Nina jĂĄ estava na fila havia quarenta minutos.
Ă sua frente havia quatro pessoas, e atrĂĄs dela mais seis.

Os documentos para solicitar o subsĂdio tinham sido reunidos com antecedĂȘncia e cuidadosamente colocados em uma pasta transparente.
Ela rolava a tela do telefone quando ouviu uma voz.
â Nin?
Nina, Ă© vocĂȘ?
Ela levantou os olhos.
Gleb estava no guichĂȘ ao lado, meio de lado, como se tivesse se virado por acaso.
Ele usava uma jaqueta amassada, abotoada torta.
Sob o olho esquerdo havia um hematoma amarelado, jĂĄ desaparecendo, mas ainda visĂvel.
â Oi, disse Nina com voz firme.
â Que encontro!
Gleb abriu um sorriso largo, quase teatral.
â Dois anos, hein?
O tempo voa.
Ele se aproximou e ficou ao lado dela, como se eles tivessem combinado.
Nina não recuou, mas também não se moveu em sua direção.
Ela olhava para ele com calma, sem expressĂŁo.
â VocĂȘ estĂĄ bem, disse ele.
â De verdade.
Algo mudou.
Cortou o cabelo?
â EstĂĄ igual, respondeu Nina.
â NĂŁo, com certeza tem algo diferente.
VocĂȘ emagreceu?
Ou pegou sol?
Ele apertou os olhos, observando-a, e Nina percebeu o canto da boca dele estremecer.
Por trås daquela animação fingida havia outra coisa.
ConfusĂŁo.
Ou o costume de esconder o constrangimento atrĂĄs das palavras.
â Lembra quando fomos a Kaluga?
disse Gleb.
â Naquela vez, Mitka deixou o sorvete cair no sapato, e Dasha ficou consolando ele.
Ela era engraçada.
Tinha trĂȘs anos, nĂŁo tinha?
â Quatro, corrigiu Nina.
â Quatro, isso mesmo.
Foi uma boa época.
Nina permaneceu em silĂȘncio.
A fila avançou uma pessoa.
Ela deu um passo Ă frente.
â E vocĂȘ, como estĂĄ no geral?
perguntou Gleb, inclinando-se um pouco mais para perto.
â EstĂĄ dando conta?
â Estou.
â E as crianças?
â EstĂŁo crescendo.
â Mitka estĂĄ indo para a escola?
â EstĂĄ.
Gleb ficou calado por um momento.
Depois começou a se mexer no lugar, passando o peso de uma perna para a outra.
â Bom.
Fiquei feliz em te ver.
Se precisar de alguma coisaâŠ
â Eu preciso ir, disse Nina.
â O guichĂȘ ficou livre.
Ela se virou e se aproximou do balcĂŁo.
Tirou os documentos e os colocou diante da funcionĂĄria.
Suas mĂŁos se moviam de maneira firme e habitual.
Quando ela se virou dez minutos depois, Gleb jĂĄ nĂŁo estava mais ali.
Ela levantou os olhos.
Gleb estava no guichĂȘ ao lado, meio de lado, como se tivesse se virado por acaso.
Ele usava uma jaqueta amassada, abotoada torta.
Sob o olho esquerdo havia um hematoma amarelado, jĂĄ desaparecendo, mas ainda visĂvel.
â Oi, disse Nina, tirando os sapatos.
â Oi!
Dasha levantou a cabeça.
â VocĂȘ comprou o esmalte?
â Comprei.
Dois potes.
Turquesa e terracota.
â Posso experimentar?
â AmanhĂŁ.
Hoje ele precisa descansar.
Mitia não levantou a cabeça.
Nina se aproximou e colocou a mão sobre o topo da cabeça dele.
Ele se inclinou um pouco para trĂĄs, com um gesto familiar.
â Quer comer?
perguntou ela.
â Um pouco.
â Vou esquentar o ensopado.
Quinze minutos.
A noite passou em silĂȘncio.
As crianças jantaram, Dasha adormeceu cedo, e Mitia foi para o quarto.
Nina se sentou Ă mesa de trabalho, onde estavam quatro xĂcaras inacabadas, uma encomenda do cafĂ© na Pokrovka.
A argila estava Ășmida e obediente.
Ela pegou a ferramenta e começou a retirar o excesso.
Mas seus dedos se moviam distraĂdos.
Ela deixou a ferramenta de lado.
Fechou os olhos.
Gleb estava diante dela, amassado, com o hematoma e aquele sorriso ridĂculo.
Dois anos antes, ele havia juntado suas coisas em uma bolsa esportiva, dito âpreciso ficar sozinho por um tempoâ e fechado a porta atrĂĄs de si.
