Stepan estava sentado Ă frente dela, girando um isqueiro entre os dedos, sem levantar os olhos.
Lena esperava.

Em seis anos, ela aprendera a ler o silĂŞncio dele, e agora aquele silĂŞncio dizia mais do que quaisquer palavras.
— Len, — ele finalmente soltou o ar.
— Quero que nos separemos.
Ela nĂŁo estremeceu.
NĂŁo suspirou.
Apenas colocou as palmas das mĂŁos sobre a mesa e endireitou lentamente as costas.
— Tens a certeza? — perguntou ela com calma.
— Sim.
Penso nisso há muito tempo.
NĂŁo quero arrastar isto e fingir.
Lena assentiu.
Seis anos em apartamentos alugados, faculdade, depois trabalho, depois ainda mais trabalho.
Viviam como dois passageiros no mesmo comboio — lado a lado, mas cada um olhando pela sua própria janela.
— Está bem, — disse ela.
— Se decidiste, não vou tentar convencer-te.
— Assim tão simples? — Stepan levantou os olhos, e neles passou algo parecido com surpresa.
— Esperavas que eu me atirasse de joelhos?
— Não.
SĂł pensei que seria mais difĂcil.
Lena levantou-se e ligou a chaleira.
As mãos moviam-se por hábito — chávena, chá, açúcar.
Ela repetira esses movimentos todas as manhĂŁs durante os Ăşltimos seis anos, e agora eram as Ăşltimas vezes.
— Vou ligar para Galina Petrovna, — disse Lena.
— Vais contar tu mesmo ou queres que eu conte?
— Eu mesmo.
SĂŁo assuntos meus.
— Nossos, — corrigiu ela suavemente.
— Por enquanto, ainda são nossos.
Entregaram os documentos uma semana depois.
Tudo aconteceu em silĂŞncio, sem gritos nem divisĂŁo de bens.
Na verdade, não havia nada para dividir — nem apartamento, nem poupanças, nem filhos.
Marina, amiga de Lena, ligou naquela mesma noite.
— Estás a falar a sério?
Simplesmente aceitaste?
— E o que eu devia fazer, agarrar-me a uma pessoa que quer ir embora? — Lena sentou-se na cama e prendeu o cabelo num rabo de cavalo.
— Isso é humilhante.
— Mas foram seis anos, Len!
— Seis anos não são argumento.
Se já não há sentimentos, o tempo não ajuda.
— Estás calma demais.
Isso assusta.
— Não estou calma.
SĂł nĂŁo vejo sentido em gritar.
Marina ficou em silĂŞncio por um momento.
— E a tua sogra?
Como reagiu Galina Petrovna?
— Stepan ligou para ela.
Ela ficou triste, mas disse que nĂŁo se meteria na vida dos outros.
Ela sempre foi assim — delicada.
— Uma raridade, — concordou Marina.
Lena nĂŁo contou Ă amiga que chorou depois da chamada de Galina Petrovna.
Não por causa de Stepan — por causa dela.
Porque a sogra disse: “Lenochka, foste como uma filha para mim.
Perdoa-nos.”
Dois meses depois, o divĂłrcio foi oficializado.
Lena juntou as suas coisas e levou-as para a casa de uma conhecida que tinha um quarto vazio.
A vida começou a seguir separada — estranha, incomum, mas sem desespero.
E entĂŁo Stepan ligou.
— Len, a minha mãe está mal.
Está no hospital.
— O que aconteceu?
— Um AVC.
O lado direito ficou paralisado.
Ela está acamada.
Lena chegou no mesmo dia.
Galina Petrovna estava deitada numa cama de hospital, pequena, pálida, com a boca torta.
Ao ver Lena, começou a chorar.
— Não chore, Galina Petrovna.
Tudo vai ficar bem.
Estou aqui.
Stepan estava encostado Ă parede, olhando para o chĂŁo.
— Obrigado por teres vindo, — disse ele em voz baixa.
— Não foi por tua causa, — respondeu Lena.
Durante trĂŞs semanas, Lena foi ao hospital.
Alimentava-a, virava-a, conversava com ela.
Stepan aparecia uma vez sim, outra nĂŁo.
Lena suportava, nĂŁo contava, nĂŁo comparava.
Fazia aquilo por afeto — durante seis anos, Galina Petrovna fora uma pessoa próxima para ela.
