A minha sogra disse ao meu marido que me tinha visto no carro de outro homem, mas, quando pus sobre a mesa a pequena caixa que tinha trazido de lá, percebeu o terrível erro que tinha cometido.

— A tua mulher anda a encontrar-se com outro homem. Vi com os meus próprios olhos.

Foi precisamente isto que ouvi a minha sogra dizer quando abri a porta de casa.

Numa mão, levava os sacos das compras; na outra, o presente de aniversário do meu marido.

Ainda sorria no corredor, a pensar em como levar o embrulho para o quarto sem que ele reparasse.

Mas a conversa que vinha da cozinha deixou-me pregada ao chão.

— Mãe, tens a certeza de que era a Leonor? — perguntou o meu marido.

— Achas que não reconheço a minha própria nora?

Aproximou-se do carro de um homem e sentou-se ao lado dele.

Depois, estavam os dois a rir-se de qualquer coisa.

Tu aqui a trabalhar, e ela…

Um dos sacos escorregou-me da mão.

As maçãs rolaram pelo chão.

Os dois viraram-se.

Estávamos casados há seis anos.

Durante esses seis anos, sempre que a minha sogra vinha a nossa casa, eu fazia tudo para que se sentisse bem-vinda.

O café preferido dela estava sempre guardado num armário à parte.

No aniversário dela, era eu quem lembrava ao filho que devíamos ir comprar flores mais cedo.

Quando adoecia, levava-lhe sopa depois do trabalho.

Mas, naquela noite, olhava para mim com uma certeza tão triunfante, como se finalmente tivesse encontrado aquilo que procurava há muito tempo.

— Ainda bem que chegaste — disse ela.

— Agora explica ao teu marido em que carro estavas hoje à hora de almoço.

Olhei para o Duarte.

— E tu, o que me queres perguntar?

Estava junto à janela, com a camisa verde que usava para trabalhar.

Via-se pela expressão dele que a história da mãe já o tinha magoado.

— A minha mãe diz que te encontraste com um homem.

— E perguntaste porquê?

— É o que estou a perguntar agora.

Pousei em cima da mesa o pequeno saco com o presente.

Faltavam dois dias para o trigésimo quinto aniversário do Duarte.

Andava a preparar aquele dia havia quase um mês.

Já tinha convidado os amigos e a família, encomendado o bolo e até encontrado uma fotografia dele em criança para colocarmos na mesa, junto ao bolo.

O mais difícil tinha sido escolher o presente.

Uma noite, o Duarte falou-me do pai.

O pai tinha morrido havia muitos anos, e ele raramente falava daquela perda.

Nessa noite, tinha uma fotografia antiga na mão.

— Sabes do que mais me lembro? — perguntou.

— Do cheiro do perfume dele.

Antes de ele abrir a porta, eu já sabia que tinha chegado a casa.

Depois, disse-me o nome.

Guardei-o na memória.

Descobri que aquele perfume tinha deixado de ser fabricado havia vários anos.

Passei semanas a telefonar para lojas e a procurar anúncios.

Por fim, encontrei um homem que colecionava perfumes antigos.

Tinha um pequeno frasco ainda por abrir.

Naquele dia, tinha ido buscá-lo.

O homem não tinha loja.

Combinámos encontrar-nos à porta de um café movimentado.

Quando cheguei, começou a chover, e ele sugeriu que me sentasse no carro estacionado enquanto verificava a caixa e fazia a transferência.

Cinco minutos.

Apenas cinco minutos, durante os quais a minha sogra, pelos vistos, tinha conseguido ver-me, seguir-me e tirar as suas próprias conclusões.

— Porque é que não veio falar comigo? — perguntei-lhe.

Ela pestanejou.

— O quê?

— Se me viu, porque é que não se aproximou?

Podia ter chamado por mim.

Podia ter-me telefonado.

— Para teres tempo de inventar uma história?

O Duarte virou a cabeça para a mãe.

Tirei o telemóvel.

As mãos tremiam-me tanto que não consegui abrir a conversa à primeira tentativa.

— É este o homem — disse, pousando o telemóvel na mesa da cozinha.

— E aqui está a nossa conversa inteira.

Desde a primeira mensagem até ao encontro de hoje.

O Duarte aproximou-se.

No ecrã, estavam a fotografia do perfume, o preço e as minhas perguntas sobre o frasco, a embalagem e as condições de conservação.

Ao ler a última mensagem, o olhar dele parou.

«É um presente de aniversário para o meu marido.

O pai dele usava este perfume.

Por favor, confirme que é exatamente a mesma versão.»

Fez-se silêncio na cozinha.

Lá fora, um carro buzinou.

O relógio da parede continuava a fazer tiquetaque.

De repente, reparei que uma das maçãs caídas tinha rolado até à ponta do sapato da minha sogra.

Tirei a pequena caixa do saco.

— Foi isto que comprei.

