Galina Petrovna chegou à casa da nora naquela terça-feira sem avisar, com dois sacos de mudas e um pote de geleia caseira de groselha.
Svetlana abriu a porta e, ao ver a sogra, sorriu â sinceramente, sem esforço.

Entre elas havia muito tempo se formara uma relação que não se encaixava em nenhuma piada nem em nenhum comentårio maldoso.
â Pensei que os floxes perto da cerca estavam completamente tristes, disse Galina Petrovna, colocando os sacos no chĂŁo.
â Trouxe novos.
E geleia.
VocĂȘ gosta dela, eu me lembro.
â Galina Petrovna, a senhora de novo.
Eu pedi para nĂŁo gastar dinheiro.
â Isso nĂŁo Ă© gasto, Sveta.
Ă prazer.
Também me då alegria.
Svetlana levou os sacos para a cozinha e colocou a chaleira no fogo.
Galina Petrovna sentou-se Ă mesa e olhou ao redor como de costume.
Aquele apartamento pertencia a Nina Vasilievna, mĂŁe de Svetlana, e as duas mulheres sabiam disso.
Danil também sabia, embora preferisse não se lembrar.
â Como ele estĂĄ? perguntou Galina Petrovna em voz baixa.
â Danil?
Ele existe.
Vem, vai embora.
Ăs vezes janta em casa.
Ăs vezes nĂŁo.
â Ele sempre foi assim.
Mesmo menino, parecia estar por perto, mas ao mesmo tempo nĂŁo estava.
Achei que, ao se casar, mudaria.
â NĂŁo mudou.
â Eu vejo.
Svetlana serviu o chĂĄ nas xĂcaras e sentou-se em frente a ela.
Ela nĂŁo reclamava.
NĂŁo porque fosse orgulhosa, mas porque reclamar era inĂștil.
Danil nĂŁo a ofendia, nĂŁo fazia escĂąndalos â ele simplesmente estava ausente.
Fisicamente, estava no apartamento, mas sua presença era sentida não mais do que a sombra de um armårio.
â Eu me lembro de como a senhora me ajudou naquela Ă©poca, disse Svetlana.
â Com o carro.
Se nĂŁo fosse a senhora, eu nĂŁo teria conseguido.
Eu precisava viajar para longe todos os dias, e dinheiro nĂŁo havia absolutamente nenhum.
â Pare com isso.
Depois vocĂȘ me retribuiu em dobro.
Quando nasceu o menino de Katia e precisĂĄvamos de um massagista â nĂŁo qualquer um, mas um bom.
VocĂȘ encontrou um por meio de conhecidos em dois dias.
Eu mesma teria procurado por um mĂȘs.
â NĂŁo foi difĂcil.
â Para vocĂȘ, nĂŁo foi difĂcil.
Para mim, foi uma salvação.
EntĂŁo estamos quites, Sveta.
Elas tomavam chĂĄ e conversavam sobre nada em especial â sobre as mudas, sobre os vizinhos da dacha, sobre o fato de que a macieira perto do portĂŁo daria uma boa colheita naquele ano.
Galina Petrovna se animava quando o assunto chegava Ă dacha.
Aquela dacha pertencia a Svetlana â ela a herdara do avĂŽ â, mas foi Galina Petrovna quem lhe deu vida.
Ela colocou o terreno em ordem, plantou flores e fez canteiros.
Svetlana nĂŁo tinha tempo para cuidar disso, e a dacha ficara abandonada por anos.
â No fim de semana vou para lĂĄ, disse Galina Petrovna.
â Ă preciso cobrir as rosas antes que as noites fiquem completamente frias.
â Claro.
VĂĄ.
A senhora sabe que lĂĄ Ă© como se fosse sua casa.
Galina Petrovna assentiu com gratidĂŁo.
Svetlana realmente sentia isso.
A sogra na dacha significava que a dacha vivia.
Sem ela, o terreno voltaria a se transformar em um matagal abandonado.
Danil chegou em casa na sexta-feira, depois dos feriados.
NĂŁo estava sozinho.
AtrĂĄs dele estava uma mulher â baixa, loira, com o casaco desabotoado.
Svetlana saiu para o corredor ao som da porta se abrindo e parou.
Olhou para o marido, depois para a mulher.
Depois novamente para o marido.
Ela jĂĄ sabia.
NĂŁo especificamente sobre aquela mulher, mas sabia â tudo caminhava para isso.