Mas um dia, sentada no quarto, Lena olhou para as próprias mãos e compreendeu: já não era esposa.
Era uma pessoa de fora, mudando os lençóis de uma mulher de outra famĂlia.
E aquela mulher nĂŁo lhe era estranha pelos sentimentos, mas era estranha perante a lei.
— Galina Petrovna, — Lena sentou-se na beira da cama.
— Preciso dizer-lhe uma coisa.
A mulher mais velha virou a cabeça e olhou para ela com o olho saudável.
— Já não poderei vir.
Perdoe-me.
— Eu sei, — sussurrou Galina Petrovna.
— Já fizeste mais do que podias.
— Tenho vergonha de ir embora.
— Não deves ter vergonha.
Quem devia ter vergonha Ă© outra pessoa.
Lena inclinou-se, beijou-a na tĂŞmpora e saiu.
Ă€ porta do quarto, encontrou Stepan.
— Aonde vais? — perguntou ele.
— Para casa.
Stepan, nĂŁo vou mais vir aqui.
O rosto dele mudou.
Não de imediato — primeiro veio a confusão, depois a irritação, depois a raiva.
— Estás a abandonar uma pessoa doente?
— Não estou a abandonar ninguém.
Estou a voltar para a minha vida.
Aquela mesma vida que me ofereceste quando pediste o divĂłrcio.
— Mas ela precisa de ajuda!
— Ela precisa de um filho, Stepan.
NĂŁo de uma ex-nora.
Ele agarrou-a pelo cotovelo.
— Vais aparecer, limpar, cozinhar e ir embora.
Vais morar com a minha mĂŁe, ela nĂŁo consegue sozinha.
Tu és obrigada.
Lena libertou cuidadosamente o braço.
— Não te devo nada.
Estamos divorciados.
Lembras-te?
— Viveste seis anos às minhas custas!
— Às tuas custas, Stepan?
Nós dois trabalhávamos.
Nós dois pagávamos o apartamento alugado.
Separámo-nos de forma justa.
Ele recuou e cerrou os dentes.
Lena passou por ele.
Quatro anos passaram rapidamente, como passa tudo o que Ă© cheio de movimento.
Lena conheceu Artiom por acaso — no aniversário de conhecidos em comum.
Ele puxou uma cadeira para ela, ela disse “obrigada”, e daquele “obrigada” nasceu uma vida.
Um ano e meio depois, casaram-se no civil.
Mais um ano depois nasceu Sonia — pequenina, de olhos cinzentos e testa franzida, tão parecida com Artiom que chegava a ser engraçado.
Marina apareceu com presentes e uma avalanche de perguntas.
— Então, como estás?
A maternidade e tudo isso?
— Não durmo o suficiente, — sorriu Lena.
— Mas é outra vida, Marin.
Completamente diferente.
— Artiom ajuda?
— Levanta-se à noite sozinho.
Sem despertador, sem eu pedir.
— Uau.
Segura-o com as duas mĂŁos.
— Estou a segurar.
Lena e Artiom compraram um terreno fora da cidade.
Grande, numa encosta, com vista para um bosque de bétulas.
Começaram a construir uma casa.
As fundações foram feitas em junho, as paredes levantadas até setembro.
O dinheiro desaparecia depressa — a construção engolia tudo.
Artiom contava cada rublo.
— Len, se vendermos a garagem, chega para as lajes.
Mas depois, para os acabamentos, fica zero.
— Esperamos com os acabamentos.
O telhado Ă© mais importante.
— Concordo.
Conversavam Ă noite, quando Sonia adormecia.
Espalhavam orçamentos, calculavam, riscavam, calculavam de novo.
Faltava dinheiro, mas não havia desespero — havia a teimosia de duas pessoas que sabiam exatamente o que queriam.
E entĂŁo, um dia, em meados de outubro, o telefone tocou.
NĂşmero desconhecido.
Lena atendeu.
— Lenochka? — a voz era fraca, rouca.
— É Galina Petrovna.
Desculpa incomodar.
Lena sentou-se.
O coração começou a bater mais rápido.
— Galina Petrovna.
Boa tarde.
Como está?
— Mal, Lenochka.
Muito mal.
Há meio ano quase não me levanto.
— E Stepan?
Pausa.
Uma respiração pesada no telefone.
— Stepan desapareceu.
Passou aqui há um ano e meio.
