👑— Prepare os documentos para a venda da dacha, Lena e eu precisamos de dinheiro, ligou o ex-marido. Svetlana desligou o telefone e discou outro nĂșmero


Galina Petrovna chegou à casa da nora naquela terça-feira sem avisar, com dois sacos de mudas e um pote de geleia caseira de groselha.

Svetlana abriu a porta e, ao ver a sogra, sorriu — sinceramente, sem esforço.

Entre elas havia muito tempo se formara uma relação que não se encaixava em nenhuma piada nem em nenhum comentårio maldoso.

— Pensei que os floxes perto da cerca estavam completamente tristes, disse Galina Petrovna, colocando os sacos no chão.

— Trouxe novos.

E geleia.

VocĂȘ gosta dela, eu me lembro.

— Galina Petrovna, a senhora de novo.

Eu pedi para nĂŁo gastar dinheiro.

— Isso nĂŁo Ă© gasto, Sveta.

É prazer.

Também me då alegria.

Svetlana levou os sacos para a cozinha e colocou a chaleira no fogo.

Galina Petrovna sentou-se Ă  mesa e olhou ao redor como de costume.

Aquele apartamento pertencia a Nina Vasilievna, mĂŁe de Svetlana, e as duas mulheres sabiam disso.

Danil também sabia, embora preferisse não se lembrar.

— Como ele está? perguntou Galina Petrovna em voz baixa.

— Danil?

Ele existe.

Vem, vai embora.

Às vezes janta em casa.

Às vezes não.

— Ele sempre foi assim.

Mesmo menino, parecia estar por perto, mas ao mesmo tempo nĂŁo estava.

Achei que, ao se casar, mudaria.

— Não mudou.

— Eu vejo.

Svetlana serviu o chĂĄ nas xĂ­caras e sentou-se em frente a ela.

Ela nĂŁo reclamava.

NĂŁo porque fosse orgulhosa, mas porque reclamar era inĂștil.

Danil não a ofendia, não fazia escñndalos — ele simplesmente estava ausente.

Fisicamente, estava no apartamento, mas sua presença era sentida não mais do que a sombra de um armårio.

— Eu me lembro de como a senhora me ajudou naquela Ă©poca, disse Svetlana.

— Com o carro.

Se nĂŁo fosse a senhora, eu nĂŁo teria conseguido.

Eu precisava viajar para longe todos os dias, e dinheiro nĂŁo havia absolutamente nenhum.

— Pare com isso.

Depois vocĂȘ me retribuiu em dobro.

Quando nasceu o menino de Katia e precisávamos de um massagista — não qualquer um, mas um bom.

VocĂȘ encontrou um por meio de conhecidos em dois dias.

Eu mesma teria procurado por um mĂȘs.

— Não foi difícil.

— Para vocĂȘ, nĂŁo foi difĂ­cil.

Para mim, foi uma salvação.

EntĂŁo estamos quites, Sveta.

Elas tomavam chá e conversavam sobre nada em especial — sobre as mudas, sobre os vizinhos da dacha, sobre o fato de que a macieira perto do portão daria uma boa colheita naquele ano.

Galina Petrovna se animava quando o assunto chegava Ă  dacha.

Aquela dacha pertencia a Svetlana — ela a herdara do avî —, mas foi Galina Petrovna quem lhe deu vida.

Ela colocou o terreno em ordem, plantou flores e fez canteiros.

Svetlana nĂŁo tinha tempo para cuidar disso, e a dacha ficara abandonada por anos.

— No fim de semana vou para lá, disse Galina Petrovna.

— É preciso cobrir as rosas antes que as noites fiquem completamente frias.

— Claro.

VĂĄ.

A senhora sabe que lĂĄ Ă© como se fosse sua casa.

Galina Petrovna assentiu com gratidĂŁo.

Svetlana realmente sentia isso.

A sogra na dacha significava que a dacha vivia.

Sem ela, o terreno voltaria a se transformar em um matagal abandonado.

Danil chegou em casa na sexta-feira, depois dos feriados.

NĂŁo estava sozinho.

Atrás dele estava uma mulher — baixa, loira, com o casaco desabotoado.

Svetlana saiu para o corredor ao som da porta se abrindo e parou.

Olhou para o marido, depois para a mulher.

Depois novamente para o marido.

Ela jĂĄ sabia.

