«Quando ela acordar, já estaremos a caminho», sussurrou a minha sogra, colocando o meu passaporte na mala, enquanto o meu marido perguntou: «E se ela não assinar?» 😱

Eram duas da manhã quando senti alguém puxar delicadamente a manga do meu roupão, que estava presa debaixo do cobertor.

Não abri os olhos.

Nas últimas três noites, a minha sogra, Evelina, tinha-me levado leite quente antes de dormir. Dizia que, depois de uma perda tão grande, eu precisava de descansar. O meu pai tinha morrido havia apenas dez dias. Estava tão exausta que, nas primeiras duas noites, bebi tudo sem pensar.

Mas, naquela noite, reparei num depósito branco no fundo do copo.

Despejei o leite no lavatório.

Agora estava deitada, imóvel, a ouvir a minha sogra abrir o roupeiro.

As rodas da mala rangeram baixinho no chão.

Estava a arrumar as minhas coisas.

— Também puseste os documentos?

O coração apertou-se-me ao ouvir a voz do meu marido.

Aram estava à porta. Conseguia ver o seu reflexo no canto do espelho em frente à cama.

— O passaporte está aqui dentro — respondeu Evelina. — Tu levas o telemóvel. Quando ela acordar, já estaremos a caminho.

Apertei os dedos debaixo do cobertor.

— E se ela não assinar?

A minha sogra parou de dobrar a minha camisa.

— Vai assinar. Só temos de a convencer de que o pai deixou dívidas.

O meu pai não tinha dívidas.

Disso, eu tinha a certeza.

Depois do funeral, Aram lembrava-me todos os dias de que tínhamos uma reunião com o advogado. Eu ia adiando. Não queria sentar-me num escritório e ouvir quanto valiam as coisas que o meu pai tinha juntado ao longo da vida.

O meu pai tinha um pequeno hotel em Dilijan. Na última vez que estivemos juntos, colocou-me uma chave na palma da mão.

— Se um dia tudo se complicar, vai até lá. Deixei uma coisa para ti no quarto de cima.

Pensei que seria mais uma fotografia de família ou alguma recordação da minha mãe.

A chave estava agora no bolso interior da minha camisa de dormir. Desde a morte do meu pai, nunca me separava dela.

— A que horas chega o carro? — perguntou Aram.

— Às três. Deixa-a dormir mais um pouco.

Saíram.

A porta fechou-se.

Durante um minuto inteiro, nem me atrevi a respirar fundo.

Depois estendi a mão para o telemóvel.

Não estava lá.

O cabo do carregador pendia da mesa de cabeceira, vazio.

O quarto ficava no primeiro andar. Havia uma câmara junto à entrada principal. Se tentasse sair pela porta, Aram ver-me-ia.

Mas a casa de banho tinha uma pequena janela que dava para o telhado da garagem. Uma vez, tínhamos entrado por ali quando nos esquecemos das chaves.

Tirei os chinelos.

Nesse instante, ouvi passos no corredor.

Voltei a enfiar-me debaixo do cobertor.

Evelina entrou, parou junto à minha cabeça e ficou a observar-me o rosto. Depois levantou-me uma pálpebra com os dedos frios.

Mal consegui conter um estremecimento.

— Lilit — sussurrou.

Não me mexi.

Abanou-me ligeiramente o ombro. Depois voltou a fazê-lo.

— Pobre rapariga — disse por fim.

Não havia compaixão na sua voz.

Quando os passos se afastaram, levantei-me.

Tranquei a porta da casa de banho, abri a torneira e subi para o parapeito.

A camisa de dormir prendeu-se no puxador de metal e rasgou-se. Esfolei um joelho na borda do telhado. Mas, poucos minutos depois, já estava no quintal da vizinha.

A senhora Sona abriu a porta ao terceiro toque.

Quando me viu, levou a mão à boca.

— Queres que chame o Aram?

— Não — sussurrei. — Ele não.

Na cozinha dela, com um casaco de malha velho pelos ombros, contei pela primeira vez em voz alta o que tinha ouvido.

Sona não me interrompeu uma única vez.

Depois colocou o telemóvel à minha frente.

Liguei ao melhor amigo do meu pai, o advogado Vahan.

