đŸ’„â€” MamĂŁe diz que vocĂȘ Ă© uma pĂ©ssima esposa. E eu concordo com ela, — declarou o marido durante o jantar. Sveta sorriu e serviu mais chĂĄ para ele


Svetlana colocou o bule sobre a mesa com cuidado, sem um Ășnico movimento desnecessĂĄrio.

A tampa de porcelana tilintou baixinho.

Igor mastigava uma almĂŽndega e olhava para ela como se estivesse esperando uma explosĂŁo.

— Sirva mais, — disse ele, empurrando a xícara.

— VocĂȘ ouviu o que eu disse?

— Ouvi, — Svetlana assentiu e encheu a xĂ­cara dele atĂ© a metade.

— Valentina Petrovna sempre foi generosa com suas avaliaçÔes.

— Não fique ofendida, — Igor recostou-se na cadeira.

— Ela está dizendo a verdade.

Olhe para o apartamento.

Poeira no parapeito da janela.

A roupa estĂĄ hĂĄ dois dias na mĂĄquina.

O jantar sĂŁo produtos semiprontos.

— As almîndegas fui eu que fiz, — Svetlana sentou-se à frente dele.

— Há duas horas.

Carne moĂ­da, cebola, ovo.

Tudo do jeito que vocĂȘ gosta.

— Só almîndegas não salvam uma casa, — Igor afastou o prato.

— Minha mãe ligou ontem.

Disse que passou aqui durante o dia e que estava uma bagunça.

Toalhas no chĂŁo, pia suja.

Svetlana entrelaçou as mãos sobre os joelhos.

A sogra realmente tinha ido lĂĄ.

Sem ligar, sem avisar, com sua prĂłpria chave, que Igor havia mandado fazer para ela trĂȘs anos antes.

— Eu estava no trabalho, — disse Svetlana com calma.

— VocĂȘ estava em casa desde manhĂŁ.

As toalhas no chĂŁo eram suas.

— Não jogue a culpa em mim, — Igor levantou o dedo.

— O homem traz dinheiro.

A mulher cuida da casa.

Sempre foi assim.

— Sempre, quando? — Svetlana inclinou levemente a cabeça.

— Quando seu salĂĄrio era trĂȘs vezes menor que o meu?

Ou quando eu paguei a reforma do apartamento de Valentina Petrovna?

Igor ficou vermelho.

Ele nĂŁo gostava quando Svetlana mencionava dinheiro.

Não porque tivesse vergonha, mas porque isso destruía a construção que ele havia criado: o marido como chefe, a esposa como criada.

— Dinheiro Ă© uma coisa, — ele forçou as palavras.

— A casa Ă© outra.

— Uma casa Ă© feita por duas pessoas, Igor, — Svetlana levantou-se e começou a tirar a mesa.

— Quando duas pessoas moram juntas, ambas tĂȘm responsabilidade.

— Minha mãe me criou sozinha, — Igor elevou a voz.

— E na casa dela sempre houve ordem.

— Valentina Petrovna tem um apartamento de um cîmodo e um gato, — Svetlana empilhou cuidadosamente os pratos.

— Aqui são setenta metros quadrados e um marido que deixa marcas molhadas no parquet e come em cima do teclado.

Igor levantou-se da mesa.

Seu rosto se contraiu de irritação.

Ele nĂŁo encontrou resposta e fez o que sempre fazia: foi para a frente da televisĂŁo.

Svetlana lavou a louça e limpou a mesa.

Olhou para o relĂłgio: oito e meia.

Do quarto vinha a risada de algum programa de TV.

Ela pegou o telefone e ligou para a irmĂŁ.

— Marina, oi.

NĂŁo Ă© tarde?

— Para vocĂȘ, nunca, — a voz de Marina era calorosa.

— O que aconteceu?

— Ele começou de novo, — Svetlana sentou-se num banquinho.

— Valentina Petrovna transmitiu que eu sou uma pĂ©ssima esposa.

E ele concorda com ela.

— Claro, — Marina bufou.

— E ele, entĂŁo, Ă© um marido exemplar.

Escuta, vocĂȘ sabe trĂȘs idiomas.