Deixou um saco de compras.
Desde então — silêncio.
Lena fechou os olhos.
— Não envia dinheiro?
— Não.
A pensĂŁo e o subsĂdio sĂŁo tudo o que tenho.
NĂŁo chega para uma cuidadora.
A vizinha passa por aqui, mas ela tem a vida dela.
— Entendi.
Vou ligar-lhe de volta, Galina Petrovna.
— Obrigada por me ouvires.
Eu sei que nĂŁo tenho o direito de pedir.
— Vou ligar de volta.
Lena desligou e ficou muito tempo sentada, olhando para a parede.
Artiom entrou e viu o rosto dela.
— O que aconteceu?
— A minha ex-sogra ligou.
Está acamada, sozinha, sem dinheiro, sem filho.
— E o filho?
— Desapareceu.
Como sempre.
Artiom sentou-se ao lado dela e colocou a mĂŁo no seu ombro.
— E o que queres fazer?
— Para começar, ligar para Stepan.
Ela encontrou o número dele em anotações antigas.
Ligou.
Toques longos.
Mais uma vez.
E outra.
Na quarta tentativa, ele atendeu.
— Alô.
— Stepan, é a Lena.
— Lena? — havia irritação na voz dele.
— O que queres?
— A tua mãe está sozinha, acamada.
Sabes disso?
— Bem…
— E então?
— E o que devo fazer?
Tenho a minha vida, os meus problemas.
NĂŁo posso dividir-me em dois.
— Ela é tua mãe, Stepan.
— E da�
É uma pessoa adulta.
Recebe pensĂŁo, recebe subsĂdio.
— Isso não chega.
Ela precisa de ajuda.
Fisicamente e financeiramente.
— Len, por favor.
Eu prĂłprio moro num apartamento alugado.
NĂŁo tenho dinheiro sobrando.
— Não se trata de dinheiro sobrando.
Trata-se do necessário.
— Não posso.
Assunto encerrado.
— Ao menos vai vê-la.
— Irei.
Quando puder.
Ele desligou.
Lena olhou para o ecrĂŁ apagado, depois para Artiom.
— Ele não vai, — disse ela.
— Acabaste de falar com ele.
— Justamente por isso sei.
Dá para ouvir pela voz — ele não vai.
Mas Stepan foi.
Uma semana depois.
Lena soube por Galina Petrovna, que ligou Ă noite.
— Lenochka, ele esteve aqui hoje.
Ficou sentado vinte minutos.
Bebeu chá e disse que com ele estava tudo bem.
— E sobre a ajuda?
— Eu comecei a falar.
Ele disse… — a voz de Galina Petrovna falhou.
— Ele disse que ligaria para ti.
Lena esperou.
A chamada veio no dia seguinte.
— Len, — Stepan falava animado, quase alegre.
— Fui ver a minha mãe.
— Eu sei.
— Ouve, tu entendes — ela é apegada a ti.
Ela pede por ti.
NĂŁo por mim.
— Do que estás a falar?
— Bem, vai até lá.
Ajuda-a.
Tu moras perto.
— Stepan, eu moro noutro bairro.
Tenho uma criança.
Tenho marido.
Tenho uma obra.
— Então não todos os dias.
Passas uma vez por semana, arrumas, preparas comida.
Tu sabes fazer isso.
Sempre soubeste.
— Estás a falar sério agora?
— Absolutamente.
És a ex-nora, tinhas uma boa relação com a minha mãe.
EntĂŁo continua.
— E tu és o único filho dela.
Filho de sangue.
Pela lei.
— Len, não comeces.
Fisicamente, nĂŁo posso.
— Não podes ou não queres?
— Qual é a diferença?
O resultado Ă© o mesmo.
Lena ficou em silĂŞncio.
Depois disse:
— A diferença é enorme, Stepan.
Mas não dá para te explicar isso.
Lena foi sozinha até Galina Petrovna.
Sozinha.
Chamou um táxi, comprou frutas e um pacote de caldo pelo caminho.
O apartamento parecia abandonado.
Pó nas prateleiras, louça suja na pia, medicamentos espalhados na mesinha de cabeceira.
Galina Petrovna estava deitada na sala grande, sob uma manta pesada, magra, com as faces encovadas.
— Lenochka, — ela estendeu a mão esquerda.
A direita ainda se movia mal.