O Duarte pegou nela.

Ficou alguns segundos a olhar para o nome e depois sentou-se numa cadeira.

— Leonor…

— Queria dar-to no teu aniversário.

Pensei que talvez reconhecesses o cheiro.

Ele tirou a tampa com cuidado.

Aproximou o frasco do nariz, e a expressão dele mudou.

Eu tinha imaginado aquele momento centenas de vezes.

Só que, naquilo que imaginava, eu não estava a chorar, e a mãe dele não estava ao nosso lado.

— É o mesmo — disse baixinho.

A minha sogra olhou para a caixa.

— Como é que eu havia de saber…

Olhei para ela.

— Não sabia.

Mas veio cá dizer que eu andava a trair o seu filho.

— Qualquer mãe, ao ver uma coisa daquelas…

— Podia ter perguntado.

Ela calou-se.

O Duarte pousou o frasco na mesa.

— Mãe, disseste-me que tinhas a certeza.

— Porque foi o que pareceu.

Estava preocupada contigo.

— E comigo, não se preocupou? — perguntei.

— Quando me viu dentro do carro, não pensou, nem por um instante, que eu podia precisar de ajuda?

Ou que podia ser um encontro por algum assunto?

Ou que eu estava simplesmente a comprar alguma coisa?

Os lábios dela tremeram.

— Leonor, enganei-me.

Reconheço.

Desculpa.

Esperei muito tempo por aquela palavra.

Durante anos, depois das insinuações dela, dos comentários sobre a comida que eu preparava e das perguntas sobre quando teríamos um filho.

Mas, agora que finalmente a ouvia, não senti alívio nenhum.

— O que mais lhe disse?

A minha sogra olhou para o Duarte.

Ele fechou os olhos.

— Disse que provavelmente não era a primeira vez.

Agarrei-me à borda da mesa.

Aquela frase doeu mais do que toda a conversa.

Portanto, ela não tinha vindo apenas contar o que vira naquele dia.

Tinha vindo pôr em causa os seis anos do nosso casamento.

— E tu? — perguntei ao meu marido.

Ele levantou-se imediatamente.

— Devia ter-te telefonado.

Devia ter falado contigo antes de ouvir isto tudo.

— Mas ouviste.

— Sim.

Não tentou justificar-se.

Naquele momento, só isso me ajudou a continuar a falar.

A minha sogra deu um passo na minha direção.

— Minha filha, estou envergonhada.

A sério.

Vamos esquecer esta história.

O aniversário está aí à porta.

Afastei-me quando ela tentou segurar-me na mão.

— Neste momento, não consigo perdoar-lhe.

Ela ficou imóvel.

— Mas eu pedi desculpa.

— Eu ouvi.

— O que mais queres que eu faça?

Olhei para o presente em cima da mesa.

Tinha passado um mês à procura daquele pequeno frasco para devolver uma boa recordação ao meu marido.

Agora, estava entre nós como prova da minha inocência.

— Peço-lhe que não volte a vir a nossa casa.

A minha sogra virou-se lentamente para o filho.

— Duarte.

Vais deixar que a tua mulher me ponha na rua?

Ele ficou calado durante muito tempo.

Eu não olhava para ele.

Não queria sugerir-lhe a resposta com um pedido ou com um olhar.

Por fim, disse:

— Mãe, hoje vai para casa.

— E o teu aniversário?

O Duarte respirou fundo.

— Desta vez, não vamos celebrar juntos.

A minha sogra apertou a asa da mala.

Tinha o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas.

Pela primeira vez, não me apressei a consolá-la.

Ela parou no corredor.

— Leonor, talvez um dia percebas o que é ser mãe.

Eu já me tinha baixado para apanhar as maçãs espalhadas pelo chão.

Endireitei-me e olhei para ela.

— Hoje, eu só queria fazer o seu filho feliz.

Podia simplesmente ter-me perguntado.

Ela não disse mais nada.

Depois de a porta se fechar, o Duarte baixou-se e apanhou a última maçã.

Durante alguns minutos, arrumámos as compras em silêncio.

Depois, ele aproximou-se de mim.

— Perdoa-me por teres sido obrigada a provar tudo isto.

Sentei-me, cansada.

— Preciso de tempo, Duarte.

Ele assentiu e sentou-se à minha frente.

Dois dias depois, celebrámos o aniversário dele a sós.

Eu tinha dito aos convidados que os planos tinham mudado.

O bolo era demasiado grande para nós os dois.

Enquanto eu acendia as velas, o Duarte pôs o perfume que lhe tinha oferecido.

O cheiro familiar espalhou-se pela sala.

Ele sorriu por um instante e depois segurou-me na mão.

Não a retirei.

Mas, quando nessa noite o nome da minha sogra apareceu no ecrã do telemóvel, não atendi.

Ainda não estava preparada.

E, desta vez, não me obriguei a fingir que estava.

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