VocĂȘ sustenta esta casa.

VocĂȘ paga metade das despesas da mĂŁe dele.

E vocĂȘ Ă© uma pĂ©ssima esposa?

— Eu realmente sou uma pĂ©ssima dona de casa, Marina, — Svetlana disse isso sem fingimento, honestamente.

— A poeira se acumula nos cantos, eu esqueço a roupa.

Isso Ă© verdade.

— Isso Ă© hereditĂĄrio, vocĂȘ mesma sabe, — Marina resmungou com humor.

— VocĂȘ, eu e a vovĂł somos assim.

Nossas mĂŁos foram feitas para outra coisa.

Mas Dima me ajuda.

NĂłs aspiramos juntos, cozinhamos juntos.

E nossa casa Ă© limpa.

— Seu marido Ă© uma pessoa, — Svetlana suspirou.

— E o seu Ă© o quĂȘ? — Marina ficou em silĂȘncio por um segundo.

— Sveta, atĂ© quando?

Ele nĂŁo ajuda, ele suja tudo, e depois a mĂŁe dele reclama.

De manhĂŁ, Svetlana acordou cedo.

Igor ainda dormia, espalhado pelo sofĂĄ inteiro.

Ele havia se mudado do quarto havia muito tempo, dizendo que lĂĄ era quente demais.

Na mesinha de centro havia uma caneca com restos secos de cacau e, ao lado, um pacote amassado de salgadinhos.

Svetlana foi para a cozinha e preparou café.

O telefone sobre a mesa vibrou.

Uma mensagem de um nĂșmero desconhecido: “Sveta, oi.

É o Roman, amigo do Igor.

Faz tempo que queria escrever.

Serå que podemos nos encontrar para tomar um café?

Sem o Igor.

Quero conversar.”

Ela leu a mensagem.

Colocou o telefone sobre a mesa.

Roman era aquele mesmo que tinha ido à casa deles no Ano-Novo, passado a noite inteira seguindo-a com os olhos e contando que com a esposa dele “estava tudo complicado”.

Aquele mesmo que, no aniversário de Igor, colocou a mão em seu ombro e disse: “Igor não valoriza o que tem.”

Igor acordou perto do almoço, pegou suco na geladeira e voltou a se sentar diante da televisão.

Svetlana voltou do trabalho Ă s sete.

Na cozinha havia uma frigideira suja.

Igor tinha feito ovos fritos e deixado tudo como estava.

— Igor, — ela parou no vão da porta.

— VocĂȘ poderia ao menos ter lavado a frigideira depois de usar.

— Estou cansado, — ele mudou de canal.

— Dia pesado.

— VocĂȘ acordou Ă  uma da tarde, — Svetlana disse isso sem ironia, apenas registrando o fato.

— Eu levantei às seis.

— E daí? — só então ele olhou para ela.

— VocĂȘ escolheu seu horĂĄrio de trabalho.

Eu nĂŁo obriguei vocĂȘ.

Svetlana fechou os olhos por trĂȘs segundos.

Abriu-os.

Foi lavar a frigideira.

— Escuta, — Igor gritou da sala.

— Minha mãe vem no sábado.

Disse que vai ajudar vocĂȘ a colocar ordem.

Vai mostrar como se faz direito.

— Como se faz direito? — Svetlana virou-se para a porta.

— Como uma dona de casa deve cuidar do lar.

Ela sabe.

Fez isso a vida inteira.

Svetlana colocou lentamente a frigideira no escorredor.

Ela jå tinha ouvido aquela conversa vinte vezes em diferentes variaçÔes.

Valentina Petrovna vinha, apontava manchas, dobras nas cortinas, a ordem errada dos potes no armĂĄrio.

E Igor, todas as vezes, balançava a cabeça, concordava e apoiava.

— Está bem, — disse Svetlana.

— Que venha.

Ela pegou o telefone e ligou para Marina.

— Ele convidou Valentina Petrovna para me ensinar a cuidar da casa, — disse ela sem introdução.

— VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio? — Marina ficou em silĂȘncio do outro lado.

— Sveta, eu nĂŁo vou mais aconselhar vocĂȘ a aguentar.

Chega.