Nina não chorou naquela época.
Ela lavou a louça, colocou as crianças na cama e ficou sentada até as quatro da manhã diante do torno de oleiro.
De manhĂŁ, levou Mitia para a escola e se inscreveu em um curso de queima de cerĂąmica.
Agora ela novamente nĂŁo conseguia dormir.
Mas o motivo era outro.
NĂŁo era dor.
NĂŁo era saudade.
Era algo parecido com vigilĂąncia.
Um instinto que dizia: ele vai voltar.
De manhĂŁ, a campainha tocou.
Olia estava na porta com uma sacola, de onde aparecia a ponta de um papel-alumĂnio, e uma caixa de argila branca.
â Trouxe torta de maçã e dois quilos de massa de faiança, disse ela em vez de cumprimentar.
â Entra, disse Nina, afastando-se.
Olia entrou na cozinha, colocou a sacola sobre a mesa e se sentou no banquinho.
Ela sempre se sentava assim, imediatamente, sem cerimĂŽnia.
â EntĂŁo, conta, disse Olia.
â Sua voz no telefone estava estranha.
â Eu vi o Gleb.
Ontem.
No centro de atendimento.
Olia congelou com a faca na mĂŁo.
â E?
â Ele estava na fila.
Com um hematoma debaixo do olho.
A jaqueta amassada.
Sorria como se tudo estivesse maravilhoso.
â ClĂĄssico, disse Olia, cortando um pedaço da torta de maçã.
â E o que ele disse?
â Lembrou de Kaluga.
Disse que eu estava bem.
Perguntou sobre as crianças.
â E vocĂȘ?
â Respondi curto.
Fui embora quando chegou a minha vez.
Olia ficou em silĂȘncio.
Depois colocou a faca sobre a mesa.
â Nin, vou falar diretamente.
VocĂȘ sabe que eu sempre falo diretamente.
â Sei.
â Dois anos atrĂĄs, esse homem se levantou e foi embora.
NĂŁo porque vocĂȘs brigaram.
NĂŁo porque aconteceu algo terrĂvel.
Ele foi embora porque ficou entediado.
Ou porque se sentiu preso.
Ou porque decidiu que merecia algo melhor.
â OliaâŠ
â Espera.
Nestes dois anos, vocĂȘ levantou suas encomendas do zero.
VocĂȘ fez um nome para si mesma.
TrĂȘs cafĂ©s compram suas peças.
Seus filhos estĂŁo alimentados, vestidos e estudam em uma boa escola.
VocĂȘ fez tudo isso sozinha.
E agora ele estĂĄ na fila com um hematoma, contando sobre sorvete em Kaluga.
Nina permaneceu calada.
â Ele vai tentar voltar, disse Olia.
â Ă questĂŁo de dias.
O hematoma, a roupa amassada, o ar de coitado, tudo isso é preparação.
Primeiro a pena, depois âeu mudeiâ, depois âvamos tentarâ.
â Talvez eu esteja enganada, disse Nina baixinho.
â Talvez ele realmenteâŠ
â NĂŁo, disse Olia, balançando a cabeça.
â Nin, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ enganada.
VocĂȘ sĂł Ă© boa.
E sĂŁo coisas diferentes.
A mensagem chegou dois dias depois.
Curta e educada:
âĐin, podemos nos encontrar?
Conversar.
Nada sĂ©rio, sĂł conversar.â
Nina leu a mensagem sentada diante do torno de oleiro.
A argila girava sob seus dedos, macia e obediente.
Ela desligou o torno.
Secou as mĂŁos em uma toalha.
Escreveu:
âParque perto da escola.
AmanhĂŁ, Ă s doze.â
Ele apareceu sem hematoma.
Barbeado, com uma camisa limpa.
Sentou-se no banco ao lado dela, deixando meio metro entre os dois.
â Obrigado por aceitar, disse ele.
â Estou ouvindo.
â Quando eu fui emboraâŠ
Ele se calou, procurando as palavras.
â Nos primeiros meses, eu senti liberdade.
Sabe, aquela liberdade de poder fazer o que quiser, quando quiser.
Nenhuma obrigação.
â E?
â Depois a liberdade acabou.
SĂł ficou o vazio.
Nina olhava para frente.
â Sinto saudade do Mitia, continuou Gleb.
â Da Dasha.
De vocĂȘ.
Da casa.
Das noites em que vocĂȘ modelava argila e eu lia para as crianças.
Do cheiro de argila na cozinha.
â Gleb, aonde vocĂȘ quer chegar?
â Posso ir aĂ?
Só para jantar com as crianças.
Uma vez.