— Por que vieste?
Tens uma filha pequena.
— Sonia está com Artiom.
Está tudo bem.
Lena sentou-se ao lado dela e pegou-lhe na mĂŁo.
Os dedos estavam frios, secos, com veias salientes.
— Galina Petrovna, quero falar-lhe com honestidade.
— Fala.
— Não tenho possibilidade de vir aqui regularmente.
Temos a construção, a criança.
As finanças estão no limite.
Tenho famĂlia, a minha prĂłpria vida.
Mas também não consigo deixá-la assim.
— Eu sei, — assentiu a mulher mais velha.
— Entendo tudo.
— Stepan ligou-me.
PropĂ´s que eu cuidasse da senhora.
Como se eu ainda lhe devesse alguma coisa.
Galina Petrovna virou o rosto.
Os lábios tremeram.
— Ele disse-me o mesmo.
Falou ao telefone perto de mim, pensando que eu dormia.
Disse: “Tu és a ex, então cuida dela.
Eu não tenho tempo.”
Eu ouvi tudo.
Lena cerrou os dentes.
— Como ele pôde?
— Pôde.
Sempre pĂ´de.
Eu Ă© que nĂŁo queria ver.
— Galina Petrovna…
— Espera, Lenochka.
Deixa-me falar.
— Ela virou-se e olhou diretamente para Lena.
— Tenho um apartamento.
Este apartamento.
Dois quartos, num bom bairro.
Sabes quanto ele vale?
— Imagino.
— Bastante dinheiro.
Eu pensava deixá-lo para Stepan.
Mas Stepan abandonou-me.
— A voz dela tornou-se firme.
— Quero propor-te uma coisa.
Lena escutava.
— Vou passar o apartamento para o teu nome.
Doação, pelo notário, tudo conforme a lei.
E tu levas-me para tua casa.
Viverei na vossa casa.
Até ao fim da minha vida.
— Galina Petrovna, isso…
— Isso não é caridade.
É um acordo.
Um acordo honesto.
Tu recebes o apartamento, vendes e investes na construção.
E eu recebo um teto, cuidados e pessoas por perto.
Lena ficou calada.
— Pensa nisso, — disse Galina Petrovna.
— Conversa com o teu marido.
Eu espero.
Ă€ noite, Lena contou tudo a Artiom.
Ele estava junto à parede inacabada, com um lápis e um desenho técnico na mão, ouvindo.
— Não, — disse ele quando ela terminou.
— Por quê?
— Porque é uma pessoa estranha, a mãe do teu ex-marido.
Len, temos Sonia, temos a construção, temos o empréstimo do terreno.
NĂŁo podemos assumir uma mulher acamada.
— Eu entendo.
— Então está bem.
— Mas quero que penses mais uma vez.
— O que há para pensar?
Lena nĂŁo discutiu.
Ligou para Nina Vasilievna — a mãe de Artiom.
Não para pedir conselho — para conversar.
— Nina Vasilievna, tenho uma situação estranha.
Posso ir aĂ amanhĂŁ?
— Vem, Lenochka.
Vou pĂ´r a chaleira ao lume.
No dia seguinte, Lena estava sentada na cozinha da sogra — a nova sogra, completamente diferente.
Nina Vasilievna escutou atentamente, sem interromper.
— É isso, — concluiu Lena.
— Artiom é contra.
— Entendo.
E tu?
— Estou dividida.
A sogra levantou-se, tirou bolachas do armário e colocou-as sobre a mesa.
— Lenochka, vou contar-te uma coisa.
Sobre Zoia — a tia de Artiom.
— Ouvi dizer que a casa dela ardeu.
— Ardeu.
Até às fundações.
Depois disso, Zoia ficou acamada.
Nervos, pressĂŁo, as pernas deixaram de funcionar.
Os parentes passavam-na de uns para outros como uma mala sem alça.
Um mĂŞs com uns, um mĂŞs com outros.
Ninguém a queria.
— E o que aconteceu?
— Vera levou-a para casa.
Uma sobrinha, filha de parentes distantes.
Zoia quase nĂŁo a conhecia.
Vera era jovem, tinha ela prĂłpria dois filhos.
Mas levou-a.
PĂ´s uma cama num quarto, contratou uma ajudante que vinha algumas vezes.
Zoia viveu com ela sete anos.
— Sete anos, — repetiu Lena.
