«Fizeram de mim uma empregada dentro da minha própria casa, até eu dizer “chega”.»

«A família do meu marido decidiu que o meu apartamento é o sanatório gratuito deles.»

Os parentes do marido ocuparam o apartamento dela e não pensavam em ir embora.

Como se tivessem esquecido quem era a verdadeira dona da casa…

Nadejda se distraiu desses pensamentos ao ouvir uma risada atrás de si.

Era uma jovem caixa, que ria baixinho de alguma coisa no telefone.

Na loja estava abafado; o ar-condicionado tinha quebrado ainda em junho, e lá fora já era agosto.

Nadejda passou mecanicamente o código de barras do próximo pacote de trigo-sarraceno.

Ainda havia várias horas de pé pela frente.

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O destino trágico de Zoia no filme «Só os “velhos” vão para a batalha».

Machões de Hollywood que amam homens: confissões sem rodeios.

Unhas com sulcos: o que indica este sintoma incomum?

Hoje ela não usaria isso: os looks mais ousados de Melania.

O verdadeiro Púchkin: fatos desconhecidos e incômodos da sua vida.

As pernas zumbiam, as costas doíam, mas isso era bobagem.

O que acontecia em casa é que era o verdadeiro pesadelo.

Algumas semanas antes, Joana, a irmã de Boris, o seu marido, tinha invadido a casa deles.

Invadido é a palavra certa, e logo de manhã cedo, quando Nadejda estava se preparando para ir ao trabalho.

— Nad’, abre! — Joana batia na porta com força.

— Estamos com um problema!

O problema era simples: no apartamento de Joana estourou a coluna de água.

Alagou tudo, do parquet ao teto.

— Vamos ficar aqui uma semaninha, — tagarelava Joana, arrastando para o corredor enormes bolsas.

— Você não se importa, né?

Somos família!

Boris, claro, concordou na hora, sem nem olhar para Nadejda.

E ela podia dizer o quê?

O apartamento era dela, comprado antes do casamento, e Boris estava sem trabalho havia seis meses: a fábrica dele fechou e demitiram todo mundo.

Agora ele ficava em casa o tempo todo, assistia TV, de vez em quando ligava para anúncios de emprego, mas nada dava certo.

Ou era longe demais, ou pagavam pouco, ou a chefia era jovem e ele achava “desconfortável” trabalhar com gente assim.

Mas que importância isso tinha?

Assim que o assunto era família, Boris esquecia de tudo e estava pronto para dar até o último centavo.

Joana não veio sozinha.

Com ela estavam o marido, Igor, um grandalhão de rosto vermelho com um cigarro eternamente preso entre os dentes, e os filhos — Alina e Kirill, adolescentes.

E como eles eram… como dizer… mal-educados, talvez.

O apartamento de um cômodo na velha “khruschovka” virou uma casa de passagem.

Joana, Igor e as crianças ocuparam o único quarto.

Nadejda e Boris se mudaram para a cozinha; o sofá velho deles mal coube entre a mesa e a geladeira.

Naquela manhã, Nadejda chegou atrasada ao trabalho pela primeira vez em cinco anos.

Enquanto Joana contava as desgraças, enquanto carregavam as coisas e se instalavam, o tempo voou.

A chefe, Galina Serguéievna, apenas balançou a cabeça.

— O que houve com você, Nadejda?

Isso não parece com você.

E ela podia responder o quê?

Que uns parentes tinham se mudado para a casa deles e agora…

Enfim, Nadejda ficou em silêncio.

Naquela mesma noite, começou.

Nadejda voltou do trabalho tarde; as pernas doíam tanto que cada passo era uma fisgada.

Na cozinha havia uma montanha de louça suja.

Joana estava deitada no sofá, assistindo a algum talk-show.

— Nad’, você chegou? — perguntou a cunhada sem virar a cabeça.

— Estamos com fome.

Você não preparou nada de manhã?

Nadejda ficou paralisada.

Preparar?

Quando?

Ela mal tinha conseguido chegar ao trabalho a tempo!

Boris saiu do quarto e espreguiçou-se.

— Nadejda, poxa…

Você podia ter pensado nos convidados.

Convidados.

Assim, de repente, eles viraram “convidados”, e Nadejda tinha que pensar neles.

Ela foi em silêncio para a cozinha, tirou da geladeira as salsichas — o último pacote, que guardava para o fim de semana.

