“Para cima de que propriedade você está abrindo a boca?

Esta é a nossa dacha de família, fazemos churrasco aqui há 20 anos”, — minha cunhada ficou vermelha de raiva quando eu mostrei tudo diante de todos.

— Natasha, você vai descascar as batatas ou vai continuar sentada aí como uma madame? — minha cunhada Larisa lançou isso para mim do outro lado da mesa, sem nem olhar.

Eu estava sentada num banco debaixo da macieira.

Tinha acabado de chegar: duas horas de trem, depois mais vinte minutos a pé desde a estação, com sacolas.

Um calor de quase trinta graus.

Eu nem tinha conseguido beber água.

— Larisa, acabei de chegar.

Deixe-me tomar fôlego.

— Ah, “tomar fôlego”, — bufou Larisa.

— Nós estamos aqui desde cedo trabalhando feito condenadas, arrancando mato dos canteiros, preparando o churrasco, e ela precisa “tomar fôlego”.

Mocinha da cidade com mãos delicadas.

Eu fiquei calada.

Eu sempre ficava calada naquela dacha.

Durante doze anos, fiquei calada.

Desde que me casei com Dima.

Aqui preciso explicar.

Meu nome é Natália.

Tenho trinta e seis anos.

Trabalho como enfermeira em uma clínica particular: há quatro anos sou enfermeira-chefe e ganho razoavelmente bem para a nossa cidade.

Sou casada com Dmitri há doze anos, e nosso filho Artiom tem onze.

Dima é uma boa pessoa.

Calmo, trabalhador, caminhoneiro.

Mas Dima tem uma família.

E a família dele é um universo à parte, no qual eu fui uma estranha durante doze anos.

A sogra é Valentina Mikhailovna.

Calada, no fundo não é má, mas completamente dominada pela filha.

E a filha é Larisa.

Minha cunhada.

A irmã mais velha de Dima, quarenta e cinco anos, divorciada, com dois filhos adultos, que, aliás, há muito tempo moram separados e visitam a mãe uma vez por ano.

Larisa é uma pessoa-comandante.

Na família, ela decide tudo.

Quem vai aonde, quem compra o quê, quem vive de que jeito.

A palavra dela é lei.

Dima obedece a ela desde a infância: ela é oito anos mais velha que ele, praticamente uma segunda mãe.

E essa Larisa não gostou de mim desde o primeiro dia.

Sem motivo.

Simplesmente porque “o irmão trouxe uma qualquer”.

Doze anos de pequenas alfinetadas, tom de comando, “a da cidade”, “mãos delicadas”, “veio se aproveitar de tudo pronto”.

E esse “tudo pronto” era a dacha.

Essa dacha é um assunto especial.

Há um terreno de seiscentos metros quadrados em uma cooperativa de dachas perto da nossa cidade.

A casinha é de troncos, pequena, mas firme: dois quartos e uma varanda.

Uma estufa, canteiros, macieiras, groselheiras.

Uma boa dacha, bem cuidada.

Toda a família de Dima considerava aquela dacha “a sua dacha de família”.

Larisa mandava ali como se fosse em sua própria casa: era ela quem distribuía os canteiros, mudava os móveis da casinha e decidia quem dormiria em qual quarto quando a família toda se reunia.

Todo fim de semana: churrasco.

Todo verão: “encontros de família”.

Larisa na cabeceira da mesa, com brindes “à nossa família, à nossa casa”.

Eu era admitida naquela dacha como criada.

Chegava: lave o chão, descasque as batatas, lave a louça, arranque o mato dos canteiros.

“Você é jovem, não é difícil para você”.

E Larisa “comandava o processo” da espreguiçadeira.

Eu aguentei isso por doze anos.

Porque Dima pedia: “Natasha, não brigue com a Larka, ela é assim, não dá para mudá-la.

Tenha paciência”.

Eu tinha paciência.

Até aquele verão.

E agora vem a parte mais interessante.

Sobre a quem aquela dacha realmente pertencia.

Essa dacha nunca pertenceu à família de Dima.

Nunca.

Nem por um único dia.

Essa dacha pertencia à minha avó.

À minha.

Praskovia Stepanovna.

Agora vou explicar como isso aconteceu, porque é importante.

Quando Dima e eu nos casamos, não tínhamos nossa própria casa.

Morávamos de aluguel.