O distanciamento dos Ășltimos meses, as noites vazias, o olhar que passava por ela sem parar.
Tudo se juntava em uma Ășnica imagem, e Svetlana nĂŁo fingiu estar surpresa.
â Precisamos conversar, começou Danil.
A voz era calma, ensaiada.
â Converse.
â Vou pedir o divĂłrcio.
Esta Ă© Lena.
Vamos ficar juntos.
â EstĂĄ bem.
Danil piscou.
Ele claramente se preparara para outra coisa â para gritos, para perguntas como âpor quĂȘâ e âcomo vocĂȘ pĂŽdeâ.
Svetlana nĂŁo lhe deu nada disso.
Ela ficou de pé, ereta, com os braços ao longo do corpo e o rosto calmo.
â EstĂĄ bem? perguntou ele.
â Ă sĂł isso que vocĂȘ vai dizer?
â E o que vocĂȘ quer ouvir?
Que estou desesperada?
Eu nĂŁo estou desesperada, Danil.
VĂĄ arrumar suas coisas.
Ele foi para o quarto.
Lena ficou no corredor.
Por alguns segundos, ficou calada, mudando o peso de um pé para o outro, depois deu um passo em direção a Svetlana.
â Svetlana, eu gostariaâŠ
NĂŁo guarde rancor.
Aconteceu assim.
Ninguém planejou.
Svetlana olhou para ela â nĂŁo com raiva, nĂŁo com desprezo, mas como se olha para uma desconhecida em uma fila.
Sem interesse.
Depois se virou e entrou no escritĂłrio.
Fechou a porta.
Sentou-se Ă mesa.
Abriu o notebook.
Lena ficou sozinha no corredor.
Do quarto vinham sons â farfalhar, portas do armĂĄrio batendo.
Danil arrumava suas coisas.
Cerca de quarenta minutos depois, ele saiu com duas bolsas.
Olhou para a porta fechada do escritĂłrio.
Aproximou-se.
Levantou a mĂŁo para bater.
NĂŁo bateu.
Baixou a mĂŁo.
Pegou as bolsas e saiu do apartamento.
Dois dias depois, a sogra chegou.
Ela ligou antes e pediu permissĂŁo.
Svetlana abriu a porta.
Galina Petrovna parecia nĂŁo dormir havia dois dias.
Os olhos estavam vermelhos, os lĂĄbios apertados.
â Sveta.
Vim pedir desculpas.
Pelo meu filho.
Eu nĂŁo o criei assim.
NĂŁo sei o que aconteceu com ele.
â Galina Petrovna, a senhora nĂŁo tem culpa de nada.
â Tenho culpa.
Ele Ă© meu filho.
Isso significa que em algum lugar eu nĂŁo vi o suficiente.
Em algum lugar eu errei.
â Ele Ă© um homem adulto.
Ele tomou uma decisĂŁo.
A senhora nĂŁo tem nada a ver com isso.
A sogra sentou-se em uma cadeira no hall e ficou em silĂȘncio por alguns segundos.
Depois levantou a cabeça.
â Vou juntar minhas coisas na dacha e sair de lĂĄ.
Ă sua e de DanilâŠ
Ou melhor, Ă© sua dacha.
Agora me sinto desconfortĂĄvel.
â Galina Petrovna, espere.
A dacha Ă© minha.
Herança do meu avÎ.
Danil não tem relação nenhuma com ela.
â Ainda mais.
Que direito eu tenho de ficar lĂĄ se vocĂȘ e meu filho se separaram?
â A senhora tem esse direito porque eu peço que fique.
Se a senhora for embora, a dacha voltarĂĄ a virar uma ruĂna.
Eu vou lĂĄ uma vez por mĂȘs.
E, quando vou, me sinto em casa.
Porque foi a senhora que fez dela uma casa.
â SvetaâŠ
â NĂŁo se apresse.
Não tome decisÔes movida pela emoção.
Fique.
Nada mudou.
Galina Petrovna começou a chorar.
Baixinho, por pouco tempo.
Enxugou os olhos, endireitou-se e assentiu.
O divĂłrcio foi formalizado rapidamente.
O apartamento pertencia a Nina Vasilievna.
Danil nĂŁo podia reivindicĂĄ-lo e nĂŁo o fez.
A dacha estava registrada em nome de Svetlana.
Danil tambĂ©m nĂŁo a reivindicou â naquele momento.
Naquele momento, ele estava ocupado com outra coisa: uma nova vida, uma nova mulher, um novo começo.