Pôs o macarrão para cozinhar.

As mãos tremiam de cansaço e de mais alguma coisa… de mágoa, provavelmente.

Alina entrou na cozinha, encarou o telefone.

— Nad’, a internet aqui está travando.

Não dá pra arrumar isso direito?

“Nad’”…

Como se ela fosse uma criada qualquer para aquela menina.

Embora… talvez fosse mesmo.

No jantar, Kirill bufou:

— Macarrão?

Eu achei que iam servir comida de verdade.

Joana riu.

— Aguenta, filho.

A tia Nadja está cansada, está vendo?

Amanhã ela faz algo mais gostoso.

Não é, Nad’?

Nadejda assentiu.

E o que mais restava?

Boris mastigava em silêncio, olhando para o prato.

Igor foi para a varanda fumar; nem adiantava, o apartamento inteiro já fedia a tabaco.

Assim passou a primeira semana.

Nadejda acordava cedo, em silêncio, para não acordar ninguém, e preparava o café da manhã para todos.

Joana, em geral, levantava muito mais tarde, tomava café e voltava a se deitar no sofá.

Igor sumia por aí: ou dizia que procurava trabalho, ou ia aos amigos.

As crianças perambulavam pela casa, largavam as coisas espalhadas, exigiam comida.

Quando Nadejda recebeu o salário, viu que não dava.

Já era pouco; quase tudo ia para contas e comida, mas para ela e Boris bastava.

Agora, porém, ela precisava sustentar ainda mais gente.

Mesmo assim, foi ao mercado e comprou carne, legumes, frutas.

Joana fez questão de pedir uvas e pêssegos.

— As crianças precisam de vitaminas, — disse ela.

Metade do salário foi embora em um dia.

— Boris, — ela tentou conversar à noite, quando estavam deitados no sofá rangente, ouvindo o ronco de Igor do outro lado da parede.

— E se pedíssemos para eles contribuírem com as compras?

Eu não aguento.

Boris virou-se para a parede.

— O que é isso, Nadejda?

Eles estão com reforma, de onde vão tirar dinheiro?

Não me faça passar vergonha diante da minha irmã.

Passar vergonha… então é isso.

Ela trabalha de manhã à noite, alimenta os parentes dele com o dinheiro dela, enquanto Boris fica de braços cruzados, e é ela que o envergonha.

Depois ficou pior.

As economias de Nadejda, guardadas para emergências e juntadas ao longo de anos, começaram a derreter.

E então Joana armou um escândalo.

— Nadja, que horror é esse?! — ela apontou para o banheiro.

— Quando foi a última vez que você limpou aqui?

Tem mofo!

O mofo era uma bobagem, uma manchinha.

Mas Joana transformou isso numa história enorme.

Embora Nadejda se lembrasse de que o mofo apareceu porque o filhinho de Joana espirrava água para todo lado ao se lavar, como uma baleia…

— Boris, como você vive numa sujeira dessas?! — indignava-se Joana no almoço.

— A mamãe ficaria horrorizada!

Boris corou e olhou para Nadejda.

— Vai, né…

Você podia cuidar melhor do apartamento.

Os problemas em casa começaram a afetar o trabalho também.

A chefe, Galina Serguéievna, chamou Nadejda de lado.

— Nadja, o que está acontecendo com você?

Você está… perdida.

Erra no caixa, ontem respondeu mal aos clientes.

Ela respondeu mal, sim, aconteceu.

Uma senhora idosa demorava para achar moedas na carteira; atrás, a fila.

E Nadejda não aguentou e disse:

— Por favor, mais rápido, tem gente esperando.

A mulher se ofendeu e reclamou.

— Desculpe, Galina Serguéievna.

Problemas em casa.

— Todo mundo tem problemas, — disse a chefe, com severidade.

— Mas trabalho é trabalho.

Mais uma reclamação e eu vou ter que tomar medidas.

Há cortes previstos, você sabe.

Cortes…

Meu Deus, só isso não.

Sem trabalho, ela se perderia de vez.

E Boris também.

E esses… “convidados”.

Com isso, o humor dela piorou de vez, e em casa Nadejda explodiu.

Ela chegou do trabalho e encontrou Joana usando o único vestido realmente decente que ela tinha.

Azul-escuro, com gola de renda, que Nadejda usava apenas em ocasiões especiais.