Não especificamente sobre aquela mulher, mas sabia — tudo caminhava para isso.

O distanciamento dos Ășltimos meses, as noites vazias, o olhar que passava por ela sem parar.

Tudo se juntava em uma Ășnica imagem, e Svetlana nĂŁo fingiu estar surpresa.

— Precisamos conversar, começou Danil.

A voz era calma, ensaiada.

— Converse.

— Vou pedir o divórcio.

Esta Ă© Lena.

Vamos ficar juntos.

— Está bem.

Danil piscou.

Ele claramente se preparara para outra coisa — para gritos, para perguntas como “por quĂȘ” e “como vocĂȘ pĂŽde”.

Svetlana nĂŁo lhe deu nada disso.

Ela ficou de pé, ereta, com os braços ao longo do corpo e o rosto calmo.

— Está bem? perguntou ele.

— É sĂł isso que vocĂȘ vai dizer?

— E o que vocĂȘ quer ouvir?

Que estou desesperada?

Eu nĂŁo estou desesperada, Danil.

VĂĄ arrumar suas coisas.

Ele foi para o quarto.

Lena ficou no corredor.

Por alguns segundos, ficou calada, mudando o peso de um pé para o outro, depois deu um passo em direção a Svetlana.

— Svetlana, eu gostaria


NĂŁo guarde rancor.

Aconteceu assim.

Ninguém planejou.

Svetlana olhou para ela — não com raiva, não com desprezo, mas como se olha para uma desconhecida em uma fila.

Sem interesse.

Depois se virou e entrou no escritĂłrio.

Fechou a porta.

Sentou-se Ă  mesa.

Abriu o notebook.

Lena ficou sozinha no corredor.

Do quarto vinham sons — farfalhar, portas do armário batendo.

Danil arrumava suas coisas.

Cerca de quarenta minutos depois, ele saiu com duas bolsas.

Olhou para a porta fechada do escritĂłrio.

Aproximou-se.

Levantou a mĂŁo para bater.

NĂŁo bateu.

Baixou a mĂŁo.

Pegou as bolsas e saiu do apartamento.

Dois dias depois, a sogra chegou.

Ela ligou antes e pediu permissĂŁo.

Svetlana abriu a porta.

Galina Petrovna parecia nĂŁo dormir havia dois dias.

Os olhos estavam vermelhos, os lĂĄbios apertados.

— Sveta.

Vim pedir desculpas.

Pelo meu filho.

Eu nĂŁo o criei assim.

NĂŁo sei o que aconteceu com ele.

— Galina Petrovna, a senhora não tem culpa de nada.

— Tenho culpa.

Ele Ă© meu filho.

Isso significa que em algum lugar eu nĂŁo vi o suficiente.

Em algum lugar eu errei.

— Ele Ă© um homem adulto.

Ele tomou uma decisĂŁo.

A senhora nĂŁo tem nada a ver com isso.

A sogra sentou-se em uma cadeira no hall e ficou em silĂȘncio por alguns segundos.

Depois levantou a cabeça.

— Vou juntar minhas coisas na dacha e sair de lá.

É sua e de Danil


Ou melhor, Ă© sua dacha.

Agora me sinto desconfortĂĄvel.

— Galina Petrovna, espere.

A dacha Ă© minha.

Herança do meu avÎ.

Danil não tem relação nenhuma com ela.

— Ainda mais.

Que direito eu tenho de ficar lĂĄ se vocĂȘ e meu filho se separaram?

— A senhora tem esse direito porque eu peço que fique.

Se a senhora for embora, a dacha voltarĂĄ a virar uma ruĂ­na.

Eu vou lĂĄ uma vez por mĂȘs.

E, quando vou, me sinto em casa.

Porque foi a senhora que fez dela uma casa.

— Sveta


— Não se apresse.

Não tome decisÔes movida pela emoção.

Fique.

Nada mudou.

Galina Petrovna começou a chorar.

Baixinho, por pouco tempo.

Enxugou os olhos, endireitou-se e assentiu.

O divĂłrcio foi formalizado rapidamente.

O apartamento pertencia a Nina Vasilievna.

Danil nĂŁo podia reivindicĂĄ-lo e nĂŁo o fez.

A dacha estava registrada em nome de Svetlana.

Danil tambĂ©m nĂŁo a reivindicou — naquele momento.