Minha avó, mãe da minha mãe, morava sozinha em seu apartamento na cidade, e a dacha dela era justamente essa, na cooperativa.

Minha avó amava a dacha, mas, na idade dela, já tinha mais de setenta anos na época, não conseguia mais ir até lá.

Era pesado demais.

Então, doze anos atrás, quando nós tínhamos acabado de nos casar, minha avó disse: “Natashenka, vão você e Dima para a minha dacha, usem, cuidem dela.

Vou ficar feliz sabendo que ela não vai ficar tomada pelo mato”.

Começamos a ir.

E como Dima é um homem de família, levou para lá todos os parentes dele.

A mãe, a irmã.

E de algum modo, aos poucos, quase sem ninguém perceber, em doze anos aquela dacha, na cabeça de Larisa, transformou-se na “nossa dacha de família dos Kuznetsov”.

Embora Kuznetsov seja o sobrenome de Dima.

E a dacha pertencia à minha avó, Praskovia Stepanovna Kovaleva.

Larisa, é claro, sabia disso.

No começo.

Mas em doze anos, ou esqueceu, ou fingiu que esqueceu.

E se comportava como se a dacha fosse o ninho ancestral da família dela.

“Nós aqui há vinte anos…” embora que vinte anos nada, doze no máximo, e mesmo assim não “nós”, mas eu e Dima, graças à bondade da minha avó.

Minha avó, Praskovia Stepanovna, morreu nesta primavera.

Em silêncio, enquanto dormia, aos oitenta e dois anos.

Eu a amava muito: na prática, foi ela quem me criou, porque minha mãe trabalhava muito.

Até hoje, às vezes, ainda choro por ela.

Depois da morte da minha avó, abriu-se a sucessão.

E veio à tona um detalhe interessante.

Minha avó havia deixado um testamento.

Tinha feito isso cinco anos antes, sem contar a ninguém.

E, pelo testamento, tanto o apartamento quanto a dacha passavam para mim.

Somente para mim.

Não para minha mãe, que, aliás, não ficou ofendida, porque tem sua própria casa e ela mesma disse: “Natasha, sua avó amava você mais do que todos, e está certo assim, você ia vê-la toda semana”.

Não para outros netos.

Para mim.

Eu entrei na herança.

Passaram-se seis meses, regularizei todos os documentos.

Por enquanto, alugo o apartamento da minha avó.

E a dacha agora é completamente, cem por cento, minha.

De Natália.

Nos documentos, a proprietária é Kovaleva… ou melhor, não, sou casada, então tenho o sobrenome do meu marido, Kuznetsova, mas continuo sendo eu mesma: Natália.

E esse detalhe, de que a dacha agora pertencia juridicamente apenas a mim, a família de Dima de algum modo ignorou.

Mais precisamente, Larisa ignorou.

Ela continuou se comportando como se nada tivesse mudado.

Como se a avó simplesmente “existisse” antes e agora “não existisse mais”, e a dacha, como era “nossa de família”, assim tivesse continuado.

E esse foi o erro dela.

Voltemos àquele dia quente debaixo da macieira.

Eu estava sentada, descansando.

Larisa me cutucava com a história das batatas.

Dima estava junto à churrasqueira com os espetos.

Minha sogra, Valentina Mikhailovna, separava groselhas em uma tigela.

E então Larisa soltou a frase que foi a gota d’água.

— Natasha, — disse ela, afastando o copo de kvas.

— Estive pensando.

Já que sua velha morreu, que descanse em paz, precisamos passar a dacha para o nome certo.

Do jeito familiar.

Falei com Dimka: vamos registrá-la meio a meio.

Metade para mim, metade para Dimka.

E você é esposa de Dimka, então, de certa forma, também participa.

Por justiça.

Virei-me lentamente para ela.

— Larisa.

Repita, por favor.

Registrar o quê meio a meio?

— A dacha!

Você está surda?

A dacha meio a meio.

Para mim e para Dimka.

Isso é coisa de família!

Eu me mato aqui há vinte anos, esses canteiros são meus, fui eu que coloquei a estufa, fui eu que plantei as groselhas.

Por que motivo tudo deveria ficar só para você?

Você mal chegou aqui.

Olhei para Dima.

Dima estava parado com os espetos e olhando para o chão.

Uma postura conhecida.

Em doze anos, aprendi muito bem a reconhecê-la.

— Dima, — eu disse com calma.