— Eu nĂŁo pretendo aguentar, — Svetlana falava baixo, mas cada palavra era como um prego cravado atĂ© a cabeça.

— Marina, preciso verificar uma coisa.

O apartamento estĂĄ no meu nome, certo?

— Sim, — confirmou Marina.

— VocĂȘ o comprou antes do casamento.

Com seu prĂłprio dinheiro.

Eu fui testemunha.

— O carro?

— TambĂ©m Ă© seu.

Um presente de vocĂȘ para vocĂȘ mesma no seu aniversĂĄrio de trinta anos.

— A transferĂȘncia mensal para o sustento da sogra?

— Do seu cartão.

VoluntĂĄria.

Não é obrigação.

— Obrigada, Marina, — Svetlana ficou em silĂȘncio por um momento.

— Eu sei tudo isso, mas estou pensando.

Preciso do nĂșmero de Dmitri.

Quero pedir conselho.

— Ele está aqui ao lado.

Vou passar para ele.

A voz de Dmitri era calma, firme e confiĂĄvel.

— Sveta, oi.

Marina me contou.

O que vocĂȘ quer fazer?

— Dima, preciso de um conselho, — Svetlana falou de forma breve.

— Quero terminar tudo.

RĂĄpido e limpo.

Sem escùndalos, sem negociação.

— O apartamento Ă© seu.

O carro Ă© seu.

O que ele investiu em cinco anos?

— Um terço das contas.

Às vezes, alimentos.

— E vocĂȘ?

— Reforma, mĂłveis, eletrodomĂ©sticos.

Todo mĂȘs, vinte mil para a mĂŁe dele.

Seguro no nome dele.

O tratamento dentĂĄrio dele no ano passado.

— Sveta, — disse Dmitri suavemente.

— VocĂȘ sustenta um homem adulto e a mĂŁe dele.

E eles ainda acusam vocĂȘ.

— Sim, — respondeu Svetlana simplesmente.

— Mas isso acaba no sábado.

No sĂĄbado, a sogra apareceu exatamente Ă s dez da manhĂŁ.

Nas mĂŁos, uma sacola com panos; nos olhos, o brilho de uma fiscal.

Igor abriu a porta para ela, abraçou-a e levou-a até a cozinha.

— Pois Ă©, — Valentina Petrovna percorreu a cozinha com o olhar.

— O que eu disse?

Gordura no exaustor, migalhas embaixo da torradeira.

Isso Ă© uma casa?

— Bom dia, Valentina Petrovna, — Svetlana saiu do quarto.

— CafĂ©?

— NĂŁo preciso de cafĂ©, preciso de ordem, — a sogra colocou a sacola no chĂŁo.

— Olhe.

Vou mostrar como vivem as mulheres normais.

A esponja fica aqui.

A toalha se dobra assim.

As prateleiras devem ser limpas a cada trĂȘs dias.

— Valentina Petrovna, — Svetlana sorriu.

— A senhora sabe que eu domino trĂȘs idiomas?

— E daí? — Valentina Petrovna fez uma careta.

— Idiomas não cozinham borsch.

— Em compensação, eles pagam este apartamento, — Svetlana não levantou a voz.

— E a sua transferĂȘncia mensal.

— Isso Ă© uma obrigação, — a sogra endireitou-se.

— Eu sou mãe.

Eu tenho direito.

— Direito dado por quem? — perguntou Svetlana com sincera curiosidade.

— Igor transfere dinheiro para a senhora?

Ou sou eu que faço isso?

Valentina Petrovna olhou para o filho.

Igor pigarreou.

— Que diferença faz quem transfere? — murmurou ele.

— O dinheiro Ă© comum.

— Não, — Svetlana balançou a cabeça.

— NĂŁo Ă© comum.

É meu.

Da minha conta.

Todo mĂȘs.

Vinte mil.

Durante quatro anos.

— VocĂȘ estĂĄ jogando isso na nossa cara? — a sogra ficou vermelha.

— EntĂŁo Ă© assim que vocĂȘ Ă©!

Igor, estĂĄ ouvindo?

Ela fica contando dinheiro!

— Conto, — Svetlana assentiu.