Naquele momento, ele estava ocupado com outra coisa: uma nova vida, uma nova mulher, um novo começo.

Passaram-se quatro meses.

Svetlana estava voltando para casa quando o telefone tocou.

Era o nĂșmero de Danil.

Ela atendeu.

— Prepare os documentos para a venda da dacha, disse ele sem cumprimentar.

— Lena e eu precisamos de dinheiro.

Svetlana ficou em silĂȘncio por exatamente dois segundos.

NĂŁo por confusĂŁo — por surpresa diante de tanta insolĂȘncia.

— Não, disse ela.

— Sveta, vamos resolver isso normalmente.

Eu trabalhei duro lĂĄ.

Coloquei a cerca, consertei o telhado.

— Quem colocou a cerca foi seu amigo Igor.

O telhado foi consertado por trabalhadores contratados.

Com o meu dinheiro.

A dacha Ă© minha.

Pelos documentos.

Pela lei.

Pela consciĂȘncia.

— VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio agora?

Eu preciso de dinheiro.

NĂŁo estou pedindo a quantia toda.

A metade.

— Metade da minha herança?

Danil, vocĂȘ precisa ir ao mĂ©dico?

— Estou ouvindo uma mulher gananciosa que não consegue dividir os bens de forma normal.

Svetlana desligou.

Com calma.

Sem bater, sem estalo.

Apenas apertou o botĂŁo.

Depois discou outro nĂșmero.

— Galina Petrovna.

OlĂĄ.

Danil acabou de ligar.

Exigiu que eu vendesse a dacha.

Ele e Lena precisam de dinheiro.

Do outro lado, houve uma longa pausa.

— Ele disse “exigiu”?

— Exatamente assim.

Exigiu.

Como se fosse propriedade dele.

— Sveta, eu


Eu nĂŁo sei o que dizer.

— A senhora não precisa dizer nada.

Eu sĂł quero que saiba.

NĂŁo vou vender a dacha.

A senhora mora lĂĄ, e vai continuar lĂĄ.

— Sveta, escute.

Eu penso nisso hĂĄ muito tempo.

Tenho um apartamento — de um quarto, praticamente não o uso.

Posso vendĂȘ-lo.

Darei parte do dinheiro a Danil, para que ele nos deixe em paz.

Parte darei a Katia.

Parte colocarei em um depĂłsito.

E eu mesma vou morar na dacha.

Se vocĂȘ nĂŁo se importar.

— Galina Petrovna, a senhora nĂŁo Ă© obrigada.

— Eu sei que não sou obrigada.

Mas eu quero.

O apartamento fica vazio.

Vou lĂĄ uma vez por semana para pegar a correspondĂȘncia.

Para que preciso de paredes nas quais nĂŁo vivo?

— A senhora tem certeza?

— Absoluta.

Svetlana ficou sentada no carro, olhando Ă  frente.

A decisão fora tomada — não por ela, mas com seu consentimento silencioso.

Ela nĂŁo jogava o problema para outra pessoa.

Ela nĂŁo adiava.

Danil queria dinheiro — ele receberia dinheiro.

Mas nĂŁo de Svetlana.

E nĂŁo Ă s custas de sua propriedade.

Uma semana depois, Svetlana ligou para a amiga.

Marina estava em casa, mexendo em alguma coisa, e atendeu no quarto toque.

— Marinka.

Aconteceu uma coisa.

Galina Petrovna estĂĄ vendendo o apartamento.

E quer morar na dacha.

— Espera.

É sua sogra?

Ex-sogra?

— Ex.

Sim.

— E o que ela tem a ver com a sua dacha?

— Ela mora lá.

JĂĄ faz dois anos.

Cuida do terreno.

Eu permiti.

— Svet, eu não me meto nos assuntos dos outros.

VocĂȘ sabe.

Mas isso é uma situação estranha.

Sua ex-sogra mora na sua dacha.

Seu ex-marido exige que essa dacha seja vendida.

E a sogra, em vez de ficar do lado do filho, vende o prĂłprio apartamento.

— Exatamente.

— Certo.

VocĂȘ Ă© adulta.

Faça como achar melhor.

SĂł me diga — vocĂȘ confia nela?

— Em Galina Petrovna?

Sim.

Mais do que eu confiava no filho dela.

Marina ficou em silĂȘncio.

Depois disse baixinho:

— Então me mantenha informada.