— Você falou sobre isso com Larisa?

— Natasha… bem… Larka sugeriu… eu não é que…

— Ou seja, vocês falaram.

Dima ficou calado.

— Entendi, — eu disse.

Levantei-me.

Fui até minha bolsa de lona, que estava pendurada no portãozinho.

Tirei de lá uma folha dobrada em quatro.

Era uma certidão recente do registro imobiliário: eu a havia recebido uma semana antes, exatamente quando concluí as formalidades da herança.

Não a levava comigo de propósito: simplesmente os documentos da dacha estavam na bolsa, porque eu tinha passado na cooperativa para resolver as contribuições.

Desdobrei a folha.

Olhei para Larisa.

— Larisa.

Você diz que a dacha é de família.

Sua e de Dima, meio a meio.

Entendi corretamente?

— Entendeu! — Larisa já estava ficando vermelha.

— E não tem discussão!

— Muito bem.

Então agora vou ler uma coisa para você.

Ouçam todos, inclusive a senhora, Valentina Mikhailovna.

Minha sogra levantou os olhos das groselhas.

— Certidão do Registro Estatal Único de Imóveis.

Objeto: casa de campo e terreno número quarenta e sete na associação de jardinagem “Beriozka”.

Proprietária: Kuznetsova Natália Sergeevna.

Quota de direito: propriedade exclusiva.

Cem por cento.

Base: certificado de direito à herança por testamento de Kovaleva Praskovia Stepanovna.

Levantei os olhos.

— Kuznetsova Natália Sergeevna sou eu.

Caso alguém tenha esquecido.

Silêncio.

Só a churrasqueira estalava.

— Larisa, — continuei.

— Esta dacha nunca foi a dacha de família de vocês.

Esta dacha pertencia à minha avó, Praskovia Stepanovna.

Doze anos atrás, ela permitiu que eu e Dima a usássemos.

Por bondade.

E vocês todos se convidaram logo atrás.

E, por algum motivo, em doze anos decidiram que isso era o ninho familiar de vocês.

— Mas eu… mas nós… — Larisa ficou sem ar.

— E agora minha avó morreu.

E, pelo testamento dela, a dacha passou para mim.

Só para mim.

É minha propriedade pessoal.

Não de família, não de Dima, não comum: minha.

Entende a diferença?

— Isso… isso é injusto! — Larisa saltou de pé.

A espreguiçadeira rangeu debaixo dela.

— Esta é a nossa dacha!

Nós fazemos churrasco aqui há vinte anos!

Eu plantei os canteiros!

Coloquei a estufa!

— Doze, Larisa.

Doze anos, não vinte.

E a estufa, aliás, foi minha avó quem colocou, antes de você: posso lhe mostrar as fotos, ela está aqui desde dois mil e cinco.

Quanto às groselhas, sim, você plantou mais alguns arbustos.

Obrigada por isso, de verdade.

Mas alguns arbustos de groselha não fazem de você proprietária de seiscentos metros quadrados com uma casa.

Larisa ficou tão vermelha que eu até me preocupei com a pressão dela.

— Você… quem você pensa que é para se imaginar dona daqui?!

Para cima de que propriedade você está abrindo a boca?!

— Para cima da minha, Larisa.

Abri a boca, ou melhor, abri a certidão, sobre a minha própria propriedade.

Sobre a dacha que, segundo os documentos, pertence a mim.

Imagine só, a lei permite isso.

À proprietária é permitido dispor do próprio bem.

— Dimka! — gritou Larisa, virando-se para o irmão.

— Dimka, por que você está calado?!

Diga alguma coisa a ela!

Isso também é seu!

Você é o marido!

Dima pigarreou.

— Natasha.

Bem… de certa forma… somos uma família.

Talvez, realmente… de algum jeito, em família…

Olhei para meu marido por muito tempo.

Muito tempo mesmo.

— Dima.

Agora vou lhe fazer uma pergunta.

Diante de todos.

E responda honestamente.

— Que pergunta?

— Diga.

Quando, no ano retrasado, o carro da sua irmã quebrou e ela precisou de cem mil rublos para o conserto, quem deu o dinheiro?

Não lembra?

Eu lembro para você.

Ninguém.

Nem você, nem sua mãe.

Vocês não tinham.

E quem acabou dando?

Eu dei.

Do meu próprio dinheiro, do meu salário de enfermeira.