Passaram-se quatro meses.
Svetlana estava voltando para casa quando o telefone tocou.
Era o nĂșmero de Danil.
Ela atendeu.
â Prepare os documentos para a venda da dacha, disse ele sem cumprimentar.
â Lena e eu precisamos de dinheiro.
Svetlana ficou em silĂȘncio por exatamente dois segundos.
NĂŁo por confusĂŁo â por surpresa diante de tanta insolĂȘncia.
â NĂŁo, disse ela.
â Sveta, vamos resolver isso normalmente.
Eu trabalhei duro lĂĄ.
Coloquei a cerca, consertei o telhado.
â Quem colocou a cerca foi seu amigo Igor.
O telhado foi consertado por trabalhadores contratados.
Com o meu dinheiro.
A dacha Ă© minha.
Pelos documentos.
Pela lei.
Pela consciĂȘncia.
â VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio agora?
Eu preciso de dinheiro.
NĂŁo estou pedindo a quantia toda.
A metade.
â Metade da minha herança?
Danil, vocĂȘ precisa ir ao mĂ©dico?
â Estou ouvindo uma mulher gananciosa que nĂŁo consegue dividir os bens de forma normal.
Svetlana desligou.
Com calma.
Sem bater, sem estalo.
Apenas apertou o botĂŁo.
Depois discou outro nĂșmero.
â Galina Petrovna.
OlĂĄ.
Danil acabou de ligar.
Exigiu que eu vendesse a dacha.
Ele e Lena precisam de dinheiro.
Do outro lado, houve uma longa pausa.
â Ele disse âexigiuâ?
â Exatamente assim.
Exigiu.
Como se fosse propriedade dele.
â Sveta, euâŠ
Eu nĂŁo sei o que dizer.
â A senhora nĂŁo precisa dizer nada.
Eu sĂł quero que saiba.
NĂŁo vou vender a dacha.
A senhora mora lĂĄ, e vai continuar lĂĄ.
â Sveta, escute.
Eu penso nisso hĂĄ muito tempo.
Tenho um apartamento â de um quarto, praticamente nĂŁo o uso.
Posso vendĂȘ-lo.
Darei parte do dinheiro a Danil, para que ele nos deixe em paz.
Parte darei a Katia.
Parte colocarei em um depĂłsito.
E eu mesma vou morar na dacha.
Se vocĂȘ nĂŁo se importar.
â Galina Petrovna, a senhora nĂŁo Ă© obrigada.
â Eu sei que nĂŁo sou obrigada.
Mas eu quero.
O apartamento fica vazio.
Vou lĂĄ uma vez por semana para pegar a correspondĂȘncia.
Para que preciso de paredes nas quais nĂŁo vivo?
â A senhora tem certeza?
â Absoluta.
Svetlana ficou sentada no carro, olhando Ă frente.
A decisĂŁo fora tomada â nĂŁo por ela, mas com seu consentimento silencioso.
Ela nĂŁo jogava o problema para outra pessoa.
Ela nĂŁo adiava.
Danil queria dinheiro â ele receberia dinheiro.
Mas nĂŁo de Svetlana.
E nĂŁo Ă s custas de sua propriedade.
Uma semana depois, Svetlana ligou para a amiga.
Marina estava em casa, mexendo em alguma coisa, e atendeu no quarto toque.
â Marinka.
Aconteceu uma coisa.
Galina Petrovna estĂĄ vendendo o apartamento.
E quer morar na dacha.
â Espera.
Ă sua sogra?
Ex-sogra?
â Ex.
Sim.
â E o que ela tem a ver com a sua dacha?
â Ela mora lĂĄ.
JĂĄ faz dois anos.
Cuida do terreno.
Eu permiti.
â Svet, eu nĂŁo me meto nos assuntos dos outros.
VocĂȘ sabe.
Mas isso é uma situação estranha.
Sua ex-sogra mora na sua dacha.
Seu ex-marido exige que essa dacha seja vendida.
E a sogra, em vez de ficar do lado do filho, vende o prĂłprio apartamento.
â Exatamente.
â Certo.
VocĂȘ Ă© adulta.
Faça como achar melhor.
SĂł me diga â vocĂȘ confia nela?
â Em Galina Petrovna?
Sim.
Mais do que eu confiava no filho dela.
Marina ficou em silĂȘncio.
Depois disse baixinho:
â EntĂŁo me mantenha informada.
Galina Petrovna vendeu o apartamento em um mĂȘs.
