Todas as sextas-feiras, o meu marido levava a nossa filha ao túmulo da minha mãe, até que um dia ela disse: «Mãe, a avó já não quer esconder-se de ti.»

— Mãe, esta sexta-feira vem connosco. A avó diz que já não quer esconder-se de ti.

A minha filha de oito anos disse aquilo sem tirar os olhos do desenho.

Fiquei imóvel, com a faca e uma maçã meio descascada nas mãos.

A minha mãe tinha morrido havia três anos.

Eu estivera no funeral. Escolhera a inscrição da lápide. Durante meses, ligara para o seu antigo número só para ouvir, por alguns instantes, a saudação que ela deixara gravada.

— Inês… de que avó estás a falar?

— Da minha avó. A que mora na casinha com a porta azul.

Pousei a faca.

— O pai leva-te ao cemitério.

Finalmente, a minha filha levantou a cabeça.

— Antes, sim. Mas agora vamos à casinha. A avó faz tarte de maçã.

Sentei-me.

— Desde quando?

A Inês contou pelos dedos.

— Já lá fomos cinco vezes. O pai disse que era uma surpresa para ti. Só que esta surpresa está a demorar imenso.

Quando o Miguel chegou do trabalho, eu estava à sua espera na cozinha.

— A quem é que a Inês chama avó?

Tirou o casaco sem olhar para mim.

— A uma senhora que vende flores junto ao cemitério.

— Ela falou de uma casa. De uma tarte de maçã.

Só então se virou.

— Catarina, é uma criança. Conversa com a senhora, imagina umas coisas. Não comeces a ver nisso motivos de preocupação.

Durante treze anos de casamento, eu acreditara naquela voz tranquila.

Naquela noite, pela primeira vez, pareceu-me uma resposta ensaiada.

Na sexta-feira seguinte, tirei o dia de folga. Quando o Miguel foi buscar a Inês à escola, eu esperava no carro, numa rua próxima.

Passou pelo desvio para o cemitério.

Vinte minutos depois, parou diante de uma pequena casa de pedra.

A Inês correu para a porta azul.

Uma mulher de cabelos grisalhos e casaco de malha castanho abriu-lhe a porta. Abraçou-a e, depois, bateu duas vezes com os dedos na ombreira de madeira.

A minha mãe fazia sempre aquilo.

«Para que todas as crianças entrem felizes», dizia quando éramos pequenas.

Não me lembro de sair do carro.

Lembro-me apenas do metal frio do portão debaixo da minha mão.

O Miguel foi o primeiro a ver-me.

— Catarina…

A mulher levantou a cabeça.

A mesma cicatriz por cima da sobrancelha esquerda. Os mesmos olhos.

— Mãe?

Estendeu a mão na minha direção, mas deteve o gesto a meio.

— Primeiro, liga à tua irmã — disse, com a voz a tremer. — Pergunta-lhe quem enterraste no meu lugar.

Nesse instante, o telefone tocou.

O nome da Leonor apareceu no ecrã.

Olhei para o Miguel. Tinha o telemóvel na mão.

Conseguira avisá-la.

Atendi e liguei o altifalante.

— Catarina, antes de fazeres seja o que for, deixa-me explicar…

— A mãe está à minha frente.

Do outro lado, fez-se silêncio.

— Quem é que enterrámos?

A Leonor começou a chorar.

— Ninguém.

O portão rangeu quando me apoiei nele com mais força.

Três anos antes, eu estivera a trabalhar no estrangeiro durante alguns meses. Depois de um AVC grave, a minha mãe ficara numa unidade privada de cuidados. A Leonor tratava de tudo cá.

Fora ela que me telefonara durante a noite.

Fora ela que me dissera que a mãe tinha morrido.

Quando cheguei de avião, o caixão já estava fechado. A minha irmã explicou que seria melhor para mim assim.

Eu não tivera forças para me opor.

— Tu estavas ao meu lado — disse ao Miguel. — Seguravas-me enquanto eu chorava.

— Na altura, não sabia.

— E agora?