— Sete.
E sabes o que Zoia disse antes de partir?
“A única pessoa que me tratou como alguém vivo foi aquela que não me conhecia.”
Isso diz alguma coisa, nĂŁo diz?
Lena voltou para casa.
Artiom estava a pĂ´r Sonia para dormir.
Lena esperou até a filha adormecer, depois sentou-se ao lado do marido.
— Falei com a tua mãe.
— Sobre o quê?
— Sobre a tia Zoia.
Artiom ficou imĂłvel.
Depois virou-se lentamente.
— Ela contou-te sobre Vera?
— Sim.
— E queres que eu seja como Vera?
— Quero que nós sejamos como Vera.
Juntos.
Os dois.
— Len, isso é completamente diferente.
— Por que é diferente?
— Porque Zoia era famĂlia.
E Galina Petrovna Ă© a tua ex-sogra.
Uma pessoa estranha.
— Vera também era quase uma estranha para Zoia.
Quase uma desconhecida.
Mas nĂŁo virou as costas.
E Zoia viveu dignamente com ela.
Tu prĂłprio sabes disso.
Artiom levantou-se e andou pelo quarto.
Parou junto Ă parede e apoiou a palma da mĂŁo nela.
— Quanto vale aquele apartamento?
— O suficiente para terminar a nossa casa.
E ainda sobrará para móveis, carro e mais alguma coisa.
— E se ela viver dez anos?
— Então Sonia terá uma avó por dez anos.
Não é o pior cenário.
Ele virou-se e olhou para ela longamente, com peso.
— Tu já decidiste, não foi?
— Só decidirei contigo.
NĂŁo sem ti.
— Não é apenas uma pessoa idosa em casa.
É uma doente acamada.
Fraldas, medicamentos, chamadas durante a noite.
— Eu sei.
— E estás pronta?
— Estou pronta.
Artiom ficou em silĂŞncio quase um minuto.
Depois disse:
— Está bem.
Mas fazemos tudo pelo notário.
Cada documento.
Cada assinatura.
Para que depois ninguém possa contestar nada.
Lena aproximou-se dele e abraçou-o.
Encontraram um notário por meio de conhecidos.
Contrato de manutenção vitalĂcia com sustento — era assim que se chamava juridicamente.
Galina Petrovna transferia o apartamento para Lena por doação, e Lena comprometia-se a garantir-lhe moradia, cuidados e sustento na sua casa.
Galina Petrovna foi levada ao notário numa cadeira de rodas.
Usava um casaco limpo, estava penteada, com um fino colar de contas ao pescoço.
— Tem certeza da sua decisão? — perguntou o notário, dirigindo-se a ela.
— Absolutamente.
— Entende que o apartamento passa a ser propriedade de outra pessoa?
— Entendo.
Estou em pleno juĂzo.
— O seu filho foi informado?
— O meu filho foi informado de que eu existo.
Isso basta.
O notário olhou para Lena.
— Assume as obrigações de manutenção vitalĂcia?
— Sim.
Os documentos foram assinados em vinte minutos.
Quando saĂram, Galina Petrovna segurou a mĂŁo de Lena.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer.
É um acordo honesto.
— Não agradeço pelo acordo.
Agradeço porque foste a única que não desviou o olhar.
Lena vendeu o apartamento em dois meses.
O dinheiro chegou para tudo: telhado, acabamentos, aquecimento, ligações.
Ainda sobrou não só para móveis e carro, mas também para preparar um quarto separado para Galina Petrovna — no rés-do-chão, perto da casa de banho, com uma porta larga para a cadeira de rodas.
Marina veio à festa de inauguração e não acreditou no que via.
— Len, levaste a tua ex-sogra para tua casa?
— Sim.
— Estás a falar a sério?
— Completamente.
— E Artiom aceitou?
— Artiom ajudou.
Marina abanou a cabeça.
— Eu não conseguiria.
— Tu não tens de conseguir.
Foi a nossa decisĂŁo.
— Mas por que tu?
Tu não és nada para ela.
Ela tem um filho, que ele trate disso.
— O filho tratou disso, — disse Lena com dureza.
— Tratou quando deixou de aparecer.
Quando deixou de ligar.
Quando me disse ao telefone que a ex-mulher devia cuidar da mĂŁe dele e que ele estava livre.
— E não estás zangada com ele?
— Estou.