O comprador apareceu rapidamente â o bairro era bom, o preço razoĂĄvel.
Ela dividiu o dinheiro em trĂȘs partes: uma parte deu a Danil, uma parte Ă filha Katia, e uma parte colocou em um depĂłsito.
Danil veio buscar o dinheiro no mesmo dia em que ele caiu na conta.
NĂŁo agradeceu.
NĂŁo perguntou como ela estava.
Pegou â e foi embora.
Galina Petrovna ligou para Svetlana Ă noite.
â Pronto.
O apartamento nĂŁo existe mais.
Danil recebeu a parte dele.
Katia recebeu a dela.
Estou na dacha.
Se vocĂȘ mudar de ideia, diga diretamente, eu encontro para onde ir.
â Galina Petrovna.
Eu nĂŁo vou mudar de ideia.
More aĂ.
A dacha Ă© sua casa enquanto a senhora quiser.
â Obrigada, Sveta.
VocĂȘ Ă© melhor do que meu filho merecia.
Nina Vasilievna ligou para a filha no sĂĄbado de manhĂŁ.
Falou pouco, de forma prĂĄtica, como sempre.
â Svetlana, Marina me contou.
Sobre a dacha, sobre a sogra.
O que estĂĄ acontecendo?
â Nada novo.
Danil queria dinheiro.
Recebeu â da mĂŁe dele, nĂŁo de mim.
Agora, espero que me deixe em paz.
â E Galina Petrovna agora estĂĄ sem moradia?
â Ela estĂĄ na dacha.
Por vontade prĂłpria.
Eu nĂŁo a obriguei.
â NĂŁo estou dizendo que obrigou.
Estou perguntando se vocĂȘ entende o que estĂĄ fazendo.
â Entendo.
Ela Ă© uma boa pessoa.
Ela nĂŁo tem culpa de o filho dela ter se tornado assim.
â EstĂĄ bem.
VocĂȘ Ă© adulta.
As decisÔes são suas.
Mas, se algo der errado, ligue.
â Vou ligar.
Nina Vasilievna desligou.
Ela havia muito tempo deixara de se intrometer na vida da filha.
NĂŁo por indiferença â por respeito.
Desde os quinze anos, Svetlana tomava decisÔes sozinha.
Ăs vezes errava.
Mas, na maioria das vezes, nĂŁo.
Enquanto isso, Danil comprou um carro.
Toda a quantia que a mĂŁe lhe dera, ele investiu no automĂłvel â novo, brilhante, caro.
Lena ficou satisfeita.
Igor, seu amigo, deu-lhe um tapinha no ombro.
â Que beleza!
Isso sim Ă© vida.
E essa sua Svetlana Ă© uma sovina.
Podia ter dividido alguma coisa.
O apartamento, tudo bem, Ă© da sogra.
Mas a dacha â era vida em comum, rotina em comum.
â A dacha estĂĄ registrada no nome dela, disse Danil.
â E daĂ?
VocĂȘ morou lĂĄ.
VocĂȘ investiu lĂĄ.
â Ela diz que eu nĂŁo investi.
â Bobagem.
VocĂȘ Ă© marido.
Foi.
EntĂŁo tem direito moral.
â Moral nĂŁo Ă© jurĂdico.
â Escuta, sua mĂŁe ainda mora lĂĄ?
â Mora.
E daĂ?
â EntĂŁoâŠ
Se sua mĂŁe mora lĂĄ, isso significa que, na prĂĄtica, Ă© a casa dela.
VocĂȘ pode ir visitar sua mĂŁe?
Pode.
Ela vai deixar vocĂȘ entrar?
Vai.
E depois â quem vai expulsar vocĂȘ de lĂĄ?
Talvez a dacha jĂĄ seja dela?
Danil olhou para Igor.
Algo estalou em sua cabeça.
A ideia lhe pareceu lĂłgica, bonita, impecavelmente simples.
A mĂŁe mora na dacha â entĂŁo a dacha, na prĂĄtica, pertence Ă mĂŁe.
Ele Ă© o filho.
EntĂŁo pode ir para lĂĄ.
â Lena, disse ele Ă noite.
â Eu tive uma ideia.
Vamos nos mudar para fora da cidade.
Para a dacha.
Minha mĂŁe estĂĄ lĂĄ sozinha, ela vai gostar.
O terreno é grande, a casa é espaçosa.
Vai dar para nĂłs.
â E Svetlana?
â Svetlana nĂŁo mora lĂĄ.