Galina Petrovna vendeu o apartamento em um mĂȘs.

O comprador apareceu rapidamente — o bairro era bom, o preço razoável.

Ela dividiu o dinheiro em trĂȘs partes: uma parte deu a Danil, uma parte Ă  filha Katia, e uma parte colocou em um depĂłsito.

Danil veio buscar o dinheiro no mesmo dia em que ele caiu na conta.

NĂŁo agradeceu.

NĂŁo perguntou como ela estava.

Pegou — e foi embora.

Galina Petrovna ligou para Svetlana Ă  noite.

— Pronto.

O apartamento nĂŁo existe mais.

Danil recebeu a parte dele.

Katia recebeu a dela.

Estou na dacha.

Se vocĂȘ mudar de ideia, diga diretamente, eu encontro para onde ir.

— Galina Petrovna.

Eu nĂŁo vou mudar de ideia.

More aĂ­.

A dacha Ă© sua casa enquanto a senhora quiser.

— Obrigada, Sveta.

VocĂȘ Ă© melhor do que meu filho merecia.

Nina Vasilievna ligou para a filha no sĂĄbado de manhĂŁ.

Falou pouco, de forma prĂĄtica, como sempre.

— Svetlana, Marina me contou.

Sobre a dacha, sobre a sogra.

O que estĂĄ acontecendo?

— Nada novo.

Danil queria dinheiro.

Recebeu — da mãe dele, não de mim.

Agora, espero que me deixe em paz.

— E Galina Petrovna agora está sem moradia?

— Ela está na dacha.

Por vontade prĂłpria.

Eu nĂŁo a obriguei.

— Não estou dizendo que obrigou.

Estou perguntando se vocĂȘ entende o que estĂĄ fazendo.

— Entendo.

Ela Ă© uma boa pessoa.

Ela nĂŁo tem culpa de o filho dela ter se tornado assim.

— Está bem.

VocĂȘ Ă© adulta.

As decisÔes são suas.

Mas, se algo der errado, ligue.

— Vou ligar.

Nina Vasilievna desligou.

Ela havia muito tempo deixara de se intrometer na vida da filha.

Não por indiferença — por respeito.

Desde os quinze anos, Svetlana tomava decisÔes sozinha.

Às vezes errava.

Mas, na maioria das vezes, nĂŁo.

Enquanto isso, Danil comprou um carro.

Toda a quantia que a mãe lhe dera, ele investiu no automóvel — novo, brilhante, caro.

Lena ficou satisfeita.

Igor, seu amigo, deu-lhe um tapinha no ombro.

— Que beleza!

Isso sim Ă© vida.

E essa sua Svetlana Ă© uma sovina.

Podia ter dividido alguma coisa.

O apartamento, tudo bem, Ă© da sogra.

Mas a dacha — era vida em comum, rotina em comum.

— A dacha está registrada no nome dela, disse Danil.

— E daí?

VocĂȘ morou lĂĄ.

VocĂȘ investiu lĂĄ.

— Ela diz que eu não investi.

— Bobagem.

VocĂȘ Ă© marido.

Foi.

EntĂŁo tem direito moral.

— Moral nĂŁo Ă© jurĂ­dico.

— Escuta, sua mãe ainda mora lá?

— Mora.

E daĂ­?

— Então


Se sua mĂŁe mora lĂĄ, isso significa que, na prĂĄtica, Ă© a casa dela.

VocĂȘ pode ir visitar sua mĂŁe?

Pode.

Ela vai deixar vocĂȘ entrar?

Vai.

E depois — quem vai expulsar vocĂȘ de lĂĄ?

Talvez a dacha jĂĄ seja dela?

Danil olhou para Igor.

Algo estalou em sua cabeça.

A ideia lhe pareceu lĂłgica, bonita, impecavelmente simples.

A mãe mora na dacha — então a dacha, na prática, pertence à mãe.

Ele Ă© o filho.

EntĂŁo pode ir para lĂĄ.

— Lena, disse ele à noite.

— Eu tive uma ideia.

Vamos nos mudar para fora da cidade.

Para a dacha.

Minha mĂŁe estĂĄ lĂĄ sozinha, ela vai gostar.

O terreno é grande, a casa é espaçosa.

Vai dar para nĂłs.

— E Svetlana?

— Svetlana não mora lá.

Ela aparece uma vez por mĂȘs.