— Novecentos e sessenta mil em quatro anos.

Mais a reforma do seu banheiro: cento e quarenta.

Mais a cozinha: duzentos e dez.

No total, mais de um milhĂŁo.

Valentina Petrovna piscou, atĂŽnita.

Igor levantou-se e aproximou-se de Svetlana.

— O que vocĂȘ estĂĄ fazendo? — sibilou ele.

— Na frente da minha mãe!

— E quando vocĂȘ me chamava de pĂ©ssima esposa na frente dela, isso era normal? — Svetlana olhou para ele de baixo para cima.

— Quando ela entra no meu apartamento e aponta o dedo para cada canto, isso Ă© aceitĂĄvel?

— Este apartamento Ă© nosso!

— Não, Igor, — disse Svetlana com muita calma.

— Este apartamento Ă© meu.

Comprado antes do casamento.

Com meu dinheiro.

HĂĄ todos os documentos.

E o que vocĂȘ tem?

O telefone de Igor tocou.

Ele olhou para a tela e virou-se.

— Quem está ligando? — perguntou Svetlana.

— Roman, — resmungou Igor.

— NĂŁo Ă© da sua conta.

— Roman, — Svetlana pegou seu telefone e abriu a mensagem.

— O mesmo Roman que me escreve isto?

Ela mostrou a tela para Igor.

As mensagens diziam: “Sveta, vamos nos encontrar”, “Igor nĂŁo merece vocĂȘ”, “No lugar dele, eu carregaria vocĂȘ nos braços”, “VocĂȘ merece algo melhor, e sabe disso.”

Igor leu.

A testa dele se franziu.

Sua mandíbula começou a se mover.

— Isso
 ele escreveu para vocĂȘ?

— Todos os dias.

JĂĄ faz trĂȘs semanas, — Svetlana guardou o telefone.

— Seu melhor amigo.

Que, aliĂĄs, em cada encontro conta para vocĂȘ que eu nĂŁo respeito vocĂȘ.

Adivinhe por quĂȘ.

A sogra sentou-se numa cadeira.

Os panos na sacola nem chegaram a ser retirados.

— Não minta, — sussurrou Igor.

— Romka não faria isso.

— Faria, — Svetlana abriu outra conversa.

— Aqui estão as mensagens do grupo onde estão ele e a esposa dele.

A esposa dele, Kristina, encaminhou-me a conversa dos dois.

Ele escreveu para ela: “Logo Igor e Sveta vão se divorciar, estou trabalhando nisso.”

Palavra por palavra.

Igor estava parado no meio da cozinha.

Valentina Petrovna permanecia imóvel, apertando a alça da sacola.

Svetlana guardou o telefone no bolso e olhou para os dois, calma, sem triunfo, sem prazer maldoso.

— Quero que vocĂȘs dois escutem, — ela falava de modo firme, sem pausas, sem hesitação.

— Eu sustento esta casa.

Eu fico calada quando me dizem que sou uma péssima esposa.

Eu transfiro dinheiro para uma mulher que entra no meu apartamento e me ensina a limpar prateleiras.

— Sveta
 — começou Igor.

— Eu não terminei, — ela não levantou a voz, mas Igor se calou imediatamente.

— Eu sou uma pĂ©ssima dona de casa.

Isso Ă© verdade.

A poeira se acumula, eu esqueço de tirar a roupa da måquina, não sei dobrar toalhas segundo os padrÔes de Valentina Petrovna.

Mas eu sei trĂȘs idiomas.

Eu ganho trĂȘs vezes mais que vocĂȘ.

Eu nunca pedi que vocĂȘ pagasse por uma compra grande.

Nunca.

E vocĂȘ nunca lavou uma frigideira depois de usar sem que eu lembrasse.

Valentina Petrovna abriu a boca.

— Fique calada, por favor, — Svetlana virou-se para ela.

— A senhora nĂŁo Ă© uma convidada.

A senhora nĂŁo Ă© uma aliada.

A senhora faz parte do problema.

Cada visita sua é uma inspeção que ninguém pediu.

E cada conselho seu a Igor Ă© um tijolo no muro entre nĂłs.

— Eu só queria o melhor, — forçou a sogra.