Ela aparece uma vez por mĂȘs.
A dacha Ă© da minha mĂŁe.
â VocĂȘ tem certeza de que Ă© uma boa ideia?
â Absoluta.
Arrume as malas.
Lena arrumou.
Duas malas grandes, trĂȘs caixas.
Danil colocou tudo no carro novo.
Eles foram em silĂȘncio.
Lena olhava para o lado e mordia o lĂĄbio.
Depois do divĂłrcio, ela tentara criar uma relação com Galina Petrovna â ligava, propunha encontros.
Galina Petrovna recusava educadamente todas as vezes.
NĂŁo de forma rude.
Apenas nĂŁo.
Sem explicaçÔes.
â Danil, vocĂȘ ligou para sua mĂŁe?
Avisou?
â Para quĂȘ?
Eu sou filho dela.
Vou chegar, e ela ficarĂĄ feliz.
â VocĂȘ tem certeza?
â Lena, chega de perguntas.
Eu sei o que estou fazendo.
O carro parou perto do portĂŁo.
Danil saiu e olhou ao redor.
O terreno estava excelente â gramado aparado, caminhos retos, canteiros de flores ao longo da cerca.
A macieira perto do portĂŁo estava carregada de frutos.
A casa estava recém-pintada, com novos acabamentos nas janelas.
Galina Petrovna havia colocado naquele lugar todo o seu tempo e suas forças.
Danil abriu o portão e foi em direção à casa.
Lena ficou junto ao carro.
Galina Petrovna saiu para a varanda.
Ela olhava para o filho â sem sorriso, sem alegria.
Com uma expressĂŁo pesada e imĂłvel.
â Oi, disse Danil.
â Chegamos.
Decidimos nos mudar para fora da cidade.
Trouxe as coisas.
â Que coisas?
â Nossas.
Minhas e de Lena.
Malas, caixas.
Vamos morar aqui por um tempo.
Hå espaço suficiente.
A mĂŁe nĂŁo se mexeu da varanda.
Ela estava de pé, apoiando a mão no corrimão.
â Danil.
VocĂȘ ligou para Svetlana?
â Por que eu ligaria para Svetlana?
VocĂȘ mora aqui.
Eu vim atĂ© vocĂȘ.
â Eu moro aqui.
Mas estou aqui como convidada.
Esta nĂŁo Ă© minha casa.
Ă a casa de Svetlana.
Ela me permitiu ficar.
A vocĂȘ, ela nĂŁo permitiu.
Danil parou no meio do caminho até a varanda.
O sorriso começou a desaparecer de seu rosto.
â Como assim?
VocĂȘ Ă© minha mĂŁe.
Eu vim atĂ© vocĂȘ.
â VocĂȘ veio Ă casa de outra pessoa.
Sem convite.
Com malas.
E com a mulher por causa de quem destruiu seu casamento.
VocĂȘ realmente achou que eu abriria a porta?
â VocĂȘ nĂŁo vai abrir a porta para seu prĂłprio filho?
â NĂŁo vou abrir a porta de outra pessoa.
Esta nĂŁo Ă© minha porta, Danil.
Ă a porta de Svetlana.
Vou ligar para ela e perguntar.
â NĂŁo ligue para ninguĂ©m!
Isso Ă© absurdo!
â NĂŁo Ă© absurdo.
Ă decĂȘncia.
Espere.
Galina Petrovna tirou o telefone e ligou para Svetlana.
â Sveta.
Danil chegou.
Com malas.
Com a mulher dele.
Quer morar aqui.
O que vocĂȘ diz?
Do outro lado houve uma breve pausa.
Depois veio a voz de Svetlana â firme, sem emoção, sem tremor:
â Galina Petrovna, meu ex-marido e a mulher dele nĂŁo tĂȘm nada a fazer na minha dacha.
Esta Ă© a minha casa.
Ele nĂŁo foi convidado para lĂĄ.
Nem hoje, nem amanhĂŁ, nem nunca.
â Entendi.
Obrigada, Sveta.
Galina Petrovna guardou o telefone e olhou para o filho.
â Ouviu?
â Ela nĂŁo pode me proibir!
â Pode.
A dacha Ă© propriedade dela.
VocĂȘ sabe muito bem disso.
Danil ficou parado no meio do caminho.
Lena saiu do carro e se aproximou.
Ela havia ouvido a conversa.
Seu rosto estava tenso, pĂĄlido.
â Danil, vamos embora.
Por favor.