A dacha Ă© da minha mĂŁe.

— VocĂȘ tem certeza de que Ă© uma boa ideia?

— Absoluta.

Arrume as malas.

Lena arrumou.

Duas malas grandes, trĂȘs caixas.

Danil colocou tudo no carro novo.

Eles foram em silĂȘncio.

Lena olhava para o lado e mordia o lĂĄbio.

Depois do divórcio, ela tentara criar uma relação com Galina Petrovna — ligava, propunha encontros.

Galina Petrovna recusava educadamente todas as vezes.

NĂŁo de forma rude.

Apenas nĂŁo.

Sem explicaçÔes.

— Danil, vocĂȘ ligou para sua mĂŁe?

Avisou?

— Para quĂȘ?

Eu sou filho dela.

Vou chegar, e ela ficarĂĄ feliz.

— VocĂȘ tem certeza?

— Lena, chega de perguntas.

Eu sei o que estou fazendo.

O carro parou perto do portĂŁo.

Danil saiu e olhou ao redor.

O terreno estava excelente — gramado aparado, caminhos retos, canteiros de flores ao longo da cerca.

A macieira perto do portĂŁo estava carregada de frutos.

A casa estava recém-pintada, com novos acabamentos nas janelas.

Galina Petrovna havia colocado naquele lugar todo o seu tempo e suas forças.

Danil abriu o portão e foi em direção à casa.

Lena ficou junto ao carro.

Galina Petrovna saiu para a varanda.

Ela olhava para o filho — sem sorriso, sem alegria.

Com uma expressĂŁo pesada e imĂłvel.

— Oi, disse Danil.

— Chegamos.

Decidimos nos mudar para fora da cidade.

Trouxe as coisas.

— Que coisas?

— Nossas.

Minhas e de Lena.

Malas, caixas.

Vamos morar aqui por um tempo.

Hå espaço suficiente.

A mĂŁe nĂŁo se mexeu da varanda.

Ela estava de pé, apoiando a mão no corrimão.

— Danil.

VocĂȘ ligou para Svetlana?

— Por que eu ligaria para Svetlana?

VocĂȘ mora aqui.

Eu vim atĂ© vocĂȘ.

— Eu moro aqui.

Mas estou aqui como convidada.

Esta nĂŁo Ă© minha casa.

É a casa de Svetlana.

Ela me permitiu ficar.

A vocĂȘ, ela nĂŁo permitiu.

Danil parou no meio do caminho até a varanda.

O sorriso começou a desaparecer de seu rosto.

— Como assim?

VocĂȘ Ă© minha mĂŁe.

Eu vim atĂ© vocĂȘ.

— VocĂȘ veio Ă  casa de outra pessoa.

Sem convite.

Com malas.

E com a mulher por causa de quem destruiu seu casamento.

VocĂȘ realmente achou que eu abriria a porta?

— VocĂȘ nĂŁo vai abrir a porta para seu prĂłprio filho?

— Não vou abrir a porta de outra pessoa.

Esta nĂŁo Ă© minha porta, Danil.

É a porta de Svetlana.

Vou ligar para ela e perguntar.

— NĂŁo ligue para ninguĂ©m!

Isso Ă© absurdo!

— NĂŁo Ă© absurdo.

É decĂȘncia.

Espere.

Galina Petrovna tirou o telefone e ligou para Svetlana.

— Sveta.

Danil chegou.

Com malas.

Com a mulher dele.

Quer morar aqui.

O que vocĂȘ diz?

Do outro lado houve uma breve pausa.

Depois veio a voz de Svetlana — firme, sem emoção, sem tremor:

— Galina Petrovna, meu ex-marido e a mulher dele nĂŁo tĂȘm nada a fazer na minha dacha.

Esta Ă© a minha casa.

Ele nĂŁo foi convidado para lĂĄ.

Nem hoje, nem amanhĂŁ, nem nunca.

— Entendi.

Obrigada, Sveta.

Galina Petrovna guardou o telefone e olhou para o filho.

— Ouviu?

— Ela não pode me proibir!

— Pode.

A dacha Ă© propriedade dela.

VocĂȘ sabe muito bem disso.

Danil ficou parado no meio do caminho.

Lena saiu do carro e se aproximou.

Ela havia ouvido a conversa.

Seu rosto estava tenso, pĂĄlido.

— Danil, vamos embora.