— O melhor para quem? — Svetlana aproximou-se da mesa e colocou trĂȘs folhas de papel sobre ela.

— Aqui está o extrato da minha conta.

Aqui estĂŁo todas as transferĂȘncias para a senhora em quatro anos.

Aqui estĂĄ o custo da reforma do seu apartamento, que eu paguei.

Valentina Petrovna olhou para os nĂșmeros.

Seus lĂĄbios tremeram, mas ela ficou calada.

Os nĂșmeros eram irrefutĂĄveis.

— Igor, — Svetlana virou-se para o marido.

— Eu dei entrada no pedido.

Tudo estĂĄ preparado.

Dissolução do casamento.

— VocĂȘ nĂŁo pode, — Igor deu um passo na direção dela.

— VocĂȘ nĂŁo pode fazer isso.

Por causa de quĂȘ?

De toalhas?

De esponjas?

— Por causa do desprezo, — disse Svetlana, e a palavra ficou suspensa entre eles como uma pedra pesada.

— VocĂȘ nĂŁo apenas nĂŁo ajuda.

VocĂȘ humilha.

Nesta casa, vocĂȘ Ă© simplesmente um porco que nem sequer consegue lavar uma caneca.

VocĂȘ permite que sua mĂŁe me humilhe.

E permite que seu amigo destrua nossa famĂ­lia aos poucos, porque Ă© mais conveniente acreditar nele do que em mim.

— Eu não sabia sobre Roman! — Igor levantou as mãos.

— Eu não sabia!

— E o que vocĂȘ sabia? — Svetlana inclinou a cabeça.

— VocĂȘ sabia que eu me levanto Ă s seis?

Sabia que Ă  noite estudo um terceiro idioma porque isso Ă© necessĂĄrio para o trabalho?

Sabia que todo mĂȘs guardo dinheiro para que um dia possamos nos permitir fĂ©rias?

Ou vocĂȘ sĂł sabia o que sua mĂŁe contava?

Igor ficou em silĂȘncio.

Seu rosto mudava: da raiva para a confusĂŁo, da confusĂŁo para o medo.

— O apartamento Ă© meu.

Os documentos estão comigo, — continuou Svetlana.

— O carro Ă© meu.

O contrato estĂĄ em meu nome.

A transferĂȘncia mensal para Valentina Petrovna acaba a partir de hoje.

Vou trocar as fechaduras amanhĂŁ de manhĂŁ.

VocĂȘ tem atĂ© domingo Ă  noite para pegar suas coisas.

— Para onde eu vou? — Igor empalideceu.

— Para a casa de Valentina Petrovna, — Svetlana deu de ombros.

— Afinal, ela sabe como cuidar de uma casa.

VocĂȘs dois vĂŁo se virar.

Ela vai lavar suas canecas.

Valentina Petrovna agarrou-se Ă  cadeira.

— Ele não pode ir para minha casa! — escapou dela.

— Eu tenho só um cîmodo!

Eu tenho um gato!

Eu tenho


— A senhora tem um ótimo apartamento depois da reforma que eu paguei, — disse Svetlana sem raiva, quase suavemente.

— Vai receber seu filho.

Vai ensinĂĄ-lo a dobrar toalhas.

Igor pegou o telefone Ă s pressas e discou um nĂșmero.

— Romka, que sujeira vocĂȘ escreveu para a Sveta? — ele quase gritava.

— Ela me mostrou tudo!

Que diabos Ă© isso?

Do alto-falante veio a voz de Roman, apressada e melosa.

— Igorek, espera, vocĂȘ entendeu errado, eu sĂł queria ajudar, saber como ela


— Ajudar? — Igor virou-se para Svetlana.

— VocĂȘ escreveu para sua esposa que estava trabalhando no nosso divĂłrcio!

Isso Ă© ajuda?

Roman ficou em silĂȘncio.

Depois, a ligação caiu.

Igor ficou encarando a tela apagada.

— Agora vocĂȘ vĂȘ, — Svetlana estava junto Ă  porta.

— Seu amigo queria destruir nossa famĂ­lia para chegar atĂ© mim.

Fazer de mim sua amante.

