Quando o meu filho beijou a irmã da mulher falecida ao lado do caixão azul, a rosa branca caiu-me da mão.
Alguém na igreja soltou uma exclamação. As mulheres sentadas na última fila trocaram olhares. E eu estava junto ao primeiro banco, sem conseguir perceber se a dor me estava a tirar o discernimento ou se aquilo estava realmente a acontecer diante dos meus olhos.
Tínhamos perdido a Leonor apenas três dias antes.

Agora, ao lado do grande retrato dela, estava a irmã — com o mesmo cabelo comprido, os mesmos olhos, um elegante vestido azul-claro.
E o meu filho segurava-lhe o rosto com as duas mãos.
— Duarte…
A minha voz mal se ouviu.
Ele afastou-se da rapariga e olhou para mim.
Não havia vergonha naquele olhar. Havia um cansaço que, nos últimos meses, eu aprendera a ignorar.
— Mãe, por favor, agora não digas nada.
Mas eu já caminhava na direção deles.
A Leonor tinha sido minha nora durante seis anos. Era uma rapariga tranquila, demasiado reservada para o meu gosto. Quando alguma coisa a magoava, não discutia, limitava-se a ficar calada. Muitas vezes, eu confundia aquele silêncio com arrogância.
Só tinha visto a irmã, a Noémia, duas vezes.
Sabia que tinha saído da cidade anos antes. A Leonor falava pouco dela, e eu não fazia perguntas. Bastava-me a versão que ouvira: as irmãs tinham-se zangado e a Noémia não mantinha contacto com a família.
Quando a vi à entrada da igreja com aquele vestido, decidi imediatamente que tinha vindo chamar a atenção.
Agora, depois do beijo do meu filho, estava convencida de que havia uma razão ainda mais grave por trás daquilo.
— A tua irmã ainda nem foi sepultada — murmurei-lhe.
A Noémia empalideceu.
Apertava qualquer coisa na palma da mão. Só reparei na ponta dobrada de uma folha branca.
O Duarte colocou-se entre nós.
— Vamos sair um instante. Dois minutos.
— Vais dar-me uma explicação aqui.
O meu filho olhou demoradamente para mim e depois disse, baixinho:
— Todas estas pessoas vieram despedir-se da Leonor. Não faças com que se lembrem deste dia por outra coisa.
Aquela frase fez-me parar.
Segui-os até uma pequena sala lateral da igreja.
Assim que a porta se fechou, a Noémia sentou-se numa cadeira. As mãos tremiam-lhe tanto que a folha caiu no chão.
Inclinei-me para a apanhar.
Era a letra da Leonor.
Reconheci-a imediatamente. Escrevia sempre com letras pequenas e arredondadas, mesmo no hospital, quando já mal conseguia segurar a caneta.
«Noémia, por favor, veste o vestido azul. Sei que as pessoas vão falar. Deixa-as falar. Não quero voltar a ver-te de preto.»
Olhei para a rapariga.
— O que é isto?
— A carta dela — respondeu a Noémia. — O advogado entregou-ma ontem.
Virei a folha, mas o Duarte estendeu a mão.
— O resto é só para ela, mãe.