NĂŁo estou pedindo nada.
SĂł quero vĂȘ-las.
Nina ficou em silĂȘncio por muito tempo.
Um minuto, talvez dois.
â EstĂĄ bem, disse ela por fim.
â Um jantar.
VocĂȘ serĂĄ convidado.
Nada mais.
â Claro.
â Isso significa que vocĂȘ vem, come, conversa com as crianças e vai embora.
Sem conversas sobre o passado.
Sem promessas.
Sem nada.
â Eu entendi.
â SĂĄbado.
Ăs seis.
Ela se levantou e foi embora sem olhar para trĂĄs.
Em casa, contou às crianças.
â Mitia, Dasha.
O pai de vocĂȘs virĂĄ jantar no sĂĄbado.
Dasha levantou a cabeça.
â Papai?
â Sim.
â Por muito tempo?
â Para o jantar.
Ele vai comer conosco e depois vai embora.
Mitia ficou em silĂȘncio.
Depois perguntou:
â Por quĂȘ?
Nina se agachou ao lado dele.
â Ele pediu.
Quer ver vocĂȘs.
â E vocĂȘ?
â Eu aceitei.
Uma vez.
Mitia assentiu.
Seu rosto estava sério, adulto demais para a idade.
O sĂĄbado chegou rĂĄpido.
Nina preparou frango com batatas, simples, sem pretensÔes.
PĂŽs a mesa para quatro.
Pegou os pratos, os seus, feitos Ă mĂŁo, com bordas irregulares e esmalte turquesa.
Gleb chegou exatamente Ă s seis.
Com uma sacola, suco, doces e um livro de colorir para Dasha.
â Oi, disse ele da entrada.
â Entra.
Tire os sapatos.
Dasha saiu correndo primeiro.
Parou a um passo dele, observando-o.
â Oi, Dashulya, disse Gleb, agachando-se.
â VocĂȘ tem barba, disse ela.
â Tenho.
Deixei crescer um pouco.
â Espeta?
â Um pouco, ele sorriu.
Mitia saiu do quarto.
Assentiu com a cabeça.
Sentou-se Ă mesa.
O jantar transcorreu tranquilamente.
Gleb perguntou sobre a escola, sobre desenhos e sobre os animais de massinha.
Dasha contou sobre a amiga Sonia e sobre como elas construĂram uma cabana de cobertores.
Mitia respondia de forma curta, mas sem hostilidade.
Nina quase nĂŁo falava.
Servia mais comida, recolhia os pratos e colocava chĂĄ.
Quando as crianças foram para o quarto, Gleb ficou à mesa.
â Pratos bonitos, disse ele, passando o dedo pela borda.
â VocĂȘ mesma fez?
â Sim.
â Muito talentoso.
â Obrigada.
Ele ficou calado por um momento.
Depois disse:
â Nin, eu ainda te amo.
Nina colocou a xĂcara sobre a mesa.
Devagar, com cuidado.
â Gleb.
â Espera, deixa eu falar.
Eu sei que fui embora.
Sei que foi uma atitude baixa.
Mas eu mudei.
Mudei de verdade.
Pensei em vocĂȘ todos os dias.
â Todos os dias durante dois anos sĂŁo setecentos e trinta dias, disse Nina.
â E nem uma ligação.
â Eu tinha vergonha.
â Vergonha nĂŁo Ă© explicação.
Ă desculpa.
Ele estendeu a mĂŁo e tentou tocar a palma dela.
Nina retirou a mĂŁo, suavemente, mas com clareza.
â NĂŁo, disse ela.
â NinâŠ
â VocĂȘ era um convidado.
As condiçÔes estavam claras.
O jantar acabou.
Gleb olhou para ela.
Algo passou por seus olhos, mĂĄgoa, surpresa, talvez raiva.
â EstĂĄ bem, disse ele.
â Entendi.
Ele se levantou, vestiu a jaqueta e a abotoou.
Virou-se na porta.
â Posso vir de novo?
â Vou pensar.
A porta se fechou.
Nina recolheu os pratos restantes da mesa, lavou-os e os colocou no lugar.
Depois se sentou ao torno e trabalhou até meia-noite.
Quatro dias depois, Gleb apareceu de novo.
Sem avisar.
Com um buquĂȘ de crisĂąntemos brancos, embrulhados em papel kraft.
Nina abriu a porta e viu as flores antes de ver o rosto dele.
â Eu nĂŁo te convidei, disse ela.
â Eu sei.
Mas eu precisava vir.
Nin, eu quero voltar.
Ela ficou parada no vĂŁo da porta, sem deixĂĄ-lo entrar.