Mas a raiva é má conselheira para obras.
E eu precisava terminar a casa.
Marina riu.
Depois ficou séria.
— E se Stepan aparecer depois e disser que o apartamento era a herança dele?
— O apartamento está no meu nome.
Doação.
Notarial.
Não há herança nenhuma.
— Ele sabe?
— Não.
— Uau.
— Uau, — concordou Lena.
Enquanto isso, Stepan vivia a sua vida.
Lena sabia disso por fragmentos — por conhecidos em comum, por conversas ocasionais.
NĂŁo se casou.
Alugava um apartamento.
Namorava alguém, separava-se, voltava a namorar.
O amigo dele, Kirill, às vezes ligava para Lena — não se sabia bem por quê.
Talvez para justificar Stepan.
Talvez para justificar a si mesmo.
— Lena, tu entendes — agora os tempos são outros.
Os pais devem cuidar de si prĂłprios.
Há pensĂŁo, há subsĂdio.
Para quĂŞ pĂ´r isso nas costas dos filhos?
— Kirill, por que estás a explicar-me isso?
— Bem, é que Stiopa está preocupado.
— Stiopa está preocupado?
Nos Ăşltimos dois anos, ele nĂŁo ligou uma Ăşnica vez para a prĂłpria mĂŁe.
Nem uma vez.
— Ele está a passar por uma fase difĂcil.
— Todos passam por fases difĂceis.
Mas nem todos abandonam os seus familiares.
— Tu pensas de forma muito categórica.
— Penso de acordo com os factos.
Adeus, Kirill.
Um dia ligou Vadim — o segundo amigo de Stepan.
Lena nunca se deu bem com ele.
— Len, olá.
Ouvi dizer que levaste a tua sogra para casa.
É verdade?
— É verdade.
— Tu Ă©s incrĂvel.
Mas por quĂŞ?
— Porque não há mais ninguém.
— Ouve, isso é uma tolice.
Ela tem um filho.
É obrigação dele.
Além disso, os pais deviam ter garantido moradia aos filhos.
Galina Petrovna devia ter passado aquele apartamento para Stiopa há muito tempo.
Assim ele viveria normalmente, e nĂŁo de aluguel.
— Vadim, tu próprio vives com os teus pais.
No apartamento deles.
Aos trinta e sete anos.
— Isso é outra história.
— É exatamente a mesma história.
Só que tu vives às custas dos teus pais e achas isso normal, e Stepan abandonou a mãe e também acha isso normal.
VocĂŞs dois sĂŁo iguais.
— Bem, sabes…
— Sei.
Adeus, Vadim.
Galina Petrovna adaptou-se Ă nova casa mais depressa do que todos esperavam.
Lia em voz alta para Sonia, ensinava-a a contar nos dedos, contava longas histórias sobre a sua infância.
Sonia chamava-lhe “avó Galya” e levava-lhe desenhos.
Artiom, que no inĂcio estava tenso, suavizou depois de alguns meses.
— Sabes, — disse ele um dia a Lena, — pensei que seria mais difĂcil.
— E como está a ser?
— Acontece que Sonia tem mais uma avó.
E nĂłs temos uma casa.
Uma aritmética estranha, mas faz sentido.
— Faz sentido, — confirmou Lena.
Nina Vasilievna vinha aos fins de semana.
Ela e Galina Petrovna encontraram rapidamente uma linguagem comum.
Duas mulheres, ambas com mais de sessenta anos, ambas conhecendo o valor do silĂŞncio e da gratidĂŁo.
— O seu filho é um bom homem, — disse Galina Petrovna certa vez.
— Eu sei, — sorriu Nina Vasilievna.
— Mas o mais importante é que a esposa dele é uma boa pessoa.
— Isso também sei.
Passaram-se mais quatro anos.
Galina Petrovna apagava-se lentamente — dia após dia, gota a gota.
Deixou de ler, porque os olhos já não obedeciam.
Deixou de falar frases longas — o fôlego só chegava para frases curtas.
Mas todas as manhãs pedia que a levassem até ao quarto de Sonia e ouvia a menina preparar-se.
Na Ăşltima noite, chamou Lena.
— Lenochka.
— Estou aqui.
— Diz a Stepan… — pausa.
— Não, não digas.
Ele nĂŁo vai entender.
— Está bem.
— Obrigada.
Por cada dia.