— Nad’, você não se importa? — jogou Joana, com descaso.

— Preciso ir à casa de uma amiga, e minhas roupas depois da inundação… enfim… não estão boas.

Vou usar com cuidado, juro.

Não se importa.

E se se importasse?

Nadejda olhou para Boris, mas ele estava grudado na TV.

— Claro, pega, — ela conseguiu dizer, espremendo as palavras.

Joana voltou depois da meia-noite.

O vestido cheirava a perfume alheio e a cigarro.

Na barra havia uma mancha de vinho.

— Ai! — Joana levou as mãos ao rosto.

— Poxa, que chato que aconteceu!

Você leva na lavanderia, tá?

Lá eles tiram, não se preocupe.

Nadejda ficou calada.

Ela queria gritar, chorar, expulsar todos.

Mas ficou calada.

“Interessante”, pensou Nadejda, “quando a minha paciência vai estourar?”.

Logo ela soube a resposta.

Os parentes se recusavam a ir embora.

Nadejda insinuava de um jeito e de outro, mas tudo em vão…

E então, numa manhã, ela ouviu Joana falando ao telefone.

— Está tudo ótimo, Lenka.

Estamos morando na casa do Boris…

Sim, é apertado, mas dá.

A esposa dele atende a gente com serviço completo: cozinha, limpa, lava.

É como um sanatório! — ela riu.

O Boris é esperto, adestrou ela.

Nem reclama.

Nadejda ficou deitada, de olhos fechados.

“Atende”, “nem reclama”…

Então era assim que os parentes do marido a viam: como uma empregada doméstica, uma criada gratuita.

Ela se levantou, se vestiu e saiu de casa em silêncio.

No trabalho, passou o dia inteiro pensando: o que fazer?

Como viver daqui pra frente?

Agüentar?

Mas ela já não tinha forças.

As economias estavam acabando.

E a reforma no apartamento de Joana já deveria ter terminado.

Já tinha passado tempo suficiente: nesse período dava para consertar não só um cano, mas um prédio inteiro.

E então, passando mais uma compra no caixa, ela ouviu uma voz conhecida.

Oxana, a vizinha de Joana, estava comprando mantimentos.

— Nadja? Você? — Oxana se surpreendeu.

— Eu achei que você estivesse de férias.

A Joana disse que você e seu marido estavam descansando no litoral.

— Descansando? — repetiu Nadejda.

— É.

Ela disse que se mudou de propósito para a casa de vocês para “visitar”.

A reforma deles terminou na semana passada, mas ela diz: pra que voltar correndo pra casa, se na casa do irmão é tão bom…

Nadejda sentiu algo se romper por dentro.

A reforma terminou na semana passada.

E eles…

— Oxana, espera, — Nadejda segurou a vizinha pela manga.

— Você tem certeza de que terminou?

— Claro!

Eu passei lá semana passada para pedir sal, e a Joana justamente tinha ido em casa.

Está tudo feito; até colocaram papel de parede novo.

Ficou uma beleza!

A Joana mesma fez um tour, se gabando.

Mas o que foi, Nadja?

Você está pálida…

— Está tudo bem, — Nadejda forçou.

— É só que…

Ela me disse que a reforma estava se arrastando.

E que não tinha dinheiro, que eu estava sustentando vocês, até cuidando deles…

Oxana soltou um risinho irônico.

— Que esperta!

Claro: pra que voltar, quando na casa do irmão tem pensão de graça?

Nadejda assentiu e registrou mecanicamente o resto das compras.

As mãos tremiam, as têmporas pulsavam.

Como ela tinha deixado se enganar desse jeito?

Ela foi para casa como em neblina, parou na entrada do prédio, criando coragem.

O que fazer?

Expulsar Joana e a família dela?

E Boris?

Ele ficaria do lado da irmã, isso era claro como o dia.

Aguentar mais?

Mas até quando?

No apartamento não havia ninguém; só um bilhete sobre a mesa: «Nadja, fomos ao cinema. Faça o jantar. Joana».

Nadejda até mordeu os lábios até doer para não gritar: ficou tão desagradável…

No bilhete havia uma ordem, nem era um pedido.

Como se Nadejda fosse mesmo uma criada.

Ela se sentou no banquinho e ficou olhando pela janela, pensando.