E vocĂȘ, em vez de estar ao meu lado, escutava ele e sua mĂŁe.

E ambos diziam a vocĂȘ a mesma coisa: Sveta Ă© ruim.

Conveniente, nĂŁo Ă©?

Quando todos ao redor confirmam que vocĂȘ Ă© a vĂ­tima.

A segunda-feira começou com silĂȘncio.

Svetlana tomou café numa cozinha limpa.

Igor havia ido embora na noite anterior.

Levou trĂȘs malas, uma bolsa com o notebook e uma caixa com alguns cabos.

Ficou no corredor, olhando para ela, esperando que ela mudasse de ideia.

— Sveta, — disse ele no limiar.

— Eu vou mudar.

Vou ajudar.

Vou lavar, arrumar, cozinhar.

— Durante anos vocĂȘ me disse que isso era coisa de mulher, — Svetlana segurava a porta.

— VocĂȘ nĂŁo vai mudar em uma noite.

E nĂŁo porque nĂŁo pode.

Mas porque nĂŁo quer.

VocĂȘ sĂł quer recuperar o apartamento, o carro e a pessoa que vai pagar pela sua vida.

Ele foi embora.

A porta se fechou.

Na terça-feira, Marina ligou.

— Como vocĂȘ estĂĄ?

— Normal, — Svetlana estava junto ao fogão, mexendo a sopa.

— Troquei as fechaduras.

AmanhĂŁ vem uma mulher para ajudar na limpeza uma vez por semana.

— Finalmente, — Marina suspirou aliviada.

— Já deveria ter feito isso há muito tempo.

— Há muito tempo, — concordou Svetlana.

— Mas eu acreditava que ele entenderia.

Que um dia acordaria de manhã e diria: “Vamos fazer juntos.”

Ele nĂŁo disse.

— Dima mandou dizer que vocĂȘ foi Ăłtima, — Marina sorria, e isso se ouvia na voz.

— E que Igor puniu a si mesmo.

— Ainda não em toda a escala, — Svetlana sorriu de leve.

— Espere atĂ© sexta-feira.

Na quarta-feira, Igor ligou de um nĂșmero desconhecido.

— Svet, minha mãe está me expulsando, — sua voz estava perdida, apagada.

— Diz que eu sujo tudo.

Diz que nĂŁo limpo nada depois de usar.

Diz que Ă© impossĂ­vel morar comigo.

Svetlana ficou em silĂȘncio por exatamente cinco segundos.

— IrĂŽnico, nĂŁo Ă©?

— Isso não tem graça! — Igor explodiu.

— Eu não tenho para onde ir!

Roman nĂŁo atende, a esposa dele pediu o divĂłrcio, e ele mesmo anda ficando na casa de conhecidos.

— Sinto muito, — disse Svetlana com calma.

— Mas isso nĂŁo Ă© mais minha responsabilidade.

VocĂȘ Ă© um homem adulto.

Pode alugar um quarto.

Pode alugar um apartamento.

VocĂȘ trabalha.

O dinheiro vai bastar se parar de pedir comida trĂȘs vezes por dia.

— VocĂȘ Ă© cruel, — sussurrou ele.

— Não, — respondeu Svetlana.

— Eu sou honesta.

Na quinta-feira, Valentina Petrovna ligou.

Sua voz era completamente diferente: baixa, quebrada.

— Svetlana, — ela a chamou pelo nome, sem “menina”, sem “dona de casa”, sem tom condescendente.

— Ele Ă© insuportĂĄvel.

Dois dias.

Apenas dois dias.

Migalhas no sofĂĄ, manchas no espelho, canecas por todo o apartamento.

Ele nĂŁo limpa nada depois de usar.

Absolutamente nada.

— Eu sei, — disse Svetlana suavemente.

— Vivi com ele todos esses anos.

E cada vez que a senhora vinha, dizia que eu era uma péssima dona de casa.

Valentina Petrovna ficou em silĂȘncio por muito tempo.

— Ele era diferente, — disse ela por fim.

— Quando morava sozinho, antes de vocĂȘ.

Era mais organizado.

— NĂŁo, — Svetlana balançou a cabeça, embora Valentina nĂŁo pudesse vĂȘ-la.