Não respondeu.

A minha mãe pediu à Inês que fosse à cozinha buscar uns pratos. Quando a menina desapareceu para lá da porta, sentou-se num banco.

— Ela disse-me que tu não me querias ver — murmurou. — Que tinhas assinado uma autorização para eu ficar na unidade.

Abanei a cabeça.

— Nunca.

— Naquela altura, não conseguia andar. A fala estava a voltar devagar. A Leonor tinha o meu telefone e os meus documentos. Levava-me mensagens impressas. Supostamente, tuas.

Fechei os olhos.

Todos os meses, transferia dinheiro para a minha irmã manter a casa vazia da nossa mãe. Mais tarde, concordara em vendê-la.

A Leonor afirmara que metade do dinheiro da venda tinha sido usada para pagar dívidas dos tratamentos.

Não lhe pedira comprovativos.

Era a minha irmã.

— Porquê? — perguntei para o telefone.

— Tinha dívidas — respondeu a Leonor. — Ao princípio, só queria vender a casa. Depois, tudo foi longe de mais.

A minha mãe baixou a cabeça.

— Foi mais fácil dizer a uma filha que a mãe tinha morrido e à mãe que a filha a tinha abandonado.

O Miguel sentou-se no pequeno muro.

Seis semanas antes, a unidade de cuidados contactara-o por ele constar nos documentos da minha mãe como pessoa de contacto. A Leonor deixara de pagar e não atendia o telefone.

Ele fora lá, convencido de que se tratava de um engano.

E encontrara a minha mãe.

— Porque é que não me contaste logo?

Passou as mãos pelo rosto.

— A Leonor implorou-me que lhe desse uns dias. Disse que te contava ela própria. Arranjei este sítio para a tua mãe ficar, com a dona Lurdes, uma velha amiga dela. Queria primeiro ter a certeza de que estava em segurança.

— E depois?

— Tive medo de admitir que já sabia.

Olhei pela janela. A Inês estava a pôr os pratos na mesa da cozinha.

— Mas trazias a nossa filha cá.

— A tua mãe queria ver a neta.

— E ensinaste-a a esconder-me a verdade.

O Miguel assentiu.

Já não tentou justificar-se.

Sentei-me ao lado da minha mãe. Toquei-lhe na mão, com cuidado, como se ainda não acreditasse que podia fazê-lo.

Estava quente.

— Pensei que me tinhas abandonado — disse ela.

— Eu pensei que te tinha perdido.

Foi ela que me abraçou primeiro.

Chorámos tanto que a Inês acabou por aparecer à porta, com um prato na mão.

— Então, a surpresa já correu bem?

Estendi-lhe a mão.

— Já não vai haver surpresas, meu amor.

Naquela tarde, levei a minha mãe comigo.

No dia seguinte, fomos à polícia com os documentos. Depois, encontrámos um advogado. Começaram a verificar as transferências, a venda da casa e os papéis que a minha mãe não se lembrava de ter assinado.

Também se apurou quem ajudara a Leonor a organizar o falso funeral.

Não conseguimos recuperar tudo.

Não foi possível reparar tudo.

O Miguel saiu de casa durante algum tempo. Aceitei conversar com ele na presença de um terapeuta, mas não lhe prometi que voltaríamos à vida de antes.

A Leonor mandava mensagens.

«Mas a mãe está viva.»

Como se isso nos pudesse devolver três anos.

A minha mãe instalou-se no quarto com vista para o pátio. Nos primeiros tempos, eu acordava durante a noite e espreitava lá para dentro, só para ouvir a sua respiração.

Numa sexta-feira, voltei do trabalho e senti o cheiro a maçãs no forno.

A Inês estava sentada à mesa, coberta de farinha. A minha mãe tirava uma tarte do forno.

Ao ver-me, a minha filha abriu um grande sorriso.

— Vês? Eu disse-te que a avó fazia tartes.

A minha mãe pousou a tarte e bateu duas vezes com os dedos na ombreira da porta da cozinha.

Desta vez, entrei logo.

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