
— Zero.
— Como assim zero?
— Zero rublos.
Porque ela não vai ficar aqui.
— Isso é cruel, Liuda!
— Cruel?
Você abandona a família por uma mulher com quem dorme há quatro meses e vem falar comigo sobre crueldade?
— Ela está acostumada aqui.
Tem o quarto dela, as coisas dela, a rotina dela.
Ela vai à dacha da sua…
— Da minha o quê?
Da minha mãe?
Não, Serioja.
Aquela é a dacha dos meus pais.
Valentina Petrovna ia para lá porque éramos uma família.
Quando deixamos de ser família, todos os privilégios desaparecem.
A dacha, o quarto, a minha geladeira.
Serguei saltou da cadeira.
Andou pela cozinha.
Parou perto da pia e se virou.
— Você está se vingando.
— Não.
Estou colocando os pingos nos is.
Há uma diferença.
— Você está me punindo por meio dela.
Por meio de uma pessoa idosa.
Liudmila se levantou.
Aproximou-se dele bem de perto.
Sua voz ficou mais baixa, mas mais dura.
— Serioja, quando Valentina Petrovna vendeu o apartamento dela e deu o dinheiro a você e à Alina, eu fiquei calada.
Quando ela ficou sem casa e se mudou para cá, eu a aceitei.
Há seis anos ela vive no meu apartamento, come a minha comida, usa a minha máquina de lavar, e eu nunca, está ouvindo, nunca joguei isso na cara dela.
Mas eu fazia isso pela família.
A família não existe mais: você mesmo a matou.
Então minhas obrigações também terminaram.
— Você não pode colocar uma pessoa idosa na rua!
— Eu não estou colocando-a na rua.
Estou entregando-a a você.
Ao filho dela.
Isso é lógico, justo e legal.
Serguei se afastou.
Sentou-se novamente.
Abaixou a cabeça.
— Kristina não vai concordar.
— Então você tem um problema bem difícil para resolver.
Ele ergueu os olhos para ela.
Havia algo novo neles: não raiva, não mágoa.
Desespero.
Liudmila viu isso e não desviou o olhar.
— Dou a você uma semana, — disse ela.
— Sete dias.
Depois eu mesma resolvo a questão.
— O que isso significa?
— Significa exatamente o que eu disse.
Natália chegou naquela mesma noite.
Elas ficaram sentadas na cozinha, depois que Valentina Petrovna foi para o quarto e Serguei saiu, aparentemente para ir à casa de Kristina.
— Ele está enrolando, — disse Liudmila.
— Claro que está enrolando.
Ele espera que você recue.
— Não vou recuar.
— Eu sei.
Por isso vamos pensar um passo à frente.
Se daqui a uma semana ele não a levar, o que você vai fazer?
Liudmila tirou um bloco da gaveta.
Abriu uma página em branco.
Escreveu o endereço do estúdio de Kristina: ela o tinha descoberto ainda em novembro, quando começou a desconfiar.
— É isto que eu vou fazer, Natacha.
Vou ligar para Valentina Petrovna e contar a verdade.
Toda ela.
Depois vou chamar um táxi de carga.
Natália olhou para o bloco.
Depois para a amiga.
— Liudka, você é uma pessoa assustadora.
No bom sentido.
💥 Recomendo a leitura: — Você vai voltar rastejando de joelhos, — profetizava a sogra quando Nina ia embora, mas quem acabou rastejando no final?
A semana passou.
Serguei não fez nada.
Ele vinha, saía, dormia no sofá da sala, evitava conversas.
Comportava-se como se o ultimato nunca tivesse existido.
Como se tudo fosse se resolver sozinho.
No oitavo dia, sábado, Liudmila chamou Valentina Petrovna.
Ela estava na cozinha, cortando maçãs para uma charlotte.
— Valentina Petrovna, sente-se, por favor.
Preciso lhe contar uma coisa.
— Meu Deus, o que aconteceu?
— Serguei está me deixando.
Por outra mulher.
Ela se chama Kristina e tem um estúdio na Levoberejnaya.
Valentina Petrovna colocou a faca sobre a mesa.
Devagar.
Com cuidado.
É assim que colocam objetos as pessoas que têm medo de que, se o movimento for brusco, algo mais se quebre.
— Há muito tempo?
— Quatro meses.
— Por que ele não me contou?
— Porque ele queria ir embora e deixar a senhora aqui.
Comigo.
E eu não concordo, Valentina Petrovna.
Desculpe, mas a senhora é parente dele.
Não minha.
A mulher idosa ficou muito tempo em silêncio.
Um minuto, talvez dois.
Liudmila não a apressou.
— Eu entendo, — disse finalmente a sogra.
— Você tem razão.
Vou ligar para ele.
— Não precisa ligar.
Eu já organizei tudo.
Amanhã de manhã virá um carro.
Natália vai me ajudar a juntar suas coisas.