â Voltar para onde?
â Para casa.
Para vocĂȘs.
Para vocĂȘ, para as crianças.
â Esta nĂŁo Ă© a sua casa, Gleb.
JĂĄ faz dois anos.
â Mas sĂŁo meus filhos.
â Os filhos, sim.
A casa, nĂŁo.
Ele passou o peso de uma perna para a outra.
As flores balançaram em sua mão.
â Nin, me dĂȘ uma chance.
Uma chance de verdade.
Vou arrumar trabalho, vou ajudar.
Vou estar presente.
Tudo serĂĄ como antes.
â Eu nĂŁo quero âcomo antesâ, disse Nina.
â âAntesâ era eu sozinha com duas crianças e um marido que olhava para o teto sonhando com liberdade.
âAntesâ era eu esperando.
Eu nĂŁo espero mais.
â VocĂȘ estĂĄ com raiva.
â NĂŁo.
Estou dizendo como as coisas sĂŁo.
à uma grande diferença.
â VocĂȘ nem me deixa entrar no apartamento.
â Porque vocĂȘ veio sem convite.
Com flores.
Com um plano pronto.
VocĂȘ nem perguntou se eu queria isso.
â E vocĂȘ nĂŁo quer?
â NĂŁo, disse Nina.
â NĂŁo quero.
Gleb abaixou as flores.
â Eu nĂŁo acredito, disse ele.
â NĂŁo acredito que em dois anos tudo tenha passado.
Isso nĂŁo acontece.
â Acontece.
Quando uma pessoa vai embora em silĂȘncio e vocĂȘ fica com duas crianças, uma geladeira vazia e trĂȘs mil no cartĂŁo, acontece.
Quando vocĂȘ aprende a fazer louça de madrugada porque de dia nĂŁo hĂĄ tempo, acontece.
Quando Dasha pergunta âonde estĂĄ o papai?â e vocĂȘ nĂŁo sabe o que responder, acontece.
Tudo passa, Gleb.
â Eu errei.
â Sim.
Errou.
â E vocĂȘ nĂŁo me perdoa?
Nina olhou diretamente para ele, sem raiva, sem pena.
â Eu te perdoei hĂĄ muito tempo.
PerdĂŁo e retorno sĂŁo coisas diferentes.
Eu perdoei para seguir vivendo.
Mas nĂŁo hĂĄ para onde voltar.
Aquela casa da qual vocĂȘ saiu nĂŁo existe mais.
Existe outra.
A minha.
Gleb ficou em silĂȘncio.
O buquĂȘ pendia ao longo do corpo.
â VocĂȘ pode ver as crianças, disse Nina.
â Combinando antes.
Nos fins de semana.
Se elas quiserem.
Mas nĂŁo aqui.
E nĂŁo assim.
â Como assim, nĂŁo assim?
â NĂŁo com flores e promessas.
NĂŁo tentando recuperar aquilo que vocĂȘ mesmo destruiu.
De forma honesta.
Simples.
Como um pai que vem ver os filhos e vai embora.
â Isso Ă© cruel, disse ele baixinho.
â NĂŁo, Gleb.
Cruel é ir embora sem explicaçÔes.
Cruel sĂŁo dois anos de silĂȘncio.
Cruel Ă© aparecer com um hematoma e falar sobre Kaluga quando sua filha esqueceu a sua voz.
Isso sim Ă© cruel.
O que eu estou fazendo Ă© colocar ordem.
Ele ficou parado por mais meio minuto.
Depois estendeu as flores para ela.
â Pelo menos aceite.
Jogue fora se quiser.
Nina nĂŁo pegou.
â VĂĄ embora, disse ela.
â Com calma, sem cena.
Quando estiver pronto para falar sobre as crianças, escreva.
Eu responderei.
Gleb assentiu.
Virou-se.
Desceu as escadas, segurando o buquĂȘ na mĂŁo abaixada.
Nina fechou a porta.
Trancou a fechadura.
Ficou parada por um segundo, encostada de costas na porta.
Depois se endireitou, voltou para a cozinha e ligou a chaleira.
O telefone tocou uma hora depois.
Era Olia.
â E entĂŁo?
â Ele veio.
Com flores.
Pediu para voltar.
â E?
â Recusei.
â Como ele ficou?
â Perdido.
Magoado.
Mas foi embora em silĂȘncio.
â VocĂȘ foi forte, disse Olia.
â SĂ©rio.
â Eu nĂŁo fui forte.
Eu sĂł sei o que nĂŁo quero.
â Isso Ă© ser forte.
A maioria das pessoas nĂŁo sabe.
Ou sabe, mas tem medo de dizer.