Larisa ainda não me devolveu tudo: aliás, restam setenta mil rublos da dívida.

Larisa, você se lembra desses setenta mil?

Larisa se calou de repente.

— Isso… isso é diferente…

— Não é diferente.

É exatamente a mesma coisa.

Quando precisam do meu dinheiro, eu sou “família”.

Quando se fala da minha dacha, eu sou “a mocinha da cidade com mãos delicadas que abriu a boca para o que é dos outros”.

Vocês se acomodaram muito bem, não foi?

— Natasha, por que você está fazendo isso… — murmurou Dima.

— E tem mais, Dima.

Quando, no ano passado, sua mãe, Valentina Mikhailovna, precisou de uma cirurgia nos olhos, quem organizou tudo, quem a colocou na minha clínica por meio de contatos, quem pagou metade?

Eu.

Valentina Mikhailovna, estou dizendo a verdade?

Minha sogra disse baixinho:

— A verdade, Natashenka.

Naquela época, você me ajudou muito.

Eu me lembro.

— Obrigada, Valentina Mikhailovna.

Pelo menos alguém se lembra.

Dobrei a certidão.

Coloquei-a de volta na bolsa.

Tirei o molho de chaves da casinha da dacha: eu o havia pegado da casa enquanto os outros estavam nos canteiros.

Coloquei-o no bolso.

— Agora vamos ao ponto.

Eu não vou passar a dacha para o nome de ninguém.

Nem metade, nem um quarto, nem qualquer outra parte.

Esta é a herança da minha avó, e vou protegê-la como lembrança dela.

Isso é o primeiro.

Larisa abriu a boca.

— Não me interrompa, eu ainda não terminei.

Segundo.

Vocês podem usar a dacha, mas segundo as minhas regras.

Isso significa que vêm quando eu permitir, comportam-se como convidados, não como donos.

Os canteiros: eu mesma vou decidir o que plantar neles.

A casinha: ninguém muda nada de lugar sem meu consentimento.

E o principal: ninguém nunca mais me chama de “mãos delicadas” nem me manda descascar batatas em tom de comando.

Eu venho à MINHA dacha para descansar.

Se eu quiser descascar batatas, descasco.

Se não quiser, não descasco.

Está claro?

— Como você se atreve… — começou Larisa.

— Larisa.

Terceiro.

Se minhas regras não lhe agradam, você não vem mais a esta dacha.

Nunca mais.

Você tem seu apartamento: descanse lá, plante groselhas na varanda, faça churrasco na frigideira.

Aqui se vem por convite e segundo as regras.

Da dona.

Ou seja, as minhas.

Virei-me para meu marido.

— Dima.

E para você, separadamente.

Eu amo você, estamos juntos há doze anos, temos um filho.

Mas lembre-se de uma coisa.

Hoje, diante da sua irmã, na minha dacha, que recebi da minha avó, que eu enterrei e por quem ainda choro, você sugeriu “registrar meio a meio”.

Você apoiou sua irmã contra sua esposa.

Eu perdoo isso agora.

Uma vez.

Mas se você ficar mais uma vez do lado de Larisa contra mim, vou começar a pensar se preciso mesmo de um marido para quem a irmã vale mais do que a esposa e o filho.

Pense nisso.

Dima empalideceu.

— Natasha… desculpe… eu fui idiota… Larka me influenciou, eu não pensei…

— “Larka me influenciou”.

Dima, você tem quarenta anos.

Sua irmã ainda o influencia como se você tivesse cinco.

Talvez já esteja na hora de pensar por conta própria.

Naquele dia, Larisa foi embora.

Da dacha.

Fazendo barulho.

Juntou seus chinelos, seu vestido de verão, sua mágoa e foi para a estação sem esperar o churrasco.

Gritava algo sobre “vocês ainda vão se arrepender”, “isso que é família”, “beberam meu sangue”.

Eu não corri atrás dela.

Servi-me de kvas da garrafa, sentei-me debaixo da macieira, naquela mesma espreguiçadeira onde Larisa costumava bancar a senhora, e pela primeira vez em doze anos me senti naquela dacha como dona.

Não como criada.

Como dona.

Minha sogra, Valentina Mikhailovna, sentou-se ao meu lado.

Ficou calada por um tempo.

Depois disse baixinho:

— Natashenka.

Perdoe Lariska.

Ela… ela é apenas infeliz.