Eu lhe darei o endereço para onde ir.
— Ele sabe?
— Não.
E não saberá.
Até os carregadores tocarem a campainha da Kristina dele.
— Eu vendi o apartamento por eles.
Por Serioja e por Alina.
Pensei que ajudaria os filhos, e eu me viraria de algum jeito.
“De algum jeito” acabou sendo sem um canto e sem uma parede atrás das costas.
— Eu sei, Valentina Petrovna.
Mas isso não muda o fato de que agora o seu lugar é ao lado do seu filho.
Onde quer que ele esteja.
Natália chegou às nove da manhã do dia seguinte.
Elas trabalharam rápido, sem tumulto.
Caixas, roupas, roupa de cama, a velha cadeira de balanço que Valentina Petrovna trouxera do apartamento vendido.
A luminária de chão com abajur de tecido grosso.
Livros, quatro caixas.
Sacolas com sapatos.
O casaco de inverno em uma capa.
— Natacha, cuidado com esta caixa, aí estão as xícaras de porcelana, — disse Liudmila.
— Entendi.
Valentina Petrovna estava sentada em um banquinho no corredor e observava enquanto tiravam do quarto dela seis anos de vida.
Ela não chorava.
As mulheres de sua geração raramente choram diante de testemunhas.
— Liudmila, — chamou ela em voz baixa.
— Sim?
— Perdoe-me.
Pelo meu filho.
Liudmila parou.
Colocou a caixa no chão.
Aproximou-se.
— A senhora não tem culpa de nada, Valentina Petrovna.
A senhora fez por ele tudo o que podia.
Até mais.
O problema não é a senhora.
— Eu o criei errado.
— A senhora o criou.
A escolha ele fez sozinho.
O táxi de carga foi carregado até as onze.
Liudmila entregou ao motorista um papel com o endereço.
Valentina Petrovna sentou-se na cabine ao lado dele.
Natália ficou ao lado de Liudmila e observou o carro sair do pátio.
— Você vai ligar para ele?
— Para quê?
Ele vai saber de tudo em meia hora.
💥 Recomendo a leitura: — Você vai pagar o casamento do meu filho, porque nós não temos dinheiro, — declarou a sogra.
Tatiana olhou para o marido, esperando ao menos uma palavra.
Ele ficou calado.
Kristina abriu a porta no terceiro toque da campainha.
Atrás da porta estavam dois homens com luvas de trabalho, e atrás deles havia um corredor cheio de caixas, uma poltrona e uma luminária de chão.
— Quem são vocês?
— Entrega.
Para este endereço.
Onde devemos colocar?
— Que entrega?!
Eu não pedi nada!
Por trás dos carregadores apareceu Valentina Petrovna.
Estava usando um casaco bege, com uma bolsa de viagem no ombro e a expressão de uma pessoa que a vida arrastou pelas pedras, mas não quebrou.
— Bom dia.
A senhora deve ser Kristina, imagino.
Eu sou Valentina Petrovna, a mãe do Serioja.
Kristina empalideceu.
Ligou para Serguei.
Ele atendeu no quinto toque.
— Serioja, aqui…
Aqui tem uns carregadores, caixas e… e a sua… Valentina Petrovna.
— O quê?!
— Ela está no meu prédio!
Com as coisas!
Com a cadeira!
— Não a deixe entrar!
Estou indo agora!
— Como assim “não deixe entrar”?!
Ela já está entrando!
Serguei chegou correndo vinte minutos depois.
Entrou no estúdio como um furacão e viu a cena: a mãe estava sentada em sua cadeira de balanço no meio do único cômodo, ao redor dela havia uma muralha de caixas, a luminária de chão estava perto da janela, e Kristina se encolhera no canto da cozinha, segurando o telefone com as duas mãos.
— O que está acontecendo aqui?! — soltou Serguei.
— Seriojinha, — disse Valentina Petrovna baixinho.
— Liudmila me contou tudo.
Parece que você está indo embora.
Então eu vim.
Para ficar com você.
— Não, não, não.
Não!
— O que é não?
Eu sou o não?
Serioja, você quer dizer que não precisa da sua própria mãe?
Kristina deu um passo à frente.
Sua voz tremia, mas não de medo; tremia de uma raiva crescente.
— Serioja, você me prometeu uma mudança tranquila, calma.
Você e eu.
Você disse: sem problemas.
E agora eu tenho no meu apartamento vinte caixas e uma mulher idosa com uma luminária de chão!
— Kristina, eu vou resolver…
— Como?!
Como você vai resolver?!
Para onde vai levá-la?
Aqui são trinta e oito metros!
Aqui já é apertado para duas pessoas!
— Vou ligar para Liudmila.
Ela passou dos limites.
Ela não tinha o direito…
Ele discou o número.
Liudmila atendeu imediatamente.
— Alô?
— Liuda, o que você aprontou?
— O que há de errado, Serioja?
Você vai embora, ela vai com você.