Não faça isso.
â Espere! retrucou ele.
â MĂŁe, vocĂȘ entende que eu nĂŁo tenho apartamento?
O dinheiro que vocĂȘ me deu eu investi no carro.
NĂŁo tenho para onde ir.
â VocĂȘ investiu o dinheiro do apartamento vendido â do meu apartamento â em um pedaço de metal?
Todo o dinheiro?
â Foi uma compra sensata.
â Uma compra sensata.
Por causa de rodas.
E agora vocĂȘ estĂĄ aqui exigindo o teto de outra pessoa.
Danil, eu dei Ă luz a vocĂȘ.
Eu amo vocĂȘ.
Mas nĂŁo vou trair por sua causa uma pessoa que agiu comigo com decĂȘncia.
â VocĂȘ escolhe a ex-nora?
Em vez do filho?
â Eu escolho a consciĂȘncia.
Eu nĂŁo escolhi a ex-nora â ela mesma escolheu continuar sendo decente.
E vocĂȘ mesmo escolheu se tornar assim.
Danil virou-se para Lena.
Lena olhava para ele, e em seus olhos havia algo novo â nĂŁo apoio, nĂŁo admiração, nĂŁo confiança.
Algo parecido com decepção.
â Lena, diga alguma coisa.
â O que vocĂȘ quer que eu diga, Danil?
VocĂȘ disse que tinha um plano.
Que nos mudarĂamos para fora da cidade.
Que tudo estava resolvido.
Nada estĂĄ resolvido.
NĂŁo temos apartamento.
NĂŁo temos economias.
Temos um carro, no qual agora, pelo visto, vamos morar.
â Eu nĂŁo podia saber que minha mĂŁe recusaria!
â VocĂȘ podia ter ligado.
Podia ter perguntado.
VocĂȘ nĂŁo fez nada.
Como sempre.
Ela se virou e foi para o portĂŁo.
Danil ficou sozinho.
Galina Petrovna estava na varanda.
Entre eles havia o caminho, revestido com placas bem alinhadas.
Nas bordas, havia cravos-de-defunto, laranja e amarelos, ainda vivos, ainda brilhantes.
â Danil, disse a mĂŁe.
â VĂĄ embora.
Encontre um apartamento alugado.
Ponha sua vida em ordem.
Quando voltar a si, ligue.
NĂŁo para cĂĄ.
Para mim.
No meu nĂșmero.
Mas nĂŁo traga malas.
E nĂŁo traga Lena.
E nĂŁo venha com exigĂȘncias.
â VocĂȘ me traiu, disse ele.
â NĂŁo.
Foi vocĂȘ quem traiu.
Primeiro sua esposa.
Depois, a si mesmo.
E eu apenas parei de fingir que nĂŁo percebia.
Danil se virou e foi até o carro.
O porta-malas estava cheio de coisas.
Lena jĂĄ estava sentada no banco do passageiro, virada para a janela.
Ele se sentou ao volante.
Por muito tempo nĂŁo ligou o motor.
Depois ligou e arrancou.
O carro desapareceu atrĂĄs da curva.
Galina Petrovna ficou de pé na varanda.
Tirou o telefone.
Ligou para Svetlana.
â Sveta.
Ele foi embora.
â A senhora estĂĄ bem?
â NĂŁo exatamente.
Mas vou ficar.
Obrigada por nĂŁo ceder.
â Galina Petrovna.
Esta Ă© a minha casa.
E a senhora Ă© minha pessoa.
NĂŁo havia nada a ceder.
â Sabe, SvetaâŠ
Ele gastou o dinheiro no carro.
Tudo, atĂ© o Ășltimo copeque.
â NĂŁo estou surpresa.
â Eu estou.
Sempre fico surpresa.
Embora, ao que parece, jĂĄ esteja na hora de parar.
â Descanse.
Vou aĂ no sĂĄbado.
Levarei uma torta de maçã.
â VocĂȘ nĂŁo sabe fazer torta de maçã.
â Eu compro.
Galina Petrovna sorriu.
Guardou o telefone e voltou para dentro de casa.
Fechou a porta.
Colocou a chaleira no fogo.
Do lado de fora da janela estavam o terreno, as flores, a macieira.
Tudo estava em seu lugar.
Tudo estava vivo.
E Danil seguia pela estrada, e o carro novo â brilhante, caro â agora lhe parecia exatamente aquilo que era de verdade: uma caixa bonita, completamente vazia.