Por favor.

Não faça isso.

— Espere! retrucou ele.

— MĂŁe, vocĂȘ entende que eu nĂŁo tenho apartamento?

O dinheiro que vocĂȘ me deu eu investi no carro.

NĂŁo tenho para onde ir.

— VocĂȘ investiu o dinheiro do apartamento vendido — do meu apartamento — em um pedaço de metal?

Todo o dinheiro?

— Foi uma compra sensata.

— Uma compra sensata.

Por causa de rodas.

E agora vocĂȘ estĂĄ aqui exigindo o teto de outra pessoa.

Danil, eu dei Ă  luz a vocĂȘ.

Eu amo vocĂȘ.

Mas nĂŁo vou trair por sua causa uma pessoa que agiu comigo com decĂȘncia.

— VocĂȘ escolhe a ex-nora?

Em vez do filho?

— Eu escolho a consciĂȘncia.

Eu não escolhi a ex-nora — ela mesma escolheu continuar sendo decente.

E vocĂȘ mesmo escolheu se tornar assim.

Danil virou-se para Lena.

Lena olhava para ele, e em seus olhos havia algo novo — não apoio, não admiração, não confiança.

Algo parecido com decepção.

— Lena, diga alguma coisa.

— O que vocĂȘ quer que eu diga, Danil?

VocĂȘ disse que tinha um plano.

Que nos mudarĂ­amos para fora da cidade.

Que tudo estava resolvido.

Nada estĂĄ resolvido.

NĂŁo temos apartamento.

NĂŁo temos economias.

Temos um carro, no qual agora, pelo visto, vamos morar.

— Eu não podia saber que minha mãe recusaria!

— VocĂȘ podia ter ligado.

Podia ter perguntado.

VocĂȘ nĂŁo fez nada.

Como sempre.

Ela se virou e foi para o portĂŁo.

Danil ficou sozinho.

Galina Petrovna estava na varanda.

Entre eles havia o caminho, revestido com placas bem alinhadas.

Nas bordas, havia cravos-de-defunto, laranja e amarelos, ainda vivos, ainda brilhantes.

— Danil, disse a mãe.

— Vá embora.

Encontre um apartamento alugado.

Ponha sua vida em ordem.

Quando voltar a si, ligue.

NĂŁo para cĂĄ.

Para mim.

No meu nĂșmero.

Mas nĂŁo traga malas.

E nĂŁo traga Lena.

E nĂŁo venha com exigĂȘncias.

— VocĂȘ me traiu, disse ele.

— Não.

Foi vocĂȘ quem traiu.

Primeiro sua esposa.

Depois, a si mesmo.

E eu apenas parei de fingir que nĂŁo percebia.

Danil se virou e foi até o carro.

O porta-malas estava cheio de coisas.

Lena jĂĄ estava sentada no banco do passageiro, virada para a janela.

Ele se sentou ao volante.

Por muito tempo nĂŁo ligou o motor.

Depois ligou e arrancou.

O carro desapareceu atrĂĄs da curva.

Galina Petrovna ficou de pé na varanda.

Tirou o telefone.

Ligou para Svetlana.

— Sveta.

Ele foi embora.

— A senhora está bem?

— Não exatamente.

Mas vou ficar.

Obrigada por nĂŁo ceder.

— Galina Petrovna.

Esta Ă© a minha casa.

E a senhora Ă© minha pessoa.

NĂŁo havia nada a ceder.

— Sabe, Sveta


Ele gastou o dinheiro no carro.

Tudo, atĂ© o Ășltimo copeque.

— Não estou surpresa.

— Eu estou.

Sempre fico surpresa.

Embora, ao que parece, jĂĄ esteja na hora de parar.

— Descanse.

Vou aĂ­ no sĂĄbado.

Levarei uma torta de maçã.

— VocĂȘ nĂŁo sabe fazer torta de maçã.

— Eu compro.

Galina Petrovna sorriu.

Guardou o telefone e voltou para dentro de casa.

Fechou a porta.

Colocou a chaleira no fogo.

Do lado de fora da janela estavam o terreno, as flores, a macieira.

Tudo estava em seu lugar.

Tudo estava vivo.

E Danil seguia pela estrada, e o carro novo — brilhante, caro — agora lhe parecia exatamente aquilo que era de verdade: uma caixa bonita, completamente vazia.

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