— Ele não era mais organizado.

Ele morava com a senhora.

E a senhora limpava depois dele.

Depois ele se mudou para minha casa.

E eu deveria limpar depois dele.

Ele nunca limpou sozinho.

Nunca, Valentina Petrovna.

Sexta-feira.

Svetlana chegou em casa Ă s seis da tarde.

O apartamento brilhava.

Uma mulher chamada Natalia tinha vindo durante o dia, e os sinais de seu trabalho estavam por toda parte: pisos brilhantes, toalhas limpas, coisas organizadas nas prateleiras.

Sobre a mesa havia um bilhete: “Svetlana, fiz tudo conforme a lista.

Venho na prĂłxima quinta-feira.

Natalia.”

Svetlana sentou-se na cozinha.

Serviu-se de chĂĄ.

Pegou o telefone e viu uma mensagem de Marina: “Sveta, vocĂȘ nĂŁo vai acreditar.

Kristina, a esposa de Roman, me escreveu.

Roman ligou para Igor e pediu que ele convencesse vocĂȘ a aceitĂĄ-lo.

Disse: ‘VocĂȘ nĂŁo precisa mais dela mesmo, e eu gosto dela, me ajude a conhecĂȘ-la direito.’

Igor o mandou embora.

Pela primeira vez, fez algo certo.”

Svetlana leu.

Balançou a cabeça.

Serviu-se de mais chĂĄ.

O telefone tocou.

Era o nĂșmero de Igor.

— Svet, — a voz dele parecia estranha, rouca.

— Roman
 ele armou tudo isso.

Ele ligava para minha mĂŁe, contava que sua casa estava bagunçada, de propĂłsito, para que ela fosse aĂ­, para que vocĂȘ ficasse irritada, para que nĂłs brigĂĄssemos.

— Eu sei, — disse Svetlana.

— VocĂȘ sabia?

— Kristina me escreveu há uma semana.

Ela encontrou toda a correspondĂȘncia de Roman.

Ele planejava isso havia meses.

Mas, Igor, — ela fez uma pausa.

— Roman nĂŁo obrigou vocĂȘ a jogar toalhas no chĂŁo.

Roman nĂŁo obrigou vocĂȘ a comer em cima do teclado e deixar canecas espalhadas pelo apartamento.

Roman nĂŁo obrigou vocĂȘ a me chamar de pĂ©ssima esposa.

VocĂȘ fez isso sozinho.

Porque era conveniente para vocĂȘ.

— Eu entendo, — Igor soltou o ar.

— Perdi tudo.

O apartamento, o carro, vocĂȘ.

Minha mãe
 ela disse que não vai mais limpar nada depois de mim.

Que chega.

— Ela está certa.

— Svet, me dĂȘ uma chance.

— Não, — Svetlana disse isso sem raiva, sem mágoa, sem arrependimento.

— Não porque eu sou cruel.

Mas porque a chance existia todos os dias.

Todos esses anos, tantos dias.

VocĂȘ nĂŁo aproveitou nenhum deles.

Ela desligou.

Tomou um gole de chĂĄ.

Quente, forte, com limĂŁo.

Na tela apareceu uma mensagem de Kristina: “Svetlana, obrigada.

Graças às suas capturas de tela, finalmente vi com quem eu vivia.

Roman arrumou as coisas ontem.

Ele nĂŁo tem casa nem amigos.

Igor o mandou embora, e os outros jĂĄ haviam se afastado dele hĂĄ muito tempo.

Agora estĂĄ dormindo numa cama dobrĂĄvel na casa de um conhecido.

E eu finalmente consigo respirar.”

Svetlana respondeu: “Fico feliz por vocĂȘ.

Respire.

Isso Ă© mais importante do que prateleiras limpas.”

Ela colocou a xĂ­cara na mesa e caminhou pelo apartamento.

SilĂȘncio.

Limpeza.

Ninguém deixou migalhas.

Ninguém jogou uma toalha molhada.

Ninguém diria na manhã seguinte que ela era uma péssima esposa.

Porque ela nĂŁo era esposa.

Ela era a dona daquela casa.

A Ășnica e verdadeira.

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