E então Joana e a família dela iam continuar morando ali?

O telefone tocou.

Era Valentina, a colega de trabalho.

— Nadja, você está bem?

A Galina Serguéievna perguntou por que você hoje estava tão… estranha.

— Val’, — Nadejda sentiu de repente que não podia mais ficar calada.

— Posso passar aí?

Agora mesmo?

— Claro, vem.

Vou pôr a chaleira.

Na casa de Valentina, Nadejda finalmente desabafou.

Contou tudo: Joana, Igor e as crianças, como eles a usavam, a reforma que já tinha terminado.

Valentina ouvia e balançava a cabeça.

— Meu Deus…

Como pode, Nadja?

E o seu Boris, para onde ele olha?

— O Boris está do lado deles.

Para ele eu…

Eu nem sei quem eu sou para ele.

Uma empregada, provavelmente, de graça.

Valentina serviu mais chá e olhou com atenção.

— Nadja, você realmente precisa desse Boris?

Sinceramente.

Não trabalha, fica no sofá, coloca a família dele contra você.

Que utilidade ele tem?

Nadejda ficou em silêncio.

E de fato, que utilidade?

O que os prendia?

Hábito?

Medo de ficar sozinha?

Ela já não era jovem; onde acharia outro homem se largasse este?

— Escuta, — Valentina se inclinou.

— E se a gente lhes desse uma lição?

Meu marido, Sérgui, você conhece, é um homem sério, ex-militar.

Ele vai lá e conversa com eles “como homem”.

Aí você vai ver, eles saem na hora.

— Não, — Nadejda balançou a cabeça.

— Não precisa.

Eu mesma resolvo.

Ela voltou para casa tarde da noite.

O apartamento fervilhava de vozes; os “cinéfilos” tinham voltado e exigiam jantar.

Nadejda foi para a cozinha, tirou da geladeira os restos do frango de ontem, cortou pão.

Não havia mais nada.

— Isso é o quê? — Joana olhou para a mesa com desprezo.

— Coisa de ontem?

Nadja, você ficou preguiçosa de vez!

E então Nadejda sentiu que já chega.

Ela finalmente chegou ao limite.

— Joana, — disse ela, calmamente.

— Quando vocês planejam voltar para casa?

— Voltar? — Joana ergueu as sobrancelhas, surpresa.

— O que foi?

Estamos atrapalhando?

— A reforma de vocês terminou na semana passada, eu sei.

Joana corou e depois empalideceu.

— Quem te falou essa besteira?

— A Oxana, sua vizinha.

Ela esteve lá e viu o papel de parede novo.

Joana bufou.

— E daí?

Sim, o grosso da reforma acabou.

Mas ainda falta um monte: comprar móveis novos, pendurar cortinas…

Sei lá quantas coisas, você mesma deveria entender…

— Isso não é motivo para morar aqui, — disse Nadejda, firme.

Boris saltou.

— Nadejda, você está doida?

É minha irmã!

— E este é o meu apartamento, — Nadejda encarou-o.

— Meu, Boris.

Comprado com o meu dinheiro, no meu nome.

E eu não quero mais que a sua irmã, o marido e os filhos morem aqui.

— Ah, é assim?! — Joana deu um grito estridente.

— Boris, você ouviu?

A sua mulher está expulsando a gente!

— Eu não estou expulsando, — Nadejda tentou manter a calma, embora por dentro tudo tremesse.

— Estou pedindo que vocês voltem para a casa de vocês.

A reforma acabou, o apartamento está pronto, então vivam lá.

Igor se levantou e se colocou por cima dela, intimidando.

— Você não está ousada demais, dona da casa?

A gente está aqui temporariamente; você aguenta.

— Não vou aguentar, — cortou Nadejda.

— Amanhã eu quero vocês fora daqui.

— Ou então o quê? — Igor deu um passo mais perto.

— Ou então eu chamo a polícia e faço um boletim por ocupação irregular.

E por vocês terem me enganado, escondendo que a reforma já tinha acabado.

Isso… isso é fraude, talvez…

— Nadejda! — Boris segurou o braço dela.

— O que você está fazendo?

Cai em si!

Ela puxou o braço.

— Eu caí em mim, Boris.

Finalmente, eu caí em mim.

Eu sustentei, lavei roupa, servi.

E você, o que fez por mim?