Eu avisei.
Uma semana atrás.
— Você não pode fazer isso comigo!
— Eu já fiz.
Não há volta.
O quarto foi esvaziado, a fechadura foi trocada, as chaves são novas.
— Que fechadura?!
— A da entrada.
E a fechadura do antigo quarto dela também é nova.
Agora ali é o meu escritório.
Ou melhor, será.
Já comprei a estante.
— Liudmila!
— Serioja, não grite.
Você é um homem adulto.
Tem escolhas: ou vive com Kristina e Valentina Petrovna no estúdio de trinta e oito metros, ou procura uma moradia para ela, ou liga para sua irmã Alina e pede que ela leve Valentina Petrovna para morar com ela.
Há muitas opções.
Nenhuma delas inclui o meu apartamento.
Ele desligou.
Olhou para Kristina, que estava com o rosto vermelho e o lábio inferior tremendo.
Olhou para a mãe, que se balançava na cadeira com a expressão de uma pessoa que aceitou o próprio destino.
— Seriojinha, — disse Valentina Petrovna novamente.
— Você não vai me rejeitar, vai?
— Eu… Não.
Claro que não.
Mas…
— Então está bem.
Onde vou dormir?
Kristina se aproximou de Serguei.
Seu sussurro era tão baixo que Valentina Petrovna não conseguia ouvir, mas pela articulação se lia cada palavra.
— Serioja, ou ela sai daqui hoje, ou você sai.
Junto com ela.
Eu não preciso desse circo.
— Kristina, espere…
— Não.
Não vou esperar.
Você me prometeu uma vida normal.
E trouxe um problema em caixas.
Eu não aceitei isso.
Ele saiu para o corredor do prédio.
Sentou-se no degrau.
Ligou para Denis.
— Denis, estou numa catástrofe.
— Liudmila mandou Valentina Petrovna para a casa da Kristina?
— Como você sabe?!
— No lugar dela, eu teria feito a mesma coisa.
Serioga, eu te avisei.
Você está trocando seis por meia dúzia, e essa meia dúzia acabou sendo escorregadia.
— O que eu faço?
— Volta.
— Liudmila trocou as fechaduras.
— Então bata.
Por muito tempo, com insistência, com a cabeça baixa de culpado.
E implore para que ela abra.
— Eu não consigo fazer isso!
— Consegue.
A questão é se quer.
Porque a alternativa é viver em três no estúdio.
Você, Kristina e Valentina Petrovna.
Com a luminária de chão.
Serguei ficou sentado no degrau por mais meia hora.
Atrás da porta, ouviam-se vozes: Kristina explicava algo acaloradamente a Valentina Petrovna, e ela respondia com calma e detalhes.
Parece que estavam falando sobre onde colocar a cadeira.
Ele ligou para Liudmila de novo.
— Liuda, estou voltando.
— Com Valentina Petrovna?
— Sim.
— Não.
— Como assim não?
— Você não volta, Serioja.
Nem com ela, nem sem ela.
Você fez sua escolha.
Arrumou a mala.
Dobrou as camisas.
A decisão foi tomada.
— Liuda, eu mudei de ideia!
— Eu não.
Eu não sou um ponto de passagem, Serioja.
Não sou um hotel para onde se pode voltar quando em outro lugar ficou desconfortável.
Você não estava indo embora por ter uma vida ruim.
Você estava indo embora em busca de uma vida melhor.
Então viva nela.
— Liudmila, eu te peço…
— Serioja, ligue para Alina.
Ela recebeu metade do dinheiro do apartamento de Valentina Petrovna.
Que ela também assuma metade da responsabilidade.
Vocês dois se meteram nisso, vocês dois resolvam.
E eu finalmente vou viver para mim.
Ela desligou.
Natália, que ainda estava no apartamento dela, servia chá nas canecas.
— E então?
— Quer voltar.
— E você?
— Eu não.
Sabe, Natacha, é engraçado.
Durante doze anos ele achou que era ele quem vivia comigo.
Mas, na verdade, era eu que vivia com ele.
Por educação.
Por costume.
Porque assim era mais simples.
Agora acabou.
A simplicidade terminou.
Natália colocou uma caneca diante dela.
— À nova vida?
— Ao novo quarto.
Quero uma estante lá, do chão ao teto.
De carvalho.
Com iluminação.
— Bonito.
— Muito.
E na Levoberejnaya, no estúdio que naquela mesma manhã ainda era um templo de romance e de um novo começo, Serguei estava parado entre as caixas e observava Kristina, em silêncio, colocando as coisas dele de volta na mala.
A mesma mala.
Valentina Petrovna se balançava na cadeira e cantarolava baixinho alguma coisa soviética, talvez “Nadejda”, talvez “A terra ficou vazia sem você”.
Ele entendeu que não tinha mais para onde ir.
E que a culpa por isso era somente dele.
FIM