Esperava uma resposta ensonada e irritada. Em vez disso, ouvi apenas:

— Onde estás?

Dei-lhe a morada.

— Fica aí. Não vás com ninguém. Estou aí dentro de vinte minutos.

— Tio Vahan… o meu pai tinha mesmo dívidas?

Fez-se silêncio.

— Não, Lilit. Mas o teu marido tem.

Vahan chegou com a irmã. Enquanto ele se sentava à minha frente, ela foi buscar roupa quente ao carro.

O advogado pousou uma pasta na mesa.

— Duas semanas antes de morrer, o teu pai pediu-me que verificasse a contabilidade do hotel. O Aram ajudava-o havia seis meses, lembras-te?

Assenti.

Tinha sido eu a sugerir ao meu pai que envolvesse o meu marido na gestão do hotel.

— Saíam transferências da conta para pagar serviços fictícios. O teu pai desconfiou e limitou o acesso do Aram.

— Porque é que não me disse nada?

— Queria reunir provas primeiro. Não queria destruir o teu casamento com base em suspeitas.

Olhei pela janela. Tinha-se acendido uma luz no andar de cima da nossa casa.

Aram já tinha descoberto que eu desaparecera.

O telemóvel de Sona tocou.

O nome dele apareceu no ecrã.

Vahan olhou para mim.

— Se te sentires preparada, atende. Põe em alta-voz.

— Senhora Sona? — Aram falava sem fôlego. — A Lilit está consigo? Ela está muito mal, anda a tomar medicamentos, pode fazer mal a si própria.

A vizinha sentou-se devagar.

— Está aqui. Agora está calma.

— Não acredite no que ela disser. Chamei um médico. Temos de a levar.

Estendi a mão para o telemóvel.

— Que médico, Aram?

Do outro lado, fez-se silêncio.

Depois, a voz dele tornou-se mais suave.

— Querida, percebeste tudo mal.

— Então porque é que me tiraste o telemóvel a meio da noite?

Não respondeu.

A polícia chegou quando uma carrinha branca já estava estacionada à frente da nossa casa.

Lá dentro não havia profissionais de saúde.

Havia dois homens que Evelina apresentava como funcionários de uma clínica privada. Um deles nem sequer conseguiu indicar com precisão a morada da clínica.

No nosso quarto, encontraram a minha mala.

Debaixo da roupa estavam documentos: uma autorização para vender o hotel e uma procuração em nome de Aram.

Os espaços para as assinaturas estavam assinalados com pequenos papéis amarelos.

Na cozinha, encontraram também uma embalagem de medicamentos que nunca me tinham sido receitados.

Evelina repetia constantemente:

— Só queríamos ajudar. Desde que o pai morreu, esta rapariga não está em condições.

Eu olhava para ela e recordava-me de como se sentava todas as noites na beira da minha cama, à espera de que eu acabasse de beber o leite.

Dois dias depois, fui com Vahan a Dilijan.

O hotel estava vazio. À entrada, ainda estavam os sapatos gastos do meu pai, com lama da última chuva.

Abri o quarto de cima com a chave que ele me tinha dado.

Havia um envelope em cima da secretária.

Com o meu nome.

Dentro, encontrei extratos bancários, documentos com a assinatura de Aram e uma carta do meu pai.

«Minha querida Lilit, se estás a ler isto sem mim, por favor, não te culpes. Eu também confiei nele.

O Vahan sabe de tudo. Será possível recuperar parte do dinheiro. Mas há uma coisa de que quero que te lembres.

Não tens de ficar ao lado de alguém só porque um dia essa pessoa foi o teu lar.»

Apertei a carta contra o peito e, finalmente, chorei.

Nessa noite, chegou ao meu novo telemóvel uma última mensagem de Aram.

«Deixa-me ao menos explicar. Eu nunca te faria mal.»

Fiquei muito tempo a olhar para o ecrã.

Depois abri a fotografia tirada no nosso quarto: a mala entreaberta, os documentos escondidos debaixo da roupa, a embalagem de medicamentos.

Guardei a mensagem como prova e desliguei o telemóvel.

Na manhã seguinte, voltei a pendurar à entrada do hotel a velha placa do meu pai.

O primeiro hóspede chegaria ao meio-dia.

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