Pela primeira vez, o meu filho não me deixou ler uma carta da família.
Aquilo provocou-me uma dor estranha.
— Então explica-me o que eu vi.
A Noémia tapou o rosto com as mãos.
O Duarte encostou-se à parede.
— Beijei-a. Eu sei.
— Sabes o que aquilo pareceu?
— Também sei o que lhe fiz.
A Noémia levantou a cabeça.
— Quando o fez, não era a mim que estava a ver.
Fez-se silêncio na sala.
Voltei a olhar para o vestido. Estava adornado com pequenas flores que reconheci. A Leonor costumava coser flores daquelas antes de adoecer, quando ainda trabalhava no seu pequeno ateliê.
— Ela fez este vestido para ti?
A Noémia assentiu.
— Para o meu casamento. Não cheguei a usá-lo.
Eu não sabia que ela ia casar.
Tal como não sabia que o noivo tinha morrido num acidente de viação um mês antes. Que, nas últimas semanas, as irmãs tinham falado ao telefone todas as noites. Que a Noémia regressara à cidade e, depois de trabalhar durante o dia, passava as noites no hospital.
— Nunca te vi lá — disse eu.
Ela não respondeu.
E o Duarte olhou para a janela.
De repente, lembrei-me das minhas visitas. Ia de manhã, levava sopa, ajeitava a almofada da Leonor, queixava-me da falta de atenção das enfermeiras e voltava para casa. Depois, dizia aos familiares que todo o peso dos cuidados recaía sobre os meus ombros.
— Porque é que ninguém me disse nada?
— A Leonor não queria discutir contigo — respondeu o meu filho.
— Discutir porquê?
Ele virou-se.
— Porque não deixavas a Noémia entrar em nossa casa.
Abri a boca e voltei a fechá-la.
Três anos antes, tinha-me desaparecido dinheiro. Precisamente naquela semana, a Noémia estivera de visita. Eu não tinha provas, mas disse à Leonor que não acreditava em coincidências.
Mais tarde, encontrei o dinheiro no bolso do meu casaco de inverno.
Disse-o à Leonor.
À Noémia, não.
— Expliquei à tua mulher que me tinha enganado.
— E deixaste que ela continuasse a ser tratada como uma ladra?
A Noémia pediu em voz baixa:
— Duarte, chega.
Aquele pedido envergonhou-me mais do que a zanga do meu filho.
Sentei-me na cadeira em frente.
— E o beijo…
O Duarte esfregou demoradamente o rosto com as mãos.
— Ela virou-se junto ao caixão. Com aquele vestido… Por um segundo, pensei…
Não terminou a frase.
Há três dias que o meu filho quase não dormia. Tinha trazido do hospital a mala da mulher e continuava a guardá-la no carro, porque não conseguia levá-la para casa. Na noite anterior, ouvira-o preparar duas chávenas de chá na cozinha e, depois, despejar uma delas no lava-loiça.
Mas nada daquilo diminuía a dor da Noémia.
— Desculpa-me — disse ele, olhando para a rapariga. — Não tinha esse direito.
A Noémia limpou as faces.
— Não posso ficar no lugar dela.
— Eu sei.
— Então não voltes a olhar para mim dessa maneira.
O meu filho assentiu.
Naquela conversa não havia nenhum romance secreto. Havia duas pessoas destroçadas: uma tentara, por um instante, recuperar o impossível, e a outra fora obrigada a proteger-se.
Antes de regressarmos à igreja, pedi à Noémia que ficasse mais um minuto.
Ela parou junto à porta, preparada para ouvir outra acusação.
— Fui eu que guardei o dinheiro noutro sítio — disse-lhe.
Olhou demoradamente para mim.
— Eu sei. A Leonor contou-me.
Aquilo era ainda pior.
Durante anos, ela soubera a verdade e esperara que eu própria lha dissesse.
— Devia ter-te telefonado.
— Sim.
Pedi desculpa. Sem explicar por que motivo tinha desconfiado dela, sem mencionar a minha idade nem a minha preocupação.
A Noémia não disse que me perdoava.
Limitou-se a tirar da minha mão a carta da irmã e saiu.
Depois do funeral, as pessoas continuavam a falar do beijo em surdina. Também me fizeram perguntas.
Pela primeira vez, não tentei contar uma história interessante.

— O meu filho errou e pediu desculpa — respondi. — O resto faz parte da dor deles.
Uma semana depois, fui ao ateliê da Leonor arrumar as suas coisas.
Na gaveta da mesa estavam três flores azuis por terminar, uma agulha e uma folha com as medidas da Noémia.
Levei-lhe tudo.
Ela ficou surpreendida quando abriu a porta.
— Pensei que talvez quisesses guardar isto.
A Noémia pegou na caixa. Depois, afastou-se um pouco da entrada.
— Quer tomar um chá?
Entrei.
Desta vez, tinha decidido ouvir primeiro.