â Eu nĂŁo tive medo, disse Nina.
â Estava claro para mim.
Pela primeira vez em todo esse tempo, absolutamente claro.
â Tome chĂĄ.
Deite cedo.
AmanhĂŁ serĂĄ um dia comum.
â Sim.
Comum.
E isso Ă© bom.
A manhĂŁ chegou sem ansiedade.
A luz caĂa no chĂŁo em faixas oblĂquas.
Nina se levantou Ă s sete, como sempre, e foi para a cozinha.
Ela pegou farinha, ovos e queijo cottage.
Amassou a massa para os syrniki com movimentos habituais e precisos.
A frigideira aqueceu, e o óleo começou a chiar.
Dasha apareceu primeiro, descalça, com seu ursinho de pelĂșcia.
â Syrniki?
perguntou ela.
â Syrniki.
â Com geleia?
â Com geleia.
Mitia saiu cinco minutos depois.
Sentou-se Ă mesa e puxou o prato para perto.
O prato tinha uma cor quente de areia.
Nina o fizera no mĂȘs anterior, especialmente para os cafĂ©s da manhĂŁ.
Eles comeram em silĂȘncio.
Depois Mitia largou o garfo.
â Ele vai vir de novo?
perguntou.
Nina olhou para o filho.
Ele tinha dez anos, mas Ă s vezes parecia ter vinte.
â NĂŁo sei, disse ela.
â Talvez ele veja vocĂȘs nos fins de semana.
Se vocĂȘs quiserem.
â E vocĂȘ?
â Eu, nĂŁo.
NĂŁo tenho nada para conversar com ele.
â Por quĂȘ?
â Porque ele queria recuperar o que existia antes.
E o que existia antes nĂŁo existe mais.
Existe o que hĂĄ agora.
E agora Ă© melhor.
Mitia assentiu.
Ficou em silĂȘncio por um momento.
â Seus pratos sĂŁo bonitos, disse ele.
Nina sorriu.
â Obrigada, Mitia.
â SĂ©rio.
Eu contei na escola.
Os colegas pediram para ver.
â VocĂȘ vai mostrar.
Vou te dar um para levar, aquele com o desenho de bétula.
â Posso levar o azul?
Aquele com a rachadura na lateral?
â Pode.
SĂł com cuidado.
Dasha levantou a cabeça do prato.
â E para mim tambĂ©m vocĂȘ vai dar?
â Para vocĂȘ, vou fazer um especial.
Como vocĂȘ quer?
â Com um gato.
â Combinado.
Depois do café da manhã, Nina verificou o e-mail.
Duas novas encomendas: um conjunto de tigelinhas para uma loja de chå e uma série de travessas decorativas para um restaurante na Maroseyka.
Ela anotou as medidas, calculou o esmalte e fez esboços a låpis no caderno.
O telefone estava ao lado.
NĂŁo havia mensagens de Gleb.
E Nina sabia que nĂŁo haveria.
NĂŁo hoje.
Talvez amanhĂŁ.
Talvez em uma semana.
Mas, fosse o que fosse que ele escrevesse, a resposta jĂĄ existia.
Clara, definitiva, pronunciada em voz alta.
Ela ligou o torno.
Colocou um bloco de argila no centro.
Umedeceu as mĂŁos.
A argila cedeu, como sempre.
Suave e obediente.
As paredes da tigela cresciam sob seus dedos, lisas, finas, vivas.
Dasha espiou dentro do quarto.
â Que bonito, disse ela.
â Vai ser uma tigela.
Para chĂĄ.
â Posso tentar?
â Sente-se ao lado.
Aqui estĂĄ um pedaço para vocĂȘ.
Dasha sentou-se no banquinho baixo, pegou o pedaço de argila e começou a amasså-lo com os dedos.
Concentrada, mordendo o lĂĄbio.
Nina trabalhava.
A luz caĂa sobre a mesa, sobre suas mĂŁos, sobre a argila Ășmida.
Tudo estava em seu lugar.
Os pratos estavam no escorredor, os mesmos em que tinham acabado de comer.
Os esboços estavam no caderno.
As encomendas esperavam sua vez.
Ela não precisava provar nada a ninguém.
Nem a ele, nem a si mesma.
A vida que ela construĂra ao longo daqueles dois anos falava por si sĂł, em silĂȘncio, com segurança e sem palavras desnecessĂĄrias.
Ela não esperava mais por ninguém.
E isso nĂŁo era solidĂŁo.
Era uma certeza calma e serena: tudo o que era necessĂĄrio jĂĄ estava ali.
A argila girava.
A tigela ganhava forma.
Nina trabalhava.