Por cada um.
De manhĂŁ, Galina Petrovna nĂŁo acordou.
Lena estava sentada ao lado dela, segurando-lhe a mĂŁo.
A mĂŁo ainda estava quente.
Depois arrefeceu.
Artiom ficou parado Ă porta, em silĂŞncio.
Sonia perguntou: “A avó Galya está a dormir?”
Lena respondeu: “Sim, querida.
Está a dormir.”
O funeral foi organizado em silĂŞncio.
Vieram Nina Vasilievna, Marina e alguns vizinhos.
Lena encontrou Stepan no nĂşmero antigo.
— Stepan, é Lena.
— Sim?
— Galina Petrovna morreu.
A tua mĂŁe morreu, Stepan.
SilĂŞncio.
Um longo silĂŞncio.
— Quando?
— Ontem à noite.
— Onde?
— Na minha casa.
Ela vivia connosco.
— O que quer dizer — convosco?
— Quer dizer exatamente isso.
Ela vivia na nossa casa.
Nos Ăşltimos quatro anos.
— Espera…
E o apartamento?
Lena fechou os olhos.
AĂ estava.
A primeira pergunta não foi “como ela viveu”, nem “sofreu”, nem “conseguiu despedir-se”.
A primeira pergunta foi sobre o apartamento.
— O apartamento já não existe, Stepan.
— Como assim, não existe?
— Ela passou-o para o meu nome.
Doação, pelo notário.
Há quatro anos.
Eu vendi-o, e com esse dinheiro terminámos a casa e garantimos moradia e cuidados para ela até ao fim.
— Tu… — a voz dele tremeu.
— Tu roubaste a minha mãe?
— Não.
Eu fiz um acordo com ela.
Ela recebeu uma casa, cuidados e uma famĂlia.
E tu recebeste o que mereceste.
Vazio.
— Eu vou aĂ.
Vou resolver isto.
— Vem.
Resolve.
Ele veio.
Mas primeiro foi ao apartamento da mĂŁe.
Lena soube disso porque ele ligou uma hora depois, e a voz dele estava diferente.
Baixa, rouca.
— Há outras pessoas a morar lá.
— Sim.
O apartamento foi vendido.
Eu já te disse.
— Onde está o dinheiro?
— O dinheiro foi investido na nossa casa.
Esse era o acordo — moradia em troca de sustento.
— Ela não tinha direito!
Era a minha herança!
Ela devia ter deixado para mim!
— Ela tinha todo o direito.
Era o apartamento dela.
A propriedade dela.
E ela dispĂ´s dele como achou correto.
— Aproveitaste-te de uma velha doente!
— Não, Stepan.
Tu Ă© que te aproveitaste.
Usaste-a quando era conveniente e descartaste-a quando deixou de ser.
NĂŁo vinhas.
NĂŁo ligavas.
NĂŁo enviavas dinheiro.
Disseste-me: “És a ex, então cuida dela.”
Lembras-te?
— Não foi assim!
— Foi exatamente assim.
Palavra por palavra.
Eu lembro-me.
E ela lembrava-se.
Ela ouviu tudo, Stepan.
Cada palavra tua.
— Vou contestar essa doação.
— Tenta.
O contrato foi feito pelo notário.
Galina Petrovna estava em pleno juĂzo.
Há relatórios médicos, testemunhas e todos os documentos.
Eu tratei disso.
— Planeaste tudo, não foi?
Desde o inĂcio?
— Não.
Eu nĂŁo planeei nada.
Simplesmente nĂŁo virei as costas.
Tu viraste.
E este Ă© o resultado.
Stepan ficou em silĂŞncio.
Lena ouvia a respiração dele — irregular, furiosa.
Ela esperou.
— Vais pagar por isto, — disse ele finalmente.
— Já paguei.
Quatro anos de cuidados.
Quatro anos de noites sem dormir, fraldas, medicamentos, comida dada Ă colher.
Essa Ă© a minha resposta.
E a tua, onde está?
Ele desligou abruptamente.
Lena ficou na varanda da sua casa.
A casa que ela e Artiom construĂram juntos.
A casa onde Sonia deu os primeiros passos.
A casa onde Galina Petrovna passou os últimos anos não numa enfermaria impessoal, não na solidão, não com medo — mas entre pessoas que todos os dias lhe traziam chá e se sentavam ao lado dela.