Divorciou-se, os filhos foram embora, está sozinha.

Então se agarra a tudo, manda em tudo, para sentir que pelo menos em algum lugar é a principal.

— Valentina Mikhailovna, — eu disse.

— Eu não a estou expulsando.

Eu apenas a coloquei no lugar dela.

Ser infeliz não é diagnóstico nem indulgência.

Eu também nem sempre sou feliz.

Mas não tomo a propriedade dos outros nem os humilho por doze anos seguidos.

— Isso é verdade, — suspirou minha sogra.

— Você tem razão, Natashenka.

Fiquei calada por doze anos, vendo como ela tratava você… e eu sentia pena de você.

Só que eu… eu mesma tenho um pouco de medo dela.

Ela também grita comigo.

— Então, Valentina Mikhailovna, vamos corrigir isso também.

A senhora é minha sogra, eu a respeito, é uma boa pessoa.

Se quiser, venha à minha dacha a qualquer momento.

A senhora, pessoalmente, será sempre bem-vinda.

E também vou protegê-la de Larisa, se for preciso.

Chega de ter medo dela.

Minha sogra chorou.

Baixinho.

E me abraçou.

Pela primeira vez em doze anos.

Depois, Dima conversou comigo por muito tempo.

Já em casa, naquela noite.

Pediu desculpas.

Eu lhe expliquei tudo, com calma, ponto por ponto.

Que eu não era contra a família dele.

Que eu amava ele e gostava de Valentina Mikhailovna.

Mas que durante doze anos aguentei o papel de empregada, e não aguentaria mais.

Que agora eu tinha algo meu: o apartamento da minha avó, a dacha da minha avó.

E aquilo era meu, e ninguém tiraria de mim nem “em família”, nem “por justiça”, nem “porque Larka decidiu assim”.

Dima entendeu.

Não imediatamente, porque meu marido é meio duro de entender, mas entendeu.

E, surpreendentemente, depois disso amadureceu um pouco.

Passou a correr menos para a irmã “pedir conselho”.

Passou a se consultar mais comigo.

Uma vez, até disse a Larisa pelo telefone: “Laris, essa é uma questão da minha família, eu e Natasha vamos decidir sozinhos”.

Quase caí da cadeira quando ouvi.

Em doze anos, foi a primeira vez.

Passou-se um ano.

Larisa ficou de cara fechada conosco por uns três meses.

Não ligava, não vinha.

Depois ligou por conta própria.

Seca.

“Posso ir à dacha no sábado para colher groselhas?

Afinal, elas são minhas”.

Eu respondi: “Larisa, venha.

Colha as groselhas, não me importo, sirva-se.

Mas não mande na casinha e não grite comigo.

Combinado?”.

Ela ficou em silêncio e disse: “Combinado”.

Veio.

Colheu as groselhas.

Comportou-se com calma.

Calma de um jeito incomum.

Até disse obrigada quando foi embora.

Eu ainda lhe dei um pote de geleia de framboesa para levar, feita pela receita da minha avó.

Larisa pegou, olhou para mim de um jeito estranho e disse: “Obrigada, Natasha”.

Sem veneno.

Pela primeira vez sem veneno em treze anos.

Aliás, os setenta mil ela me devolveu seis meses depois.

Por conta própria.

Em parcelas, mas devolveu.

Eu não pedi: ela mesma fez isso.

Pelo visto, depois daquele episódio na dacha, algo estalou na cabeça dela.

Ela entendeu que a mordomia tinha acabado, e que eu não era “a mocinha da cidade com mãos delicadas que veio se aproveitar de tudo pronto”, mas uma pessoa que conhece o que é seu e sabe defendê-lo.

Arrumei a dacha do meu jeito.

Plantei os floxes preferidos da minha avó ao longo do caminho.

Pendurei na varanda uma foto antiga da minha avó, em que ela aparece jovem, de lenço na cabeça, perto daquela mesma macieira.

Artiom, meu filho, agora vai comigo para lá.

Nós dois arrancamos o mato dos canteiros, colhemos framboesas e, à noite, tomamos chá na varanda.

Ele conheceu a bisavó Praskovia quando era pequeno, mas se lembra dela.

“Mãe, esta é a dacha da bisa?”, pergunta.

“Agora é nossa, meu filho”, respondo.

“A bisa nos deixou esta dacha.

Vamos cuidar dela”.

E vamos cuidar.

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