Nem consegue me defender quando sua irmã me chama de empregada!

— Ninguém te chamou assim!

— Chamou, sim!

Eu ouvi a Joana ao telefone dizendo que eu atendia vocês com serviço completo, que eu nem reclamava!

Joana tentou se justificar.

— Não foi bem assim…

Você entendeu errado…

— Eu entendi certo.

Vocês não me veem como gente; para vocês eu sou uma doméstica gratuita, cozinheira, faxineira.

E o Boris…

O Boris só fica calado e deixa vocês me tratarem assim.

Alina e Kirill estavam num canto, se olhando assustados.

Provavelmente não esperavam uma virada dessas.

— Tá bom, — rosnou Joana.

— Vamos embora, mas você vai se arrepender, Nad’ka.

Boris, arruma as coisas.

Você vem com a gente.

Boris olhou, perdido, para a irmã, depois para a esposa.

— Eu…

Eu não posso simplesmente ir embora.

Minhas coisas…

— As coisas você pega depois, — cortou Joana.

— Ou você fica com sua irmã de verdade, ou com essa…

Ela não terminou, mas ficou claro o que queria dizer.

Nadejda olhou para o marido.

Eles estavam juntos havia tanto tempo; ela o sustentou quando ele perdia o emprego… e isso acontecia com frequência.

Cuidou dele quando ele ficou doente.

Aguentou o mau humor e até as bebedeiras.

E ele… ele ainda estava escolhendo.

— Eu… — Boris baixou a cabeça.

— A Joana tem razão.

Nadejda, você está agindo errado.

Eles são minha família.

— E eu? — perguntou Nadejda, baixinho.

— Eu não sou família?

Boris não respondeu e foi juntar as coisas.

E esse gesto disse mais do que qualquer resposta em palavras…

Uma hora depois, o apartamento ficou vazio.

Joana e os outros entraram no carro sem nem olhar para trás; Boris foi com eles.

Ao sair, Joana atirou por cima do ombro:

— Fica aí com o teu apartamento, mão de vaca.

Quero ver como você vai viver sozinha.

Nadejda fechou a porta e encostou as costas nela.

Meu Deus, que paz.

Dava até para ouvir o relógio fazendo tique-taque no quarto.

Nadejda andou pelo apartamento.

Em todo lugar havia marcas da presença alheia: bitucas amontoadas na varanda, manchas no sofá, louça suja, coisas espalhadas.

Mas isso tudo dava para limpar, lavar, esfregar; isso era bobagem.

Nadejda fez um chá e serviu para si, embora os dedos ainda tremessem de emoção.

De repente, Boris ligou.

— Nadja, pensa bem.

Pede desculpas à Joana, e eu volto.

— Não, — disse ela, com voz firme.

— Você não volta.

E nem precisa.

— Como assim?

Quem é que vai querer você desse jeito e na sua idade?

— Eu.

Eu me quero, entendeu? — respondeu Nadejda e desligou.

Passou um mês.

Boris morava na casa de Joana e dormia numa cama dobrável no corredor.

Ele ligava para Nadejda no começo todo dia, depois com menos frequência, e depois parou de vez.

Nadejda nem esperava mais as ligações.

Por Valentina, soube que Joana o obrigou a procurar emprego: ela se recusou a sustentar um irmão encostado.

Nadejda foi se recompondo aos poucos.

Até a Galina Serguéievna notou a mudança.

— Nadja, você até floresceu!

O que aconteceu?

— Eu comecei a viver, — sorriu Nadejda.

E então chegou uma intimação do tribunal: Boris entrou com pedido de divórcio e partilha de bens.

Ele queria metade do apartamento.

O advogado a quem Nadejda recorreu riu.

— Não se preocupe: o apartamento é anterior ao casamento, está no seu nome, e o Boris nem é registrado lá.

Ele não tem direito nenhum.

E foi assim mesmo.

O divórcio saiu rápido, e o apartamento ficou com Nadejda.

Boris tentou argumentar, gritou no tribunal sobre “bens adquiridos em comum”, mas a juíza apenas balançou a cabeça.

Quando saíram da sala do tribunal, Boris ainda tentou dizer alguma coisa, convencer Nadejda, provocar pena.

Ela não ouviu.

Boris virou passado, e Nadejda não pretendia olhar para trás e viver de lembranças.

Agora ela olhava apenas para o futuro.

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