Artiom saiu e parou atrás dela.
— Ele ligou?
— Ligou.
— E então?
— Ameaçou.
Ficou furioso.
Perguntou pelo dinheiro.
— Perguntou pela mãe?
— Nem uma vez, Artiom.
Nem uma pergunta sobre a mĂŁe.
SĂł o apartamento.
SĂł o dinheiro.
Artiom abraçou-a.
— Fizeste tudo certo.
— Eu sei.
— Sonia perguntou quando vamos ao túmulo da avó.
— Amanhã.
Levaremos flores.
Lena entrou em casa.
Na prateleira da sala havia uma fotografia — Galina Petrovna e Sonia, as duas rindo.
Sonia mostrava-lhe um desenho, e Galina Petrovna segurava-o com uma mĂŁo, com os olhos vivos e brilhantes.
Lena tirou um envelope da gaveta da mesa.
Dentro havia uma carta — Galina Petrovna ditara-a um mês antes de partir.
Lena escreveu enquanto ela ditava, depois leu em voz alta, e Galina Petrovna assentiu: “Sim, é isso.”
“Para Stepan.
Se ele ler.
Foste o meu Ăşnico filho.
Dei-te tudo o que pude.
Tu deste-me silĂŞncio.
Dei o apartamento a Lena — não porque não te amasse, mas porque Lena esteve ao meu lado quando tu não estavas.
NĂŁo a culpes.
Culpa-te a ti mesmo.
Ou não culpes ninguém.
Vive.
Mas lembra-te — uma casa não se apoia nos alicerces.
Uma casa apoia-se nas pessoas que vĂŞm quando Ă© difĂcil.”
Lena dobrou novamente a carta.
Ela enviá-la-ia a Stepan.
NĂŁo agora.
Mais tarde.
Quando a raiva dele assentasse e restasse apenas a verdade.
Ou talvez nĂŁo enviasse.
Talvez simplesmente a colocasse na gaveta e a deixasse ali.
Porque algumas coisas sĂŁo inĂşteis de explicar a quem nĂŁo quer entender.
O telefone tocou.
Marina.
— Len, fiquei sabendo.
Como estás?
— Normal.
DifĂcil, mas normal.
— Stepan apareceu?
— Apareceu.
Veio correndo atrás do apartamento.
— Que absurdo…
— Sim.
Mas o apartamento nĂŁo existe.
Existe uma casa.
Existem documentos.
E existem quatro anos que ele perdeu enquanto vivia para si mesmo.
— Sabes, Len…
Naquela época, eu duvidei.
Disse que nĂŁo precisavas disso.
Que uma velha estranha nĂŁo era responsabilidade tua.
— Lembro-me.
— Eu estava errada.
Fizeste a coisa certa.
— Obrigada, Marin.
— E Sonia?
— Está a desenhar.
Desenhou a avĂł Galya com asas.
Diz que agora ela voa.
— Vou aà amanhã, está bem?
— Vem.
Lena desligou.
Na cozinha, Artiom preparava o jantar, e Sonia colocava os pratos — quatro, por hábito.
Depois olhou para o quarto prato, ficou parada por um instante e guardou-o em silêncio no armário.
A casa permanecia firme.
As paredes que haviam sido terminadas com o dinheiro do apartamento vendido.
O telhado sob o qual havia calor.
O quarto no rés-do-chão — vazio agora, mas não frio.
Ainda cheirava ao creme de lavanda com que Lena, todas as noites, passava nas mĂŁos de Galina Petrovna.
Stepan nunca soube como a mĂŁe passou os Ăşltimos anos.
Nunca soube que Sonia lhe levava desenhos todas as manhĂŁs.
Que Artiom lhe lia jornais em voz alta Ă noite.
Que Nina Vasilievna vinha aos sábados e as duas conversavam durante horas sobre a vida, o passado, o jardim.
Ele sabia apenas uma coisa: o apartamento desaparecera.
O dinheiro nĂŁo restara.
A herança era zero.
Ele vivia num apartamento alugado com uma mulher que recentemente dera à luz gémeos.
E Ă frente dele havia exatamente aquilo que ele prĂłprio construĂra: uma fundação vazia sobre a qual nĂŁo havia nada para erguer.
E Lena tinha uma casa.
Uma casa de verdade.
Com alicerces feitos das decisões que ela própria tomou.







